Eu: Tu tá precisando de vodca. – ele me olhou e sorriu.
Nick: Eu acho que tu tá certa.
Depois de pegarmos os ingressos, fomos até a fila para entrar. Dudu e os amigos estavam mais atrás fazendo barulho. Ainda não ia com a cara daqueles amigos dele, mas não havia nada que eu pudesse fazer.
Nick estava tentando ligar pro Kurt, mas dava fora de área o que fazia ele reclamar a cada cinco segundos.
Eu: Para de reclamar, porra. A gente já tá entrando.
Nick: Eu preciso beber, Madu. Urgentemente. Toda essa gente bêbada do meu lado, falando alto me irrita.
Eu: Espera cinco minutos de bico fechado e eu juro que estaremos com copos na mão. OK?
Nick: Tá. – ele olhou pra frente desapontado.
Ele tava mesmo de mau humor e ficou de cara emburrada até entrarmos, pelo menos tinha parado de falar e reclamar. 
O lugar tinha muito mais gente do que espaço, o que fazia eu me sentir uma sardinha enlatada. Nick começou a reclamar de novo, só que dessa vez berrando pra que todo mundo ouvisse. 
Nick: EU QUERO FICAR BÊBADO, EU QUERO FICAR BÊBADO.
Antes que eu o atacasse, vi um casal se pegando mais pro lado. Me esmaguei até lá, peguei a garrafa de cerveja que o cara estava segurando e coloquei na mão de Nick. 
Ele me olhou e bebeu tudo em segundos.
Nick: Ainda não to bêbado.
Eu: Puta que pariu, Garoto Loiro.
Pensei realmente em sair correndo e deixar ele ali sozinho, mas quando olhei pra cima, consegui enxergar o palco. Não tinha ninguém lá em cima ainda. A música que tocava, vinha dos auto-falantes por todo o lado. Tentei olhar pro teto mas não consegui, parecia que não tinha telhado, apenas luzes de várias cores e uma fumaça com cheiro estranho.
Cutuquei o cara mais tranquilo que eu vi com uma garrafa na mão, nem deu pra ver o que era, mas obviamente álcool e era o que eu precisava pra deixar Nick bêbado e menos chato.
Eu: Onde tu comprou? – apontei pra mão dele.
Cara: Tem um cara vendendo pra lá. – ele apontou pra perto de uma escada, onde se via a maior quantidade de gente. 
Arrastei Nick comigo. Com dificuldade conseguimos achar o lugar perfeito, onde o palco ficava completamente visível e bem do lado do cara das bebidas. Era meio apertado, mas eu duvidava que tivesse um espaço confortável no meio daquela confusão.
Vi Lipe caminhando com fios nos braços. Abanei e ele fez sinal pra que o seguíssemos. Nick veio atrás de mim, mesmo sem saber do que se tratava. Entramos em um lugar onde tinha muita gente nervosa e outras alucinadas demais pra conseguir se preocupar. Percebi que estávamos em uma espécie de “backstage” onde as bandas se preparavam pra entrar no palco e tocar. E com a quantidade de instrumentos espalhado por ali, eu suponho que umas 10 bandas vão tocar hoje.
Olhei pros lados procurando Kurt e Lola, mas não precisei. Lipe estava apontando pra onde eles estavam e depois sumiu. Sem olhar pra mim ou sequer dizer uma palavra. 
Kurt: Vocês chegaram, finalmente. Daqui a pouco a gente entra.
Lola me cumprimentou de longe, parecia meio nervosa também e mesmo assim bebia grandes goles do copo que segurava. Nick perguntou onde dava pra pegar bebida. As bebidas do “backstage” ficavam numa mini-geladeira que eu ainda não sei o nome e dava pra pegar à vontade. 
Minha vontade era de ficar ali pra sempre, sentada do lado da mini-geladeira, com uma nervosa Lola, um estranho Kurt que estava aquecendo a voz, ou pelo menos é isso que eu espero que ele esteja fazendo e um bem humorado Nick. Bebi o primeiro, segundo, terceiro, quarto copo do que mais tinha na mini-geladeira. Uma bebida verde bem claro. Ia perguntar o nome quando Lipe apareceu e já estava quase na hora deles subirem no palco.
Lola: Se quiserem ver mesmo o show, fica melhor lá no meio de todo o mundo.
Eu assenti.
Nick: Pega o máximo de garrafa que tu conseguir e a gente vai. – ele disse abrindo a mini-geladeira.
Peguei duas garrafas e já foi difícil sair de lá, Nick pegou várias. Descemos e conseguimos ficar bem de frente ao palco, completamente esmagados, mas conseguíamos ver os três tocando. Não reconheci a música e ninguém a minha volta estava cantando, então deve ser uma música deles mesmo.
O show deles não durou muito. Kurt falou algumas coisas entre uma música e outra, as pessoas riram, umas meninas do meu lado se derreteram e começaram a gritar enlouquecidamente. Curti muito o show deles, mas ficou melhor quando eu conseguia me mexer longe do palco.
Kurt: E aí, gostaram? – perguntou quando conseguíamos ouvir um ao outro.
Nick: Nada mal. – deu de ombros abrindo a décima quinta garrafa.
Eu: Foi muito bom.
Kurt: Valeu, Madu. – ele deu ênfase no meu nome e me abraçou.
Não entendi o porque, mas retribuí. Quando me soltou, sorriu daquele jeito e eu achei melhor cortar o entusiasmo dele antes que ficasse incontrolável. Saí de perto e tentei ficar do lado de Nick e o mais longe possível de Kurt. 
Ele deve ter entendido e me puxou pra longe de todo o mundo.
Kurt: O que houve?
Eu: Nada. – dei de ombros.
Kurt: Tu tá me evitando, eu quero saber o porquê.
Eu: Por que tu me abraçou pra começar?
Kurt: Sei lá – ele riu e continuou bebendo a cerveja dele.
Eu: “Sei lá” não é resposta.
Kurt: Talvez eu queira ficar contigo de novo, qual o problema?
Eu: Não acho que a gente deva fazer isso.
Kurt: Por quê?
Eu: Não quero que se torne um hábito. Aconteceu aquela vez, não quer dizer que pode acontecer de novo.
Kurt: Quer dizer que tu não gostaria disso? – ele cochichou no meu ouvido e mordeu de leve meu pescoço.
Fechei os olhos por alguns segundos, mas o empurrei logo depois.
Eu: Não vai rolar.
Voltei pro lugar de antes onde estavam todo mundo. Kurt não voltou comigo, ficou por aquele lado mesmo. 
Eu: Onde que tá o Nick?
Lola: Lá. – olhei pro lado que ela apontava e me arrependi na mesma hora.
Nick estava com uma garota escorada na parede, se pegando de um jeito nojento de se ver.
Eu: Eu não precisava ver isso.
Franzi a testa e decidi fazer o que todo mundo a minha volta estava fazendo: dançar, sem desgrudar do meu copo com bebida verde que eu ainda não sabia o nome.
-
Cantei as músicas mesmo não conhecendo, dancei com umas meninas que não conhecia, pulei demais e não consegui parar de dançar. Como se meu corpo dependesse disso pra continuar funcionando. Estava me sentindo muito quente, suando tanto que sentia as gotas escorrendo pelo meu rosto. Parecia que um dragão desceu do céu, parou ao meu lado e jogou fogo em mim.
Com o desespero, deixei cair o copo e comecei a passar  mal, me sentindo tonta e perdida. Olhei pros lados, mas não via ninguém familiar. Tentei sair de lá o mais rápido possível, mas aquele lugar parecia um labirinto, empurrava as pessoas da minha frente sem pedir desculpas, eu só queria sair de lá pra conseguir respirar.
Ouvi uma voz muito próxima a mim, achei que estivesse falando comigo, mas eu não conseguia entender o que com tanto barulho.
Eu: TO PASSANDO MAL! – gritei arriscando acreditar que alguém realmente estava querendo me ajudar. 
Tava muito mole pra entender o que estava acontecendo comigo. Quando me dei conta, estava no banheiro, com o rosto dentro do vaso e colocando tudo pra fora. Tinha alguém me segurando, sem olhar nem perguntar quem era, agradeci nos segundos que entendi tudo. Não demorou muito pra eu me sentir melhor. Ainda sentia o cheiro horrível de nicotina no ar e sentia o gosto forte da bebida verde na minha boca. Falando nisso…
Eu: Que porra era aquela? – disse, enquanto lavava o rosto e prendia meu cabelo novamente.
- Tu não sabe o que bebeu? – ouvi uma voz feminina do meu lado e me virei.
Era uma mulher que parecia bem mais velha que eu, tinha várias tatuagens e o cabelo bem curto. Com um sorriso caridoso, olhava pra mim.
Eu: Era uma coisa verde e forte pra caralho, mas não sei o que era exatamente.
Mulher: Quais foram os efeitos? – ela me ofereceu o copo dela. Bebi pra tirar o gosto. 
No copo tinha cerveja, que depois da porra verde, parecia água de tão fraco.
Eu: Sei lá. Bebi uma dose e o efeito foi rápido, me animei na mesma hora, bebi mais umas doses e dancei muito. Entrei numa brisa de dragão também.
Ela sorriu vendo minha cara de bêbada perdida.
Mulher: Acho que tu encontrou com a fada verde. 
Eu: Quê?
Mulher: Vou voltar pra festa. Tu tá bem, não é?
Eu: To sim. Muito obrigada, acho que eu teria desmaiado no meio de tanta gente.
Mulher: Tudo bem. Eu trabalho aqui, não seria muito bom alguém desmaiado.
Sorri e ela saiu.  Bebi o resto da cerveja que ela deixou comigo, toquei mais um pouco de água na cara e saí. Tava disposta a procurar qualquer um pra ir pra casa, até mesmo Kurt, mas ainda sentia meu corpo muito mole, por isso não consegui sair da área dos banheiros. Era horrível, as pessoas não conseguiam esperar até entrar, vomitavam ali na porta mesmo.
Me escorei na parede e lembrei que tinha um celular, pra variar. Liguei pro Nick, mas como previ, ele não atendeu. Não tinha certeza se ele também bebeu a porra verde, mas espero que não. Porque ele bebeu muito mais que eu pra ficar bêbado mais rápido e como estou passando mal com o pouco que bebi, imagino ele. 
Continuei escorada esperando algum herói de capa vermelha, me levar voando até uma cama bem macia, foi quando vi Lipe passar. Olhei uma primeira, segunda e na terceira tive certeza de que não era miragem. Caminhei até ele e quando me viu, saiu andando como se fugisse de alguma coisa.
Eu: LIPE! – ele continuou caminhando rápido no meio das pessoas e eu seguindo o rastro dele. Até conseguir pegar em seu braço. – qual é? Tá fugindo de mim por quê?
Lipe: Tu quer falar comigo pra quê? Pra rir de mim? Não, obrigado!
Eu: Rir de ti? Por que eu faria isso, garoto? Que nóia. – vi que ele segurava um copo e perguntei: - o que tem aí?
Lipe: Vodka e coca-cola. – peguei da mão dele e bebi o resto.
Lipe: Tu não vai me zuar, então? – ele parecia mais tranquilo.
Eu: Não. – respondi confusa.
O arrastei para um canto, onde conseguia brisar sem me desesperar de tanto calor. Tive certeza que a porra verde ainda fazia efeito quando vi um palhaço brilhante no meio da galera. 
Sacudi a cabeça.
Eu: Aquele é o Kurt? – ele virou a cabeça na mesma direção que eu.
Lipe: É.
Kurt estava sentado com duas garotas, cada uma sentada em uma das pernas dele. A loira o beijava e a morena esperava por sua vez, assistindo o beijo dos dois.
Lipe: Não to a fim de ficar olhando.
Eu: Nem eu. Vamo sair daqui? – Ele não respondeu, mas pegou minha mão e começou a empurrar as pessoas a nossa frente. 
Com um pouco de esforço, chegamos ao outro extremo da boate, ou o que fosse aquele lugar. Reconheci como a entrada e estava mais vazio lá. Conseguia até respirar.
Eu: Melhor aqui. – disse, mas continuava agitada querendo fazer alguma coisa.
Olhei pros lados esperando alguma coisa boa acontecer e acabei enxergando Nick falando com uma menina diferente.
Eu: Por que só eu não to me dando bem hoje?
Lipe olhou pra mim e sorriu. Não um sorriso com segundas intenções, apenas um sorriso normal. E foi como se esse sorriso tivesse me acertado como um soco. Não te deu bem, Maria Eduarda? Tem um garoto lindo pra caralho olhando pra ti nesse exato momento e que ainda segurava tua mão, mesmo sem ter o porquê.
Soltei a mão dele e coloquei as duas atrás do seu pescoço. 
Ele entendeu, colocando as mãos na minha cintura. O beijei como se não fizesse isso há muito tempo e era assim mesmo que me sentia. Como se tudo aquilo ali fosse novo e eu ainda tivesse que experimentar tudo.
Nesse momento, todos as bandas já haviam tocado e agora quem coordenava a festa era um DJ, de muito bom gosto, diga-se de passagem. Virei realmente fã do cara quando reconheci as batidas de Baptism do Crystal Castles. Puxei Lipe pra pista na mesma hora. Ele não parecia muito feliz de voltar pro meio da “multidão”, mas eu me sentia muito feliz de repente de poder pular e dar cotovelada em todos, porque nessa altura ninguém se importava mais. Balancei os braços de Lipe como um fantoche, até ele sorrir e ganhar ânimo pra dançar comigo. 
A gente dançava grudado, no mesmo ritmo até a música acabar e começar outra mais animada. Intercalávamos entre beijos e pulos. Lipe conseguiu mais algumas doses de vodka misturada com qualquer coisa. Sempre preferi pura, mas não estava em condições de exigir nada. Até porque, estávamos nos divertindo muito. Lipe parecia estar se divertindo também. Deixou a vergonha de lado por vários momentos, mas de vez em quando ainda me lançava olhares constrangidos e tentados ao mesmo tempo. Eu sorria e o beijava sempre que isso acontecia.
Ouvi um grito de raiva vindo mais a frente da galera dançando, mas não liguei até reconhecer a voz que respondeu: Dudu.
Eu: Ah, não.
Lipe: Que foi?
Corri até lá o mais rápido que pude, mas quando cheguei já era tarde. Dudu estava caído e com um brutamontes em cima dele e ainda o socava. Não parei pra pensar, apenas gritei e pulei nas costas do brutamontes pra que ele o soltasse.
Lipe: MADU, QUE PORRA… – interrompeu o grito no meio e me agarrou por trás pra me tirar da confusão. Ele continuou me segurando e eu continuei gritando até que uns caras maiores, que eu imaginava que fossem seguranças, tiraram o brutamontes de cima de Dudu. Ele levantou com a cara toda deformada e com o nariz sangrando. Lipe me soltou e cheguei mais perto dele, toquei no rosto machucado e o abracei.
Dudu: Madu tá chapada ou o quê? – perguntou com a voz estranha para Lipe.
Segurança: Vão embora, por favor.
Eu: Mas… – disse para o segurança enquanto me desvencilhava de Dudu.
