Capítulo 55 - Tu tá me pedindo em namoro? Isso é horrível!

Lipe: Amigos então? – ele perguntou sem tirar os olhos da mulher seminua no pôster.

Pensei em dizer “não, me beija agora” ou “sim, claro. Por que não?”, mas não consegui falar nada. Só escorei minha cabeça no braço dele e fiquei ali. Ele entendeu o recado e puxou outro assunto. Falou do que havia acontecido com ele depois que saiu do meu AP. Acho que não foi um bom dia pra ele também.

Ficamos ali falando do que aconteceu nos últimos tempos um pro outro. Contei vários detalhes, inclusive sobre o velho cego e mal educado que ajudei.

Lipe: Já era noite e ele continuava lá? Estranho, geralmente os leitores vão embora ao anoitecer.

Eu: Leitores?

Lipe: Sim, a Rua das Galáxias é cheia de livrarias e afins. Muita gente passa a tarde lá pra ler ou comprar livros. Presumo que o velho seja um deles, porque ninguém com mais idade gosta de morar em uma rua que funcione 24 horas por dia.

Eu: Eu não sabia disso. Achei que lá só tivesse bar ou pub.

Lipe: É uma rua normal à luz do dia. – ele terminou a frase e deu pra ouvir cochichos do outro lado da porta. Logo depois três chutes fortes nela e um berro.

- Tu vai na festa com a gente ou não? Se quiser, pode levar tua mina junto.

Silêncio.

Eu: Se quiser, pode ir. Não tem problema. – cochichei.

Lipe: Tsc. Podem ir sem mim. – ele respondeu alto e continuou falando como se nada nos tivesse interrompido.

Ouvi o barulho dos garotos saindo da república e discutindo. Lipe continuava falando sobre a Rua das Galáxias.

Eu: Lipe?

Lipe: Oi. – ele se interrompeu e me olhou.

Eu: Não vou conseguir ser só tua amiga. – dei ênfase no “amiga”.

Lipe: Como assim? – ele perguntou, rindo. Fiquei só olhando pra ele.

Eu: Eu estou te pedindo em namoro. – falei pausadamente.

Lipe: Ah. – ele continuou rindo, sem me responder.

Eu: Tá, e aí?

Lipe: Tu tá falando sério, mano? Tá errado isso. Eu que tenho que te pedir em namoro.

Revirei os olhos.

Eu: Em que século estamos, Lipe, caralho? Nessa altura eu não deveria nem ter pedido em namoro, mas dadas as circunstancias…

Lipe: Eu não acredito.

Eu: O quê?

Lipe: Tu me pedindo em namoro. Isso é horrível. – ele parecia realmente chateado.

Silêncio.

Eu: Tu quer pedir?

Lipe: Por favor.

Eu: Peça.

Lipe: Madu, tu quer namorar comigo?

Eu: Sim. – ele se curvou pra ficar praticamente com o corpo todo em cima de mim e me beijou, encerrando a discussão.

-

Acordei com meu celular tocando, acabou acordando Lipe também.

Luck: ONDE QUE TU TÁ?

Eu: To na república com o Lipe.

Luck: Ah, OK então. Tchau.  

Eu: Espera. Tá tudo bem? Tá gritando por quê? Aconteceu alguma coisa?

Luck: Tu foi num endereço DESCONHECIDO. E PIOR AINDA, INDICADO PELO COBAIN. COMO TU QUERIA QUE EU NÃO ME PREOCUPASSE.

Eu: Ah. To bem.

Luck: Como foi lá, enfim?

Eu: Explico isso quando chegar ao AP. Pode ser?

Luck: OK. To esperando.

E desligou.

Lipe: Acho que tu devia ouvir Luck.

Eu: O quê? – olhei pra ele que estava bocejando e levantando meio tonto.

Lipe: Não devia confiar tão cegamente no Kurt. – falou e saiu do quarto.

Pensei um pouco e fui atrás dele.

Eu: Eu não confio cegamente nele.

Lipe: Mas tu foi num lugar que nunca tinha ouvido falar. Nem tinha certeza se era seguro.

Eu: A Lola mesmo disse que não era muito longe do AP e eu sei me cuidar. Obrigada. – ele ligou a cafeteira e se escorou na mesa, com os braços cruzados e me olhando de frente.

Lipe: Madu, pensa! Moramos numa cidade enorme. O pátio da tua casa pode ser perigoso. O teu vizinho pode ser perigoso. A pessoa que tu senta do lado no ônibus pode ser um assassino. O mendigo da rua pode te assaltar pra comprar cachaça. Essa é a realidade. Qualquer lugar é perigoso.

Eu: OK, entendi. – me rendi. – perguntei pra Lola se eu podia confiar nele.

Olhei pro chão.

Lipe: E ela disse o quê? – perguntou com cara de quem já sabia a resposta.

Eu: Não me passou muita confiança. – ele me olhou como quem dizia “eu te disse”.

Lipe: E mesmo assim tu foi – abri a boca pra responder, mas ele falou mais rápido – não to querendo te dar um sermão, só to te dando uma dica. Não confie nele. Nem Lola nem eu confiamos. Talvez nem o pai dele confie. Só isso.

Eu: OK.

Lipe: Eu até penso que ele já sabia que teu pai estaria lá.

Eu: Como ele poderia saber disso? Ele pode não ser confiável, mas não é magico, Lipe.

Ele deu de ombros e me alcançou uma xícara. Ficou calado, mudei de assunto e de alguma maneira acabamos falando sobre escola e que eu deveria voltar imediatamente a frequentar uma. Ele quase implorou.

Lipe: Tu tá no último ano, é simplesmente burrice parar agora.

Eu: Eu sei. Voltarei a estudar e também vou trabalhar, satisfeito?

Lipe: Sim. – ele sorriu e terminou o café.  – vamos lá pra sala ver um filme. Sem os caras aqui, dá até pra aproveitar o silêncio.

Logo que fiquei empolgada no filme reparei que era só um pretexto pra me incomodar e ficar dizendo o quanto ele ficava carente quando tava comigo. No final do terceiro filme, quis ir embora, mas ele não me deixou sair. Acabamos dormindo um em cima do outro no pequeno sofá da sala. Só acordei quando ouvi barulho na porta e algumas risadas.

Eu: Lipe, Lipe, Lipe. Acorda, guri.

Lipe: Hm?

Ele acordou, foi se virar e caiu no chão me levando junto.

- Mano, o que vocês tão fazendo aí?

Um dos amigos de Lipe nos viu ali e foi o bastante pra que todos os outros ficassem nos encarando também. Enquanto me levantava, me lembrei de que estava usando apenas minha camiseta e a calcinha. Arregalei os olhos e saí correndo até o quarto de Lipe, tentando não esbarrar nos garotos que me olhavam, pasmos.

Eu: Ah, meu deus. – cochichei pra mim mesma quando fechei a porta.

Lipe: Madu, abre a porta. – abri, ele entrou parecendo um pimentão de tão vermelho carregando minha roupa e as dele também.

Eu: Valeu. – me vesti, apressada por alguma razão. Talvez fosse só nervosismo mesmo, porque Lipe também colocava uma camiseta com cara de assustado.

Lipe: Desculpa te fazer passar por isso, Madu. Caralho esses moleques.

Eu: Tudo bem. – não, no momento eu não parecia bem, mas a culpa não era dele. – acho que vou embora então.

Lipe: Eu te levo.

Eu: Não precisa.

Lipe: Tem certeza?

Eu: Sim.

Lipe: Te levo até a porta então.

Eu: Lipe, eles não vão me engolir… Eu acho.

Lipe: Eu vou contigo. – ele falou com convicção. Acho que tinha medo de que alguém zombasse ou dissesse alguma coisa constrangedora.

Fomos até a sala e ele apontou pra mim com a expressão séria.

Lipe: Essa é a Madu. Minha namorada. E como minha namorada vai sim frequentar essa república, se acostumem. – todos olhavam pra nós como se aquilo fosse um show.

Eu tava morrendo de vergonha. Não costumo ter vergonha a toa, mas o que Lipe tava fazendo era bizarro demais. E a reação deles não tava sendo muito convidativa. Eu olhava pros meus pés, pensando em como eu poderia estrangular Lipe ali mesmo.

- De boa, Lipe. Fica tranquilo, cara. – o mesmo que abriu a porta pra mim e me ajudou chutando a porta do quarto, respondeu rápido quebrando o silêncio.

Depois dele, todos os outros falaram que tava tudo bem também. Eles sorriram e me cumprimentaram como se tivessem me visto ali só naquele momento. Fingi tranquilidade e sorri de volta. Foi só nesse momento que percebi: não estavam todos os meninos que vi ontem. Eram apenas quatro. Talvez só os que moravam ali. Isso me deixava mais tranquila.

Me despedindo decentemente, saí da república respirando aliviada. Lipe saiu rapidinho antes que eu fosse embora e perguntou:

Lipe: Tudo bem por aí, então?

Eu: Sim. – sorri. Dei um beijo rápido nele e desci as escadas, com a claridade perfurando meus olhos como pregos. Estava tão acostumada com a iluminação laranja da república que esqueci como o sol pode ser forte.

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Cheguei no AP mais rápido do que esperava e me joguei no sofá antes de perceber quem já estava sentado nele.
Kurt: E aí, Madu? Tudo bem contigo? Pois é, comigo não. – ele falou agressivamente.

Olhei pros lados pra entender a situação, mas só piorou. Estava Luck, atrás do balcão, me olhando apreensivo.

Kurt: Sabe quem me ligou hoje? Sim, a mesma pessoa que eu falei pra conseguir aquela entrevista pra ti. Disse que tu deu piti e que discutiu com um dos grandões da empresa. – ele fez uma pausa esperando resposta, mas continuou – Tu é louca, porra?

Eu: Um dos “grandões”? Meu pai é um dos “grandões” da empresa? – perguntei confusa, mas ele parecia não ter ouvido.

Kurt: Eu me coloquei a disposição pra te ajudar…

Quê?

Kurt: Confiei em ti e acontece isso.

Ele parecia completamente descontrolado. Aquele ar de superioridade e esperteza desapareceu completamente. Conseguia ver as veias saltadas no rosto dele. Algo me dizia que eu não era o único motivo pra ele estar daquele jeito.

Eu: Kurt, esse cara era MEU PAI. Não tem nada a ver contigo, não tem nada a ver com a empresa. Eu discuti com MEU PAI… pra variar. A coincidência é que ele é um figurão importante dessa tal empresa, o que eu acabei de ficar sabendo.

Kurt: Foda-se…

Ele voltou a falar desenfreado sem querer me ouvir, mas quem perdeu a paciência fui eu. Me levantei e aumentei o tom da voz.

Eu: Não tem “foda-se” tu não pode vir até o meu apartamento pra ficar gritando como se eu fosse uma criança. Muito obrigada pela tua ajuda, mesmo que NÃO tenha sido oferecida da tua parte. E me desculpe se eu te dei algum problema, mas isso não é problema meu. Agora pode ir embora. – apontei pra porta como um convite de “dá o fora”.

Kurt: Tu tá falando sério? Eu te ajudei e agora tu me expulsa da tua casa? – ele levantou e chegou perto de mim.

Antes que eu entendesse a situação, Luck já estava na minha frente como uma parede para me proteger. Num piscar de olhos e empurrou Kurt pra longe.

Luck: Tu não vai chegar mais perto que isso dela, guri. Tu acha que é quem? – falou com sangue nos olhos.

Kurt ficou sério por algum tempo, os dois apenas se encarando como animais preparados para dar o bote. Depois ele sorriu, mas não com a mesma displicência costumeira. Ainda parecia fora de si, não queria admitir, mas estava com medo de que ele fizesse alguma coisa.

Kurt: Não precisa ficar nervosinho, nunca encostaria em um fio de cabelo da tua Maduzinha.

Luck: Vai embora daqui antes que eu te meta um soco nas fuças.

Ele foi embora, caminhando devagar e bateu a porta com força.

Luck: Eu ainda vou quebrar a cara dele. Tu escreve minhas palavras, Madu.

Eu: OK, Luck. Obrigada.

Ele me fez sentar e contar exatamente tudo que havia acontecido na empresa e ficou revoltado a cada nova palavra que saía da minha boca.

Luck: EU NUNCA GOSTEI DO TEU PAI, AQUELE FILHO DA PUTA.

Os gritos revoltados que Luck deu não me ajudaram em nada. No máximo, me arranjou uma dor de cabeça terrível. Mas não posso culpar ele inteiramente pela minha dor, Kurt tinha grande parcela de culpa.

Luck falava, inquieto e caminhava em círculos dentro da sala.

Luck: O que tu vai fazer agora?

Eu: Não sei, o que eu faria? – perguntei displicente, sem olhar pra ele.

Luck: Lembra que eu te disse que era pra tu resolver um problema de cada vez?

Eu: Lembro. Eu até tentei, mas é mais difícil do que parece.

Luck: Tu se acertou com o Lipe, então?

Eu: Sim.

Luck: Pelo menos um pingo de lucidez. O problema agora é tu na mão daquele babaca do Kurt. 

Eu: Na mão? Eu não to “na mão” dele. A gente não vive num seriado americano. Relaxa.

Luck: Não vivemos num seriado americano, mas existem psicopatas de verdade. E eu já vi filmes o suficiente pra saber que eles são perigosos. E sim, Kurt é um psicopata.

Eu: Psicopatas não tem sentimentos, remorso. E Kurt tem. – falei a última frase sem muita convicção.

Luck: Quem disse? Tu sentiu o que quando deu pra ele? Ele em cima de ti era demonstrar sentimentos?

Foi só aí que me virei e olhei diretamente pra encarar Luck. Ele olhou pro chão e logo disse.

Luck: Falei da boca pra fora. To nervoso. Desculpa. Vou tomar um copo d’água.

Eu: É. Faça isso.

Voltei a pensar em Kurt. Não, ele não era um “psicopata” como diz o Luck. Ele é só um idiota qualquer, antes eu o olhava e ficava sem ação, agora eu não sinto nada. Não sei nem o que pensar dele. Às vezes passa a imagem de comedido e super inteligente e às vezes surta por nada, como agora. Eu não sei o que pensar.

Luck sentou do meu lado, jogando as pernas em cima de mim.

Luck: Eu fiquei pensando em como poderia te ajudar. E descobri como.

Eu: Como? – arrisquei. 

Luck: Vamos te matricular em uma escola hoje. – ele sorriu.

Eu: Tu quer ajudar me arranjando mais problema?

Luck: Deixa de ser pessimista. Vai te fazer bem conhecer gente nova. Tu vai voltar a ser uma adolescente normal e chega desse assunto. Tá decidido.

Silêncio.

Eu: Tu tá parecendo minha mãe.

Luck: Essa é a intenção. – ele parou de sorrir por alguns segundos e depois tentou consertar – quero dizer, a intenção é ser um irmão mais velho.

Eu: Tu vai voltar a estudar também, é claro.

Luck: Eu? Nem fodendo. Tenho mais o que fazer – olhei pra ele com cara de “WTF?” – sou mais velho, Madu. Na verdade, tenho outros planos pra esse ano. E para esses planos não preciso saber a bhaskara.

Eu: Tu não sabe a bhaskara? É a coisa mais fácil do mundo.
Silêncio.

Luck: Foi um exemplo, não enche. E para de mudar de assunto.

Eu: Tá bom. Quais são teus planos?

Luck: MADU.

Eu: Caralho, que insistência. Eu já tava pensando em voltar a estudar. Vou procurar uma escola.

Luck: Na verdade, eu já liguei pra escola mais próxima e marquei uma reunião hoje mesmo.

Eu: TU FEZ O QUE? – comecei a tossir, engasgada com a própria saliva.

Luck: Não adianta gritar, já tá tudo resolvido. – ele falou enquanto dava tapinhas nas minhas costas e ria.

Eu: Tu não pensou na possibilidade de eu não querer ir?

Luck: Não.

Eu: Não sei o que faço contigo! – levantei pra buscar água.

Ele não estava brincando, como eu torcia. Ao meio dia, saímos do AP em direção à escola que Luck tanto falava.

Luck: É a maior escola do bairro, sem dizer que fica a duas quadras do AP.

Eu ficava quieta enquanto ele falava, não tava empolgada com a ideia de voltar a frequentar uma escola. Na verdade isso me deixava ainda mais apreensiva. Até parece que eu queria “conhecer gente nova” como ele disse.

Eu: Mas espera, tem certeza que vai estar aberta? Não é sábado?

Luck: Eu combinei com a diretora, Madu. Vai estar aberta.

Eu: Ah.

Não demorou muito para que chegássemos à um prédio enorme, com uma placa que não consegui ler o que dizia. Entrando, demos de cara com um salão de entrada grande e alto. Onde ecoava cada passo que dávamos.

Luck: Massa. – ele sorriu olhando para os lados.

Em nossa direção, veio uma senhora de péssima aparência e com a voz áspera perguntou o que queríamos.