Segurança 2: Vaza, vaza. – disse o segurança dois que ainda segurava o brutamontes. Ele chamou outros caras que nos expulsaram. Foi só quando eu estava na rua que vi Nick ai nosso lado.
Olhei pra cara de perdido dele, para a cara de revoltado de Lipe e a arrebentada de Dudu. Comecei a rir como não fazia há muito tempo. Os três me olharam como se eu tivesse ficado louca, mas logo Nick começou a rir e depois Lipe também entrou na vibe. Os dois se atiraram ao meu lado na calçada. Eu não sabia se Dudu estava rindo junto, porque a cada segundo, o rosto dele ficava mais inchado e menos visível suas expressões.
Depois que paramos de rir e bateu a deprê de não poder voltar, seguimos o caminho a pé. Não sei o que aconteceu com o brutamontes, mas deve ter ido embora enquanto ríamos no chão. 
Eu: Eu preciso ir ao banheiro – deixei claro pra todos não sei porquê.
Nick: Bom saber.
Lipe: Nessa hora não tem ônibus nem metrô pra ir embora.
Nick: Táxi.
Eu: To sem dinheiro.
Nick: Merda. Devia ter tirado dinheiro do banco ontem. – ele falou isso e continuou reclamando nos seguintes minutos, mas como não conseguia ignorá-lo, quando vi, já tinha falado:
Eu: Tu é um riquinho, reclamão e mimado do caralho, Nick. – não falei de um jeito amigável ou do meu jeito sincero-mal-humorado de sempre, falei com agressividade mesmo. E não entendi o porque segundos depois, mas não perdi a pose pelo orgulho.
Nick: Ninguém quer saber o que tua cabeça bêbada pensa, Madu. 
Eu: Eu não to bêbada. 
Nick: Claro que não. – e riu mais um pouco. – quer saber minha opinião, então?
Eu: Claro. – cruzei os braços e parei de andar, o encarando.
Nick: Tu é… – ele parou de andar também e ficou na minha frente, olhando diretamente nos meus olhos. – muito… chata… tipo… pra caralho…
Fiquei esperando alguns segundos por uma continuação e quando percebi que era só isso que ele conseguia dizer, caí na gargalhada. Me escorei nele pra não cair e rir de novo. Nick ficou sério o tempo todo, mas isso só fazia a cara dele ser mais engraçada.
Eu: Nossa, Nick. Não me xinga desse jeito que eu me deprimo. HAHAHAHA.
Nick: Tá aí. Tu é uma deprimida sem motivos. Que exagera com qualquer probleminha que aconteça contigo. 
Eu: Quer mesmo falar em exagero? Quero dizer, grandes problemas tu tem, não é? Tua mãe não dá a atenção que tu queria, porque é só mais um dos CINCO filhos dela, coitadinho do Garoto Loiro. 
Nick: CALA A BOCA.
A gente começou a berrar um com o outro. Coisas sem sentido nenhum. Quando ele já não sabia o que falar, gritou a palavra “enxofre” só pra não perder na discussão.
Eu: TU FALOU ENXOFRE? QUE MERDA ISSO TEM A VER?
Nick: EU NÃO FALEI ENXOFRE, TU QUE DISSE ISSO.
Lipe: Já chega. Vem, Madu. – ele me agarrou por trás, pela segunda vez na mesma noite, e só me largou quando já tínhamos descido a rua, e não conseguíamos ver Dudu nem Nick.
Eu: Eu devia ter ido com meu irmão.
Lipe: Irmão?
Eu: Sim, o garoto com a cara arrebentada é meu irmão.
Lipe: Ah. Então tu não é tão maluca quanto eu achei quando tu pulou nas costas do cara.
Eu: Se eu tivesse normal, não faria isso de jeito nenhum. – mentira.
A gente conversou mais um pouco sobre qualquer coisa até eu parar e perceber que não fazia a menor ideia de onde estávamos. 
Eu: Não sei como ir pra casa.
Lipe: Minha casa fica a três quadras daqui. Se quiser, a gente anda até lá pra passar a noite. Depois tu consegue um táxi. Mas eu juro que é uma proposta inocente, não acha que eu… 
Eu: Tá bom. – ele parecia nervoso em deixar claro que não tinha segundas intenções.
Eu acreditei nele. É difícil de achar um garoto inocente. Que não ajude esperando receber alguma coisa em troca, mas Lipe parecia um cara de boa mesmo. Além de ser amigo de Kurt. Não que seja exemplo pra alguém, mas já comprovei que ele não é nenhum serial killer. Então acho que posso ir pra casa de Lipe sem ter medo.
Caminhamos até lá falando muita merda. Principalmente eu, que ainda suspeitava estar sob o efeito da porra verde. A casa dele era tão parecida com a minha, exteriormente que achei até que estivéssemos na mesma rua. Mas logo que entrei tive a certeza que não estava em casa. Depois que Lipe acendeu a luz, eu consegui reparar nos móveis muito velhos. Não velhos de acabados e usados, mas velhos historicamente.  Parecia uma daquelas casas de época de novela. Fiquei até com medo de deixar alguma coisa cair.
Lipe: Quer comer alguma coisa? Ou… sei lá…. – ele disse fechando a porta e me observando, com uma das mãos na cabeça.
Eu: Acho melhor não. – coloquei a mão no estômago, não estava muito bem.
Lipe: Vamos subir, então? – disse e apontou para a escada.
Subi primeiro e o deixei passar para abrir a porta certa. Lá dentro não havia praticamente nada. Apenas uma mesa com um notebook em cima e uma cadeira do lado, um armário vazio e uma cama com cinco malas sob ela, eu contei.
Lipe: Vou me mudar semana que vem. – ele respondeu a pergunta que nem fiz.
Eu: Por quê? – disse, sentando na cadeira.
Lipe: Tá na hora de sair da casa da minha mãe. Consegui achar um apartamento legal perto da faculdade pra dividir com uns amigos.
Ele sorriu parecendo satisfeito e colocou as cinco malas no chão, perto da porta. Queria acrescentar alguma coisa sobre ele morar com os amigos, que era legal ou qualquer coisa, mas eu gostei de ficar girando na cadeira e achei melhor deixar os comentários pra depois.
Lipe: Tu pode ficar com a cama, eu durmo no sofá lá da sala.
Eu: Nem pensar. A cama é tua, fica de boa aí que eu me viro. 
Ele insistiu dizendo que não se importava, mas parece que essa noite meu orgulho inflou de um jeito impossível de ser vencido. Depois que a discussão acabou, desci até a sala e deitei no sofá. Tirando os tênis primeiro. Dormir de meia-calça era bem desconfortável  mas a preguiça era maior que o desconforto. O sofá era muito fofo e cheiroso.
Cheiroso de verdade. Tinha aquele tipo de cheiro bom que a gente sente, mas não sabe explicar. Tipo cheiro de livro novo, cada vez que trocamos de página, vem aquele aroma que nos deixa anestesiado. Pelo menos é assim comigo, não sei pra você, mas pra mim é perfeito. E se existisse um perfume desse cheiro, eu usaria. 
Perfume com aroma de livro novo, foda.
Lipe: O que tu tá fazendo?
Levei um susto e sentei na hora.
Eu: Teu sofá é cheiroso, sabia?
Lipe: Tem certeza? Várias bundas sentam aí.
Eu ri e sentei mais no canto pra dar espaço a ele. 
Lipe: Gostei muito de curtir contigo hoje, foi divertido. – ele sorria olhando pro chão.
Lipe sentava escorado e com as pernas abertas, como se tivesse confiante, mesmo que os olhos dele me dissessem o contrário. Consegui engolir esse comentário porque sabia que ele ficaria muito mais tímido do que já tá.
Eu: Eu também achei divertido. Quem diria que tu dançasse tão bem.
Lipe: Bem? Bem mal, isso sim. – ele riu, mais descontraído  – só dancei porque tu tava ali comigo, normalmente eu fico só bebendo no canto.
Eu: Se arrependeu?
Ele sacudiu a cabeça negativamente, olhando pra minha boca. Esperei que eu chegasse até mim, mas não mexeu nenhum músculo. Vou ter que tomar a iniciativa de novo? OK, vai. O menino parece ser mais tímido que o Dany.
Fui chegando perto, devagar. Ele engoliu seco e molhou os lábios. O beijei novamente. 
Não precisei tomar uma terceira iniciativa, ele colocou as mãos debaixo da minha camiseta e tirou-a com minha ajuda. Quando fiz menção em fazer a mesma coisa com a dele, travei. Meu estômago revirou.
Lipe: Que foi? – cochichou.
Eu: Onde fica o banheiro? – coloquei a mão na boca. Ele apontou pro corredor mais perto e escuro. 
Estava com tanta pressa que não pensei duas vezes antes de entrar no corredor. Quase bati de cara na porta com a falta de iluminação. Entrei no banheiro e era tão branquinho, bonitinho, cheirosinho. Fui direto pro vaso.
Lipe: Madu, tá tudo bem? – ele perguntou através da porta.
Mesmo sendo óbvio que eu já tive momentos muito melhores em que não estava extraindo minhas tripas pela boca. Nem respondi.
Ele entrou do mesmo jeito pra me ajudar. E o fez segurando meus cabelos. Foi tão fofo que tive vontade de abraçá-lo, mas acho que agora não é a melhor hora.
Depois de dois minutos de angústia e total quebra de clima, lavei meu rosto pela segunda vez com raiva da porra verde.
Lipe: Toma uma ducha aí, as toalhas estão aqui.
Eu: Mas…
Lipe: Madu, tu vai se sentir melhor, vai. 
Assenti e ele sorriu.
Ligou o chuveiro pra deixar na temperatura certa pra mim.
Lipe: Não sei onde tá tua camiseta, mas pega a minha, ó. – tirou a camiseta que estava usando e colocou do lado das toalhas - Qualquer coisa me chama.
Saiu fechando a porta, sem dizer mais nada.
Tá aí a pessoa mais gentil que conheci nessa cidade até agora.
«Capítulo 46                                                                   Capítulo 48»
Logo quando acordei, senti que tinha alguém me abraçando. Fiquei mais alguns minutos naquela posição e depois levantei tentando não acordar Nick. Dei de cara no chão antes de chegar até a porta.
Eu: Merda. – olhei pra trás pra ver no que tropecei. Era um casal dormindo logo do lado da cama.
Cara: Cuida por onde anda, garota.
Nick: Vocês que não deviam estar aqui.
Cara: A gente não achou outro quarto, então foi esse mesmo. 
Ele continuou deitado abraçando a menina. Os dois ficaram se encarando até Nick perder a paciência
Nick: Cara, tá esperando o que pra sair daqui?
Cara: Por que EU tenho que sair? Vocês que deviam sair.
Nick: Esse é MEU quarto, MINHA casa e tu nem foi convidado. Vaza daqui.
Nick levantou e apontou pra fora. O cara ficou pensativo e acabou acreditando, pegou a mina no colo e antes de sair por completo disse:
Cara: Boa sorte pra limpar tudo isso já que a casa é tua. Hahahaha.
Eu: Que babaca.
Nick: Deixa pra lá.
E o pior é que o cara tinha razão, a casa estava arrasada. Quebraram-se algumas coisas que esquecemos de guardar. Além de ter algumas marcas nas paredes e móveis, o que não seria fácil de limpar. Nick surtou.
Lição do dia: nunca pense que uma festa de piscina rola só na área da piscina.
Nick: Puta merda, Madu. Como sou burro.
Eu: Não exagera, Garoto Loiro. Não é tão ruim assim – ele sentou no sofá sujo perto da TV e colocou as mãos no rosto, inconsolável.
Olhei para os lados e achei Kurt deitado no chão perto de uma poltrona. Fui até lá, ele continuava com chantilly na cara, só que agora estava seca o que o fazia bem nojento. Mais nojento do que estar com cheiro de cachaça barata.
Eu: Acorda. – balancei ele, mas não tive resposta. Chutei-o mais algumas vezes e nada, comecei a ficar até preocupada e dei um chute bem forte nas costelas.
Kurt: Porra. – ele sentou rápido olhando para os lados.
Eu: Bom dia pra ti também.
Kurt: O que houve?
Eu: Destruíram a casa.
Kurt: E eu com isso? 
Eu: “E EU COM ISSO”?
Os dois fizeram cara de dor.
Nick: Madu, não grita por favor.
Eu: Foi mau.
Kurt deitou de novo e se virou para voltar a dormir, mas foi interrompido por mais um dos meus queridos chutes.
Kurt: Qual é, Madu?
Eu: Tu não vai ajudar, não?
Kurt: Quando tua família volta, Nick?
Nick: Acho que dia 20.
Kurt: E que dia é hoje?
Nick: Sei lá. 18?
Kurt: Viu? Temos tempo. – ele disse olhando pra mim e voltou a dormir.
Nick: Acho que ele tá certo. Temos tempo, eu arranjo um jeito de limpar tudo rápido. Além do mais, to numa ressaca do caramba.
Eu: Tu que sabe. – dei de ombros, se o próprio Nick não se preocupava, eu que não perderia meu tempo. Foi quando sentei que percebi na minha roupa, alguma coisa tinha acontecido com ela. 
Fiquei me olhando e tentando descobrir o que era aquilo grudado no meu tênis e Nick perguntou: 
Nick: Quer tomar uma banho aqui antes de ir pra casa? Se quiser pode usar o chuveiro da minha tia. Ela deve ter alguma roupa que te sirva.
Assenti e ele me levou até o quarto dela. Era maior que o de Nick e o dobro do meu, havia uns quadros coloridos nas paredes que me deixava tonta só de olhar. Entrei no chuveiro tentando não pensar em nada que me fizesse demorar muito. Me admirei com quantidade de xampu e cremes que tinha naquele banheiro, escolhi o menos chamativo. 
Terminei o banho e me enrolei na toalha, arrependida de não ter escolhido a roupa antes de entrar. No armário da tia de Nick tinha muita coisa, muitas saias, vestidos, blusas, sapatos, chapéus, shorts, mas nada decente. Tudo era muito florido e colorido, exatamente como as paredes e todo o resto naquele quarto. Não conseguia me imaginar usando qualquer coisa ali dentro, preferia usar a mesma roupa suja de ontem.
Resolvi mexer mais um pouco no guarda-roupa da tia tentando não bagunçar nada, estava prestes a desistir quando Nick bateu na porta.
Nick: Ta aí ainda, Madu?
Eu: Sim – chequei se a toalha cobria tudo – pode entrar.
Nick: Não conseguiu achar nada? – ele perguntou me olhando de cima a baixo.
Eu: Tua tia gosta de flores, não é? – tentei perguntar sem ser ingrata, mas ele concordou sem parecer ofendido.
Veio até mim e me ajudou a procurar alguma coisa.
Nick: Que tal essa aqui? – ele indicou uma camiseta amarela fluorescente com uma estampa estranha escrita “I love Boobs”.
Eu: I Love Boobs? Sério?
Nick: Qual o problema? – ele disse rindo – minha tia usava ela direito. É claro que ela não sabe nada de inglês, mas isso não vem ao caso.
Eu: E tu nunca disse o que significa?