Luck: Olá. Meu nome é Lukas, eu liguei ontem marcando uma reunião. – e a conversa continuou enquanto íamos pra sala da diretora, que descobri não ser tão ruim quanto a senhora que nos deu as boas-vindas.

Tive quase certeza que uma das tias da direção ficou se jogando pra cima de Luck, que nem percebeu enquanto tentava convencer a diretora que eu era uma ótima aluna e que tinha passado por horríveis traumas psicológicos. Não esqueceu de mencionar minha passagem pelo hospital, é claro. Ele se saiu um ótimo irmão mais velho, tinha que confessar.

Quando saímos de lá, a tristeza tomava conta de mim. Além de tudo, ainda teria trabalhos e leitura maçante.
Enquanto voltávamos à rua das Galáxias, eu chutava pedrinha e Luck desandava a falar o quanto esse ano ia ser maravilhoso e que tinha certeza que minha mãe ficaria feliz com minha volta à escola. Não respondi o que pensei na hora porque apesar de tudo Luck tem sido a melhor pessoa do mundo. Não merecia minhas grosserias então resumi minha presença em sorrir e chutar pedrinhas.

É claro que ele quis comemorar a minha “volta à civilização” como ele disse. Então fomos para um bar qualquer na Rua das Galáxias e pedimos chop. A cada gole meu, era um copo dele. Não sabia como ele conseguia, mesmo. Os copos eram grandes e pelo visto o estomago dele maior ainda.
Uma hora depois e alguns copos de chops vazios, a minha futura escola já não me assustava mais tanto assim. Comentei da tia que deu em cima de Luck, e como previ ele nem ao menos notou as insinuações dela.
Luck: Não vi nada. Hahahaha.

Eu: Tava muito ocupado fazendo papel de irmão mais velho.

Luck: Se tu parar pra pensar – ele chegou mais perto com aspecto bêbado – eu realmente sou teu irmão mais velho e não era um teatro. E eu sou responsável o suficiente pra isso.

Eu: Tão responsável que traz tua irmã menor de idade pra beber chop. – ele riu sem conseguir pensar em argumentos.

Luck: Mas acho que vou voltar lá – ele disse ficando pensativo de repente.

Eu: Pra onde? Pra escola? Por quê?

Luck: Tu acha que eu não pegava a tia?

Fiquei em silencio por alguns segundos, raciocinando.

Eu: Tu ficou maluco?

Luck: Maduzinha, eu to precisando de carinho. 

Eu: Puta merda. 

Fiquei quieta e terminei meu copo de chop. Era óbvio que Luck e eu já estávamos em universos diferentes. Peguei meu celular e troquei algumas SMS com Lipe, até ele dizer que conhecia o bar em que estávamos e viria me encontrar. Guardei o celular no bolso contente.

Luck:… tu não concorda, Madu?

Eu: Sim, claro. – concordei pra ele não precisar repetir.

Luck: Tu conhece? – ele ficou me olhando.

Eu: O quê?

Luck: Uma guria que daria pra mim hoje.

Eu: Com certeza que não.

Luck: Ah, não fico surpreso. – bebeu um gole grande.

Eu: O que tu quer dizer com isso?

Luck: Tu só faz amizade com homem.

Silencio.

Eu: Isso não é verdade. – eu ri.

Luck: Não? Então, me diz uma menina nessa cidade que tu fez amizade sozinha.

Eu: Sozinha?

Luck: Sim, sem ajuda de terceiros.

Ele me olhava enquanto eu pensava raivosamente em um ser humano sequer, mas não achei. E ele sabia que não viria resposta.

Eu: Não sou contra meninas, mas é muito mais fácil ser amiga de homem. – dei de ombros.

Luck: Tsc. Eles são mais “fáceis” de se fazer amizade porque querem tudo te pegar.

Eu: Isso também não é verdade.

Luck: Ah, Madu. Até hoje tu não percebeu? Vai por mim, todo cara que chega em ti é porque quer te pegar. Vocês podem até se tornar só amigos, mas nenhum vai chegar em ti querendo brincar de panela. É muita ingenuidade pensar isso. Eu mesmo. Tu acha que comecei a falar contigo depois que o Daniel nos apresentou por quê? Porque logo no início eu sabia que iria querer ser teu melhor amigo/irmão mais velho? – ele riu – Eu nem gostava de ti no começo. Te achava pretensiosa e ignorante demais.

As palavras arrastadas dele entre um gole e outro, me fizeram entender o que ele quis dizer vários minutos depois. 

Eu: Tu queria ficar comigo? – perguntei um pouco assustada.

Luck: Eu? Não! Haha, nunca falei isso.

Olhei pros lados intrigada, era sim o que ele falou. Ou não? Não consegui pensar muito nisso, porque logo avistei Lipe entrando e vindo até nós.

Lipe: E aí? – cumprimentou se sem sentar, me convidando a ir comprar livros da faculdade com ele.

Aceitei e convidei Luck, mas duvido que tenha me ouvido. Deixei-o ali a caça de alguma guria.

Eu: Luck não tá muito bem.

Lipe: O que há com ele?

Eu: Não sei muito bem, mas deixa pra lá.

As livrarias da rua das Galáxias estiveram sempre ali, era só descer um pouco mais a rua e dobrar nas esquinas certas. Eu que nunca havia explorado a rua com cuidado pra achar. Lipe tinha razão. Não chegamos a entrar em três livrarias para achar os livros que ele precisava e poder ir embora.
Saindo da livraria, ouvi uma velha voz resmungando do outro lado da rua.

Eu: Lipe, tá vendo aquele senhor ali tentando trancar a livraria? Ali bem à frente? – ele confirmou com a cabeça – É o mesmo homem cego de quem eu te falei.

Lipe: Putz. – ficamos observando a tentativa fracassada de chavear a livraria.

‭Não aguentei ver o sofrimento do homem de longe. Atravessei a rua sem responder aos chamados de Lipe e me posicionei ao lado do velho. Percebi que Lipe havia corrido atrás de mim quando terminei minha frase.

‭Eu: Quer ajuda?

‭- E por acaso eu pedi ajuda? - ele perguntou rispidamente.

‭Eu: Então o senhor prefere ficar o resto da noite aqui, esperando um moleque vir e lhe roubar?

‭Ele parou para pensar por alguns segundos sem desfazer a expressão de mal humorado, e então assentiu.

Me aproximei e em segundos tranquei. Devolvi as chaves e disse.


‭Eu: Pronto. - disse esperando finalmente um pouco de consideração, mas tudo o que recebi foi:

‭- Tu é a mesma.

‭Eu: Mesma o quê?

‭- A mesma menina que me importunou na outra noite.

‭Eu: O senhor quis dizer a mesma menina que o ajudou, sim sou eu.

‭Lipe: Mas como o senhor poderia saber? - ele se intrometeu.

‭- Sou cego, mas não sou idiota, rapaz. É a mesma voz cheia de si e carregada de ironia. O mesmo cheiro de juventude misturado com tristeza, além do óbvio fedor nojento de cigarro.

‭Não pude deixar de erguer as sobrancelhas. Não sabia ao certo se ficava ofendida, mas surpresa eu estava com certeza.
‭Ele virou as costas e deu um passo ameaçando ir embora quando Lipe o chamou de volta. Achei que ele o ignoraria, mas a contragosto retornou.

‭Lipe: O senhor não precisa de ajuda com a livraria?

‭- Já está fechada. - ele respondeu parecendo confuso.

‭Lipe: Não, eu quis dizer diariamente. Quero dizer, o senhor tem alguém que o ajude com tudo?

‭Ele pensou por um tempo.

‭- Por que o interesse?

‭Lipe: Bom, a menina com a voz cheia de si carregada de ironia procura trabalho e ela gosta de ler, então sei que seria o emprego perfeito.

‭- Mas quem disse que eu estou contratando?

‭Lipe: Me desculpe, mas o senhor claramente precisa de ajuda.

O velho torceu o nariz, enquanto eu tentava fazer sinais pra que Lipe calasse a boca.

Lipe: Não sou preconceituoso se é o que está pensando, só sou realista. Ela poderia fazer qualquer coisa, até mesmo reabrir a parte em que era uma cafeteria há dois anos. To errado?

‭- Não, não está. - ele admitiu, pro meu desespero - mas não vejo motivo nenhum pra contratar justamente ela. Não passa de uma adolescente mimada, que gosta de irritar os pais mostrando o quão rebelde pode ser.

‭Eu: O senhor nem ao menos me conhece! - falei finalmente - eu não pedi o emprego, isso foi ideia dele.

‭O velho revirou os olhos, aparentemente cansado da minha voz. Eu o odiava mais a cada segundo.

‭- Se quiser o emprego venha até a livraria segunda feira depois do meio dia, vamos ver se você tem juízo.

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Capítulo 56 ->

Capítulo 54 - Pirralha alienada.

Luck falou tanta coisa e só conseguiu me deixar mais perturbada. Resolvi terminar o cigarro na minha cama quente e confortável. Dei as costas à rua cheia de gente e subi até meu quarto. Eu já comecei a tentar resolver meus problema, não é? Arranjei um emprego.

Eu acho.

O que me atingia em cheio é ter sido chamada de pirralha duas vezes em pouquíssimo tempo. “Quando tu crescer, me procura” “para de agir como uma pirralha alienada”. Será possível? Não sei o que os fazem pensar isso. Resolvi virar pro lado e dormir.

-

- TEM ALGUÉM EM CASA? MADU? LUCK? – acordei e olhei pros lados. O relógio marcava dez da manhã e havia alguém na sala gritando. Abri a porta e coloquei a cabeça pra fora. Além do corredor, enxerguei Lola.

Eu: Oi. – ela me viu e chegou mais perto. Não pude esconder meu espanto em vê-la no AP tão cedo.

Lola: Acho que te acordei. Desculpa. Eu teria avisado, mas teu celular tá desligado. Tu já falou com o Luck?

Eu: Falei com Luck? – perguntei perdida enquanto coçava os olhos de sono.

Lola: Sim, sobre eu vir pra cá. Lembra? – ela me olhou apreensiva.

Eu: Ah, claro. Ele tá de boa, pode vir. – sorri.

Lola: Ótimo. Obrigada. Ah. Hm. Minhas coisas já estão lá embaixo, tu pode me ajudar a subir?

Eu: OK. – pulei de volta ao meu quarto e peguei a primeira calça que vi escorada na cadeira. Eu devia parecer um monstro, mas não liguei muito. Desci ao lado dela, que parecia animada com a mudança.

Havia um carro estacionado na frente do prédio. Achei que fosse Will dirigindo como sempre, mas ao chegar mais perto percebi que era Kurt sentado no banco do motorista. Ele sorriu ao me ver e encarou minha roupa.

Kurt: Te acordamos, eu percebo. – ele riu. Eu ignorei.

Peguei a mochila e uma mala que Lola apontava. Estavam pesadas e quase me desequilibrei, mas consegui e ia logo de volta ao prédio atrás dela até me lembrar das últimas frases que Kurt havia me dito. Parei e larguei as malas. Voltei até a janela do carro sem ao menos Lola ver. Ele sorriu pra mim como quem já sabia que eu voltaria.

Kurt: Já arranjei um lugar legal pra ti. Toma. – ele me deu um papel com um endereço anotado.

Eu: O que eu vou fazer lá exatamente?

Kurt: Não sei, vai lá e descobre. Tu tem que ir até às três horas. Não atrasa. – eu assenti.

Silêncio enquanto eu olhava pro papel, preocupada.

Kurt: De nada. Tenho que ir, vai mais pra trás.

Andei dois passos pra trás e o vi dando ré no carro, depois acelerando e indo embora. Coloquei o pedaço de papel no bolso e agarrei as malas novamente.

-

Eu: O que tu tá trazendo, caralho?

Lola: Minhas roupas, CDs e livros, é claro.

Eu: Ah.

Larguei tudo no terceiro quarto, que ela já visualizava como queria.

Lola: Nessa parede vou escrever algumas frases, mas ainda não escolhi quais.

Eu ouvia o que ela dizia e dava algumas ideias. Mas minha cabeça ainda martelava o conteúdo do meu bolso. Não sei o que vou encontrar lá. Talvez seja o melhor emprego do mundo, onde eu ganhe bastante e ache amigos. Talvez seja uma bosta, mas eu tenho que ir e me arriscar. Confiar em Kurt é um pouco difícil com aquela cara que ele faz o tempo todo, mas é a única opção que eu tenho nesse momento. Gostando Luck disso ou não.

Suspirei, admirando o papel. 

Ajudei Lola a organizar o quarto o mínimo pra ela se sentir a vontade e fui direto para o banheiro. Me dediquei a tomar um banho longo e quente. O mais quente possível sem me queimar e depois fui atrás de uma roupa decente.

Mas o problema é que eu não sabia onde eu iria. Seria um bar? Usar uma coisa mais casual? Ou uma empresa? Teria de usar uma coisa mais formal? Não fazia a menor ideia. Estava prestes a surtar ao procurar alguma coisa, segurando a toalha enrolada em meu corpo, quando Lola entrou e viu a cena bizarra.

Lola: Quer ajuda?

Eu: Por favor. – ela sorriu e agachou-se ao meu lado procurando algo mais especial.

Lola: Essa camiseta com aquela calça.

Eu: Não.

Lola: Por quê?

Eu: Vou passar calor.

Lola: Fresca. – olhei pra ela que só sorria e continuava a procurar.

No fim, vesti a roupa que ela indicou e foi o bastante pra eu me sentir nervosa.

Eu: Vai ser uma entrevista será? Nunca fui numa entrevista antes. To nervosa.

Lola: Te acalma, guria. Primeiro de tudo, tu quer mesmo ir sozinha?

Eu: Qual o problema?

Lola: Tu confia 100% em Kurt?

Eu: Tu não? – perguntei esperançosa. Mesmo não a conhecendo totalmente, a opinião de quem conhecia Kurt parecia bem vinda. Mas a cara que ela fez não me deixou menos nervosa.

Lola: Quem confia? – ela deu de ombros.

Poderia perguntar do que ela estava falando, mas eu não queria parecer chata. Sorri amarelo e saímos. Decidimos que estávamos com fome e fomos até uma lanchonete ali perto. O hambúrguer era tão engordurado que usei o pacote de guardanapos inteiro oferecidos pelo garçom.

Lola: Nunca mais volto aqui. Viu como aquele cara ficou me olhando?

Olhei pro homen que ela indicou. Não havia reparado nele até ela falar, muito menos se ele a encarava ou não. Só dei de ombros sem ter o que responder e saímos da lanchonete.

Lola já estava se despedindo quando arrisquei a perguntar.

Eu: Tu sabe onde fica isso? – indiquei o endereço que Kurt me deu.

Lola: Não fica muito longe daqui. É só tu… – ela falou onde eu devia ir, que ônibus pegar, em que parada descer e eu ouvia muito atentamente pra não perder nenhum detalhe.

Eu: OK. Valeu. – ela sorriu e caminhou na direção oposta da que eu deveria ir.

Coloquei meus fones e segui todos os passos que guardei na memória. Logo eu estava sentada dentro do ônibus, olhando pela janela nervosa de não conseguir identificar onde descer. Mas eu consegui. Em um pulo, desci do ônibus e não precisei caminhar mais que dois passos até chegar ao prédio que Kurt havia anotado.

Verifiquei umas cinco vezes e era realmente o lugar certo. Olhando as pessoas em volta, me arrependi de não ter pedido um blazer emprestado a Lola. Pessoas bem vestidas entravam e saíam com cara de ocupadas e entediadas ao mesmo tempo. Sem acreditar no que via, entrei no prédio.

Ao entrar, me senti ainda mais perdida e deslocada. Pessoas me empurravam a todo o momento. E sentindo uma felicidade muito grande, avistei um balcão onde trabalhavam duas mulheres. Caminhei até lá rapidamente e pedi algumas informações.

Apenas uma delas me olhou. Me encarou, na verdade. Como se eu cheirasse mal e estivesse me vestindo como uma palhaça. Ela demorou, mas respondeu a contragosto. Dei as costas a ela sem agradecer e achei o elevador.

Fiz de tudo pra parecer invisível naquele elevador em que subiam cada vez mais gente apressadas e impacientes. Olhava apenas para os números em cima das portas esperando o andar 9, sem me atrever a olhar para a cara de ninguém. Saí quando as portas se abriram. Apenas eu e mais um menino saímos. Ele parecia tão nervoso quanto eu, mas se vestia muito mais de acordo com a situação.

A sala em que entramos era bastante grande e havia umas vinte cadeiras não tão confortáveis ao canto. Sentei em uma delas. Havia também um balcão, não tão grande quanto o da entrada, mas onde cabia com conforto uma mulher. Ela parecia entediada, escrevendo em seu computador sem ao menos precisar olhar para o teclado. Vez ou outra, parava para chamar um nome em uma lista posta ao seu lado.

Guardei meus fones, nervosa e foi aí que comecei a ouvir os murmúrios de nervosismo ao meu lado. Sim, se tratava de entrevista de emprego e era tão claro quando o teto daquela sala de que eu não iria conseguir. Olhava para os lados e via os meus supostos concorrentes. Todos muito bem distintos e provavelmente muito bem preparados. Já que devem ter se preparado para isso a semana inteira. Devem até mesmo ter ensaiado o que falariam na frente do espelho.

Era injusto eu não ter tido essa mesma oportunidade. Era injusto que eu estivesse ali, com uma chance daquelas e ao mesmo tempo sem chance nenhuma. Não vai sobrar duvidas de que eu não seria uma boa funcionária pra fazer o que fosse comparada as outras meninas ao meu redor. Com maquiagem que realçava o belo formato de seus rostos e com seus belos sorrisos ensaiados.

Eu suava como se estivesse em uma sauna e minha vontade de sair correndo pela porta para matar Kurt aumentava a cada segundo. Mexia as pernas e as mãos constantemente, tentando me controlar. Ficava imaginando uma morte lenta e dolorosa pro filho da puta enquanto meu coração batia cada vez mais forte.

Alguém tossindo ao meu lado acabou me acordando da brisa nervosa no meio de todo mundo. Uma menina até me olhava estranho. Eu a encarei, já sem nenhuma paciência nenhuma e com ninguém. Ela se esquivou. Acho que ficou com medo de mim. Não sei. Respirei fundo. Pobre garota. Provavelmente era ela quem ficaria com o emprego. Cabelos louros, longos e brilhosos. Uma verdadeira princesa.

- MADU?

Levei meu segundo susto e olhei em direção o grito. Era na mesma porta em que entravam e saiam os candidatos. Meu pai cumprimentava os três que saíam enquanto a secretária chamava mais três nomes.

Secretária: Jorge Araújo, Fernanda de Souza Almeida e Maria Eduarda Bellini.

Me levantei junto com os outros dois chamados, sem tirar os olhos de meu pai que me encarava, petrificado.

Eu: Pode dizer que a Maria Eduarda nunca apareceu. – eu falei em alto e bom som olhando para ele, mas claramente o recado havia sido para a secretária que parecia repentinamente interessada ao seu redor.

Saí rápido da sala e corri até o elevador, mas ele demorou o suficiente pra que meu pai me alcançasse. Foi só aí que vi Fernando. Os dois me olhavam com cara de preocupados. Bufei.

Pai: O QUE TU TÁ FAZENDO AQUI? O QUE TU DESCOBRIU?

Eu: Não descobri nada dos teus podres daqui não, pode relaxar. – não gritei de volta, mas falei brava o bastante para o corredor inteiro ouvir.

Pai: MAS ENTÃO O QUE…

Eu: Consegui uma entrevista aqui, sim. Vou trabalhar a partir de agora. Pode esquecer que eu existo. Pode comemorar. – fingi alegria com as mãos. E cliquei de novo no botão do elevador.

Fernando: Tu não pode trabalhar aqui, Madu. Pra tua própria segurança.

Eu: Desisti no momento em que vi vocês. Nunca mais piso aqui.

Pai: Olha, se tu tá putinha só porque eu viajei sem avisar, eu vou dizendo que… – pela primeira vez em muito tempo me sentia corajosa o bastante apara me virar diretamente pra ele e o encarar de queixo erguido.

Eu: “Pai”, vou falar com todas as letras: Eu não quero mais contato contigo. Não to “putinha” ou dando ataque como deve estar passando pela tua cabeça. Eu simplesmente vivo melhor assim e Dudu também. Tu faria um grande favor se nos deixasse em paz e vivesse tua vida longe de nós.

Eu falei com firmeza e calma pra que ele entendesse cada palavra. Ele chegou mais perto. Perto o suficiente pra que eu seu sentisse seu bafo.

Pai: Tu sabe melhor que ninguém que nunca tive total interesse em ti. Não to dizendo isso pra ser mau ou te magoar. Eu apenas tenho os meus motivos. Te criei em respeito a tua mãe, minha mulher. Tu sempre foi desse jeito. Se achando crescida e superior a todo mundo. Mas não passa de uma menininha que precisa de colo quando não tem leite quentinho a sua espera.

Saber de tudo isso, eu já sabia. Se doeu ao ouvir? Menos do que eu esperava. Foi quase libertador. Ele ficava sempre escondendo em um “eu sou teu pai”. Agora disse o que realmente pensava. Eu ficava aliviada em saber que não era maluca em pensar o que pensava sobre meu pai. Não era normal o nível de filho da putice que ele fazia comigo e eu ficava satisfeita em ter certeza disso.

Encarei-o com desdém e sorri.

Eu: Eu já sabia de tudo isso. To longe de me importar. Agora, em relação ao “menininha” acho que não. Não existe nada que nos deixa mais forte do que perder a única pessoa que nos dava equilibro no mundo. – eu disse a última frase olhando pro chão. Nunca havia pensado nisso e foi bom perceber nesse mesmo momento. – não sou mais uma menininha, não sou mais uma pirralha alienada desde que levantei no dia seguinte a morte da minha mãe com o queixo erguido.

Olhei pra ele que parecia me estranhar. Eu sorri e entrei no elevador que finalmente havia chegado. Ele gritou antes das portas se fecharem:

Pai: Só saiba que nunca vou desistir de Dudu.

Respirei fundo quando percebi que estava sozinha no elevador. Coloquei as mãos no rosto. Não sabia quando que eu estava mais nervosa, quando entrei no mesmo elevador para subir e fazer a entrevista ou nesse momento. Descendo e pensando no que fazer a seguir.

As portas abriram e eu não tive outra reação senão correr. Correr o mais rápido que conseguia, o mais longe que pude, eu fui. Sem olhar pra trás, sem pedir desculpas para as pessoas em quem eu esbarrava. Foi um momento libertador por alguns segundos. Quando parei, tentei recuperar o folego em uma praça qualquer. Já não fazia a menor ideia de onde eu estava. Sabia apenas que era em um bairro nobre, pelas senhoras que passavam.

Não demorou muito pra que eu visse um táxi passando devagar. Corri até ele e sentei no banco do passageiro.

Motorista: Pra onde?

Pensei por um momento. Eu já havia pensado demais. Já tinha tudo na minha cabeça. Todas as desculpas e explicações que daria. Eu só precisava da coragem em bater na porta dele. Teria de fazer isso mais cedo ou mais tarde. É o inicio da era “Madu não sendo uma pirralha alienada”. Afinal, tudo começou quando ele disse “cresce”. Ele foi o primeiro a ter coragem de dizer isso na minha cara. Eu tenho que ter coragem em dizer que sinto falta dele.

Se vai me perdoar e me ajudar a ser menos alienada não sei, mas eu iria sim na república onde Lipe morava. 

Estava anoitecendo e a república parecia mais movimentada do que eu esperava. Subi algumas escadas e bati na porta um pouco mais nervosa do que antes. Quem atendeu foi um cara alto e usando óculos enormes. Percebi o quanto os olhos dele ficavam pequenos através das lentes grossas. Tentei não prestar muita atenção nisso enquanto ele me encarava esperando eu me apresentar.

Eu: Hm. Oi.

Ele: Oi.

Silêncio.

Eu: Ah, eu to procurando o Felipe. Ele mora aqui, certo?

Ele: Lipe? Sim. Entra aí. – ele abriu mais a porta e me deixou entrar.

Fiquei tonta no mesmo segundo. O cheiro de dentro da sala era quase insuportável. Misturava cheiro de nicotina, maconha e perfume. Mas o perfume era tão doce que acabava sendo tão ruim quanto o resto. A luz da casa parecia ser vermelha, pois todos os móveis ali em volta pareciam da mesma cor. Era bem ruim de olhar para a cara de cada um dos meninos ali. Havia uns oito. Todos animados.

Estava em duvida se iriam dar uma festa ali ou se iriam sair, mas um deles me respondeu gritando:

- Cês vão demorar muito, seus viado? To esperando há meia hora já.

Alguns segundos depois do grito, um deles olhou pra mim e todos os outros notaram minha presença. Se tava ruim até ali, só piorou com todos aqueles meninos me olhando. Alguns de um jeito curioso, outros desconfiados e parte deles sorrindo e me avaliando. O mesmo guri que abriu a porta me apresentou como amiga de Lipe e indicou onde eu deveria ir pra chegar ao quarto dele.

Agradeci e segui o caminho indicado, tendo a sensação de ser observada. Bati na única porta em que estava trancada. Senti meu coração pular. Eu sabia tudo o que tinha de dizer, mas naquele momento desapareceu tudo da minha cabeça. Em segundos ele abriria a porta e me olharia com desprezo. Exatamente como da última vez e eu não diria nada, ele bateria a porta na minha cara. Era isso que ia acontecer.

Não ouvi barulho nenhum dentro do quarto, resolvi ir embora o mais rápido que conseguia antes que ele percebesse que ali na porta havia alguém. Me virei sem fazer barulho e ia embora quando vi os meninos amontoados atrás de mim, me olhando com apreensão. Um deles se adiantou e bufou.

- Lipe é sempre assim. Não esquenta. – caminhou até a porta e deu três chutes nela, berrando: LIPE, ACORDA SEU FILHO DA PUTA. TEM MINA PRA TI.

Quando percebi já era tarde demais. Ele já havia batido na porta, os outros já riam da cena e Lipe já abria a porta coçando os olhos e com os cabelos mais bagunçados que o normal. Mesmo que ele lute pra não parecer tanto.

Lipe: Madu? O que tu tá fazendo aqui? – ele perguntou assustado quando me viu no meio da galera dele.

Ele não esperou a resposta, abriu mais a porta pra que eu pudesse entrar e fechou no mesmo instante. Sem, ao menos, me deixar agradecer o menino que me ajudou. Também não sei se conseguiria dizer alguma coisa depois de ver Lipe ali, com cara de sono e desajeitado.

Lipe: O que tu tá fazendo aqui? – ele perguntou novamente, mas com um tom mais ríspido do que o da primeira vez. Talvez tenha se lembrado da nossa última conversa.

Tentei não olhar pra ele, apenas sentei na cama e olhei em volta.

As paredes eram cobertas com imagens de skates e bandas clássicas onde sempre destacava o guitarrista ou o baixista. Em uma das paredes, havia um mural, mas não havia fotos lá. Eram pedaços papeis, com teorias e palavras que eu não entendia. Talvez fosse de outra língua ou eu era apenas burra demais pra entender. Ele reparou a expressão no meu rosto e cochichou:

Lipe: Faço faculdade de psicologia, preciso ler esse tipo de artigo.

Eu: Ah.

O quarto estava todo bagunçado. Roupa pra todo lado. Eu poderia observar o quarto por horas, mas ele sentou na ponta da cama, a certa distancia, e ficou me olhando como quem me obrigava a dizer alguma coisa.

Me sentia mal, mas não tinha jeito. Olhei pra ele e pensei por onde começar. Eu treinei passo a passo tudo o que falaria. Mas agora, olhando diretamente em seus olhos, eu já não conseguia esconder o nervosismo. Esqueci de tudo o que tinha a dizer. Suava e batucava minhas mãos nas minhas pernas tentando não surtar.

Respirei fundo, olhei pra frente e desatei a falar.

Que se foda, vou falar qualquer coisa que vier na minha cabeça. Eu já estou aqui mesmo, o máximo que poderia aconteceria é ele me expulsar do quarto, da república, na frente de todos aqueles garotos.

Eu: Tu disse que eu poderia te procurar quando deixasse de ser uma criança, não é?

Lipe: Eu não disse essas palavras…

Eu: Mas foi isso o que quis dizer.

Silêncio.

Eu: Naquele momento, confesso, não entendi muito bem o que aquilo queria dizer. Mas como uma coincidência enorme, tudo o que aconteceu depois daquela noite só me fez perceber que tu tava certo.

Lipe: Tu acha que cresceu em, sei lá, dois dias?

Eu: Não. Eu só… – respirei fundo, sem olhar pra ele – sabe, eu sou uma pessoa orgulhosa. Não costumo admitir meus erros nem pra mim mesma, mas cá estou eu. Falando o que eu mais temia. Que eu preciso de alguém. Preciso de alguém pra me ajudar a crescer de verdade. Não sei se tu entende… Ah, claro que não. – eu ri, nervosa – eu só… me sinto sozinha na maior parte do tempo. Sozinha e perdida. Sem saber o que fazer.

Dei de ombros

Eu: É difícil aturar uma rotina? Com hora pra chegar em casa e pais pegando no teu pé o tempo todo? Ligando pra saber onde tu está? Com certeza, é muito chato e talvez seja até insuportável, mas… não ter nenhuma segurança de que alguém realmente se importa contigo… não ter ninguém que faça um bolo no teu aniversário ou faça um chá quando tu estiver doente, é… muito, muito pior.

Silêncio.

Eu: Eu sei que tenho Luck. Uma das únicas certezas no mundo de que tenho é que Luck vai estar do meu lado. Sempre que eu precisar, mesmo quando não merecer. – dei de ombros novamente – mas o fato é que, minha vida inteira, eu necessitei da minha mãe. Pra tudo. Ela não era daquelas que te sufocava de tanta preocupação, mas tava sempre ali quando eu precisava. SEMPRE. Era uma segurança que eu tinha desde pequena.

Eu sorri, lembrando das várias conversas constrangedoras que tivemos.

Eu: Minha mãe era a pessoa mais otimista e esperançosa que conheci. Isso me fazia bem. Me fazia bem acreditar que as coisas eram simples e que no final daria tudo certo como ela sempre dizia. Ela achava que um dia eu teria uma relação boa com meu pai, mas isso não aconteceu nem mesmo depois de sua morte. Nunca vai acontecer. Ela me deixou de repente e eu não tenho mais segurança nenhuma. É assim que me sinto. Sem chão. Sem propósito de vida. Tu consegue entender o que to querendo dizer?

Respirei fundo e levantei a cabeça. Reparei que ele estava com o olhar vidrado na porta a nossa frente. Decidi continuar, tentando resumir tudo o que sentia e pensava de um jeito fácil de entender.

Eu: Talvez seja isso que tu tenha achado infantilidade. Eu não querer me prender a nada. Apenas… não querer nada. Eu sou uma pessoa confusa, Lipe. Sempre fui e no dia em que eu mesma entender o que se passa aqui – apontei pra minha cabeça – vai ser o dia em que vai nevar no Rio de Janeiro. – dei uma pausa e continuei – Sinto que preciso crescer. De verdade. Mas eu não sou uma pirralha alienada. Talvez meio perdida na própria vida nesse momento, mas não sou uma criança.

Esperei uma resposta que não veio.

Eu: Vim até aqui pra te dizer que gosto realmente de ti e que to disposta a mudar. Não por ti, mas por mim. Por nós dois talvez. Porque tu me faz bem. Mas vou entender se tu não estiver mais a fim. Sou confusa e tenho muita bagagem. Vou entender 100%. – eu sorri pra tentar amenizar o clima. Não adiantou nada, mas continuei sorrindo.

O silencio seguiu por mais uns dois minutos até Lipe abrir a boca.

Lipe: Eu não acho que tu seja uma criança. Falei aquilo porque tava com raiva de gostar tanto de ti e tu não gostar de mim. Quero dizer, eu sei que tu gosta de mim, mas talvez não tanto quanto gosto de ti. Caralho, não sou muito bom com palavras. – ele falou sem olhar pra mim.

Fiquei esperando a continuação, mas percebi que aquilo era o máximo que ele conseguia dizer.

Bufei.

Mas que guri insuportável.

Enquanto eu pensava no que dizer ele virou pra mim com a expressão séria. Como se estivesse bravo e fosse me mandar fazer alguma coisa.

Lipe: Olha, mesmo que a gente não namore nunca, tenha a certeza de que tem meu apoio. Tu vai ter sempre com quem conversar e desabafar, OK? Tu sabe onde eu moro, sabe onde estudo… enfim. É só me procurar. Liga que eu vou correndo. Não precisa ter um motivo específico, é só estar precisando de alguém. Entendeu?

Assenti assustada.

Lipe: Eu te assustei? Não era minha intenção. Só não quero que tu pense que tem só Luck do teu lado. Sei que a amizade de vocês tem muito tempo e que eu nunca vou conseguir alcançar isso, mas eu gosto de ti e me importo contigo. Então mesmo que tu não esteja preparada pra namorar sério, pode contar comigo. – ele falou mais calmo.

Esperei um pouco antes de responder.

Eu: Eu tinha um amigo. Um amigo de infância. Nós nos conhecemos há tanto tempo que nem sei dizer quanto. Achei que o conhecia bem, mas nos distanciamos quando vim pra cá. Ele era do tipo de amizade que a gente pensa que distancia nenhuma abala, sabe? Mas Luck disse que ele mudou tanto que eu não o reconheceria. Queria não acreditar nisso, mas Luck não diria isso se não fosse verdade. Os dois eram tão amigos quanto ele e eu. – dei de ombros – o tempo que a gente conhece uma pessoa nem sempre é o mais importante. A gente tá sempre mudando. Talvez eu conheça meu amigo de uma época que já acabou, mas não o de agora.