Nick: Por que eu faria isso? Nunca gostei dela e ela me destesta. – ele deu de ombros e voltou a sorrir – de qualquer forma, ela não a usa mais, alguém deve ter traduzido e dito. Hahaha. Olha, esse shorts deve servir em ti também.
Eu fiquei olhando para o shorts.
Nick: Ela não usa mais, nem vai sentir falta. Vai, põe aí.
Eu: OK, agora pode sair.
Nick: De nada. – ele ironizou.
Eu: Muito obrigada, agora vai. – o empurrei até a porta.
A camiseta ficou grande e o shorts maior ainda, mas eu não vou pôr nenhum daqueles vestidos que parecem do hawaii. Tentei arrumar meu cabelo como dava e coloquei o mesmo All Star sujo e velho de sempre. Voltei para sala e Nick ficou me olhando.
Eu: O quê é? – a sensação de estar vestindo uma camiseta dizendo que eu amo “boobs” e um shorts que precisava ser puxado a cada cinco segundos não me deixava de bom humor.
Nick: Parece que serviu bem afinal. Hahahahaha.
Eu: Cala a boca. – ele deitou no sofá ainda dando risada da minha cara mal humorada.
Nick: To com fome.
Eu: …
Nick: Poderia trazer biscoitos pra mim?
Eu: Não.
Ele me olhou com cara de cachorro abandonado e decidi ser legal só dessa vez. Fiz café e servi para nós três. Acordei Kurt do mesmo jeito gentil de antes, mas ele aceitou dessa vez quando viu o que eu trazia nas mãos.
Nick: Tu é demais, Madu.
Eu: Eu sei. – disse entregando os biscoitos que ele tanto queria.
Enquanto bebíamos o café, ainda tinha gente saindo da casa. Alguns saíam de mancinho e outros até pediam desculpas a Nick pelo estrago, mas pra ele não fazia diferença nenhuma já que era óbvio que ninguém ficaria pra ajudar.
Quando parecia não haver mais ninguém além de nós três na casa, Nick começou a anotar as coisas que sumiram ou as que quebraram, acho que seria fácil pra ele recuperar tudo de volta, tinha bastante dinheiro.
Kurt: To indo pra casa, tenho que descançar bastante pro show de amanhã. – ele se espreguiçou enquanto levantava – aliás, vocês podiam ir, não é?
Eu: Eu quero ir. – ele ergueu as sobrancelhas, surpreso com minha rapidez a aceitar. – eu gosto de ouvir música e quero ver se tu sabe cantar direitinho mesmo ou é só caô. 
Kurt: Tu vai se surpreender. 
Nick: Acho melhor tu não criar muitas expectativas, Madu.
Kurt: Vai te foder.
Eu ria enquanto um baita no outro. 
Nick: AI! Na cabeça não – os dois pararam com as mãos na cabeça, tontos com a ressaca.
Eu: Vocês não sabem beber não?  Tem que encher até exlpodir?
Kurt: Até parece que tu nunca ficou de ressaca.
Eu: Claro que já, mas não sou mulherzinha que nem vocês dois que ficam reclamando de segundo a segundo.
Kurt: Tá bom, mas me explica essa camiseta aí? – Nick começou a rir.
Eu: Ah, cala a boca. – atirei uma almofada dele, ele quer zuar então vamos zuar – tem certeza que quer ir pra casa assim? Acho melhor tu lavar o rosto antes pelo menos. Teu pai vai ficar curioso pra saber pra que tanto chantilly.
Nick: HAHAHAHAHAHAHAHA.
Kurt: Quê?
Kurt foi correndo se olhar no espelho e voltou com a pior cara do mundo.
Kurt: Que merda é essa?
Eu: Tu não lembra? Hahahaha.
Kurt: Lembro de chantilly pra todo lado – disse com os olhos apertados, tentando lembrar – lembro de Lipe sujo também. Lembro de vozes repetindo meu nome e de eu pegando algumas meninas. Só. O que aconteceu?
Expliquei toda a confusão a ele, que só se manifestava com palavrões e expressões de raiva. Eu sabia que ele não estava 100% consciente, estava muito alegre, bem humorado e sorridente. Agora tá todo revoltado sem acreditar no que eu disse. Contei exatamente tudo de que o tinha visto fazer e falar.
Kurt: Não acredito que eu fui capaz de fazer tamanha idiotice. E AINDA POR CIMA NA FRENTE DE TODA A GALERA QUE EU CHAMEI! PUTA QUE PARIU! – ele sentou novamente com as mãos na cabeça, desesperado.
Eu: Talvez eles tenham esquecido tanto quanto tu.
Kurt: É claro que não, uma idiotice dessas ninguém esquece. Vou ser muito zuado. Porra. E TU PARA DE RIR QUE NEM METADE DA FESTA CURTIU, DESMAIOU DE CARA NA PRIVADA ANTES QUE QUALQUER COISA ACONTECESSE.  – ele berrou apontando para Nick, que o fez na mesma hora. Não sei se foi pela cara demoniaca que Kurt fez ou pela vergonha mesmo.
Nick pediu para que eu dissesse tudo sobre ele também, narrei praticamente toda a festa pros dois babacas. Não sei porque tanta curiosidade. Quando isso acontece comigo, eu prefiro não ficar sabendo de nada do que disse ou fiz. Acho que é pro bem da minha própria auto-estima.
Nick: Esse Lipe deve ser muito gente boa pra fazer isso por nada em troca. – ele disse desconfiado.
Kurt: Ele não fez isso por ti, idiota. Fez porque queria pegar a Madu. Lipe é quietão na dele, não se mete muito na vida dos outros. Só fez isso porque uma guria pediu.
Nick: Verdade, Madu?
Eu: Como vou saber? O Kurt é quem o conhece melhor.
Kurt: E vocês ficaram?
Eu: Não.
Kurt: Por quê?
Eu: O guri tava tão bêbado que nem conseguia ficar em pé, ficava balançando como uma gelatina.
Kurt: Hahaha.
Nick: Mas se ele não tivesse, tu ficaria?
Eu: Acho que sim.
Kurt: Sério? Se ele te ouvisse agora, ficaria tão envergonhado que não teria coragem de te olhar de novo.
Eu: Acho que ele já sabe, quero dizer, se ele não tiver esquecido tudo como vocês.
Kurt: Quero só ver a cara dele no show. – ele sorriu.
Nick ficou indiferente com o rumo da nossa conversa, permaneceu olhando pra TV. Decidi ir embora e deixá-los ali reclamando da ressaca compartilhada.
Não precisei andar muito até chegar em casa, o que foi um alívio porque eu ainda me sentia mal com aquele shorts e quando entrei, levei um susto do meu pai que estava sentado na minha poltrona, me encarando enquanto eu trancava a porta.
Pai: Boa tarde. – ele disse bem humorado.
Eu: Boa tarde. – repondi do mesmo jeito, com uma pontinha de sarcasmo.
Pai: Tentei te ligar, mas tava fora de área.
Eu: Meu celular estragou.
Pai: Era novo, Maria Eduarda.
Eu: Ganhei quando fiz doze anos.
Pai: Tanto faz… Tá tudo bem contigo?
Olhei para os lados, mas aparentemente ele estava mesmo falando comigo. Deixei a ironia pra lá e perguntei logo.
Eu: O que tu quer?
Pai: Sem papo então, melhor assim. Vou precisar da tua ajuda. – ele se aconchegou na poltrona, mais confortável agora que não precisava fingir simpatia. – Vamos receber um sobrinho meu aqui em casa. Ele vai morar conosco por alguns meses e eu disse que você o ajudaria.
Eu: Ajudaria no quê?
Pai: No serviço, ele tá vindo trabalhar.
Eu: Mas o que ele faz? – perguntei com mais interesse dessa vez.
Pai: Isso não é importante, o rapaz vai vir morar aqui e tu será a assistente dele no que quer que seja. E eu não quero ouvir reclamações da tua atitude, entendeu Maria Eduarda? – ele fez aquela cara de pai exigente que ele sabia fazer muito bem quando era do próprio interesse.  Pena que já não funcionava comigo há muito tempo.
Eu: Eu preciso saber no que eu vou ajudar.
Pai: Ele vem terça-feira e é melhor ser gentil. – ele se levantou ignorando totalmente a minha pergunta.
Eu: Espera aí. O que ele faz? O que eu vou fazer? Onde? Por quanto tempo? – tentei arrancar alguma resposta enquanto ele saía de casa.
Vou ter que ajudar um primo que eu vi uma vez na vida a fazer alguma coisa, beleza. Mas é possível que depois do “primo” me conhecer  mude de ideia, não sou boa em quase nada e também não vou ter paciência se ele vier mandando muito em mim, não faço nada e foda-se. É claro que se isso acontecer , meu pai enche meu saco de um jeito épico, mas já to acostumada. Mas de uma coisa ele tem razão: preciso arranjar um emprego e se não for com esse primo, vai ser em qualquer lugar em que eu seja útil, posso até pegar o lugar da Gretchen permanentemente, até que eu descubra um super talento que não se manisfestou até hoje.
No mesmo segundo em que me deitei, Dudu batia na minha porta.
Dudu: Madu, posso falar contigo?
Eu: Não.
Dudu: Qual é…
Eu: Não to a fim de te ouvir.
Dudu: MADU! DEIXA EU ENTRAR!
Eu: VAZA.
Eu berrei de um jeito que nem sabia que conseguia, mas não adiantou nada. Ele continuou a bater e bater.
Dudu: Vim pedir desculpas. – levantei, abri a porta e fiz questão de fazer a pior cara possível.
Dudu: Posso entrar?
Eu: Não.
Dudu: Argh, tá bom. – ele respirou fundo – foi mau por tudo aquilo na festa ontem. Não devia ter te ignorado, não devia ter te chamado de doida e muito menos ter deixado que tu saísse correndo sem antes saber se tu tava bem. Sou um idiota.
Eu: Ainda bem que tu sabe.
Dudu: Não vai mais acontecer e…
Eu: Foda-se Dudu – falei quando percebi que estava cansada de ouvir as desculpas ensaiadas dele – se eu tinha esperança que tu mudasse? Sim, eu tinha. Mas se tu quer continuar sendo o idiota de sempre, azar é o teu. Por mim foda-se, de verdade.
Dudu: Mas… – ele me olhou espantado e cortei o papo dele novamente.
Eu: Para de prometer e começa a cumprir. Às vezes acho que tu não tá querendo me enganar ou enganar os teus “amigos”, tu tá enganando a si mesmo. Seja quem tu é, idiota ou não. Mas não fica prometendo o que tu não pode e nem quer cumprir, uma hora ninguém mais vai acreditar em uma palavra que sai da tua boca.
Falei com toda serenidade e cansaço do mundo. A raiva que eu sentia antes passou completamente ao ver que ele tá tão cansado de pedir desculpas quanto eu de ouví-las, ele não estava sendo sincero. A verdade é que ele é assim e talvez seja pra sempre, mas não importa quantas brigas a gente tiver, eu vou continuar amando ele e acho que sou tão babaca quanto ele por isso.
Enquanto eu esperava uma resposta, ele não manifestava um mísero som então bufei e bati a porta na cara dele. Voltei para minha cama que estava mais interessante que a expressão tosca do Dudu.
Dudu: SABE DO QUE MAIS, MADU? TU TÁ CERTA! VOU SER E FAZER O QUE EU QUISER E FODA-SE O RESTO! FODA-SE TODO MUNDO! FODA-SE TU TAMBÉM! 
Quando ele pareceu ter parado, ouvi mais uns gritos:
Dudu: AH, BONITA BLUSA! HAHAHAHAHA!
Eu: Droga! - cochichei.
Tenho que tirar essa merda, mas não agora. To muito bem assim, sem me mexer. O dia mal começou e já estou cansada mentalmente, encontrei meu pai que me deu uma notícia e eu ainda nem sei se é boa ou não e briguei com o meu irmão. Não foi exatamente uma briga, mas esclareceu algumas coisas na minha cabeça e isso definitivamente não foi bom.
Eu precisava tanto falar com minha mãe, mas não quero ficar pensando nisso. É capaz deu ficar maluca se continuar pensando tanto assim na opinião da minha mãe, tanta saudade assim faz mal.
Acordei com a campainha sendo desesperadamente tocada. Saí correndo, descalça mesmo e reparei que já havia anoitecido quando abri a porta.
Eu: Caralho, quanto tempo passei naquela cama?
Kurt: Não mais que eu, com certeza. Tanto é que esqueci de escolher uma substituta pra Gretchen.
Eu: HEIN?
Ele nem esperou eu convidá-lo, já entrou e sentou no sofá. Tava mais nervoso do que depois deu ter contado toda as merdas que ele tinha feito na festa, mas já havia tomado um banho e agora tava até cheiroso.
Kurt: Liguei pra Lola, mas ela tá ocupada e não sei se ela aceitaria de qualquer jeito. Todas as minas que eu conheço estão em festas, barzinhos ou qualquer porra dessas. Quem não estaria não é? Em uma sábado a noite? Mas tu vai ter que me salvar, Madu! Só me sobrou tu.
Eu: Ah, valeu pela preferência. Explica direito.
Kurt: A Gretchen, garçonete do meu pai, morreu.
Eu: Coitada.
Kurt: Pois é, ela se meteu com um traficante importante lá e se fodeu. Mas esse não é o meu drama o caso é que meu pai me encarregou de achar uma substituta e eu esqueci. COMPLETAMENTE! 
Ele ficou me olhando e eu esperando uma continuação.
Kurt: Aceita?
Eu: Ser garçonete?
Kurt: É, só por esse noite. POR FAVOR! Amanhã eu arranjo outra mina e ela fica definitivamente.
Eu já ia aceitar, mas ele continuou falando e falando. Revirei os olhos e disse mais alto:
Eu: KURT! Eu aceito.
Kurt: Sério? Fácil assim?
Eu: To precisando de grana mesmo.
Dei de ombros e ele sorriu, por que o sorriso dele vem sempre com covinhas? Assim até perco o foco dos meus pensamentos.
Kurt: Madu?
Eu: Eu. - forcei-me a olhar pros olhos dele, o que não acalmou em nada porque percebi que ele olhava pra minha boca.
Caralho.
«Capítulo 43                                                                              Capítulo 45»
Não demorou muito pra que os garotos perceberem que já estava tarde, logo eles entraram no carro rindo e falando alto.
Nick: …e a velha perguntou se eu tava comendo a guria. HAHAHAHA.
Dudu: HAHAHAHAHA. – os dois riam como se fossem ficar sem ar.
Pensei em perguntar o que era tão engraçado, mas a cara do Rafael dizia “nem pergunta”. Resolvi seguir o conselho dele, provavelmente era coisa deles. Rafael nos levou de volta pra casa e disse que voltaria em uma hora pra me levar até a festa.
Entrei correndo e tomei um banho, foi difícil na hora de decidir o que eu usaria, tinha muita roupa no meu armário, algumas eram até novas. Nunca havia usado, mesmo gostando delas. Eu geralmente não penso muito no que vou vestir porque gosto de tudo que tem lá dentro, mas era a primeira festa que eu ia nessa cidade. Não sabia se era diferente ou não.