Lipe: Tu é realmente daquelas pessoas chatas que falam que temos de aproveitar o momento e não pensar no passado? – ele me olhou com um sorriso debochado no rosto.

Eu: Não. Não sou.

Lipe: É sim. – ele riu.

Mesmo não concordando, eu ri junto. Não sei bem o porquê, mas foi contagiante. Principalmente depois de tanto tempo com o coração na mão, sem saber a reação dele. Rimos até dar dor na barriga e o silencio tomar conta do quarto gradativamente.

Eu deitei na cama dele e me estiquei confortável, respirando de um jeito aliviado.

Eu: Lipe, que merda é essa? – eu voltei a rir apontando pro pôster exatamente acima da cama, colocado no teto, onde ilustrava uma mulher segurando uma guitarra e com os seis a mostra.

Lipe: AH! – ele colocou uma mão na cabeça tentando pensar no que dizer.

Eu: Fala de mim, mas deve ser daqueles moleques tarados que vê hentai.

Lipe: Hentai? Tu tá louca? Eu nunca assisti hentai.

Eu ria do jeito desesperado dele de me convencer que não via hentai, mas eu fingia que não acreditava.

Lipe: Ah, vá se foder. – ele deitou do meu lado e ficou olhando pro pôster.

Eu: Esses seios são surreais.

Silêncio.

Lipe: Madu… tu é bi?

Eu: HAHAHA. Não, mas eles são fascinantes.

Lipe: É, tu tem razão.

Capítulo 55 ->

Capítulo 53: AP renovado.

Eu: Como assim ele vai voltar?

Dudu: Ele disse que já tá resolvendo tudo e que vai voltar assim que der.

Dudu contou a novidade, sério. Não teve nenhuma reação de alegria ou alívio e também não parecia esperar isso de mim. Acho que finalmente temos o desgosto em comum pela mesmo pessoa, mesmo que essa pessoa seja nosso pai.

Eu: Se ele voltar…

Dudu: Eu to bem na casa de Nick. Muito bem, bem como nunca estive… ou talvez só quando a mãe ainda era viva. Não vou trocar isso pra morar com um cara torto tipo ele. Voltei a ter uma família, Madu.

Era exatamente essa resposta que eu esperava ouvir e fiquei muito feliz por isso. Tinha muito medo que meu pai conseguisse fazer a cabeça de Dudu e o fizesse voltar pro inferno que é viver em sua companhia. Não acho que meu irmão tenha que ficar preso pelo resto da vida simplesmente por ser nosso pai. Na verdade, ele não precisou fazer muito esforço pra ser pai.

Quero dizer, o único esforço foi convencer minha mãe a dar pra ele e mais nada.

Eu: Se ele entrar em contato contigo de novo, me avisa. Não deixa ele se aproximar muito de ti e mantém a cabeça no lugar. Nada de ficar ouvindo os discursos moralistas e mentirosos dele, OK?

Assentiu.

Fomos sentar nos escorar em qualquer lugar disponível porque o clima não era dos melhores. Não consegui tirar meu pai da cabeça depois daquilo. Ele podia mesmo obrigar Dudu a morar com ele, já que ele é menor de idade, mas se os pais de Nick brigassem na justiça pela guarda, de jeito nenhum que meu pai ganharia.

Ele é só um velho bêbado e, até onde eu sei, agora sem nada no bolso. Os pais de Nick são ricos, simpáticos e a gente consegue sentir a felicidade deles de longe. Nenhum juiz tiraria Dudu daquela casa. É o que eu espero.

Poderia me obrigar a ir morar junto também, mas isso nem vai passar pela cabeça dele. Deve é comemorar quando souber que não precisa mais me bancar.

Não percebi o tempo passar com tanta merda pra pensar.

Não falei com Luck depois da nossa “briga”, mas duvido muito que ele tenha ficado realmente puto. A gente não precisa mais pedir desculpas um pro outro. Acho que nossa amizade já passou de estágio. E isso não vai mudar nunca, ou até nossa amizade acabar. 

Parei e bebi um gole grande pensando nessa possibilidade desastrosa.

Me imaginar longe de Luck é tão ruim quanto imaginar Dudu fora da minha vida. Tentei realmente parar de pensar essas merdas porque isso não podia acabar bem. Foi impossível não voltar a pensar em Lipe.

Filho da puta.

Por que é que me fez gostar dele e depois foi embora? Foda-se que talvez eu tenha 50% de culpa nisso. Foda-se. Ele não podia ter ido. Era como se o dia do “será que sou uma vadia?” estivesse se repetindo de novo. Só que dessa vez mais intensamente, porque eu já tinha memórias suficientes pra me corroer pelo resto do dia. Afinal, aquele abraço aconchegante não é qualquer um que tem. O jeito com que ele penteava o cabelo e eu o bagunçava até deixar do jeito que gosto.

Minha respiração tava acelerando de um jeito estranho, peguei o copo da mão de Dudu e virei. Me arrependi na mesma hora. Minha garganta gritou que eu estava sendo estúpida e rejeitou a bebida. Cuspi de volta e devolvi a Dudu. Ele olhou pro copo com cara de nojo, mas eu não liguei. Precisava me acalmar de algum jeito e foi aí que eu vi um maço de cigarros na minha frente. As pessoas fumam quando estão nervosas, tem que funcionar comigo também.

Peguei um e acendi com o isqueiro que estava do lado. Não sei de quem era, mas foi idiota de deixar jogado e agora é meu. Coloquei o isqueiro no mesmo bolso do celular pra não perder e continuei a fumar. Um de cada vez, com calma e aproveitando cada tragada. Respirando fundo e deixando a fumaça tomar conta da minha visão.

Logo depois consegui uma cerveja e fiquei feliz, intercalando entre os dois. Percebi que fazia um tempo considerável que eu não ficava bêbada. No máximo brisada, do tipo “cadê Lipe? Preciso procurar. Cadê?” E acabar sendo encoxada por um hipster babaca, mas nada demais. Não sei se era um progresso. Não sei se isso merecia um brinde, só sei que continuei bebericando aqui e ali sem me preocupar em ter acabado de sair de um hospital.

.

Acordei com alguma coisa roçando em mim. Abri os olhos, sonolenta e fui ver o que me incomodava. Era Nick. Estávamos no quarto de Luck e ele dormia atravessado na cama como se tivesse tentado encontrar uma posição confortável, mas dormiu antes disso. Acabou deixando o boné em cima de mim. Peguei o boné e voltei a dormir.

.

- Maduzinha?

Eu: Hm? – abri os olhos de novo, ainda agarrada com o boné.

Luck: Preciso da tua ajuda pra arrumar tudo antes que os caras dos móveis cheguem. Eles me ligaram e vão chegar em vinte minutos.

Eu: Por que tu não me avisou antes que eles iriam chegar tão cedo?

Luck: São quatro da tarde.

Eu: Ah. – levantei devagar, com a mão na cabeça. Não sabia o que fazer com o boné, já não via Nick por ali. Então o coloquei na cabeça. Luck ficou me olhando estranho, mas deu de ombros.

Fui até o banheiro e joguei uma água na cara. Percebi a quantidade de lixo que tinha pela casa. Nem tinha tanta gente assim, mas tem babaca que se abusa, puta merda. Respirei fundo e peguei um saco grande de lixo que achei no banheiro e coloquei meu tênis depois de ouvir o grito de Luck.

Luck: UM IDIOTA QUEBROU TRÊS GARRAFAS NA SALA. NÃO VEM DESCALÇA. FILHO DA PUTA.

Fui até lá ver o estrago e colocamos a mão na massa.

Duas almas cansadas, como a gente, não conseguiram fazer muita coisa. Mas a casa ficou apresentável. Quatro sacos grandes de lixo cheios foi o que sobrou da noite passada. Coloquei-os na frente do prédio e voltei. Me joguei ao lado de Luck no sofá.

Estávamos cansados e Luck provavelmente com dor de cabeça, pela cara que fazia. Então conseguimos um breve silêncio no AP. Até ouvir a buzina do caminhão na frente do prédio. Luck saiu correndo e falou antes de sair.

Luck: Pelo menos eles atrasaram.

Verdade. Não conseguiríamos limpar tudo em vinte minutos nem fodendo.

Trazer tudo pra dentro foi um trabalho de, pelo menos, duas horas. E mais uma hora pra arrumar, móveis pra cá e pra lá. Haja força nos braços. Os caras foram embora quando já era noite e Luck ainda não estava satisfeito.

Luck: PORRA! EU PAGO O DOBRO DO QUE ELES ESTÃO ACOSTUMADOS E NÃO FAZEM A PORRA DO TRABALHO DIREITO.

Eu: O trabalho deles é trazer até aqui…

Luck: VOU RECLAMAR MESMO E FODA-SE. GASTEI MEU DINHEIRO NESSA PORRA E TENHO O DIREITO…

Parei de ouvir quando liguei o chuveiro e fechei a porta. O banheiro estava tão mais bonito com tudo organizado. Toalhas novas e brilhantes.

OK. Posso ter exagerado na hora do “brilhando”, mas eu já ficava feliz na organização. É impressionante como o Luck consegue ser uma “bagunça organizada”. E não só organizada, como perfeccionista. Isso era bom. Nosso AP parecia uma casa de verdade agora. Talvez ainda com um cheiro suspeito do antigo inquilino, mas duvido que isso mude morando com quem moro.

Tinha algumas coisas esquisitas, é claro. Como as almofadas verde limão que Luck insistiu que eram legais colocar no sofá velho. Mas em geral, ficou tudo muito lindo. E ver tudo assim, foi como um tapa na cara “Tu tá sozinha agora. Tá na hora de te virar, manola. Se liga” O dinheiro de Luck não ia durar pra sempre e eu nem gostaria de usufruir disso por muito mais tempo. Sei que por Luck eu poderia ser escorada, e ele ainda pagaria tudo pra mim, mas não me sentia bem nem com a ideia dessa situação. Parecia errado.

Saí do chuveiro e voltei até a sala. Luck cochilava no sofá. Cheguei até ele e tentei acorda-lo gentilmente, mas não funcionou.

Eu: LUCK!

Luck: Quê? – ele levou um susto.

Eu: Vamos comer alguma coisa.

Luck: Eu também to com fome, mas não tem nada na geladeira. – ele bocejou e eu sentei junto dele – a gente podia ir na casa de alguém pra comer.

Eu: Quem? – perguntei descrente.

Luck: Sei lá. Teu namorado, vamos lá. – ele falou a última frase como se tivesse lembrado da existência dele.

Eu: Ele não é meu namorado e a gente brigou.

Luck: Ah, vai tomar no cu.

Eu: Quê? – tentei entender o que fiz de errado.

Luck: Não quero saber da tua briga, mas tu tá errada porque agora a gente não tem onde comer. Orra. Vamo na casa daquele amigo teu que tá aturando o Dudu por nós.

Eu: Fica muito longe e o nome dele é Nick.

Luck: O quão longe?

Eu: Ele mora na mesma rua que eu morava.

Luck: Na rua das mansões? Jura? O moleque se deu bem então. Deve estar morando numa puta casa. – ele riu e logo parou – não temos onde comer. Poderíamos ir em algum restaurante, mas deve tá tudo cheio nesse horário.

Ele fez cara de deprimido.

Eu: To perdendo a fome já.

Luck: Amanhã a gente faz compras. – ele falou pra si mesmo.

Eu: Lindo. E hoje a gente passa fome.

Luck: Culpa tua. Se não tivesse terminado o namoro, já estaríamos a caminho da casa do Lipe.

Eu: CALA A BOCA, LUCK. NÃO ME ENCHE. – fiquei puta só de ouvir o nome dele. Mas é claro que o Luck não ia deixar quieto.

Luck: EU TE ENCHO SIM. TO COM FOME, PORRA! E FOI TU QUE ME ACORDOU.

Eu: PEDE UMA PIZZA E PRONTO, CARALHO!

Luck: Por que eu não pensei nisso antes? – pegou o celular e pesquisou o número de pizzarias mais próximas.

Silêncio depois disso.

Me estressei com Luck por motivo nenhum, mas ele enche o saco.

Eu: Por acaso tem prato e talheres? – perguntei pra tirar a tensão do momento.

Luck: Que mané prato, Maduzinha. Come com a mão mesmo.

Pelo jeito só eu sentia a tensão. Dei de ombros e esperamos a pizza ansiosamente. Quando chegou, eu desci e sofri pra carregar a caixa e a garrafa de refrigerante pro AP, mas cheguei viva e varada de fome.

Luck: Que dia. Puta que pariu. – ele falou enquanto abríamos a caixa e nos sentávamos pra comer.

Eu: Tu ainda pensa em alugar o terceiro quarto?

Luck: Claro, por quê? – ele limpou a boca e me olhou.

Eu: A Lola pediu pra ficar com ele.

Luck: Lola? Ruiva gostosinha? – ele puxou da memória.

Eu: Sim… eu acho.

Luck: Tudo bem. Gostei dela – fez cara de segundas intenções e voltou a comer.

Eu: Não faz essa cara. Duvido que ela ficaria contigo, na boa.

Luck: Mas por quê? Qual o problema comigo? – ele perguntou com a boca cheia.

Eu: Pffs.

Luck: Fala, caralho.

Eu: Sei lá. Só tenho essa sensação. E se tu fosse um pouco inteligente, não tentaria dar em cima de alguém que tu vai ver todos os dias. Não só ver todos os dias, mas conviver na mesma casa. A não ser, é claro, que vocês se casem.

Silêncio.

Luck: Tu tá delirando, Madu. Já tomou teus remédios? 

Eu ri e deixei quieto. Não eu não havia tomado o remédio e foda-se. Quero dizer, to melhor. Bem melhor. Mesmo com o acúmulo de problemas.

Quando terminamos de comer, Luck insistiu em instalar a nova TV, mesmo tendo tentado várias vezes.

Luck: Tem que ter um jeito de instalar isso aqui, não é possível,

Eu tentei ajuda-lo, mas não tinha muito a ser feito. No fim, deixei ele sozinho e fui até meu quarto arrumar o que faltava.

Luck comprou uma estante muito perfeita, onde dava pra guardar CDs, LPs e livros. Pena eu não ter muito pra completar ela. Acabei deixando muita coisa pra trás e nem havia percebido. Se tivesse ganhado essa mesma estante ano passado, quando ainda morava na minha antiga cidade, eu a preencheria numa boa. 

Preencher aquela estante parecia a coisa certa a se fazer. E eu ia conseguir em pouco tempo, sentia isso. Sentei na minha nova cama de casal e fiquei olhando pra estante vazia até Luck me chamar.

Luck: CORRE AQUI, MADUZINHA! CONSEGUI LIGAR! HAHAHA!

Sorri e fui até lá comemorar com ele.

-

Sentamos no sofá velho e ficamos assistindo os filmes que passavam no momento. Conforme enjoávamos, Luck trocava de canal. Até achar um onde passava Laranja Mecânica. Ele comemorou fazendo uns gestos estranhos com as mãos e gritou de emoção.

Luck: Esse filme é muito foda, Maduzinha.

Depois disso ficou falando junto com os personagens como uma segunda voz. Eu acho, só acho, que talvez ele tenha visto o filme dezenas de vezes. Quando terminou, dormi ali mesmo, sem ligar pro desconforto ou pro cheiro suspeito do sofá velho.

.

Acordei assustada com o estrondo.

Abri os olhos rápido e percebi que continuava no sofá e que o barulho tinha vindo da cozinha, onde Luck xingava baixinho enquanto mexia nas panelas.

Eu: Vai cozinhar?

Luck: Eita, porra. Achei que tivesse dormindo. – ele colocou a mão no peito e respirou por um minuto. Eu ri com o susto que ele levou e me levantei.

Luck: Comprei panelas, mas ainda estamos com os armários vazios.

Eu: Muito inteligente. – zuei enquanto caminhava até o banheiro e enxaguava o rosto.

Minha cara não estava tão ruim. Coloquei uma roupa decente e voltei pra sala.

Eu: Tu ainda tem dinheiro?

Luck: Sim, é claro.

Eu: Vamos ao mercado, então.

Luck: Quê?

Eu: A gente não pode sobreviver de pizza. – ele me olhou e assentiu como se tivesse pensado nessa possibilidade.

Me seguiu até o elevador e nos direcionamos ao mercado mais próximo. Pegamos um carrinho e começamos a andar pelos corredores, olhando para os lados.

Luck: Hm… Devíamos ter feito uma lista de compras.

Eu: Até parece que tu saberia o que escrever nela.

Luck: Ah, é.

Silêncio.

Luck: FEIJÃO! Vamos precisar de feijão – ele colocou 5 kg de feijão dentro do carrinho e silêncio de novo.

Eu: Tu sabe fazer feijão?

Luck: Não… e tu?

Eu: Também não.

Luck: Puta que pariu. Tu devia saber dessas coisas.

Eu: Eu? Por quê?

Luck: Porque sim. Tu é mina.

Eu: Tu é “mino” e devia saber jogar futebol, porém…

Luck: Cala a boca, Madu. – eu ri.