Por fim olhei no relógio e já havia passado quarenta minutos da hora que o Rafael disse que iria levar pra voltar, decidi vestir a roupa que eu me sentia mais confortável e consequentemente mais confiante. Não tinha tempo nem paciência pra me maquiar demais, foi lápis, rímel, batom e pronto.
Logo depois ouvi a buzina do carro e saí. Ele tava do lado de fora do carro escorado com os braços cruzados. Quando me viu arqueou as sobrancelhas e sorriu.
Eu: Vamos?
Rafael: To esperando os pirralhos.
Eu: Quê?
Ele indicou minha casa, olhei pra trás. Dudu e Nick estavam saindo e batendo a porta.
Rafael chegou mais perto e cochichou:
Rafael: Deixei escapar da festa pro meu irmão, aí tu já viu. Quis vir junto na hora e chamou o teu. – ele deu de ombros.
Só revirei os olhos.
Já tinha ido numa festa com Dudu, uma só e foi o suficiente pra nunca mais querer repetir. Ele é daqueles que bebem um gole de cerveja e já fica falando alto pra caralho, esbarrando nas pessoas e gritando coisas sobre a vida que ninguém quer saber.
No carro Rafael disse que a festa era de graça já que conhecia uns caras.
Nick: Faz tempo que não vou numa festa, a última foi com a Susi.
Rafael: Aquele que…
Nick: Ela mesmo.
Rafael: Ah.
Nick: Será que chamo ela?
Rafael: O QUÊ? Tá maluco?
Nick: Com certeza ela iria.
Rafael: E o que tem?
Nick: Deixa pra lá.
Ficou um clima tenso, Dudu olhou pra mim com cara de “será que falo alguma coisa?” eu balancei negativamente a cabeça.
Rafael: Se quiser chamar ela, chama.
Nick: Jura?
Rafael: Fazer o quê? – deu de ombros e bufou. Parecia que não queria mesmo ter dito isso.
-
Chegamos à festa que já tava rolando, Rafael achou uns amigos logo na entrada e se despediu da gente. Fomos até um canto onde tinha um sofá grande e confortável. Uma das garotas que estavam em pé do lado ficou cuidando Nick desesperadamente, não me surpreenderia se ela tirasse a roupa e gritasse “me pega”. Logo depois eles estavam se agarrando do meu lado, Dudu partiu pra pista dançar e graças aos céus, longe de mim.
Estava curtindo as musicas e enrolando numa garrafa de Smirnoff pra não precisar ir até o outro lado comprar outra. A pegação de Nick e a garota tava esquentando do meu lado e comecei a ficar desconfortável com minha posição. E quando a guria gemeu, definitivamente, saí correndo e fui para o outro lado do salão.
Havia um garoto dançando que me lembrou o Dany, balancei a cabeça tentando não pensar nisso e lembrei que tinha que ligar de volta pra ele antes que eu esquecesse. Com muita dificuldade saí de lá e peguei o celular, ele atendeu na segunda chamada, rindo muito.
Eu: Alô? Dany?
Dany: Maduuu? Tuuudo na boooa?
Ele estava totalmente bêbado e dava pra perceber só na voz.
Eu: Tu tá bêbado Daniel? – ele ria muito e eu comecei a ficar preocupada. – tá tudo bem?
Dany: E tu se importa?
Eu: Claro, que pergunta…
Dany: Acho que não hein? HAHAHAHA.
Eu: Como assim? Do que tu tá falando?
Dany: Faz só uma semana e alguns dias que tu foi embora e parece um ano. Te liguei um monte de vezes hoje, ontem e tu não atendeu. Tava precisando de ti, mas tu tá pouco se fodendo pra gente. – ele ficou alguns segundos em silêncio e voltou a rir, de um jeito forçado.
Eu: Hoje não deu pra atender, Dany, mas ontem? Tu não me ligou ontem.
Ele bufou e gargalhou.
Dany: Não deu pra atender? Faz um favor pra mim e pra todo mundo daqui Madu? Vá se foder. – e desligou.
Fiquei uns minutos olhando pra tela sem saber o que fazer. Liguei pro Luck, Lizy, Tadeu, Nessa e até engoli o orgulho e disquei os números do Rafa. Mas ninguém me atendeu. Que é que eu fiz dessa vez caralho?
Sentei por ali mesmo esperando que alguém me ligasse e dissesse que tudo o que to pensando é besteira, mas não aconteceu. Não tenho culpa de ter que ir embora. Ninguém tá sofrendo mais que eu, que direito eles tem de ficarem bravos comigo? Não querem atender? Que se foda então.
Droga de celular.
Atirei no chão, levantei e pisei nele várias vezes, estava ofegante quando parei. Não sei se estava com mais raiva do Dany por ter desligado o telefone sem me dar a chance de explicar, com o resto da galera por não atender, de mim por estar chorando de novo, do meu pai por me fazer vir até aqui ou da minha mãe que me abandonou sozinha. Tirei as lágrimas do rosto jurando ser a última vez e bebi o resto que tinha dentro da garrafa.
Quando olhei pra frente dei de cara com um cara me olhando, escorado num muro e fumando. Ele me olhava com as sobrancelhas erguidas, provavelmente por eu ter acabado de esmagar meu celular. Nem percebi que havia alguém me encarando. Olhava diretamente nos olhos, sem piscar. O encarei de volta, ficamos assim por trinta segundos, eu contei.
             Até perceber a cena ridícula. Chacoalhei a cabeça e ele apagou o cigarro no muro, sorrindo de lado, depois voltou à festa. Não sabia se meu celular tinha concerto ou não, mas eu guardei no bolso de qualquer jeito.
Volta pra festa também prometendo beber muito e me divertir como se já conhecesse o lugar e as pessoas.
-
Enquanto dançava, encontrei o cara que me encarou, pegando uma garota. Sorri com a rapidez que certas pessoas se entregam, nunca fiz isso, não que eu me lembre. Dany me contou algumas histórias do que eu fiz na noite em que terminei com o Fabrizio, estava completamente inconsciente então nem considero. Seria tão ruim assim fazer de novo? Quem se importa?
-
- Madu? Tá tudo bem?
Escutei alguém gritando do meu lado.
Eu: Tá tudo maravilhoso. – ri mesmo sem saber o porquê nem com quem estava falando.
- Acho melhor eu te levar pra casa.
Eu: Nããããão. To curtindo a festa.
- Tu não tá bem, nem olhar pra mim tu consegue.
Eu: Nem te conheço. HAHAHAHA.
- OK, agora eu tenho certeza que tu não tá bem, vamos.
Alguém com muita força pegou meu braço e me arrastou.
Eu: ME SOLTA!
- TE ACALMA, SOU EU, VELHO!
Olhos muito azuis e arregalados estavam na minha frente, não conseguia enxergar mais nada além deles. Parei de gritar e estapeá-lo, até ajudei a sair de lá.
Ainda não sabia quem era que me segurava com tanta força, mas não tava ligando muito. Entrei no carro e foi só aí que senti o cansaço. Deitei e fechei os olhos, não pra dormir, mas pra descansar.
-
Acordei na minha cama com outra roupa e tapada, sem entender nada. Não lembrava de nada. Levantei rápido e abri a janela, já havia amanhecido. Corri descalça até o quarto do Dudu e bati várias vezes até ele atender com cara de sono.
Dudu: Que é?
Eu: Como eu vim parar em casa?
Dudu: Como que eu vou saber? Quando cheguei, tu já estava aqui.
Agarrei o rosto dele só pra ter certeza de que não tinha olhos azuis.
Dudu: QUE É MADU, PORRA? TÁ DOIDA?
Eu: Queria ter certeza de que tu não tinha olhos azuis. – ele me olhou como se eu tivesse enlouquecido.
Fiquei confusa tentando lembrar do que aconteceu ontem.
«Capítulo 37                                                                                      Capítulo 39» 
Dudu: Achei que fosse ficar trancada no quarto ouvindo Stop Crying Your Heart Out até as aulas começarem.  – ele falou obviamente pra mim, mesmo não tirando os olhos da tela.
Eu: Sairia mais se tivesse alguma coisa pra fazer.
Garoto Loiro: Não conheceu ninguém por aqui ainda?
Eu: Não. Vou pegar refrigerante, querem? – eles aceitaram, servi e entreguei aos dois vidrados na tela da TV. Depois voltei à cozinha e servi pra mim, resolvi pegar alguma coisa pra comer também.
Voltei e sentei na mesma poltrona.
Garoto Loiro: Eu não sou dessa cidade também, sei como é ser novo por aqui. Mudei pra cá quando tinha dez anos. E só consegui amigos no G’s Place.
Eu: G’s Place?
Garoto Loiro: Um lugar aonde vai muita gente nerd e amantes de jogos. É o melhor lugar pra matar tédio na face da Terra. – ele disse com os olhos brilhando.
Eu: Tu ainda frequenta esse lugar?
Garoto Loiro: Sempre quando não tenho o que fazer, sim.
Eu: Legal – continuei comendo o salgadinho imaginando o tal do G’s Place. – onde fica isso?
Ele me olhou e sorriu.
Garoto Loiro: Tu gosta desse tipo de coisa? – ele parecia surpreso.
Eu: Mais ou menos.
Garoto Loiro: Não parece.
Eu: O quê?
Garoto Loiro: Tu não parece ser o tipo de garota que para pra jogar vídeo game. - Olhei desconcertada pra ele. – mas se tu quiser posso te levar lá, já ia mostrar pro Dudu. 
Eu: Quando?
Dudu: Sei lá. Não marcamos uma data ainda. Tá com pressa?
Eu: Eu to trancada nessa casa faz uma semana.
Dudu: Não tá acostumada não é?
Garoto Loiro: Como assim? 
Dudu: A Madu tinha um monte de amigo lá na nossa cidade e mal parava em casa. Tava sempre em uma festa ou outra.
Eu: Para de falar merda Dudu, tu não sabe de nada, pff.
Ele revirou os olhos e o jogo acabou.
Garoto Loiro: Vamos fazer o que agora?
Dudu: Jogar mais?
Garoto Loiro: Não to mais a fim. – ele disse bebendo a Coca-Cola que eu lhe dei e olhou pra mim.
Fiquei meio confusa, mas deixei passar.
Dudu: Que tal a gente ir ao G’s Place agora?
Garoto Loiro: Pode ser, mas eu tenho que passar em casa antes.
A gente não entendeu o porquê, mas como ele insistiu fomos até a casa dele primeiro. A casa era tão grande e impressionante quanto a nossa, mas quando entrei levei um susto muito maior.
Havia brinquedo e criança correndo pela sala inteira, provavelmente pela casa inteira.
Eu: Tua casa é uma creche ou o que, Garoto Loiro?
Garoto Loiro: Do que tu me chamou? – ele disse rindo.
Eu: Desculpa, é que não sei teu nome…
- NIIIIIIIIIIIIIIIIIICK, TU CHEGOU FINALMENTE!
Umas dez crianças correram pra abraçar o Garoto Loiro. Ele caiu e as crianças subiram em cima dele. Parecia que ele tava sendo sufocado, quase fui ajuda-lo até ver que também estava se divertindo. Não sei como, se um monte de criança subisse em cima de mim eu viraria o hulk pra fugir. Pode parecer insensibilidade, mas eu realmente não gosto que criança. A única que eu tive contato mesmo foi o Dudu, mas ele não é tão mais novo que eu então nós crescemos e amadurecemos juntos. Ele também nunca foi muito paciente pra criancice, nisso somos iguais.
Quando as crianças o libertaram, ele levantou rindo e gritando tipo elas.
Nick: Meu nome é Nick, Madu. – ele cochichou no final.
Eu: Pois é. – forcei um sorriso, mesmo estando um pouco assustada.
Ele gargalhou e apontou uma pirralhinha loira que estava parada num canto brincando com uma Barbie.
Nick: Essa é minha irmã, Babi. Ela tá fazendo aniversário hoje, se eu não aparecesse ela ficaria brava. Mas a gente pode ir agora.
- Ir onde?
Nick: Vou apresentar o G’s Place pra eles.
- Eu levo vocês.
Dudu: Não precisa, a gente pode ir…
- Por favor deixa eu levar vocês, não aguento mais ficar aqui ouvindo essas crianças gritar.
Olhei melhor pra ele quando saímos daquele lugar.
Ele era uma versão mais velha de Nick. Os dentes eram tão brancos que ele poderia fazer propaganda de pasta dental. Os olhos eram intensamente azuis como a camiseta de surf que estava usando e nem preciso dizer que o cabelo dele era tão loiro quanto o de Nick e Babi. Não era nem muito malhado, nem muito magro. Era mesmo muito bonito, daqueles que a gente precisa de uns segundos até voltar pra realidade depois de ver. Não pude deixar de sorrir feito uma boba quando ele olhou diretamente pra mim.
- Oi gente, sou o Rafael irmão do Nick – meu sorriso sumiu na hora com o susto do nome. Dudu olhou disfarçadamente pra minha cara, com certeza sabia que eu ficaria desse jeito. Os irmãos sentiram o clima, mesmo sem entender – pode me chamar de Rafa se preferir – ele voltou a sorrir.
Eu: Prefiro Rafael – percebi que fui grossa, mas ele só assentiu e indicou o carro atrás de mim.
Rafael: Levo vocês até lá e já dou uma passada na casa da Mônica,
Nós entramos no carro dele. Os dois eram tão sorridentes e simpáticos que eu cheguei a estranhar. Não que eu não goste de pessoas simpáticas, mas é difícil achar isso hoje em dia. Ainda mais vindo de gente bonita e rica assim. Enquanto eu brisava eles conversavam sobre a família enorme deles…
Rafael: Nossa mãe sempre quis ter uma menina e até conseguir a Babi, pariu mais quatro. – ele gargalhou com a cara que Dudu e eu fizemos. Porra, cinco filhos? Não sei se conseguiria cuidar de um imagine cinco.
Eu: Tu é o mais velho?
Rafael: Quase, sou o segundo mais velho.
Nick: Primeiro vem o Gabriel, depois o Rafa, aí eu, Maurício e Babi. – ele contou nos dedos pra não se perder.
Dudu: Tem um mais novo que tu ainda?
Nick: Sim, ele tem tua idade, Dudu. Não duvido que vocês estudem na mesma sala de aula esse ano. Se tu for pra mesma escola que nós, é claro.
Dudu: Eu não cheguei a perguntar em que escola meu pai nos matriculou, tu perguntou, Madu? 
Eu: Nem pensei em aula ainda. – Rafael riu me olhando pelo espelho retrovisor.
Desviei o olhar rápido pra não parecer que tava cuidando ele. Mas o que há com esses irmãos que ficam me encarando?
Meu celular vibrou e quando eu olhei pra tela e vi “Dany” me assustei. Passei pelo menos uma hora sem pensar neles é um progresso. Ia atender, mas Nick falou “chegamos” e achei melhor retornar depois.
-
Acho que poucas vezes consegui me divertir tanto com tão pouco. Dancei muito naqueles tapetes de dança. Mesmo nunca tendo jogado, derrotei uns garotos que tão sempre lá, o que não foi muito legal no inicio, mas logo eu fiquei a vontade pra zuava com a cara deles. Gostei mesmo daquele lugar, parece que esqueci tudo em que estava pensando antes de entrar ali. 