Sabia que ele sempre quis saber jogar, mas era uma bosta em esportes tanto quanto eu.

Continuamos vagando pelos corredores e colocando uma coisa ali outra coisa aqui dentro do carrinho. A verdade é que nem eu, muito menos Luck, sabíamos o que estávamos fazendo.

Eu: Ali tem miojo. Acho que devíamos levar uns dez. – ele assentiu e pegou no mínimo uns vinte.

E foi daí em diante que tivemos a decência de comprar alimentos instantâneos.

Luck: Espero que Lola saiba mesmo cozinhar. Senão é só isso que iremos comer. – ele olhou pro carrinho com o olhar triste.

Voltamos a caçar comida.

Luck: Aquele não é o Cobain?

Eu: Quem? – perguntei enquanto arrastava tristemente o carrinho pelos corredores. Olhei para onde Luck apontava. Era Kurt, com uma menina na sessão de bebidas. – por que tu chama ele de Cobain?

Luck: Não é óbvio?

Eu: Hm. É.

Decidi apenas continuar meu caminho triste de comida rápida pelos corredores. Foi quando esbarrei em um garoto (aparentemente mais novo que eu) trabalhando ali que lembrei de uma coisa.

Eu: Luck.

Luck: Hm. – dessa vez ele carregava diversos pacotes de Doritos e bolachas.

Eu: Me lembrei de uma coisa agora.

Luck: Do quê? – ele saiu correndo e voltou com os braços cheios de Toddynho.

Eu: Kurt tá me devendo uma.

Luck: Daquela vez que tu trabalhou pro pai dele?

Eu: Sim. Ele disse que qualquer coisa que eu precisasse era só pedir.

Luck: Ele não parece um cara que diria uma coisa dessas, mas prossiga.

Eu: É. Acho que foi a única vez que o vi sendo gentil. Ele tava meio desesperado também. – fiquei pensativa.

Luck: E tu vai pedir o que pra ele?

Eu: Pra me ajudar a achar um emprego. – Luck deixou os cereais que carregava cair e me olhou sério.

Luck: Tá maluca? Tu não vai confiar nele pra uma coisa tão importante. Eu não vou deixar. O máximo que ele arranja pra ti é trabalho de stripper.

Eu: Para de fumar, Luck.

Luck: Falando nisso, foi tu que fumou meu beck que tava na minha gaveta?

Eu: Não. Foi o Lipe.

Luck: Filho da puta. Eu achei estranho, porque tu não costuma fumar. Não tenho muita coisa por aqui, sabia? Não conheço ninguém nessa porra de cidade pra me reabastecer.

Eu: E eu lá tenho culpa? – perguntei ainda com Kurt na cabeça.

Olhava para os lados e não o via em lugar nenhum. Decidi voltar ao corredor das bebidas. Luck me seguiu mesmo sem saber o que eu pretendia e continuava reclamando.

Luck: Quando vim pra cá, confiei em ti. Achei que tu tivesse feito uns amigos importantes e que poderiam me ajudar nisso, mas o máximo que percebi naquela festa foi aquele babaca que tu me comparou e…

Eu: KURT! – ele olhou pra trás e Luck parou de falar.

Kurt sorriu e caminhou devagar até nós, com a guria ao lado.

Kurt: Tudo bem, Madu? – ele me cumprimentou com dois beijos no rosto e uma mão na cintura. Chamou ele, agora aguenta Maria Eduarda.

Eu: Queria falar contigo… sozinha.

Kurt: Olha, se for sobre Lipe… – ele tirou o sorrisinho da cara e revirou os olhos, mas eu o interrompi.

Eu: NÃO. Não é sobre Lipe. – fui mais grossa do que esperava, mas Kurt não teve reação alguma. Só assentiu e caminhou até o corredor do lado. Eu o segui.

Eu: Lembra  do dia que substituí a Gretchen?

Kurt: Mas é claro. – óbvio que ele lembra. Pergunta idiota.

Eu: Disse que eu podia pedir qualquer coisa…

Kurt: Eu lembro do que disse, pode pedir o que quiser.

Eu: Preciso de um emprego e seria o favor ideal se tu me ajudasse com isso.

Ele respirou fundo como se esperasse um pedido melhor e assentiu.

Kurt: Vou ver o que consigo fazer por ti.

Eu: Ah… eu não quero exigir nada, mas…

Kurt: Não vou te colocar como faxineira de um bar de esquina, Madu. Relaxa – ele sorriu.

Eu: Obrigada. – agradeci enquanto voltávamos.

Kurt: Eu vou te ajudar porque to te devendo uma, se não tivesse, não faria isso nem fodendo. Não sei pra que tanta insistência em trabalhar quando tu tem uma mina de ouro morando contigo. – ele indicou Luck com a cabeça.

Ignorei.

Luck e a guria, que acompanhava Kurt, estavam rindo e conversando como melhores amigos. Revirei os olhos pensando na rapidez daquele moleque.

Sem se despedir, Kurt colocou a mão nos ombros da menina e saiu. Antes de desaparecer por completo gritou o que eu não tive coragem de perguntar:

Kurt: Te ligo amanhã mesmo. Pode relaxar.

Peguei o carrinho e continuei meu caminho, com Luck me perseguindo. Ele me observava pelo canto dos olhos, sem dizer nada, mas deixando claro tudo o que passava pela cabeça dele no momento. Luck é bem previsível. É capaz dele não falar nenhuma palavra até que eu pergunte. Por isso deixei quieto. Até a mulher da caixa estranhou o clima e eu fingi não notar.

Chegando no AP, eu não aguentei mais o silêncio e olhei direto pra ele.

Eu: Fala, Luck. Pode falar.

Luck: EU NÃO ACREDITO QUE TU TÁ CONFIANDO NAQUELE FILHO DA PUTA DO CARALHO! – ele ergueu os braços e berrou como se tivesse entalado.

Eu: Não sei mais onde procurar.

Luck: TU NEM PROCUROU, PORRA.

Eu: Luck, eu não conheço nada aqui. Te acalma. Eu lembrei desse favor que ele me devia, se der certo ótimo, se não eu procuro em outro lugar, entendeu?

Luck: Tá bom. – ele deu de ombros, acendeu um cigarro e saiu.

Não. Nada de “tá bom”. Suspirei. Não tinha certeza de que esse favor daria certo, mas eu não podia deixar passar. Quem sabe essa não era a solução. Foi fácil de conseguir, achei que teria de implorar a Kurt. Que ele não concorda com essa história de eu querer trabalhar não é novidade.

Sentei no sofá velho e cheio de pó para pensar no que fazer. Respeito Luck mais que qualquer um nesse mundo. E agora eu deixei ele puto. Acho que de verdade dessa vez. Ou não. Olhei reto e vi nossas compras no balcão.

Comida. Nunca soube cozinhar, mas também nunca tentei. Poderia aprender e fazer alguma coisa legal pro Luck ficar de boca cheia e deixar de ser puto comigo.

Pesquisei diversos vídeos na internet e acabei tentando fazer uma lasanha. Sei que Luck adora. Quero dizer, todo mundo gosta de lasanha. Nos vídeos parecia muito fácil, mas logo quando peguei os ingredientes percebi que a minha lasanha não ficaria tão bonita quanto a da tia do youtube.

Preparei tudo e coloquei no forno. Sentei nervosa, olhando para o fogão novo. Vinte minutos depois, Luck entrava pela porta e olhou estranho pra cozinha bagunçada.

Luck: O que aconteceu? Que cheiro é esse? – eu apontei e ele foi ver. – isso é lasanha? Tu fez lasanha?

Ele começou a rir descontroladamente. Estava prestes a mandar ele se foder quando veio me abraçar.

Luck: Tu é uma figura, Maduzinha.

Eu não disse nada e dei de ombros. Organizamos as coisas e coloquei pratos no balcão que serviria de mesa pra nós.

Eu: Se eu chamasse Dudu, tu ficaria puto de novo?

Luck: Tudo bem. – peguei meu celular – e eu não fiquei puto. Só decepcionado. Ainda to. Não gosto do Cobain. Por mais que o nome dele seja foda.

Dudu: Não posso ir agora, Madu. Ainda to na escola. Mas daqui a pouco eu passo por aí, pode ser?

Eu: Escola?

Dudu: É. Primeira semana de aula. Tu não sabia?

Eu: Claro, só tinha esquecido.

Dudu: OK. Daqui a pouco eu chego aí… Ah, o Nick vai junto. Tchau.

Desliguei.

Eu: Luck, tu sabia que essa é a primeira semana escolar?

Luck: Não sei nem que dia é hoje.

Pelo menos não era só eu.

-

Luck: MADU, O MOLEQUE TÁ CHAMANDO NO PORTÃO.

Eu: Vai lá abrir.

Ele bufou e desceu enquanto eu terminava de colocar mais dois pratos no balcão.

Minutos depois Dudu e Nick entraram atrás de um Luck rindo atoa. Não entendi o porque até ver o que os dois estavam usando.

Eu: Mas que porra é essa?

Nick: Nossa obrigação é usar isso, não zua.

Eu: OK. – assenti e tentei não olhar mais praquele uniforme bizarro. Era verde limão e azul. Realmente esquisito, mas dei de ombros.

Nick parecia meio pra baixo, seria mancada fazer piada. Luck não parou pra pensar nisso, é claro. Mas eu deixei quieto.

Sentamos a mesa e Dudu desandou a falar sobre como a escola era grande e bonita. Nick só concordava com a cabeça e eu fingia interesse.

Dudu: É muito foda. Tu devia estudar lá com a gente, Madu.

Hell no?

Eu: Não acho que conseguiria pagar uma escola dessas. – ele abriu a boca e eu continuei rápido – E nem me encaixaria lá.

Dudu: Claro que se encaixaria, por que não?

Luck: Porque é colégio de playboy. Cheio de moleque idiota que se acha superior por nascer num berço de ouro. Tem pessoas que não são assim? Provavelmente, mas são tão poucos que não dá nem pra considerar. Os professores exigem tanto de ti, como se tu fosse um robô e não pudesse mexer um dedo sem autorização. Até parece que isso é ensino. – Luck que havia ficado quieto até agora se manifestou agressivo – Madu é inteligente demais pra pertencer a um lugar tão limitado a gente pau no cu.

Silêncio.

Dudu parecia estar ficando bravo e Nick sorria.

Luck: Tá rindo de que, maluco?

Nick: Tu acabou de descrever exatamente como minha escola é sem ter estado lá. – ele parecia impressionado.

Luck: Nunca estive na tua, mas vivi saindo de uma escola e entrando em outra. Essas escolas de playboy são tudo igual. Quanto mais caro tu paga, menos liberdade tu tem pra ser tu mesmo. Eles querem é que tu seja um logotipo pra poder mostrar pros outros. “Olha como nossos alunos são comportados e humildes”, mas saindo dali é tudo um bando de mimado do caralho.

Silencio de novo.

Dudu tava com cara vermelha de raiva e Nick parecia mesmo admirar Luck mais que tudo nesse momento. Aquela cena tava estranha, então tentei trocar de assunto. Mas o clima tava pesado mesmo. Quando pairou o silêncio de novo olhei pro Nick e reparei que ele estava sem boné. Lembrei que tinha deixado no meu quarto e levantei para buscar.

Quando voltei, coloquei-o na cabeça dele e sentei de novo, olhando a reação que ele teria.

Nick: Não sabia onde tinha deixado. – ele sorriu e agradeceu ajeitando o boné pra não tapar os olhos.

Foi o primeiro sorriso que eu vi ele dando desde que chegou e fiquei satisfeita. Depois disso, o tempo passou rápido. Quando os dois resolveram ir embora, já anoitecia. E ao me despedir de Nick, cochichei séria.

Eu: Se precisar de alguém, sabe que sou tua amiga, certo? – ele pareceu surpreso, mas assentiu, sorrindo.

Luck: Teu irmão continua o mesmo coxinha de sempre. – ele disse fechando a porta e sentando no sofá.

Fingi que não ouvi e decidi organizar a cozinha. Não levou muito tempo pra eu me irritar e sair de casa levando os cigarros de Luck escondidos. E me sentei em frente ao prédio, escorada na parede amarela. Fumava com calma. Observar a fumaça saindo da minha boca e de dissipando com o frio da rua era viajante e até libertador. Como se fosse a coisa mais importante a se reparar no momento.

Quanto mais escurecia, mais a rua das Galáxias ia enchendo e tomando o formato que eu conheci primeiramente. Eu sorria ao olhar onde fui parar. Acho que nunca vou encontrar lugar melhor.

E enquanto eu olhava o movimento, reparei em um velho olhando para o chão. Ele deixou alguma coisa cair e não conseguia achar com a escuridão embaixo das árvores. Estava mesmo muito fácil dele ser assaltado e eu temia por ele. Resolvi vestir minha capa de super-heroína e ajudar o pobre velho. Ao chegar mais perto, ouvi os resmungos sobre “chaves”. Elas brilhavam no chão. Me abaixei e peguei, sem reação.

Eu: Senhor, está aqui suas chaves.

Velho: Pois me dê logo, já to atrasado.

Antes que eu lhe entregasse o molho, olhei diretamente nos olhos e consegui perceber, mesmo com a escuridão, que o velho era cego. Devolvi e ele foi embora, resmungando.

Eu: Ingrato. – cochichei pra mim mesma.

Quando ia voltando, vi Luck com a cabeça pra fora da janela do meu quarto olhando para os lados. Não sabia dizer se estava maravilhado pelo que via ou se me procurava.

Antes de voltar, passei em um bar pra pegar alguma coisa pra beber. Sabia que havia comprado no mercado mais cedo, mas não estava a fim de subir. Fiquei indecisa se eu poderia entrar com o cigarro, mas via gente saindo e entrando com cigarro na boca, então arrisquei.

E deu tudo certo. O carinha não encrencou com minha idade, pelo menos. Acho que ele não se importava. Peguei minhas duas garrafas e voltei pra frente do prédio. Me escorei na parede novamente e fiquei por lá. Quem me olhava de longe poderia achar que tava deprimida ou sei lá, mas não era nada disso. Me sentia aliviada por ter resolvido um dos meus problemas, mas também me sentia apreensiva por Dudu. Será que ele tava voltando a ser o que era antes? Ou nunca mudou de verdade? E isso era o que perturbava Nick?

Chacoalhei a cabeça e tentei não pensar nisso quando vi Luck descendo. Tava perfumado e com um grande sorriso no rosto.

Eu: Vai onde todo arrumado assim? – perguntei sem que ele me visse.

Luck: PUTA QUE PARIU! – ele deu um pulo. – Que caralhos tu tá fazendo aí, Madu?

Ele me olhou com cara de quem esperava uma resposta.

Eu: Não to fazendo nada, ué.

Luck: Tu tá fumando.

Eu: Pois é.

Luck: MEUS cigarros.

Eu: Pois é.

Ele bufou e sentou ao meu lado, em silêncio. Pegou um e acendeu também.

Luck: O que acha que tá fazendo?

Eu: Sentada, olhando o movimento. – ele me olhou, sério. Dei de ombros.

Luck: Tu anda muito fuck the police. Curti no começo, mas agora tá me preocupando.

Eu: Mas eu só…

Luck: Me deixa terminar. Quando te conheci, quase te obriguei a colocar um pingo de álcool na boca. Fumou pouquíssimas vezes e maconha quase nunca. Só mesmo quando estava perto de pessoas que tu conhecia. O que aconteceu com essa Maduzinha que tinha juízo?

Eu: Acho que essa Maduzinha tá um pouco fodida no momento. – eu ri sem saber o porque – tu não espera que eu continue a mesma pro resto da vida, certo?

Luck: Mas olha pra ti agora. Jogada na rua, parecendo sem forças pra levantar e enfrentar tudo. Não é essa a Madu que eu conheço e admiro pra caralho.

Eu: Mas é essa a Madu que eu sou hoje. Uma covarde. – olhei diretamente nos olhos dele.

Luck: Eu duvido. – ele fez que não com a cabeça – tu só tá fodida agora. E vai ficar fodida até resolver levantar a bunda do chão.

Eu: Eu tentei fazer alguma coisa, tu sabe. Isso me sobrecarregou tanto que parei no hospital.

Luck: O teu problema é pensar demais e fazer de menos. Fica aí achando que todas as merdas na tua volta tem a ver contigo e os problemas que estão na tua cara e que tu pode resolver, ficam de lado.

Silêncio.

Luck: No que tu tava pensando antes deu chegar? – dei de ombros. – fala, porra.

Eu: Lipe.

Luck: Lipe, claro. Então, o que te impede de ir até a casa dele e pedir desculpas?

Eu: Mas tu nem sabe o que aconteceu.

Luck: Foda-se. Se tu ficar se apegando aos detalhes, nunca vai ficar completamente satisfeita. Não interessa se a culpa é dele ou tua. Tu tá sentindo a falta do moleque e eu tenho certeza que ele sente tua falta também. Se tu pedir desculpas e der um beijos, vocês voltam a ficar de boa como antes e um problema a menos na lista.

Pausa pra tragar.

Luck: Em vez de ficar se remoendo pelos problemas que aparecem a todo instante, tenta resolver um por um. Começa pelo mais simples e que vai te deixar mais forte pra enfrentar os outros. Enfrenta tua vida como uma mulher e não como uma pirralha alienada.

Ele suspirou, pegou a garrafa da minha mão e se levantou. Beijou minha testa, carinhosamente e seguiu em direção a confusão mais para o fim da rua. Bebendo minha cerveja.

Filho da puta. No fundo sempre tem razão. 

Capítulo 54 ->

Capítulo 52: Festa de estreia.

Luck: Sabe o que a gente devia fazer?

Eu: O quê?

Luck: Uma festa pra estrear nosso AP.

Eu: Tava demorando.

Ficamos em silêncio por pouquíssimo tempo e ele já vem com ideia de festa. Na verdade, eu não devia ficar surpresa vindo de Luck. Até se ele comprar um celular novo vai querer uma festa pra dar “boas vindas” ou o que for. A cabeça do Luck não funciona muito bem, eu acho.

Luck: …então, tu não acha que merecemos uma festa?

Eu: Quem? – voltei pra Terra.

Luck: A GENTE, CARALHO. Tu não tava prestando atenção em mim de novo. Desse jeito desisto de falar contigo. Tu anda muito dispersa e…

Eu: TÁ BOM, LUCK. FAZ TUA FESTA.

Luck: OK – ele assentiu e ficou me observando pelo canto dos olhos, como se tivesse medo.

Eu: Que foi, caralho?

Luck: Nada não. Acho que podemos adiar a festa pra amanhã.

Eu: Amanhã não chega a mobília?

Luck: Sim, mas e daí?

Eu: Para e pensa. O que mais atrapalha em festa dentro de casa?

Luck: Os móveis, é verdade…

Eu: Pois então…

Luck: TU TEM RAZÃO. Se a festa for hoje, pode entrar muito mais gente com a casa vazia desse jeito. – ele me interrompeu.

Eu: Quer casa cheia? E quem tu vai chamar?

Luck: TU é quem vai chamar. – ele respondeu sem perceber sarcasmo. – eu não conheço ninguém nessa cidade. Até tinha um amigo que mudou pra capital, mas nem lembro o nome dele. Pff. Tu que vai chamar teus amigos. Chama geral.

“Chama geral” coitado. Tá falando com a pior pessoa no universo pra depender de amigos. Se eu chamar as pessoas que conheci nesse tempo morando aqui, não enche nem meu quarto, imagina a casa inteira como ele quer.

Eu conheci um pessoal com o Cabeça, é verdade. E Luck nem sabia da existência desse pessoal, os conheci depois de ter conversado com ele sobre tudo por aqui pelo celular. E eu volto aqui nessa mesma rua, só que agora como moradora. Puta que pariu. Cabeça vai achar hilário. Seria legal chamar ele e o pessoal, ia ser uma festa e tanto.

Eu: Tenho um pessoal pra chamar, mas não sei se virá muita gente.

Luck: Isso não interessa. Chama guria gata que eu já volto. – ele saiu correndo e quando abriu a porta, deu de cara com Lipe de olhos arregalados.

Lipe: Eu ia bater agora.

Luck: Próxima vez seja mais rápido. Fui.

Eu: Entra. – ele sorriu e fechou a porta.

Lipe: Tudo bem?

Eu: Ahã. E contigo?

Lipe: Tudo beleza. – ele sentou ao meu lado no sofá empoeirado.

Eu: Luck vai dar uma festa.

Lipe: Sério?

Eu: Sim, ele adora dar fes… – ele me abraçou forte antes mesmo de eu terminar a pergunta. Não entendi até ouvir a palavra “hospital” no meio de vários cochichos que ele dizia. Quase me esqueci que pouco tempo atrás estava “dormindo” em uma cama. Ele devia estar realmente preocupado comigo. Não consegui deixar de sorrir e abraça-lo de volta.

Lipe: Se acontecesse alguma coisa contigo, eu iria me sentir tão culpado que nem sei. Enquanto estávamos lá, tu estava bem aí saímos por causa do AP e tu ficou mal. Não devia ter saído. – ele disse meio atrapalhado quando me largou.

Eu: Não viaja. Não tem nada do que se culpar, eu andava estressada faz muito tempo. Acho que as barbaridades do meu pai que fiquei sabendo aquele dia, foi a gota d’água de um copo que já estava transbordando, se é que tu me entende. – ele assentiu.

Tá aí uma pessoa de poucas palavras. Só abre a boca quando tem algo bom pra dizer, isso é raro. Principalmente se for comparar com uma pessoa tipo o Luck, que só cala a boca quando é extremamente necessário. Ou seja, quando tá comendo, dormindo ou em casos raros de compaixão.

Eu: Quer beber alguma coisa? – levantei e rezei pra que tivesse algum líquido dentro da geladeira velha.

Lipe: Não, valeu. – a geladeira estava vazia, havia apenas uma sacola com três cervejas. Eu esperava que fosse do Luck e não do último dono. Abri duas.

Eu: Toma. – coloquei uma garrafa na mão dele, sem ligar pra resposta.

Ele me viu bebendo e acabou cedendo.

Lipe: Tem certeza que pode beber?

Eu: Por que não poderia?

Lipe: Misturar álcool com remédio, não sei se é uma boa.

Eu: A médica não disse que eu não poderia e não é nada demais. – ele deu de ombros – como tu sabia que me receitaram remédios?

Lipe: Eles não te liberariam sem receitar nada, acredite.

Eu: Isso quer dizer que o remédio pode não servir pra nada? Ou que possam ser comprimidos de mentira? Tipo efeito placebo?

Lipe: Acho que não, mas depende do remédio. – ele ficou pensativo e eu mais ainda. – deixa eu ver a caixinha?

Entreguei a ele rapidamente, o remédio continuava no meu bolso. Ele ficou ainda mais intrigado. Resolvi pegar meu notebook e tive sorte que a internet do prédio não tinha senha.

Pesquisamos e dizia que era uma espécie de antidepressivo.

Eu: O médico disse que eu tinha transtorno de personalidade e não depressão. – me assustei.

Mas essa porra tá ficando cada vez mais séria.

Lipe: Remédios antidepressivos não servem só pra depressão, Madu. – ele respondeu enquanto olhava pra tela.

Eu: Ah.

Como que eu ia saber? Não sei nem como ELE sabia tanto.

Ficamos um bom tempo pesquisando e a coisa só ficava mais complicada. Eu estava ficando cada vez mais preocupada e assustada, quando Luck entrou do lado de dois moleques. Os três carregavam várias sacolas e caixas. Não precisava ser nenhum gênio pra saber que era tudo bebida.

Luck: Vocês estão mexendo no computador? Sério? Achei que fossem aproveitar que eu saí e…

Eu: Fica na tua, Luck.

Os moleques foram embora prometendo que voltariam pra curtir a festa. Acho que gostaram do jeito do Luck.

Eu: Tu sabe que eles devem ter no máximo uns 13 anos, né?

Luck: Não fode, Maduzinha. Eu comecei a beber nessa época também e não me arrependo. Os moleques são legais. – ele falou enquanto enchia a geladeira. – não sei se vai caber tudo aqui. Caralho. Pelo menos amanhã chega a geladeira nova e bonitona. Sabe o que eu tava pensando? Pra não deixar ela tão branca e sem graça, a gente podia contratar alguém pra pintar umas coisas legais nela. Tipo um desenho grande pra preencher todinha. Ia ficar animal. E…

Até curti a ideia, mas ficar ouvindo Luck sem ele me deixar falar é quase o inferno. Decidi dar um pulo no meu quarto e deixar o remédio e o notebook por lá. Quando voltei para a sala, ele continuava falando e Lipe mexia no celular. Sentei ao seu lado.

Eu: Chama uns amigos teus pra festa que se não vier muita gente, ele vai ficar arrasado.

Lipe: Posso convidar uns amigos que acompanham a nossa banda.

Eu: Legal. Mas são tipo fãs? Lipe, tu tem fã? Hahaha.

Lipe: Não são fãs… ah, não enche. – ele riu e decidiu mandar algumas sms, enquanto eu fazia o mesmo chamando Cabeça e Nick.

Lipe: Não tem problema se o Kurt vier?

Eu: Não, tudo bem.

Lipe: Legal.

Luck:… CARALHO. Me esqueci! Como vamos fazer uma festa sem somzera? Precisamos de um puta som pra ONTEM.

Lipe: Kurt tem, mas não sei se ele traz. Acho que depende de seu humor.

Luck: Manda ele trazer e foda-se. Se tiver que pagar, eu pago.  – ele deu de ombros. – esses teus amigos, vou te contar, Madu. Tudo interesseiro. Menos o Lipe, mas vocês não são exatamente amigos, né? Hahahaha.

Eu: Somos sim, Luck, para de aloprar.

Luck: OK então “amigos”. – ele fez o sinal de aspas com as mãos e continuou rindo. Enquanto Lipe fingia não ouvir. – vou tomar meu banho e ficar cheiroso porque sim.

Ele saiu em direção ao banheiro.

Eu: Ele gostou mesmo de ti.

Lipe: Isso foi sarcasmo, certo? – ele disse guardando o celular e olhando pra mim.

Eu: Não. Se ele não tivesse gostado, nunca que faria tantas brincadeiras contigo ou nos deixaria sozinhos sem encher o saco. – pensei em como ele era chato quando eu namorava o Fabrizio. Os dois não se gostavam muito e era quase impossível ficar de boa com eles no mesmo lugar.

Lipe: Também gosto dele. É meio doido, mas é legal. – ele riu.

Continuou me olhando como se não se cansasse. Puxei outros assuntos, mas não duraram muito e ele continuava a me observar. Estava ficando constrangida e dei um jeito dele parar de me olhar. Tapei seus olhos com as minhas mãos.

Eu: Para de me olhar, puta que pariu. – ele riu e se escorou no sofá. Deu um tempo em ficar me olhando, mas começou a brincando com meus dedos.

Eu: Caralho, tu é chato.

Lipe: Eu sei. Hahahaha. – virou o rosto e me beijou de surpresa. Nunca consigo prever o que esse menino quer. Que porra.

A gente ficou ali por um tempo e quando fui perceber, já estava quase inteiramente no colo dele.

Luck: Oin. Que romântico. – Lipe levou um susto.

Luck: Querem alguma coisa pra beber? – aceitamos e eu saí de cima dele.

Peguei da mão de Luck a garrafa que ele me oferecia e fui para o meu quarto, me trocar e me preparar decentemente pra festa. Resolvi tomar um banho e me peguei pensando em como era bom ter um banheiro só pra mim na minha antiga casa, provavelmente essa vai ser a única coisa que eu vá sentir falta de lá, tirando Dudu. Mas Dudu não é exatamente uma coisa, então…

Não demorei muito e logo saí correndo pro meu quarto, enrolada na toalha. Sorte que o corredor é estreito e não precisou de muito tempo. Me arrumei rápido e quando estava quase acabando de secar os cabelos, ouvi gritos na frente do prédio. Coloquei a cabeça pra fora da janela e avistei Kurt. Ele tava junto de um pessoal (eu não os reconheci) que carregavam umas caixas enormes. Acho que Luck ficaria satisfeito.

Fiz sinal pra que eles esperassem e desci rápido para abrir o portão. Infelizmente nem todo mundo sabe o truque.

Kurt: Tá cheirosa. – ele cochichou quando passou por mim.

Fingi que não ouvi e fechei o portão.

Caber todo mundo no mini elevador do prédio é que foi difícil. No final, foram dois caras com as caixas de som e o resto foi de escada mesmo. Não era nenhum sacrifício já que havia apenas dois andares, mas o sedentarismo fode com a gente às vezes.

Luck ficou feliz pra caramba quando viu aquele equipamento de show no nosso apartamento pequeno. Pagou o Kurt, que fez questão de lembrar o quanto sofreu pra trazer tudo pra cá.

Quase toda a galera que entrou com nós, já conhecia Lipe e foi ele quem nos apresentou. Kurt não moveu um dedo pra socializar com ninguém e me identifiquei um pouco com ele nesse momento. Não que eu seja tão emburrada e chata quanto ele, mas dá pra entender.

 Sentei no sofá meio perdida com tanta gente falando alto a minha volta, bebi os últimos goles da garrafa que Luck havia me dado e Lipe me trouxe outra. Fiquei observando a conversa das pessoas. Só esse grupo que Kurt trouxe, devia ter umas 15 pessoas. Luck já tava fazendo amizade com eles e fazendo todo mundo rir. Imagino esse garoto daqui dez anos em um programa de TV, é muita facilidade com as pessoas, não é possível. Se bem que um programa de TV do Luck seria proibido para menores de 18 anos.

Sacudi a cabeça para parar de pensar nisso e cumprimentei Lola, que havia acabado de chegar. Ela sentou do meu lado e começou a falar algumas coisas que eu não compreendia direito, mas não seria mal educada de dizer “puta que pariu, fala mais devagar.”. Luck e os garotos ligaram o som e ficava cada vez mais impossível de ouvir os próprios pensamentos.

Lola: Madu?

Eu: OI! – voltei a prestar atenção nela.

Lola: To sabendo do quarto vago de vocês.

Eu: Pois é.

Lola: O que pretendem fazer com ele?

Eu: Luck quer que more mais alguém aqui, mas não conhecemos ninguém que queira. – dei de ombros e continuei bebendo.

Lola: Eu conheço.

Eu: Quem?

Lola: Eu.

Eu: Quem?

Lola: Eu mesma. Lola. – ela riu.

Eu: Jura? Quer se mudar pra cá?

Lola: Sim, pergunta com calma pro Luck e depois a gente resolve isso, não tem pressa.

Eu: OK.

Morar com Luck e Lola? Seria saudável isso?

Continuei prestando atenção em volta e esperando que Nick aparecesse com Dudu, mas não os via em lugar nenhum. Eu continuava bebendo e, olhar pras pessoas estranhas que entravam na minha nova casa, havia cada vez mais graça. O AP já não estava tão vazio, afinal as sms de Lipe fizeram efeito.  

Falando em Lipe…

Eu: LIPE? LIPE? CADE LIPE? – levantei e fui à procura dele.

Ele era mais difícil de ser achado do que parece. As pessoas me jogavam de lá pra cá e eu tava ficando tonta.

Eu: Caralho. – de longe vi Kurt me observando sem ao menos disfarçar. Fui até lá.

Eu: Viu Lipe?

Kurt: Nopes.

Ele respondeu enquanto fumava e me olhava.

Eu: Tá tudo bem?

Kurt: Yeap.

Silêncio.

Dei de ombros e saí de lá o mais rápido que consegui. Esse ar misterioso de Kurt assusta às vezes. Quando estava quase desistindo de procura-lo, um cara puxou assunto. Nunca tinha visto ele na minha vida, mas respondi de boa. O cara parecia ser simpático e ria bastante.  Tinha um estilo meio hipster, ou sei lá. O nome dele eu não consegui ouvir por causa da música, mas não fiz questão de perguntar mais de uma vez.

Quando notei que não era só papo furado, tentei escapar, mas não consegui. O cara tava tentando me “xavecar” e eu não tava muito a fim. “Xavecar” é um termo realmente estranho, me senti escrota em pensar nessa palavra enquanto o cara se aproximava de mim com cheiro de cachaça barata. E se fosse só o cheiro, eu não me incomodaria, mas não conseguia ver graça nesse cara sabendo que Lipe estava nesse mesmo cômodo em algum lugar.

Pensar em Lipe foi a gota d’água. Dei uma desculpa qualquer e tentei fugir novamente, mas ele me segurou.

Eu: Cara, sério, me solta. – eu tava ficando puta e meu pulso estava doendo.

Minha paciência com moleque bêbado e sem noção já acabou faz muito tempo.

Cara: E se eu quiser um beijo antes?

Eu: Se tu chegar mais perto, dou um chute nas tuas bolas tão bem dado que tu nunca vai ter filhos. – ele ergueu as sobrancelhas.

Cara: Mas por que tanta violência? – ele chegou mais perto e conseguiu roubar um selinho.

Cumpri o que eu disse. Dei uma joelhada bem dada e ele gemeu de dor.

Eu: Babaca.

Saí de lá xingando Kurt mentalmente, por ser tão idiota e ter amigos tão idiotas quanto ele. No meio de tanta gente, achei Lipe escorado em uma parede falando com outra guria.  Ela ria tanto que tive a certeza de que tava dando em cima dele. Afinal, Lipe nem é tão engraçado assim. É inteligente, mas não chega a ser hilário.

Decidi ir até lá. Cochichava pra mim mesma “seja feminina pela primeira vez na vida, seja feminina”.

Eu: OI. – sorri e cumprimentei mais alto do que pretendia.

Lipe: Tava perdida? – ele perguntou sem olhar pra mim.

Eu: Estava te procurando.

Lipe: Tem certeza? – olhei pra ele estranhando o tom irônico. – Essa é a Júlia. Ela tava me contando como chegou aqui no AP.