Quando já tinha jogado de tudo, fui atrás dos garotos. Os encontrei numa nave rindo como uns retardados.
Dudu: Eaí Madu? – ele gritou lá de dentro.
Eu: Vocês…
Dudu: HAHAHAHA. 
Revirei os olhos, esses aí não vão me ouvir nem se eu achar um megafone. Resolvi sair e levei um susto em ver que já havia anoitecido.
Rafael: Cansou?
Ele estava dentro do carro me olhando pela janela.
Eu: Tu tá aí desde…
Rafael: Não, fui à casa da minha namorada e voltei faz alguns minutos. – ele sorriu - Entraí.
Parei pra pensar depois entrei. Que mal tem?
Ele pegou um maço de cigarros e colocou um na boca.
Rafael: Quer? 
Eu: Não, valeu. – ele deu de ombros e pegou o isqueiro. Desses de ferro que acende quando abre a tampa.
Fiquei olhando todos os movimentos dele até ele perceber o que eu fazia.
Rafael: Quantos anos tu tem mesmo Madu?
Eu: Faço 17, mês que vem.
Ele assentiu.
Rafael: Fiquei sabendo que vocês são novos na cidade.
Eu: É.
Rafael: Já foi a alguma festa daqui?
Eu: Não, não fiquei sabendo de nenhuma.
Rafael: Hoje tem uma aqui perto, 
Eu fiquei olhando pra ele, pronta pra ouvir o resto, mas parecia que era só isso. Ele queria que eu pedisse.
Valia a pena?
Só de pensar em voltar pro meu quarto ou de como o pessoal devia estar aproveitando lá sem mim já ficava depressiva de novo, resolvi ser menos orgulhosa só dessa vez e perguntar onde fica.
Eu: Aqui perto onde exatamente?
Ele sorriu maliciosamente e soltou a fumaça na minha cara.
 
«Capítulo 36                                                                               Capítulo 38»
Luck: Vocês tão bem… – não ele não pulou de alegria, ele parecia é decepcionado e não posso negar que eu também fiquei surpresa.
Já falei que em situações extremas eu penso no pior? Pois é. Já estava imaginando eles numa jaula cheia de psicopatas. Mas não, estavam de boa, sentados e conversando. Mais de boa que Luck e eu, que estávamos correndo de um taxista pra salvar eles.
Eu: O que vocês tão fazendo aqui afinal?
Rafa: Longa história Maduzinha… – olhei feio pra ele, mas não consegui sustentar por muito tempo, estava louca pra dar um abraço nele e nunca mais largar, foi o que fiz.
Foi aí que percebi o quanto estava preocupada com esse menino e o quanto estava aliviada por poder estar nos braços dele de novo.
Luck: Podem começar a explicar, não estamos com pressa.
Eles se entreolharam.
Nessa: É que… é segredo.
Luck: SEGREDO O CARALHO! VIEMOS CORRENDO ATÉ AQUI PRA VER COMO ESTAVAM E AGORA VOCÊS DIZEM QUE É SEGREDO? – ele bufou e ficou olhando pra eles.
Rafa: O DANIEL É QUE NÃO DEVIA TER CHAMADO A MADU! É UM IDIOTA MESMO!
Dany: CLARO QUE EU CHAMEI MINHA MELHOR AMIGA, ACHEI QUE FOSSE PARAR EM UMA CELA CHEIA DE ESTUPRADORES E MALUCOS. – deu pra ver que não sou só eu que exagero nas horas de terror.
Lizy: Óbvio que não Dany, somos menores de idade. Não podem nos prender.
- Pois a senhorita está muito enganada. Tenho uma prisão só para adolescentes delinquentes como vocês. – o policial intrometido surgiu do nada.
Dany: Não somos delinquentes, não senhor. – fez aquela cara de anjo que até eu acreditei que ele fosse inocente.
Policial: Claro que é isso que vão falar. Vocês são menores de idade, mas não são burros e sabem muito bem que o que estavam fazendo é errado. São uns marginais sim.
Luck: Pois eu sou maior de idade senhor e digo que esses meninos são do bem.  – ele estufou o peito pra falar isso, como se fosse nosso pai. Me deu até vontade de rir, mas segurei.
Policial: Você é maior de idade e estava pichando com eles?
Luck: Pichando?
Rafa: Não, ele não tem nada a ver com isso!
Policial: É, pichando sim. – ele nem deu atenção pra exclamação do Rafa.
Dany: Não é pichação!
Lizy: É grafite.
Policial: SEM autorização o que da no mesmo.
Eu: Por que vocês estavam pichando? Ficaram doidos?
Policial: E quem é você?
Rafa: Minha namorada que chegou agora, não sabia de nada. – todos assentiram e o policial continuou me avaliando, mas no final só ignorou.
Policial: Preciso dos nomes de vocês – nos olhamos intrigados – preciso avisar seus pais.
Lizy: Ah não!
E assim começa uma longa discussão entre nós e o policial, na real eu não me importava muito se ele chamasse ou não meu pai. Sei que ele não vai se importar, pode até ficar aborrecido por fazê-lo sair de casa essa hora, mas nada que eu não tenha aturado por muitos anos. O único que parecia completamente indiferente era o Rafa, nem perguntei o porque, era meio óbvio que a mãe dele estava viajando de novo.
Policial: JÁ CHEGA! Vocês não tem opção! Vamos, você aí vermelhinha, qual teu nome…?
E assim ele começou com a Nessa e foi até a última da “fila”, eu.
Eu: Nem sabia de nada.
Policial: Não interessa.
Eu: Mas…
Policial: Tu conhece eles, já é o suficiente pra chamar teus pais. Fala logo.
Minha vontade era de pular no pescoço do policial, ainda mais por ele falar no plural “teus pais…”. Ditei logo o número de casa e comecei a esperar a fera.
Algumas horas depois eu já estava quase dormindo no ombro do Rafa, foi quando o Tadeu entrou e ao seu lado um cara grandalhão, com um super bigode. Devia ser o pai deles.
Pai dos Gêmeos: Vamos pra casa Liziane. – a voz dele ecoou e enquanto ele conversava com o policial e saía da delegacia, permaneceu aquele feeling de terror.
Depois, Nessa foi embora com sua mãe tagarela e sobrou só nós quatro. Luck já estava se espreguiçando e se despedindo quando entra meu pai, ainda de pijama e com a cara de quem quer matar alguém.
Ele tava MUITO puto!
Pai: Ah, tu está aí peste! Vamos logo pra casa.
Despedi-me dos outros e cheguei mais perto do meu pai, estava prestes a me desculpar por tê-lo feito acordar no meio da noite, mas ele falou mais rápido que eu:
Pai: Estava sendo bem caridoso contigo. Te dei um mês pra se despedir da tua vida aqui nessa cidade, mas tu não aproveitou. Estamos indo embora semana que vem.
Eu: O QUÊ?
Luck: O SENHOR NÃO PODE FAZER ISSO…!
Os dois começaram a discutir e eu olhei pra expressão de Rafa e Dany, que estavam completamente intrigados. Fiz leitura labial e consegui entender:
Rafa: Que história é essa?
Eu: Desculpa! – cochichei sendo empurrada até o carro por meu pai.
Já no carro meu pai gritava feito doido:
Pai:… ESSE TEU AMIGO TA ACHANDO O QUE? NÃO DEI UM SOCO NA CARA DELE PORQUE…
Eu: Ele só quer que eu fique mais tempo, ou pelo menos o tempo que tu falou que eu ficaria…
Pai: Isso foi antes de tu… o que tu fez afinal?
Eu: Nada.
Pai: NADA? COMO ASSIM NADA? VIM ATÉ AQUI TE BUSCAR E TU FALA “NADA”?
Eu: É a verdade. Eu fui lá só pra ver como eles estavam, não fiz nada.
Pai: Eu não acredito em ti!  - ele disse e começou a rir, que coroa pirado – tu acha que eu sou burro, neh? – sim – É lógico que se o policial me chamou é porque tu tava envolvida com toda essa merda. Nem me interessa o que, já perdi a paciência contigo. A gente vai embora e as coisas vão mudar – mais uma gargalhada – ah, se vão…
Ele continuou falando, mas eu definitivamente não estava a fim de ouvir. Peguei meu fone e fiquei curtindo Blink-182 até chegar em casa e me atirar na cama.
-
Quando acordei a primeira coisa que fiz foi olhar o relógio, eram seis da manhã. Tentei continuar dormindo, mas minha cabeça já estava a mil. Levantei, peguei o meu caderno velho e comecei a escrever. Costumo fazer isso quando minha cabeça está prestes a explodir e precisando esvaziar de algum jeito.
Escrever é uma das minhas maneiras de colocar os pensamentos em ordem.
Esse caderno já é cheio de rabiscos e quando o li percebi que mudei muito de lá pra cá. A gente nunca percebe o quanto mudou até dar de cara com alguém do passado, que te faz pensar em tudo que passou.
Bem, no meu caso o “alguém” é meu caderno. Onde estão todas as minhas aflições, desde os meus treze anos. Achei até algumas fotos coladas, nem me reconheci em algumas…
-
Acordei novamente com o barulho que meu celular fazia, estava deitada em cima do caderno guardei-o num lugar muito seguro e peguei o celular.
20 novas mensagens.
E a última dizia: “Puta que pariu Madu, não responde por quê? TAMO INDO PRAÍ”.
A mensagem havia sido enviada quinze minutos atrás, eles já estavam chegando. Entrei no banho e fiz questão de demorar e pensar bastante, só com a água batendo nas costas.
Rafa: Madu? Cê ta aí? – saí rápido e dei de cara com todos me olhando. Era claro que o Luck já havia explicado tudo pra eles e eu fiquei feliz de não precisar fazer isso.Eu: Eaí?
Eles me abraçaram, foi bem fofo e engraçado também. Um abraço em conjunto entre sete pessoas.
Eu: Vocês me amam demais, neh? HAHAHA!
Tadeu: Ah, já ta se achando muito.
Lizy: Vamos fazer com que tua última semana aqui seja a melhor das melhores.
Luck: É! PARTY TODOS OS DIAS – ele falou rebolando.
Pai: MAS O QUE É ISSO? – eu tive que segurar o riso pra não deixar meu pai mais puto ainda. Os dois se fuzilavam com os olhos e o Rafa teve o bom senso de quebrar o silêncio:
Rafa: Já estamos indo embora.
Pai: Acho bom! – sentou-se a mesa e começou a comer.
Eu: Vamos.
Meu pai gritou antes que eu batesse a porta: “Não se esquece que só faltam seis dias!”
Luck: Esse velho me da nos nervos, teu irmão tem a quem puxar, Maduzinha.
Lizy: Acho que seu pai e o meu se dariam bem.
Tadeu: Com certeza, os dois são velhos rabugentos. Sem querer ofender – ele acrescentou rápido.
Eu: Pff, ele é muito pior que “rabugento”! Mas eaí, o que vamos fazer hoje?
Nessa: Que tal a gente mostrar o porque estávamos na delegacia ontem?
Dany: Agora que todo mundo já sabe mesmo não vejo problema.
Todos concordaram e fomos até a casa do Luck roubar por uma noite o carro do Léo. Afinal o tal lugar do grafite ficava do outro lado da cidade e eu não queria ter que correr do taxista de novo.
Eu estava doida pra ver, mas nenhum deles me adiantou o que era.
Quando chegamos à área o Dany ficou guiando Luck, que estacionou.
Luck: Por que estamos aqui? – ele perguntou tão intrigado quanto eu porque estávamos sendo encarados por caras um pouco… grandes.
Dany: É aqui que está.
Eu: O quê?
Rafa: Vocês vão ver.
O Luck era o que parecia mais incomodado com todos aqueles olhares, mas não falou nada. Pelo menos isso, estava com medo dele falar alguma merda e termos que sair correndo, como já aconteceu algumas vezes.
Tadeu: Relaxa Luck.
Não caminhamos muito até eu achar a parede. Era óbvio que era aquela, qualquer um que conhecesse Luck saberia que era ele que estava estampado em forma de caricatura naquela parede. Estava escurecendo, mas deu pra ver a expressão dele.
Estava de boca aberta, chegou mais perto pra tocar em seu próprio eu.
Dany: Feliz aniversário Luck.
Rafa: A gente ficou sabendo que tu faria aniversário semana que vem.
Lizy: E achamos que qualquer presente não seria o suficiente.
Tadeu: Eu desenhei e o Rafa e a Lizy estamparam.
Nessa: E a gente tentou ajudar.
Dany: Mais atrapalhamos do que ajudamos, mas tudo bem neh? O que vale é a intenção.
Rafa: Ficou foda não é Luck?
Tinha uma parte faltando pintura, acho que estavam acabando quando pegaram eles. Luck olhou para eles, sério. Fiquei até com medo dele dizer que não tinha gostado, mas…
Luck: FODA DEMAIS! HAHAHAHAHAHAHAHA!
Ele se jogou no chão e começou a rir muito se olhando na parede.
Luck: Parece que estou me olhando no espelho, velho.
Eu: Ficou muito igual gente, parabéns!
Ele ficou rindo um tempão e eles começaram a nos contar como havia sido pra escolher parede, fazer tudo escondido e…
Tadeu: Era pra te mostrar no dia do teu aniversário mesmo, mas fomos pegos antes não é?
Luck: Não tem problema.
Lizy: Vamos embora?
Luck: Vambora. – ele levantou e seguiu o caminho até onde deixamos o carro.
Chegamos lá e demos de cara com a pior coisa que podíamos ver…
Nada.
Luck: CADE O CARRO?
Rafa: COMO ASSIM?
Nessa: LUCK, TU FECHOU O CARRO DIREITINHO?
Luck abriu a boca umas três vezes, mas não saiu nenhum som. Já tínhamos a nossa resposta.
Tadeu: NÃO TO ACREDITANDO.
Eu: AONDE É QUE TAVA TUA CABEÇA, GURI?
Luck: ORA, QUANDO QUE EU IA IMAGINAR QUE ALGUÉM IRIA NOS ROUBAR? ESTAMOS NO BAIRRO MAIS RICO DA CIDADE.
Lizy: Tem ladrão em todo lugar, Luck.
Luck: To percebendo.
Rondamos a rua toda, mas nem sinal do carro.
Rafa: O que a gente faz agora?
Dany: Temos que denunciar o roubo.
Luck: Mas…
A gente discutiu até ver que realmente não tinha outra coisa a se fazer, tivemos que voltar praquele lugar horrível.
Infelizmente na delegacia havia as mesmas pessoas de ontem à noite. Então quando entramos fomos encarados como se tivéssemos matado alguém ou alguma coisa assim. Com esses olhares assustadores me deu uma vontade de gritar, sair correndo e nunca mais colocar meus pés aqui dentro, mas uma voz falou dentro de mim “deixa de ser cagona Maria Eduarda, fique aí com teus amigos” então achei melhor ficar e segui andando, a cada passo apertava mais e mais a mão do Rafa que também não parecia muito relaxado.
Policial: O que estão fazendo aqui de novo?