A tal de Júlia não sorria tanto quanto antes. Coitada, acho que sentiu o clima. O papo com ela não durou muito e logo foi pra longe da gente.

Eu: Tá tudo bem? – perguntei quando percebi que ele ainda não olhava pra mim.

Ele deu de ombros, displicente. Haja paciência com pessoas fechadas desse jeito. Revirei os olhos e deu para ver de longe o olhar que Kurt nos lançava. Esse garoto é realmente estranho. Nos observava sem piscar, sem hesitar e me assustando pra caralho.

Eu: Lipe… – ele puxou minha cintura e me beijou.

Não um beijo sem sal, não. Um daqueles de tirar o fôlego. Eu já não entendia porra nenhuma, mas retribuí sem questionar.

Quando ele me soltou e olhou em direção a Kurt já não estava mais lá, eu finalmente entendi. Dei um tapa em seu braço. Mesmo depois disso o garoto não olhava pra mim. Peguei a mão dele e o arrastei até o quarto mais perto (o de Luck).

Foi fácil espantar as pessoas que havia lá e conseguimos ficar sozinhos.

Eu: Qual é, Lipe?

Lipe: Quê? – ele respondeu sentando na cama e olhando pra porta.

Eu: Não te faz, caralho.

Ele deu de ombros e levantou. Foi até uma cômoda e tirou um “cigarro especial” já bolado do Luck, obviamente.

Eu: Como que tu sabia que tinha um…

Lipe: Luck me contou mais cedo. – achei estranho, mas esse não era o ponto principal da conversa.

Eu: Quer que eu faça todas as perguntas que estão na minha cabeça ou tu vai falar alguma coisa?

Lipe: Eu conheço Kurt, tá legal? Conheço muito bem. A ponto de saber que ele não vai te deixar em paz enquanto tu não tiver aos pés dele ou ao lado de outra pessoa. Te beijei pra mostrar que tu não tá sozinha. Mesmo que só por essa noite.

Eu: O que tu quer dizer com isso?

Lipe: Não sei.

Suspirei.

Se eu começasse a gritar, acho que não ajudaria ele a falar, então sentei ao lado dele.

Eu: Não sabia que tu fumava maconha.

Lipe: Não é um hábito. Só fumo quando to nervoso ou ansioso.

Eu: E tu tá nervoso ou ansioso agora?

Lipe: Os dois. – ele tragava como se fosse a coisa mais interessante naquele quarto e como se aquilo o deixasse mais aliviado. Minha vontade era de tacar essa porra no chão e pisar vinte vezes.

Eu: Eu tenho alguma coisa a ver com esse nervosismo e essa ansiedade? Porque tu tá bem seco e eu não me lembro de ter feito n…

Lipe: Eu fui levantar pra buscar mais uma coisa pra beber enquanto tu conversava com a Lola, sabe? E quando voltei, tu não tava mais lá. Fui atrás de ti, mas tu já tava grudada em outro cara.

Eu: Grudada? – ri.

Lipe: É. Ele te alisava e tu não fazia nada.

Eu não sabia se achava engraçado ou desastroso. Que mal entendido do caralho.

Eu: Não vou ficar me explicando, Lipe. Só te digo uma coisa: ele se arrependeu de ter me beijado.

Lipe: Te beijado? – ele se esqueceu que não estava olhando pra minha cara e me olhou rápido, mas logo depois voltou a olhar pros próprios pés.

Eu: Eu podia te explicar tudo o que aconteceu, mas não vou. Minha vida já tá bem complicada sem ter DR com ninguém, fala sério. Tu que passou tanto tempo comigo, devia saber. Eu gosto pra caralho de ficar contigo. Tua companhia me faz bem, mas isso não é o suficiente pra eu ter que te dar satisfações como se fôssemos comprometidos.

Lipe: Eu sei da tua situação de bosta e eu queria poder ajudar nisso, mas tu não pode simplesmente deixar todo o resto de lado… não pode ME deixar de lado.

Silêncio.

Ele me deixou sem palavras. Eu queria responder alguma coisa fofa a altura, mas não consegui pensar em nada. Não sou mesmo uma pessoa muito romântica. Eu só queria abraçar ele ali, mas parecia tão seco e deprimido ao mesmo tempo, que não tive coragem de tocá-lo.

Ninguém falou por alguns minutos. Tudo o que se ouvia era a música tocando, as risadas e a falação do pessoal aparentemente feliz lá fora. Tão longe e perto desse silêncio mórbido do quarto. Eu não sei o que estávamos esperando exatamente. Eu não sabia o que falar, e não acreditava que ele iria dizer mais alguma coisa. Lipe é quietão assim mesmo até onde eu percebi, e já é uma grande coisa ele ter admitido que está puto comigo.

Mas eu não queria só uma confissão. Queria fazer as pazes, gosto dele e não quero parar de falar com ele simplesmente por um mal entendido. Eu percebia que ele estava com ciúmes. Isso é uma bosta. Não quero que ele fique com ciúmes. Não quero ficar com mais ninguém nesse momento, mas isso não quer dizer que eu seja só dele ou que eu o tenha traído em ter dado papo praquele idiota.

Eu realmente queria dizer aquilo tudo. Minha vida já tá demais complicada pra ficar tendo DR. Ele é a coisa menos complicada da minha vida no momento…

Eu: …Por que não podia ficar do jeito que está? – acabei pensando alto.

Tava tendo uma pequena crise interna e não queria demonstrar. Ele olhou diretamente nos meus olhos pela primeira desde que o achei perdido com uma menina escorado numa parede, e desejei mais que tudo que ele não o tivesse feito.

Em seu olhar eu só conseguia enxergar desapontamento e raiva.

Ele não disse nada. Só ficou ali me olhando e deixando o cigarro queimar. E então sorriu, mas eu sentia a ironia e o nervosismo dele de longe. Tragou fundo, suspirou e disse olhando pra porta:

Lipe: Tu é uma pessoa realmente confusa, Madu. Quer que tudo fique bem, diz que gosta de ficar comigo, mas foge quando te dou uma chance de fazer com que uma coisa dê certo pra ti. Pra mim também, é claro. Mas tudo bem. Foda-se tu. Foda-se. Faz o que tu quiser. – se levantou e abriu a porta – Quando tu crescer, me procura. Boa sorte aí com tua vida fodida.

Ele saiu e eu fiquei petrificada.

Não sabia o que pensar nem o que fazer. E como eu odeio quando isso acontece!

Gosto de estar sempre preparada pra ouvir a merda que for, mas isso nem sempre acontece. Às vezes a gente fica parecendo um babaca assim mesmo, sem saber se defender. Talvez ele tivesse certo, mas foda-se ele não tinha o direito de me deixar ali. Foi como se tivesse me abandonado e ainda foi irônico com a situação, como se apenas eu estivesse sem ação.

Ironia só é legal quando é você quem pratica, ser vítima disso faz a gente se sentir um idiota.

E é exatamente o que eu to sendo sentada aqui olhando pro vulto dele, como se tivesse esperando ele voltar. Sou ridícula em ficar aqui. Vai, Madu. Levante, esquece, segue teu dia, não pensa em nada, tu tá certa, o ciúme dele só te atrapalharia.

Tu tá certa.

Tu tá certa.

Tu tá certa.

Tu tá certa.

Tu tá certa.

Fiquei repetindo isso por muito tempo, mas por alguma razão eu não conseguia acreditar em mim mesma. Resolvi sair daquele quarto antes que meus pensamentos fodessem ainda mais comigo, se é que era possível isso acontecer.

Sair do vazio do quarto e chegar até a sala cheia de gente feliz, não foi muito agradável, mas logo vi Nick ali perto e fui até ele. Ganhei um abraço de urso. Ele falou várias coisas sobre ter tentado me ajudar, mas que não teve outro jeito senão me levar pro hospital e o caralho.  A guria que tava com ele ficou me encarando depois que Nick me soltou, mas isso era a coisa mais insignificante da noite, eu não tava ligando.

Conversei um pouco com Nick e depois perguntei sobre Dudu. Ele me levou até meu irmão sorridente, sentado no sofá que eu estava conversando com Lola antes. Sentei ao lado dele. Ou era paranoia minha ou ele realmente ficou meio esquisito quando apareci.

Dudu: Tudo bem? – eu assenti e sorri.

Eu: E tu?

Dudu: De boa.

Dei de ombros.

Luck, muito louco, sentou do meu lado e começou a falar desenfreado sobre como as pessoas daqui eram legais e que eu tava de parabéns por conseguir amigos tão legais. Sendo que eu não conhecia nem metade daquele pessoal, fiquei na minha.

Olhei em volta.

Se bem que eu conhecia aquele cara de casaco gigante e a menina que tava com ele também. Aquele cabelo, eu já tinha visto antes. Espremi os olhos pra tentar lembrar de onde os conhecia e acabei lembrando. Eram os amigos de Cabeça que eu havia conhecido na mesa do bar daqui da rua mesmo. Não sei como consegui reconhece-los, mas presumi que Cabeça também estava por ali.

Eu iria procura-lo e agradecer por vir, mas acho que minha animação continuava sentada no quarto de Luck.

Demorou menos do que eu esperava pra Cabeça aparecer. Luck tava conversando com uma menina do outro lado dele então apresentei apenas Dudu como meu irmão. Cabeça foi, como sempre, muito simpático e ficou falando várias vezes que eu era foda por morar em um lugar desses.

Cabeça: Meu sonho morar nessa rua, porra. E tu consegue logo de cara. – ele riu. – quero sentar. HEY, deixa eu sentar aí.

Ele apontou para Luck, que o encarou como se fosse um pacote de lixo.

Luck: Tu tá falando comigo?

Cabeça: Sim, quero sentar do lado da DONA da casa que é minha amiga.

Luck me olhou, rindo. Ele tava RINDO de um babaca desses? Isso não vai acabar bem. Resolvi me meter.

Eu: Cara, esse aqui é meu amigo Luck, é também o dono da casa.

O sorriso de desdém sumiu da cara dele e Luck gargalhou.

Cabeça: Tu mora com ESSE cara? Sério?

Luck: Algum problema? – ele levantou puto da cara.

Eu: Eita porra. – peguei o braço de Luck e o levei pra longe da possível briga. Reparei que Dudu veio atrás de mim.

Eu: Luck, tua primeira festa nessa cidade. Não fode tudo, por favor.

Luck: Tu fez amizade com esse cara, Maduzinha? O que tu tinha na cabeça? Não lembro de tu ter me falado dele quando nos falamos pelo celular. Tava me escondendo? É isso? Que bom que eu vim pra essa cidade, tu tava se metendo com gente muito estranha, isso sim.

Ele não me deixou responder nenhuma das perguntas e continuou falando que eu tava ficando doida. O que era estranho porque achei Cabeça parecido com ele desde a primeira vez que o vi.

Eu: Vocês só precisam se conhecer, vocês são bem parecidos.

Luck ficou me olhando como se eu tivesse mandado ele fazer amizade com Hitler. Eu dei de ombros tentando me explicar, mas ele virou as costas e foi embora antes que eu conseguisse pensar em uma resposta.

Eu: Pronto. Mais uma pessoa puta comigo, só falta tu agora Dudu.

Dudu: Eu sou teu irmão, a gente pode brigar, mas eu nunca vou ficar puto contigo. – tentei fingir que não achei esse comentário muito estranho e assenti. – por falar em família… o pai ligou hoje.

Eu: Quê?

Dudu: O pai ligou hoje e disse que tá voltando. – ele falou mais alto dessa vez só pra confirmar e completar o inferno dessa noite.

Capítulo 53 ->

“…E quando eu acho que tá tudo se resolvendo, que o céu está clareando, vem uma tempestade e destrói tudo. Todo e qualquer pingo de esperança que eu tinha dentro de mim, que as coisas iriam melhorar, sumiu junto com o filho da puta do meu pai.
Se eu vou descobrir ou não onde ele tá, ou o que ele fez, eu não sei. Mas vou atrás pra descobrir e tentar manter minha cabeça no lugar. Não sei por que, mas ando me sentindo estranha… mais que o normal. Como se fosse explodir a qualquer momento. Como se tivesse alguma coisa dentro de mim, me sufocando e só esperando o momento certo pra sair. Pouquíssimas coisas e pessoas me acalmam e isso me dá medo.
Tento agir normalmente na frente de todo mundo enquanto, dentro de mim, há uma guerra entre raiva e tristeza. Mas fingir que está bem não é nada fácil, quando se tem que arranjar um lugar pra morar com teu irmão mais novo, teu amigo que acabou de chegar e decidir entre estudar ou trabalhar.
Pois é, acabei de completar 17 anos e já vou ter que tomar altas decisões, que merda. Mas… vamos ver no que vai dar…”
Primeiro capítulo da 3ª temporada sai dia 09/06 (daqui exatamente uma semana). =)

E quando eu acho que tá tudo se resolvendo, que o céu está clareando, vem uma tempestade e destrói tudo. Todo e qualquer pingo de esperança que eu tinha dentro de mim, que as coisas iriam melhorar, sumiu junto com o filho da puta do meu pai.

Se eu vou descobrir ou não onde ele tá, ou o que ele fez, eu não sei. Mas vou atrás pra descobrir e tentar manter minha cabeça no lugar. Não sei por que, mas ando me sentindo estranha… mais que o normal. Como se fosse explodir a qualquer momento. Como se tivesse alguma coisa dentro de mim, me sufocando e só esperando o momento certo pra sair. Pouquíssimas coisas e pessoas me acalmam e isso me dá medo.

Tento agir normalmente na frente de todo mundo enquanto, dentro de mim, há uma guerra entre raiva e tristeza. Mas fingir que está bem não é nada fácil, quando se tem que arranjar um lugar pra morar com teu irmão mais novo, teu amigo que acabou de chegar e decidir entre estudar ou trabalhar.

Pois é, acabei de completar 17 anos e já vou ter que tomar altas decisões, que merda. Mas… vamos ver no que vai dar

Primeiro capítulo da 3ª temporada sai dia 09/06 (daqui exatamente uma semana). =)