Luck, com sua cara de adulto, explicou tudo o que havia acontecido, tirando a parte que o carro estava cheio de cigarro e cerveja e principalmente deixou quieto o porque viemos parar nesse lado da cidade.
Ficamos horas naquela merda tentando convencer os policiais de que estávamos falando a verdade, e no final eles concordaram em nos ajudar. Eu duvido que eles vão fazer alguma coisa, mas não falei nada. Estava bem feliz de poder sair de lá e respirar ar fresco.
Caminhamos um pouco, meio desanimados até o Luck parar e falar:
Luck: Vocês estão ouvindo isso?
Dany: Tem como não ouvir?
Luck abriu aquele sorriso que nós conhecemos bem e depois saiu correndo em direção à música que estava tocando só deus sabe onde.
Segurei forte a mão do Rafa e saímos correndo atrás de Luck.
«Capítulo 29                                                                             Capítulo 31»
Luck: Gostei dessa ideia de brinde.
Lizy: Só uma desculpa pra continuar bebendo, não é?
Luck: UM BRINDE A MIM, QUE DAQUI A POUCO FAÇO 19 ANOS.
Tadeu: UM BRINDE AO TADEU QUE ESTÁ INDO PRO TERCEIRO ANO!
Nessa: LUCK TU VIROU CERVEJA EM MIM.
Rafa: Eu também mereço um brinde por aturar vocês, fala sério.
Eu: Um brinde à minha mãe. – todo mundo ficou quieto. Acho que cortei o espírito do brinde. Eu pensei e acabei falando, sem querer.
Todos ergueram as garrafas.
Dany: À Dona Lúcia. – essa frase foi repetida por todos e eu fiquei muito agradecida, queria abraçar cada um ali.
- O QUE É ISSO AQUI?
Dany: Putz.
Dona Lurdes: EU DOU AS COSTAS POR ALGUMAS HORAS E VOCÊS FAZEM A FESTA. PRA RUA, TODO O MUNDO.
Dany: Mas…
Dona Lurdes: AGORA!
Dany: Vamos gente.
Dona Lurdes: Tu fica Daniel.
Dany: Nem fodendo.
Dona Lurdes arregalou os olhos quando ouviu isso, ele foi o primeiro a sair pela porta.
Nessa: Acho que não foi uma boa ideia brigar com tua avó gente fina.
Dany: Não se intrometa.
Nessa: OK.
Dei uma cotovelada nele, que revirou os olhos e pediu desculpas pra Nessa.
Luck: Pois eu gostei! Tava na hora de tu enfrentar a velha Daniel. Agora, vamos lá pra casa.
Caminhamos em direção a casa dele, mas eu me dei conta de que…
Eu: Gente… não to muito no clima, vocês se importam se eu não for?
Tadeu: Claro Madu, tu faz parte do grupo.
Lizy deu um tapa na cabeça dele, inconformada.
Achei que o Luck é quem fosse dar um sermão de que eu tinha que curtir mais a vida, mas não ouvi nada dele. Só sorriu quando me despedi.
Eu: Tem certeza que tu não quer ir com eles? Eu não fico chateada não.
Rafa: Eu tenho certeza que não, mas quero ficar contigo hoje.
Eu: Valeu.
Rafa: Vamos lá pra casa. Está tudo bem contigo?
Não sabia o que responder. Não sabia se o que eu estava sentindo era “bem”, mas já não sentia vontade de chorar. Acho que é um progresso.
Chegamos à casa dele, que estava vazia de novo.
Eu: Por que tua casa está sempre vazia?
Ele soltou minha mão e abriu a geladeira.
Rafa: Quer que eu faça chocolate quente? – ele perguntou ainda olhando pra dentro da geladeira.
Eu: Por mim tudo bem e desculpe.
Rafa: O que? – ele me olhou desconcertado. – ah, é que isso é um assunto meio complicado pra mim.
Eu: OK.
Bebemos o chocolate quente só com o som da TV, ele cortou o silêncio depois de algum tempo.
Rafa: Minha mãe… ela trabalha bastante e acaba não ficando muito em casa. Não tem tempo pra nada. E meu pai? Não ta nem aí pra gente, eles se separaram quando eu tinha uns 3 anos e meu irmão 6.
Eu: Nem lembrava que tu tinhas um irmão.
Rafa: Ele foi esperto, logo que fez 18 se mandou daqui. Vou fazer o mesmo. Minha mãe quando está aqui trás um homem diferente, ela me obriga a tratá-lo como meu novo pai ou algo assim.
Eu: E seu pai? Nunca vem?
Rafa: Uma vez por mês talvez. Mas eu até prefiro que não venha, porque essa casa vira um verdadeiro inferno com os dois brigando. Eles não se entendem, nunca se entenderam. Provavelmente minha mãe se arrependeu de engravidar dele, duas vezes ainda.
Eu: Não fala isso Rafa.
Rafa: Ah, eu não to dizendo que ela não me ame, o que digo é que ela se arrependeu de ter ficado tanto tempo com meu pai. Agora quer correr atrás do tempo perdido trazendo qualquer um pra dentro de casa.
Eu: Acho que todo mundo tem problemas com a família afinal.
Rafa: Nossa, me desculpa por ficar reclamando da minha mãe enquanto a tua…
Eu: Tudo bem, a morte da minha mãe não faz a sua melhor.
Ele ficou constrangido, mas eu falei qualquer coisa engraçada sobre a menina do filme e ele deu corda.
Antes que o filme acabasse eu já tinha adormecido nos braços dele.
-
Rafa: Madu? Madu, teu celular ta tocando.
Ele enfiou o celular na minha cara e depois de alguns segundos me acostumando com a claridade eu consegui ler: “Dudu”.
Eu: Alô?
Dudu: Oi Madu.
Eu: Ta tudo bem?
Dudu: Sim. To te ligando pra falar do enterro… – aquela palavra me fez suar frio, odeio enterros. Difícil é a achar alguém que goste – Vai ser hoje à tarde. Madu? Cê ta aí?
Eu: Aham… Não sei se vou.
Dudu: Eu sabia que tu não ia querer ir, mas… eu to precisando de ti. Por favor. É teu último adeus.
Eu: Meu último adeus foi no hospital, enquanto ela estava viva.
Dudu: Mas…
Eu: Eu não quero ver isso. Já tá bem difícil…
Dudu: Ta bom. Mas se mudar de ideia vou estar te esperando no cemitério.
Eu: Tchau. – minha voz falhou. Quase não saiu nada, mas acho que ele ouviu.
Olhei pra frente e o Rafa continuava ali, mas fingindo que não ouviu nada.
Eu: Tu acha que eu vou?
Rafa: Acho que teu irmão ta sofrendo tanto quanto tu e talvez se vocês ficassem juntos doeria menos.
Eu: Duvido. – cochichei.
Rafa: Se quiser eu vou contigo.
Olhei pra ele de novo, meus olhos já estavam cheios de lágrimas.
-
Algumas horas depois estava eu lá, naquele maldito cemitério. Uma mão segurava a de Dudu e a outra, do Rafa.
A galera tava toda lá, me dando força. Foi muito bom vê-los.
O enterro foi horrível como o esperado, não só pelo fato óbvio, mas pela atitude de todos.
E quando digo “todos” quero dizer TODOS mesmo. Não havia só parentes, a cidade inteira apareceu, desde a vizinha até o tio Zé da cidade do lado.
O mal nisso tudo foi ver as pessoas, sem vinculo nenhum com minha mãe, forçando lágrimas e nos olhando com pena. Isso me irritava de um jeito que não conseguia explicar.
Dany: Calma Madu.
Eu: To tentando, mas é muita falsidade em um lugar só.
Bebi vários copos d’água com açúcar, mas não adiantou. Só não mandei todo mundo tomar no cu por causa do meu irmão que chorava mais que qualquer um. Me acalmei mesmo quando entrei no carro de meu pai pra irmos pra casa, finalmente.
Dany: Qualquer coisa me liga – ele falou pela janela e quando estava fechando podia jurar que vi o vulto da Sandy, mas depois disso não vi mais nada então deixei quieto.
Levei Dudu direto pro quarto, dormiu dois minutos depois. É, não foi um dia fácil pra ninguém.
Levei um susto quando meu pai falou do meu lado enquanto fechava a porta do quarto dele.
Pai: To precisando falar sério com vocês dois. Vê se não sai amanhã de manhã.
Eu: Falar sobre o quê?
Ele virou a cara, pegou a chave do carro e saiu.
Eu: Idiota.
-
Quando acordei, já era hora do almoço o que me fazia muito mal não sentir aquele costumeiro cheiro de comida deliciosa.
Eu: Eaí?
Dudu tentou responder, mas estava com a boca cheia de batata frita, não saiu nenhum som decifrável.
Eu: Cadê o pai?
Ele deu de ombros.
Eu: Legal, ele diz pra gente não sair, mas não fica em casa.
Dudu: Quê? – ele finalmente conseguiu engolir tudo.
Eu: Ele disse que queria nos falar alguma coisa.
Dudu: O que?
Eu: Ora, se eu soubesse não estaria curiosa.
Dudu: Come aí – ele me alcançou um hambúrguer.
Pai: Ah, os dois estão aí.
Ele disse sentando do lado de Dudu, encheu a xícara de café e disse:
Pai: Acho que nós três estamos muito abalados sobre o que aconteceu recentemente – um gole – antes mesmo dela… partir, eu estive pensando no que faria com vocês.
Eu: Como assim?
Pai: Me deixa terminar Maria Eduarda – mais um gole – com o que iria fazer com vocês, os dois eram muito apegados a mãe, o que eu iria fazer? E vendo o sofrimento do Dudu só me deu mais certeza de que o que vou fazer é certo. – mordeu um biscoito – Vamos nos mudar.
Eu: O QUÊ?
Pai: Eu sabia que tu ia fazer um escândalo – ele me reprovou com mais um gole.
Eu: MAS…
Pai: To falando numa boa.
Eu: NUMA BOA? NEM NOS PERGUNTOU, SÓ COMUNICOU.
Pai: Não preciso perguntar, eu já sei a resposta. Minha decisão já está tomada. E a nova casa já comprada. Essa daqui nos trás muitas recordações de Lúcia… não quero mais ficar aqui. – terminou com a xícara, levantou e saiu.
Não consegui dizer nada de tão perplexa que fiquei.
Ele não tinha o direito de nos tirar da NOSSA casa. Olhei pro Dudu e levei outro susto. Ele continuava a comer seu hambúrguer, tranquilo.
Eu: Tu não ouviu o que ele acabou de dizer?
Dudu: Ouvi e concordo com ele. Desculpa Madu, mas tu é a única que tem o porque ficar, tem teus amigos e namorado, mas eu não, nem o pai. A única coisa que nos restou foi a sombra da lembrança dela.
Eu: E teus amigos?
Dudu: Não são amigos de verdade Madu. Aproveitadores e idiotas são melhores adjetivos pra eles.
Eu: Mas…
Dudu: Entendo que tu queira ficar, mas tenta nos entender também. É difícil ficar aqui.
Eu: NÃO ENTENDO MERDA NENHUMA! – disse levantando – VOCÊS ACHAM QUE SAINDO DESSA CASA OU DESSA CIDADE A SAUDADE VAI EMBORA? POIS EU DIGO UMA COISA: NÃO VAI! A FALTA QUE A GENTE SENTE ESTÁ DENTRO DE NÓS E NÃO GRUDADO NESSAS PAREDES! – joguei o hambúrguer na mesa e saí de lá, a raiva florescendo cada vez mais.
Queria gritar ou socar alguma coisa e acho que nem Video Game ajudaria essa hora.
Depois de algum tempo a raiva foi consumida pela tristeza, só de pensar tudo o que eu teria que deixar pra trás. Ouvi barulho na porta e sequei as lágrimas rápido.
Dudu: Posso entrar? – ele falou já entrando – só queria te pedir uma coisa.
Eu: Fala.
Dudu: Não some não.
Não entendi aquele pedido e quando olhei, já não estava mais lá.
Procurei ele pela casa, mas não achei. Voltei pro meu quarto e me dei conta de que meu pai não falou quanto tempo iríamos ficar na cidade, fiquei nervosa em pensar nisso.
Poderíamos ficar um mês, uma semana ou um dia só. Não duvido de nada vindo do meu pai. Não vou conseguir convencer ele a ficar, não adianta. E ainda mais sem o apoio do Dudu. Acho que estou sendo egoísta, mas foda-se.
Se não querer perder mais ninguém na minha vida me faz egoísta, eu sou mesmo.
-
Esperei meu pai chegar umas duas horas na frente de casa. E quando isso aconteceu, perguntei pacientemente.
Eu: Vamos embora quando? – ele pareceu meio surpreso, na verdade eu também estava. Não é normal eu ficar tão calma assim, muito menos depois do que ele me falou.
Pai: Daqui um mês a gente pega um avião.
Eu: Pra onde?
Pai: Capital. – não falou mais nada, entrou e fechou a porta.
Sempre quis ir pra capital, mas não desse jeito. Quase fugindo.
Um mês até que não é pouco tempo. Pra ele ter falado assim, do nada, achei que tivesse planejado pra semana que vem. Graças aos deuses vou ter tempo de contar pra galera toda e me despedir decentemente do Rafa.
Entrei, me arrumei e segui direto pra casa do Luck, combinamos de nos encontrar lá pra ir numa festa.
Luck estava sentado na calçada de frente à sua casa, fumando. O que não é novidade. Sentei do lado dele.
Eu: Desde quando tu sai de casa pra fumar?
Luck: Dessa vez fodeu tudo mesmo Madu!
«Capítulo 27                                                                             Capítulo 29»
Dona Lurdes: Madu? Entra minha filha. O que você está fazendo aqui essa hora?
Eu: To precisando falar com o Daniel dona Lurdes.
Dona Lurdes: Ele não está em casa, achei que estivesse com você.
Eu: Não, acho que ele está com o Luck.
Dona Lurdes: Aceita sopa Madu? Acabei de fazer.
Eu: Aceito, obrigada.
Dona Lurdes: O Daniel falou que ia dormir na sua casa, nem me preocupei porque conheço sua mãe. Falando nisso, como ela está? - Ela falou isso enquanto enchia meu prato. Parei com a colher suspensa no ar.
Ela ia ficar sabendo da morte de minha mãe a qualquer momento, mas não por mim.
Eu: Bem…
Dona Lurdes: Está tudo bem?
Eu: Sim senhora… Está muito gostoso Dona Lurdes.
Dona Lurdes: ah, muito obrigada é uma velha receita de minha avó e… - ela continuou falando, falando e falando. É um ótimo jeito de desconversar, trocar de assunto.
Dany: Madu? - ele entrou todo molhado.
Eu: Eaí?
Dany: Estamos tentando falar com você há um tempão. Onde estava?
Eu: Ah, por aí Dany.
Dany: Por aí…? Vamos pro meu quarto, vem.
Larguei meu prato, agradeci de novo à Dona Lurdes e entrei.
Dany: Fala aí, o que houve?
Eu sentei e fiquei pensando, falo ou não?
Dany: O Fabrizio te fez alguma coisa?
Eu: Quê? Fabrizio? Não! O problema é… com a minha mãe.
Dany: Tua mãe? Como assim?
Contei toda a história pra ele, desde o começo. Acabei chorando no final de novo, mas ele me abraçou. Foi muito acolhedor e um ótimo calmante pra mim. Estava completamente nervosa relembrando tudo aquilo.
Eu: Vai Dany, me conta sobre a festa do ano. To precisando rir um pouco.
Dany: Se eu for te contar tu vai é continuar chorando, isso sim.
Dany contou sobre a noite dele, que não foi muito agradável.
Dany: No meio da festa acabou a energia. Sem música, sem ar-condicionado e com bebidas quentes? Dez minutos depois, o lugar estava completamente vazio.
Eu: Estragou a noite de vocês.
Dany: Tu conhece o Luck. Ele não iria desistir de festejar só por causa disso – acabamos passando horas conversando sobre as maluquices que o Luck aprontou hoje e sempre.
Eram maluquices, mas que fazia bem a gente relembrar.
Dany: Mas… Agora que eu pensei… se quando tu saiu do hospital tava chovendo… como tu ta seca agora?
Eu: Ah… é que eu não fiquei muito tempo na rua…
Dany: Faz muito tempo que ta aqui então?
Eu: Não…
Dany: Fala logo Madu.
Eu: Eu atava na casa do Pedro.
Dany: Pedro?
Eu: É, Pedro. Da EVEM, lembra? – quando ele lembrou, fez uma cara de super aterrorizado – que? Por acaso ele é um psicopata e eu não sabia?
Dany: Não, mas ele é um idiota. Tu sabes disso, neh?
Eu: Sei. – lembrei da cena dele tirando a camisa do nada, e concordei. Logo sacudi a cabeça pra esquecer disso – mas ele me ajudou. Devo uma pra ele.
Dany: Pff – ele parecia inconformado com o que eu disse e ligou o videogame.
Eu: O que tu tem contra ele?
Dany: Tudo. Quero dizer. Ele não ta nem aí pra ninguém, passa por cima de quem for pra ser cada vez mais popular e ele se acha o rei da escola.
Eu: Deixa ele se achar.
Dany: Ta do lado dele agora, é?
Eu: HAHAHAHA! O que há contigo Daniel? Ta se importando demais por um garoto que nunca te fez nada.
Dany: Nada pra mim, neh? Mas já fez pra quem eu gosto…
Eu tive que me concentrar pra lembrar de alguma coisa… SANDY.
Ata.
Eu: Ele não é tão ruim quando se conhece. Mesmo continuando um idiota, acho que ele está muito acomodado sendo o preferido de todas as garotas, quando se apaixonar de verdade e quebrar a cara vai ver que não é muito diferente dos outros.
Dany: É… filosofou agora hein Madu? – ele lançou um rápido sorriso pra não perder a partida do jogo. – Vai passar a noite aqui comigo, certo?
Eu: Aham.
Dany: Não te falei isso ainda, mas… Sabe que eu sinto muito por tua mãe, neh?! Ela sempre foi ótima comigo. Sei que ta sofrendo pra caralho agora e que eu devia estar quieto, mas queria deixar claro que eu to aqui pra quando tu precisar, seja que hora for, Madu.
Ele falou tudo isso olhando pra TV, como se não tivesse coragem de dizer olhando pra mim.
Eu: Valeu Dany.
Dany: Tua relação com teu pai não é das melhores, eu sei disso. Se quiser passar uns tempos aqui, é bem vinda. Minha avó te adora.
Eu: Fiz uma promessa a minha mãe. De que iria manter a paz naquela casa, vou tentar cumprir, mesmo sabendo que meu pai não vai fazer o mesmo.
O silêncio constrangedor foi quebrado pela dona Lurdes que nos trouxe biscoitos.
Quando me deitei para dormir quase não pude acreditar que o dia finalmente acabava. Talvez tenha sido o mais longo da minha vida, como se cada segundo acontecesse uma merda diferente. Espero que amanhã seja um domingo monótono como o de todo o mundo.
-
Abri meus olhos e eu continuava deitada no colchão do lado da cama de Dany, que já não estava lá.
OK, talvez ele tenha saído e não quis me acordar, quem sabe?!
Fui até o banheiro e dei de cara com ele, escovando os dentes.
Sorri.
Era bom saber que ele continuava ali comigo.
Dany: Ta tudo bem? – ele falou com a voz abafada pela escova.
Assenti.
Dany: O que tu quer fazer hoje?
Eu: Nada.
Dany: Nada… Nada?
Eu: Nada!
Dany: Mas…
Eu: Faz tempo que eu não fico parada. Sem fazer nada, me entende?
Dany: Entendo… esse ano tem sido bem agitado. Então a gente vai fazer… nada. OK. Mas antes eu precisando tomar banho, vaza.
Eu: To indo, não me empurra.
Dona Lurdes: Acabei de fazer café, vou sair. Cuida do Daniel, Madu.
Dany: Vó. – ele colocou as mãos na cabeça.
Eu: Pode deixar Dona Lurdes, vou cuidar dele direitinho.
Enquanto ela saía, senti um tapa nas minhas costas e retribuí.
Bebi o café e comi o bolo que a Dona Lurdes deixou em cima da mesa, Dany logo se juntou a mim.
Algumas horas depois da gente começar nossa missão de não fazer nada, “alguém” aparece na frente da casa dele gritando feito doido.
- Daniel seu veadinho, não atende o celular por quê? Abre isso aqui!
Dany só me olhou e riu.
Abriu a porta pra eles.
Luck: Primeiro é a Maduzinha que some, agora tu. Por que… MADUUUUUUUUUUU!
Ele veio pulando e me abraçou, os outros fizeram o mesmo. E, com a cara que me olharam, já deviam saber de tudo.
Rafa: A gente te procurou por tudo ontem. Tava aqui o tempo todo?
Eu: Ham… Sim.
Luck: NÃO SOME ASSIM DE NOVO NÃO, PORRA!
Lizy: Ficamos preocupados.
Eu: Foi mal gente.
Eu sorri.
Tenho sorte de ter amigos como eles.
Luck: Trouxe pra ti.
Ele ergueu garrafas de cerveja.
Dany: A Madu não ta bem pra beber hoje.
Luck: Ta sim.
Dany: Tu não entende Luck…
Luck: Entendo sim… – ele falou revirando os olhos e tirando o resto das garrafas da sacola.
Dany: Não é uma boa hora…
Luck: A gente já sabe de toda a merda que aconteceu na vida Maduzinha, ela precisa encher a cara. É a melhor coisa a se fazer.
Dany: Mas…
Eles começaram a falar como se eu não estivesse ali, de novo.
Eu: Gente…
Luck: …TU PARECE MAIS PAI DO QUE AMIGO DELA DANIEL.
Dany: E TU PARECE QUE NÃO SE PREOCUPA COM…
Eu: CALA A BOCA!
Eles me olharam apavorados com o berro que dei.
Eu: Pelo amor de Deus! Me da logo essa cerveja.
Luck: É ISSO AÍ MADUZINHA!
Nos acomodamos no quarto mesmo e começamos a beber.
Luck: Sabe, tava a fim de chamar o Pedro.
Me engasguei só de ouvir esse nome.
Dany: Pra quê? – ele perguntou enquanto me ajudava, batendo nas minhas costas.
Luck: Ele sempre tem um pra compartilhar com nós.
Dany: Não to a fim hoje, não. – é obvio que ele sacou o clima que ia ficar se Pedro viesse aqui.
Luck: Ah, vamos lá Daniel.
Dany: Daqui a pouco minha avó chega e meu quarto não pode ficar com esse cheiro.
Luck: TA BOM ENTÃO! – ele bufou e pegou outra cerveja. – ficou toda vermelha por que Maduzinha?
Eu: É que eu me engasguei, aí… – parei minha explicação improvisada, ele nem estava prestando atenção.
Enquanto eu conversava, Rafa sentou do meu lado, fez um gesto com a mão, Dany assentiu e sentou do outro lado.
Eu: Mas o que…? – ele me beijou.
E quando me largou, disse:
Rafa: Se precisar de alguma coisa, eu to aqui. E me desculpa por eu ter sido um idiota, posso até ter ficado com outras garotas, mas tu sabe que é de ti que gosto e é contigo que vou ficar no final.
Olhei pra ele e comecei a rir.
Eu: Ótimo pedido de desculpas, Rafa.
Rafa: Sério? Nem ensaiei. HAHAHA.
Eu: É assim que saem as melhores palavras, quando ensaiado demais acaba parecendo falso.
Rafa: Mas…
Eu: Eu sei.
Ele sorriu.
Rafa: A gente ta namorando agora, neh?
Eu: Ham?
Rafa: Ah, fala sério Madu. Chega de dúvidas.
Eu: Ta bom.
Rafa: Quê?
Eu: Eu concordo.
Ele me olhou, pasmo.
Eu sorri, pra mostrar que estava falando a verdade.
Ele me abraçou e gritou:
Rafa: Estamos namorando, gente.
Tadeu: E a novidade?
Nessa: Oficialmente dessa vez, neh?
Luck: Pra mim vocês já estavam namorando faz tempo.
Lizy: Deixa de ser insensível Luck.
Dany: Parabéns gente.
Tadeu: UM BRINDE AOS POMBINHOS.
«Capítulo 26                                                                            Capítulo 28»
Parecia que o taxista estava certo. Estava chovendo fraquinho o que não me atrapalhava de caminhar pela cidade inteira pra conseguir colocar meus pensamentos em ordem.
Meu celular vibrou várias vezes e desliguei, acho que a “festa do ano” vai ficar pro ano que vem, não to nem um pouco a fim de me enfiar em um lugar onde não dê pra ouvir nada.
A chuva ficava cada vez mais forte, não estava me importando muito. Eu só me perguntava uma coisa: “por que isso foi acontecer com minha mãe?”. Ela era uma mulher incrível, tão solidária. Até demais às vezes.
Lembro da vez que ela colocou um mendigo pra dentro de casa e no dia seguinte todas as TVs tinham sumido, junto com todo o dinheiro que tínhamos guardado. Ela disse “alguém nos roubou” nunca suspeitou do mendigo, mesmo ele tendo sumido do bairro.
Também teve a vez que ela nos fez visitar um hospital de crianças especiais. Foi um dos melhores dias da minha vida, depois disso tentei aproveitar muito melhor meu tempo. O sorriso que minha mãe abria cada vez que via uma daquelas crianças nos abraçando é impossível de esquecer. Muito diferente do último sorriso dela.
Lembrar disso só me fez chorar mais.
No meu rosto, já não podia mais diferenciar as lágrimas das gotas de chuva. Sentei-me em uma praça. Na verdade, já nem sabia onde eu estava.
Odeio parar pra pensar no futuro, fico tentando adivinhar como vou estar e isso me assusta bastante, mas era impossível não pensar em como ia ser minha vida a partir de agora. Sem minha mãe em minha casa. Como ia ficar minha relação com meu pai? Pior com certeza.
- Madu?
Já falei que cidade pequena é foda? Não importa onde você esteja, o quanto você ande, sempre, SEMPRE tem alguém conhecido.
E isso é péssimo quando a coisa que tu mais quer é ficar sozinha.
Não me mexi, só fiquei lá. Sentada com o capuz tapando minha cara, talvez se eu fingisse que não ouvi a pessoa iria embora, mas não funcionou. O cara chegou mais perto e sentou-se do meu lado.
Pedro: O que tu ta fazendo aqui, desse lado da cidade nessa chuva? – reconheci a voz do Pedro, o gostosão, pegador da EVEM.
Eu: To precisando ficar um pouco sozinha. – a chuva já não deixava ele me ouvir, tive que falar alto.
Pedro: Mas não da pra você ficar sozinha dentro de algum lugar? Quero dizer, essa chuva vai te deixar doente.
Eu: Não me importo muito.
Pedro: Quê?
Eu: Eu não me importo – falei devagar.
Pedro: Como?
Eu: TO NEM AÍ, PORRA!
Recomecei a chorar, não aguento mais. Acho que vou ficar desidratada.
Pedro me abraçou.
Nunca parei pra conversar com ele, não éramos amigos nem colegas. Pra mim ele é só mais um garoto escroto da minha escola, ele realmente não tinha o porquê me ajudar. Não sei o porquê estava fazendo isso, talvez só queira se aproveitar. Adicionar mais uma garota na sua imensa lista, mas sinceramente não to me importando muito com isso no momento.
Pedro colocou o próprio casaco nas minhas costas, agradeci mentalmente. Já estava congelando.
Ele puxou minha mão e me guiou. Fiquei com medo dele querer me levar pra casa, então gritei:
Eu: Não quero ir pra casa.
Pedro: Fica tranquila, minha casa fica logo ali e não tem ninguém.
Logo que vi a casa dele eu me lembrei: a mansão da festa.
É, era a mesma mansão só que completamente diferente. Parecia uma casa… de família e não um puteiro como a última impressão que tive.
Eu: Já estive aqui.
Pedro: Já? Como? Não lembro…
Eu: Em uma festa.
Pedro: Ata. Sempre convido o Luck mesmo. Estamos encharcados vamos subir que eu pego roupas limpas pra você.
O banheiro dele era maior que meu quarto, tudo muito confortável e limpo. Tomei um banho rápido e coloquei a roupa que Pedro roubou da irmã. As roupas eram exatamente do meu tamanho, pareciam que tinham sido feitas sobe medida.
E o melhor é que não eram fora do meu estilo. Uma calça preta e camiseta dos Ramones.
Pedro: A roupa ficou boa, peguei as que mais pareciam com você.
Eu: Por que ta me ajudando?
Parabéns Madu, foi completamente grossa com o garoto que só te ajudou até agora.
Sorri pra tentar não parecer tão ingrata.
Pedro: Não sei, eu só percebi que tu não estava nada bem. E eu sei que tu faria o mesmo por mim, certo?
Eu: Sim. – eu concordei sentando na cama. Ele veio e sentou-se do meu lado.
Pedro: Quer falar sobre o que te aconteceu? Sobre o porquê estava chorando?
Eu: Não. Quero parar de pensar nisso por um tempinho que seja.
Fui totalmente sincera falando nisso. Sei que ia recomeçar a chorar se eu falasse alguma coisa e também porque mesmo Pedro tendo me ajudado, não tenho nenhuma intimidade com ele. Não falaria sobre isso com um cara que não conheço.
Pedro: Tudo bem, sabe… eu também não estou muito feliz hoje. Quero dizer, terminei com minha namorada.
Eu: Nem sabia que tu tinha namorada.
Pedro: Na real… nem eu HAHAHA! Mas ela terminou comigo no mesmo minuto que soube da novidade.
Ele continuou rindo depois que viu minha expressão de perplexidade.
Pedro: Isso já aconteceu algumas vezes, quero dizer, eu fico uma vez com a menina e ela já acha que estamos namorando.
Eu: Entendo. Mas fala sério, tu não ta nem aí neh?
Pedro: Posso te mandar a real Madu? Tem muita menina por aí entregando o coração pra qualquer um. Mesmo sabendo que o cara não presta, se entregam e depois ficam colocando a culpa em nós, homens cruéis. – ele ironizou com a voz mais grossa, parecia que ele tava falando mais consigo mesmo do que comigo, ok - Ah, puta que pariu. Quem é que não sabe como eu sou? Se eu não fui atrás da menina por que ela acha que é tão especial?
Eu: Sei lá. – ele me olhou, fiquei meio constrangida em responder, mas já que ele falou isso vou dar minha opinião – vê se consegue ser menos insensível com quem ainda tenta gostar de ti. Não que eu defenda as meninas idiotas que abrem as pernas pra qualquer filho da puta, mas a gente realmente não escolhe por quem se apaixonar, devia levar isso em conta.
Ele continuou me olhando com os olhos arregalados.
Pedro: Acho que tu tem razão. Vou pensar mais nisso.
Se levantou e tirou a camisa, eu tentei não olhar pra barriga definida e tentadora dele.
Pedro: Vou tomar um banho, quer passar a noite aí? – ele falou enquanto tirava a calça. Mais uma vez fiquei com a expressão de perplexidade no rosto.
Ele sorriu de um jeito muito doido e chegou mais perto.
Pedro: Ta tudo bem Madu?
Eu: Eu é que pergunto!
Ele continuou rindo e fazendo com que eu ficasse cada vez mais constrangida.
Eu: OK, acho que vou pra casa.
Pedro: Por quê?
Eu: Acho melhor assim.
Me levantei e fui até a porta, ele me puxou de volta.
Eu: Qual é o teu problema?
Pedro: Não gosta de mim, é?
Eu: Eu não disse isso.
Pedro: Se está querendo fugir é porque não gosta.
Eu: Não to querendo fugir, porque não tenho do que fugir, certo? – olhei pra ele com a pior cara que consegui fazer.
Pedro: Certo. – ele largou meu braço e passou a mão nos meus cabelos, cochichou: - mas saiba que você está perdendo um ótimo divertimento. Quero dizer, tu já deve ter ouvido falar na escola neh? HAHAHA!
Saí de lá o mais rápido que consegui.
Menino pirado, uma hora fica falando mal das garotas pra mim e agora me trata como uma delas. Vai entender a mente doentia desse Pedro.
Já havia parado de chover, meu tênis estava molhado, mas consegui encharca-lo mais ainda quando pisei em uma poça d’água. Corri até achar algum táxi. Pensei pra onde ir quando o taxista falou: “pra onde?”, o melhor lugar agora é a casa do Dany, com certeza.
«Capítulo 25                                                                           Capítulo 27»
Meses se passaram, estávamos já no fim de ano.
Depois daquela noite poucas coisas mudaram:
Meu pai continua me odiando e enchendo o saco. Só que a novidade da vez é minha mãe, que está me dando um gelo. Eu não ligo muito, já fico feliz pela melhora dela, anda mais corada e mais disposta. To ficando cada vez menos dentro de casa, geralmente apareço aqui pra tomar banho e dormir, sem assunto com minha mãe a casa fica mais insuportável ainda.
E o Rafa?
Bem, minha relação com ele ainda é muito confusa. Gosto dele, cada dia mais na verdade. Desde aquela noite do riacho, não passei um dia sem vê-lo. Não fiquei com mais ninguém depois disso. Não que tenhamos alguma relação concreta, também nem sei se ele faz a mesma coisa. Não gosto de pensar muito nisso. Não posso cobrar nada.
Mas o que realmente está crítico é a minha relação com a Sandy. No intervalo ela fica dentro do ginásio, fica nos observando e fingindo que está rindo quando olhamos pra ela. O
Luck fala: “Que mina pirada!” sempre que isso acontece, não posso discordar dele. Sentia muita falta das maluquices dela, mesmo depois desse tempo todo. Mas não conseguia perdoá-la, nem sei se ela se arrependia. Provavelmente não. Foda-se também.
Estava muito bem até então, mas como nada fica bom pra sempre, quando acordei em um sábado, Rafa estava na cadeira do meu lado com as mãos no rosto.
Me levantei vestindo um jeans.
Eu: Aconteceu alguma coisa?
Rafa: Sim – a voz dele tava abafada.
Eu: Olha pra mim, o que houve? – sentei-me em seu lado.
A expressão dele era de terror. Fiquei com medo do que ele fosse falar.          
Eu: Fala logo Rafael.
Rafa: Eu fiquei com a Sandy. – suspirou e disse rápido.
Eu: Ficou? Ficou como?
Rafa: Ficando, ué.
Eu: Mas só ficou ou… – a cara dele me respondeu. Me levantei. Tava tudo muito bom pra ser verdade.
Eu: Então era por isso que tu tava tão culpado na época não é? Porque não foi só um beijo. Agora eu entendo.
Rafa: Madu… Isso foi há muito tempo. Não tinha acontecido nada entre a gente ainda.
Eu: E por que tu não me contou isso antes?
Rafa: Eu sabia que tu ia ficar puta.
Eu: E tu decidiu falar agora por… – eu tava tentando entender tudo aquilo, mas ele olhou direto nos meus olhos e disse:
Rafa: Antes que a gente fique sério, queria que tu soubesse disso. To me culpando esse tempo todo. Essa mina só bagunçou minha cabeça, foi um deslize.
Antes que a gente ficasse sério?
Como assim?
Eu balancei a cabeça pensando no que dizer.
Rafa: Eu quero que a gente seja exclusivo um do outro Madu. É por isso que eu te contei, fui sincero. Não aguentaria te ver ficando com outro garoto em alguma festa. Me desculpa, OK?
Eu: Preciso pensar Rafa. – fui até a porta e abri. Fiquei olhando pra ele.
Rafa: A gente ainda não terminou de conversar.
Eu: Preciso ficar sozinha.
Rafa: Mas…
Eu: Por favor.
Ele levantou, seguiu até a porta, mas antes de sair disse:
Rafa: Não conta nada pro Dany, OK? Ele ainda gosta dela, tenho certeza disso.
Ele quer esconder as coisas e eu tenho que ser a cumplice?
Mas que droga.
Assenti pra ele ir logo.
Fechei a porta.
Me atirei na cama de novo.
Então era isso que a Sandy queria dizer com “O Rafa sabe do que eu to falando”.
Eu: IDIOTA! – gritei e bati no meu travesseiro. Como se isso fosse adiantar alguma coisa.
Por que não me falou isso antes? Talvez isso nem importasse. Mas agora, depois de tudo. Não sei.
Preciso falar com minha mãe, dane-se que ela tava puta comigo. Preciso dela.
Recebi uma SMS do Luck enquanto a procurava em seu quarto: “Chega mais aqui em casa às 18:30 pra nós irmos PRA FESTA DO ANO! MADUZINHAAA! Não perde essa.” Quando cliquei pra responder, meu celular caiu.
Eu: MÃÃÃÃÃÃÃÃÃE!
Ela estava caída no chão da cozinha com os olhos fechados.
Eu: Mãe, acorda, acorda, acorda! Por favor! Mããããe! – eu a balançava, mas nada fazia ela acordar. – ah meu deus.
Com as mãos tremendo, consegui ligar pro meu pai.
Pai: Já não falei pra não me ligar enquanto to trabalhando, peste?
Eu: É a mãe… ela…
Pai: Que? Ela ta bem?
Eu: NÃO DROGA! NÃO TA!
Pai: Já estou indo, NÃO SAI DAÍ GURIA!
Ah sim, com certeza pai. Vou sair e deixar minha mãe aqui atirada, só ele pra pensar isso mesmo.
Eu fiquei lá chamando pelo nome dela, cada segundo esperando era uma tortura. Meu pai chegou com o médico dela. Ele se agachou e ficou tocando nela.
Médico: Ela ainda está viva, mas a respiração está fraca. – ele saiu e voltou com uns caras que a levaram para a ambulância parada na frente de casa.
Eu já ia entrando quando…
Pai: Tu não vai. Fica aqui me esperando e cuidando do teu irmão.
Eu: Ele nem ta em casa.
Pai: Mas vai chegar daqui a pouco.
Eu: Eu não vou ficar em casa enquanto minha mãe ta mal no hospital – eu falei com a voz rouca. Já estava quase chorando de tanta raiva.
Pai: Não complica Maria Eduarda, me escuta pela primeira vez na vida.
Paramédico: Precisamos ir agora.
Eu: Pra que hospital vocês vão? – me virei pra falar com ele quase suplicando uma resposta, sabia que com meu pai não ia adiantar perguntar.
Ele ficou meio nervoso com o olhar do meu pai, mas me disse onde era. Ficava perto de casa.
Agradeci ele enquanto fechavam as portas e iam embora.
Corri desesperada até achar um táxi. Me segurei pra não mandar o motorista pro inferno quando ele começou a fala: “acho que vai chover hoje”.
Chegamos ao hospital rápido, paguei e saí correndo até a recepcionista.
Minhas mãos tremiam e minha voz vacilava de nervosismo.
Recepcionista: Calma senhorita, vou chamar uma enfermeira que vai lhe dar um calmante.
Eu: Eu não quero calmante. – falei pausadamente antes que eu começasse a gritar - Quero saber onde está minha mãe. Já te falei o nome dela.
Meu celular vibrou.
Recepcionista: A senhorita precisa de um remedinho. – ela se levantou.
Ia tocar meu celular na cara daquela mulher quando eu vi “Dudu” na tela. Minha expressão mudou, ainda tinha que falar com ele. Ah meu deus.
Eu: Alô.
Dudu: ONDE TA TODO MUNDO? POR QUE O PAI NÃO TA ME ATENDENDO? A CASA TA TODA ABERTA AQUI! VOCÊS TÃO DOIDOS?
Eu:…
Dudu: FALA ALGUMA COISA MARIA EDUARDA!
Eu: Dudu… A gente ta no hospital.
Dudu: HOSPITAL? MAS… Que hospital?
Expliquei detalhadamente como chegar aqui. Ele chegou muito mais rápido que eu, com um amigo do lado. Provavelmente era mais desses amigos riquinhos que tem carro mesmo não podendo dirigir.
Eu: Tu vem com esse moleque maluco pro hospital? Tem noção que é perigoso um menino de 14 anos dirigindo? – me senti uma tia chata por falar isso, mas ele é um pirralho.
Moleque: Pra sua informação, eu tenho quase QUINZE anos.
Eu: Grande coisa. – o guri começou a gritar comigo.
Dudu: DA PRA CALAR A BOCA?
Moleque: Foi mal.
Dudu: Por que o pai não atende o celular? To há um tempão querendo falar com vocês droga. Como que ela ta?
Eu: Eu a encontrei, desacordada na cozinha. O pai nem queria que eu estivesse aqui.
Dudu: Como não? Vou mandar uma SMS pra ele então.
Ele mandou, fiquei caminhando pra lá e pra cá.
Dudu: Ele respondeu… QUE? DISSE QUE É PRA GENTE IR EMBORA QUE NOS CHAMA QUANDO DER! ISSO DEVE ESTAR ERRADO!
Eu: Não ta errado. Nosso pai é um idiota mesmo.
Recepcionista: Vocês poderiam falar mais baixo, por favor? Estão perturbando a harmonia do hospital…
Eu: FALAR BAIXO? SÓ VAMOS FICAR QUIETOS DEPOIS QUE TU ME DIZER EM QUE PORRA DE QUARTO ESTÁ MINHA MÃE! COMPREENDE SENHORITA?
Dudu e eu deixamos a recepcionista meio tonta e envergonhada de tanto que gritamos com ela. Acabou falando o número do quarto. O amigo do Dudu foi embora no meio da gritaria, isso que é amigo.
Encontramos fácil até. Meu pai nos viu e fez aquela cara de demônio costumeira.
Pai: O que vocês tão fazendo aqui? Não mandei irem embora? Tu me desobedeceu Eduardo? Só pode ter sido coisa da tua irmã – ele me olhou feio.
Dudu: Desculpa, mas eu quero saber como a mãe ta.
Pai: Ela acordou agora, ainda está muito fraca e abatida. Ou seja: nada de preocupações em cima dela, OK Maria Eduarda?
Eu: Só quero falar com ela…
Médico: Pode entrar um por vez pra se despedir.
Dudu: SE DESPEDIR?
Pai: Dudu, shiu!
Dudu: Mas…
Meu pai entrou primeiro, depois o Dudu que saiu chorando, eu o abracei e entrei.
Ela sorriu.
Estava cheia de canos de máquinas a ajudando a respirar. Sentei ao seu lado.
Mãe: Você está tão linda Madu. – eu sorri, mas ao mesmo tempo comecei a chorar ao vê-la naquele estado – não chora minha filha, por favor. Eu não estou triste, não tem o porque você estar.
Eu: Mas…
Mãe: Criei dois filhos perfeitos que tem saúde. O que mais uma mãe pode querer? – ela viu que eu estava meio confusa. Passou a mão no meu rosto e falou com dificuldade – eu sei que tu achas que me fez sofrer ou que eu não tenha orgulho de ti, mas estás completamente enganada. Amo você e o Dudu mais que tudo nessa vida e não importa o que vocês façam – ela começou a tossir, mas tentou continuar – vou sempre ter orgulho dos meus filhos. Só peço uma última coisa: tenta manter a paz naquela casa. Tenta ser mais tolerante. Promete?
Eu: Prometo. – minha voz tava rouca e falhando.
Ela sorriu e fechou os olhos.
Eu: Mãe?  Mãe… por favor. – eu a balançava, mas ela não me respondia.
Fiquei um tempo chorando ao seu lado, depois sequei as lágrimas e saí.
Dudu me olhava como se eu fosse levantar as mãos pro alto e gritar “Ela melhorou, é um milagre”. Mas isso não aconteceu, olhei pra baixo e ele correu pra me abraçar.
Quando ele viu meu pai chegando correu até ele para lhe abraçar também, depois me olharam. Não sabia o que falar nem o que fazer, meu pai me poupou o trabalho de pensar em alguma coisa:
Pai: Não queria que vocês vissem isso. Ia conversar amanhã.
Eu: Tu não queria que nós nos despedíssemos da nossa própria mãe?
Pai: Queria que o Dudu, que é uma criança, lembrasse-se dela feliz e disposta. Muito obrigada por estragar tudo Madu.
Dudu: A culpa também é minha. Eu insisti pra vir e não me arrependo.
Eu: De boa Dudu. A culpa é toda minha.
Segui caminhando até a saída do hospital, que afinal não parecia tão longe do quarto.
Quando saí estava quase anoitecendo, parei na metade da escada e me escorei. O vento bateu no meu rosto o que me fez recomeçar a chorar.
 «1ª Temporada                                                                     Capítulo 26»
Amanhã sai o primeiro capítulo da segunda temporada de Day By Day e a partir daí os capítulos vão sair todo Domingo e toda Terça-Feira. Porque são os dias em que tenho mais tempo pra escrever e editar. Enfim, tenho certeza que, se vocês gostaram da primeira temporada, gostarão da segunda. Terá algumas mudanças, mas é só pra não cair numa rotina chata de ler, era esse o recado. 
Boa noite ;*
DBDWeb. Postando desde: 07/04/2012
Se gostar de algum capítulo dê like ou vem falar comigo na ask, valeu?! =)
Boa leitura

lendo DBD =)
PLAYLIST DA WEB (pode clicar, juro que é boa)