Tomei um banho rápido e realmente me senti melhor. Tentei não pensar em Lipe, porque ainda estava espantada com a atitude dele.
Vesti a camiseta que ele deixou ali, ficou meio grande, mas não me importei e vesti novamente meu shorts, só deixei de fora a meia calça dessa vez.
Saí do banheiro e não achei Lipe na sala. Sentei no sofá, imaginando que ele teria ido dormir. Só soube que tava errada quando ele apareceu e fez sinal pra que eu o seguisse.
Me levou até a cozinha.
Em cima da mesa tinha um copo e um prato.
Lipe: Senta aí.
Eu: Não to com fome, Lipe.
Lipe: Não é um convite. – ele apontava para a cadeira, esperando que eu sentasse.
Sentei. Ele abriu o microondas, tirando o miojo, macarrão instantâneo ou que nome for, de lá e colocou na minha frente.
Lipe sentou e ficou me olhando com o olhar de “to esperando”.
Eu: Se eu passar mal de novo, a culpa é toda tua. – ele sorriu e indicou um comprimido branco do lado.
Lipe: Se tu engolir isso, vai ficar bem. Eu garanto.
Coloquei o comprimido na boca e servi o suco no copo ao meu lado. Depois de beber o copo de suco inteiro, misturei o tempero com o miojo e comi a metade. Lipe comeu também, com a minha insistência.
Conversamos mais um pouco, sobre a festa e quando pairou o silêncio, senti a obrigação de me desculpar.
Eu: Lipe, foi mau. Cortei o clima completamente…
Lipe: Ninguém escolhe quando passar mal, Madu. Relaxa. Na verdade, estamos quites, não é? Fiz a mesma coisa contigo na festa do Nick.
Eu: Foi diferente. – com certeza. Primeiro que o coitado do Lipe só ficou banzo de tanto beber porque queria ficar comigo.
Mas deixei quieto e só sorri. Deixa ele pensar assim que é melhor pra mim.
Lipe: Bora dormir, então?!
Assenti.
Deixamos a mesa e fomos pra sala, ele insistiu que eu dormisse em seu quarto. Não tinha mais tanta disposição pra discutir e subi com ele. Deitei na camo, sentindo um alívio enorme. Lipe pegou um travesseiro do meu lado, colocou-o no chão e deitou em cima.
Fiquei olhando pro teto e relaxando. Ele fazia o mesmo.
Eu: Lipe?
Lipe: Oi.
Eu: Isso tá injusto.
Lipe: O quê?
Eu: Eu deitada aqui no conforto e tu aí.
Lipe: Eu iria pro sofá, mas quero ficar perto se tu precisar de mim de novo.
Olhei pro chão, ele estava com as mãos atrás da cabeça e com as pernas cruzadas. Bati na cama, como se o convidasse pra deitar. Ele me olhou sério e depois aceitou.
A cama era de solteiro e ficamos encolhidos ali, olhando para o teto. Escorei a cabeça no peito dele e fechei os olhos. Me sentia muito segura perto dele. Pareço uma garotinha romântica em pensar isso, mas depois de me sentir tão pra baixo por tanto tempo, que agora que finalmente consigo sentir segurança perto de alguém, dá vontade de agarrá-lo e nunca mais soltar.
E foi o que fiz com Lipe, que devia estar achando que eu sou uma carente necessitada de atenção.
-
Acordei com barulhos no andar de baixo. Flechas de sol entravam pela janela. Não sabia se acordava Lipe ao meu lado ou não e tive certeza que o certo seria acordá-lo, quando ouvi uma voz feminina falando em alguma encomenda.
Eu: Lipe, Lipe, Lipe.
Lipe: Hmmmm?! – ele respondeu se espreguiçando.
Eu: Tem uma mulher lá embaixo. – Lipe abriu os olhos de imediato.
Lipe: Que dia é hoje?
Eu: Segunda-feira?
Lipe: É minha mãe. – ele levantou e foi até a porta. – Madu, cade tua camiseta?
Eu: Não sei.
Lipe: Vou lá embaixo pegar rapidinho e depois te trago, OK?
Assenti e ele desceu, tentando não fazer barulho. Acho que não queria chamar atenção da mãe, e não sei se conseguiu, mas apareceu no quarto segundos depois. Ele me alcançou a jaqueta de couro, a camiseta e a meia calça. Ficamos nos olhando.
Eu: Posso me vestir?
Ele ficou nervoso e saiu rápido. Troquei de camiseta, rindo da cara que ele fez. Deixei a camiseta dele em cima da cama e coloquei a meia calça no bolso da jaqueta. Não vesti ela, porque estava quente e saí do quarto. Lipe estava do lado da porta, escorado na parede.
Descemos tentando não fazer barulho, mas dessa vez não deu certo. Uma mulher de avental saiu da cozinha, conversando ao telefone sobre a demora da encomenda de batatas. Desligou na mesma hora, quando nos viu descendo os últimos degraus da escada.
Ela me olhou com espanto por uns segundos e logo depois abriu um sorriso de orelha a orelha.
Mãe de Lipe: Lipe, que moça liiiiinda. – ela prolongou o “i” e veio até nós. Me cumprimentou com dois beijos no rosto. – não sabia que tu tava namorando.
Pegou meu braço e me puxou até a cozinha. Olhei pra trás e Lipe deu de ombros.
Lipe: Nós não estamos namorando mãe, ela é só uma amiga.
Mãe de Lipe: Amiga, sei.
Ela sorria muito e nos forçou a sentar pra comer as milhões de coisas que ela tinha feito. Gostei mesmo do bolo de cenoura e falei isso, mas me arrependi logo depois. Um pedaço pra mim bastava, mas a mulher me fez comer praticamente o bolo inteiro. Lipe no começo parecia revoltado com a atitude da mãe, mas depois começou a rir quando a mulher dava a as costas.
Descobri que o nome dela era Angelica, descobri bastante coisa na verdade. Ela gostava muito de falar. Fez várias perguntas também e quando eu disse que havia me mudado a pouco tempo, ela perguntou detalhadamente sobre como era o interior.
Dona Angelica perguntou o porque da minha família ter mudado pra cá, mas inventei qualquer coisa pra não dizer a verdade. Sinto que ela ficaria meia hora dizendo o quanto sentia muito. Fomos libertados depois de muita insistência de Lipe.
Lipe: Desculpa pela minha mãe – ele disse quando a gente saiu pela porta, embora ria. – ela é assim mesmo.
Eu: Tudo bem. Ela até lembra minha mãe no quesito cozinha. Eu adorava o bolo de cenoura da minha mãe.
Ele sorriu. Não tinha certeza se ele sabia da minha mãe também, mas isso não fazia muito diferença. Fiquei feliz dele não ter perguntado.
Ele me levou até o ponto de táxi e explicou ao motorista onde eu morava. Guardei o número do telefone dele e entrei no táxi.
-
Cheguei em casa e fui direto para meu quarto. Me deparei com Dudu deitado na minha cama. O rosto dele ainda estava horrível e continuava com a mesma roupa de ontem.
Eu: Dudu? – larguei minha jaqueta na cadeira e me agachei ao lado da cama.
Dudu acordou com o barulho e sentou na cama.
Dudu: Estava te esperando. – sentei ao lado dele.
Eu: O que aconteceu contigo ontem? Tu parecia bem com teus amigos.
Ele sacudiu a cabeça negativamente e olhou pra baixo.
Dudu: Posso te pedir uma coisa?
Eu: Claro.
Dudu: Me ajuda, Madu. Eu to precisando de um amigo, mas não de um amigo tipo aqueles. De um amigo de verdade.
Eu: Tu pode contar comigo, sabe disso.
Dudu: Mas tu é uma guria. É diferente.
Eu: Já pensou em conversar com o pai?
Ele me olhou como quem dizia “tá doida?”.
Eu: Talvez ele consiga te ajudar…
Dudu: Tu não entende – levantou e caminhou até a porta.
Eu: Dudu, espera aí.
Ele me olhou com desespero nos olhos. Não sabia o que fazer, apenas o abracei. Porque sabia o que ele tava sentindo e não conseguia achar outra forma de dividir isso. Dudu retribuiu o abraço e ficamos ali por algum tempo. Algumas lágrimas caíram, tanto minhas quanto dele. Mas nada foi dito.
Eu: Vai tomar um banho, menino. – disse fungando, ele sorriu e saiu.
Fiquei esperando na porta do quarto dele. Ele saiu meia hora depois, com óculos escuro e uma toca.
Eu: Vai assaltar um banco?
Ele levou um susto e eu me levantei. 
Fomos até a cozinha.
Dudu: Não to a fim de ficar ouvindo o discurso do pai se ele me vir desse jeito.
Eu: E por que tu tá assim? Tu não me explicou ainda.
Ele sentou a mesa e fez o sanduíche dele, deu uma mordida, engoliu e me olhou.
Dudu: Não quero falar sobre isso.
Eu: Reparei.
Dudu: O que tu vai fazer hoje?
Eu: Não sei.
Dudu: Combinei de sair com o Nick, tá a fim?
Eu: Tá. Vou pegar meu celular, me espera.
Coloquei o celular no bolso de trás da calça. Dudu estava na sala me esperando, saímos e começamos a descer a rua em direção a casa de Nick.
Eu: Tu não tá com calor com essa toca?
Dudu: To. Daqui a pouco eu tiro – ele olhou pros lados como se, se escondesse de alguém.
-
Batemos na porta de Nick, mas quem atendeu foi uma menininha que se não me engano o nome é…
Eu: Oi! Babi, né? Lembra de mim? – tentei ser agradável, mas me senti uma idiota. 
A menina como todo mundo da família de Nick que eu conheci até hoje foi muito educada. Ela até sabia meu nome, acho que Nick falou de mim pra todo mundo, na verdade. A casa tava uma loucura, gente caminhando pra todos os lados, tentando arrumar o mínimo possível da casa. 
Subimos até o quarto de Nick, ele atendeu parecendo perturbado. 
Nick: Entrem – disse depois de ver que era a gente.
Eu sorri e ele assentiu. É, estávamos bem. Falei algumas merdas ontem a noite, mas ele não ligou do mesmo jeito que eu não liguei pras merdas ditas por ele. Mesmo assim, vou pedir desculpas depois, quando for numa situação melhor.
Dudu: Por que tu tá usando terno? Pra onde a gente vai?
Nick: Vai ter almoço aqui em casa. Vai vir toda a minha família, tenho que me fantasiar desse jeito. – ele olhou pro próprio corpo pelo espelho.
Não estava conseguindo fazer o nó da gravata, e pediu pra que eu o fizesse.
Eu: E tu acha que eu sei fazer?
Nick: Já devia saber que não. – revirou os olhos, mas tava sorrindo.
Nick passou os próximos minutos nos convencendo a ficar e aturar o almoço inteiro com sua família. Implorou mesmo, fiquei até com pena.
Nick: Fiquem, por favor.
Eu: OK, mas eu não vou trocar de roupa. Vão me ver assim mesmo.
Nick: Troca de roupa? Por quê?
Eu: Tu tá usando terno, Nick. TERNO. E olha pra mim. - apontei pro meu corpo.
Estava vestindo uma roupa bem simples, sem muita frescura, ainda mais porque tava calor pra caramba. Não sei nem como Nick vai aguentar ficar usando terno o dia todo.
Ele disse que não tinha problema, que ninguém ligaria porque eu não fazia parte da família, mas que ele tem que fazer bonito “pra não parecer vagabundo”, como ele mesmo disse.
Nick fez Dudu usar o óculos e a toca pra família não ficar perguntando o que aconteceu. Dudu não gostou da ideia, mas aceitou. Foi estranho ver ele sendo legal com alguém, pra variar.
-
O dia passou muito devagar. Principalmente porque Nick passou a maioria do tempo reclamando, ou tentando convencer os tios de que éramos amigos e nada mais. E Dudu tentando os convencer de que não sentia calor com a toca, mesmo eu conseguindo enxergar o suor escorrendo pelo rosto dele.
Em geral foi um dia cansativo, consegui dar risada em alguns momentos. Todos os parentes de Nick foram muito legais comigo e com Dudu, eles são bastante divertidos e ao mesmo tempo conservadores em relação a algumas coisas. Ficamos sozinhos apenas na hora de comer.
Eu: Teu primo Luís parece ser legal.
Nick: É um babaca.
Dudu: Mas teu tio Florêncio é muito engraçado.
Nick: Bêbado e metido a milionário.
Essa era a opinião dele sobre praticamente a família inteira. Salvava algumas tias e primos, mas não tinha proximidade nenhuma com eles. Gostei de um primo especificamente, achei bem parecido com Nick. Não só esteticamente, mas o jeito de agir. Perguntei porque eles não se falavam, Nick pareceu confuso e não soube responder.
Quando o almoço acabou e já estava quase anoitecendo, fomos até minha casa e sentamos perto da minha casa.
Dudu atirou a toca longe e colocou o óculos na gola da camiseta. 
Conversamos por bastante tempo. Coloquei minhas pernas por cima das de Nick e fechei os olhos, quando os dois começaram e falar sobre video game. Eu curto jogar de vez em quando, mas não sei argumentar sobre nada disso. Não sei o mais premiado, não sei o melhor, não sei comparar. E não sinto falta de saber dessas coisas, na real. Só agora, mas tava tranquila de sentir a brisa no rosto. De noite, fica realmente agradável nessa cidade, principalmente aqui.
Minha brisa foi cortada pelo toque do meu celular. Número desconhecido. Pensei automaticamente em Luck e atendi rápido.
Eu: Alô! – disse animada.
Kurt: Madu, onde tu tá? – reconheci a voz dele.
Eu: To na frente de casa. Como tu conseguiu meu número?
Kurt: Tenho meus contatos. – ele riu e olhei para Nick, que deu de ombros. – to indo aí, me espera.
Concordei mesmo não tendo opção. Ele desligou sem dizer mais nada e apareceu poucos minutos depois. Quando o vi caminhando em direção a porta, mandei uma SMS pra que ele soubesse onde nos encontrar especificamente.
Cumprimentou Dudu e Nick, depois sentou ao meu lado. O silêncio fez com que ficássemos todos envergonhados e, principalmente, entediados.
Kurt: O que acharam do show, ontem? – puxou assunto.
Dudu: Foi meio tumultuado.
Kurt: Tu estava no meio da briga, não é? O que aconteceu? Ninguém soube explicar o começo de tudo.
Dudu se enrolou e não explicou muito bem, disse apenas que algumas pessoas implicaram com ele. Não fez muito sentido, mas ninguém insistiu.
 Kurt: Vim te convidar pra ver um ensaio da gente. – disse, olhando pra mim – mas vocês podem ir também.
Ele indicou os dois. Fiquei pilhada em ir, porque estava com muito tédio e queria ver Lipe de novo.
-
Fomos caminhando ate a casa de Kurt. Quando chegamos, Lipe e Lola já estavam nos esperando. Lipe sorriu ao me ver. Um sorriso tímido, mas claramente feliz.
Lola: Eaí?!
Nos sentamos no sofá ali mesmo. Kurt foi organizar os instrumentos e logo depois, os três estavam a nossa frente. Cada um com seu instrumento, cada um no seu lugar e com os olhos brilhando.
Lola bateu as baquetas três vezes e a música começou. Sentada na frente deles, foi bem mais fácil de vê-los do que no show, onde eu tinha que pular o mais alto que podia pra ver o palco inteiro. Ser baixinha é foda.
Mas agora, conseguia ver as expressões de todos. Lipe se empolgava mesmo, como Kurt tinha dito. Ele fazia uma coisa estranha com a boca cada vez que precisava tocar um acorde específico.
Lola sacudia os cabelos vermelhos sem parar e balançava os ombros de um jeito esquisito, mas como era no ritmo da música, dava pra entender.
Kurt mexia o pé cada vez que parava de tocar. Acho que ele não conseguia fazer os dois ao mesmo tempo. Pareço uma chata em ficar reparando nessas coisas, mas é impossível não reparar nisso. Apesar das esquisitices, eles tocavam bem mesmo.
Às vezes erravam, mas aí corrigiam e retomavam. É pra isso que serve os ensaios, afinal. Eles tocavam um rock pesado, acho que era System Of a Down, mas não tenho certeza.
A música terminou. Tocaram mais algumas, sempre com o tempo pra discutir sobre os ajustes, que eu não entedia droga nenhuma. Curto ouvir música, mas entender o que tem por trás dela não é da minha natureza.
Disse isso em um dos intervalos pra beber alguma coisa, que eles faziam. 
Lipe riu.
Kurt: A gente não sai da barriga da mãe sabendo dessas coisas, tem que estudar pra aprender.
Kurt sentou no chão, de frente para o sofá onde estávamos. Lipe sentou no braço do sofá, ao meu lado por falta de espaço e Lola se jogou na poltrona mais afastada do grupo.
Lipe: Nem me fala em aula, estudar, aprender… Amanhã recomeçam minhas aulas na faculdade.
Kurt: Segundo semestre?
Lipe: Terceiro. – ele disse e se escorou mais no sofá, entediado.
Nick: E tu Kurt? Não era pra ti estar na faculdade também? – ele perguntou, sendo metido.
Kurt tirou um cigarro do bolso, levantou e procurou fogo pela casa toda, até achar, acender e ser obrigado a responder. Mesmo assim, depois de sentar, tragou duas vezes antes de finalmente abrir a boca.
Kurt: Vou dizer o destino da humanidade pra vocês. A gente nasce, estuda, estuda, estuda, trabalha, trabalha, trabalha e depois… a gente morre.
Fiquei olhando pra ele, tentando achar uma razão por estar prestando tanta atenção nas merdas esse homem tá falando.
Kurt: Eu não quero isso pra mim, cara. Prefiro passar minha vida inteira tocando e cantando minha música do que viver pros dos outros.
Dudu: Como assim?  – Kurt parecia nervoso em falar nessas coisas e Dudu interessado. Não entendia porque tanto interesse, mas continuei observando eles.
Kurt: A gente se mata trabalhando pra quê? Pra ganhar uma miséria e beneficiar quem? Os filhos da puta do governo. Ou tu acha que eles colocam a mão na massa? Óbvio que não, só dão ordem pros babacas aqui fazerem o serviço sujo deles. Assim eles consegue ganhar milhões sem fazer absolutamente nada além de roubar. Não ajudo nessa forma de vida nem fodendo. Se a escola não me dá prazer, eu não vou. Fim.
Ele terminou nervosão. Tragou fundo no cigarro, levantou e buscou uma cerveja. Abriu a garrafa, colocando o cigarro na boca pra liberar as mãos. Kurt é uma pessoa esquisita mesmo, mas eu concordava com ele. Quem não concorda, não é? Política é um assunto que estressa qualquer um.
Quis tirar a tensão do momento contrariando Kurt.
Eu: Mas tu não acha que vai conseguir fazer apenas o que te dá prazer a vida inteira, não é? Às vezes a gente tem que fazer coisas desagradáveis pra chegar onde queremos. Pensa comigo, antes de chegar no clímax, tem que haver preliminares. Certo?
Todo mundo riu disfarçadamente. Inclusive Kurt, que percebeu minha tentativa bem sucedida de não deixar a sala cair no silêncio desconfortável.
Kurt: Gosto de chegar no clímax rápido. – ele disse rindo e acabando com o cigarro.
Eles voltaram a tocar e foi assim a noite toda. O assunto tinha sido encerrado, mas eu continuava pensando. Queria ter um grande sonho assim como o de todo mundo. Que desse um sentido mais certo pra vida. Porque até agora, pra mim, a vida é uma incógnita. Não sei o que vai ser de mim daqui vinte anos. Se vou estar  bem de vida e aproveitando ou se vou estar casada com cinco filhos pra criar.
OK, acho que isso não.
Não consigo me imaginar casando com alguém e dizendo “vou te amar pra sempre”, é ridículo. Não existe isso. Não estou dizendo que o amor não existe, mas é hipocrisia demais pra minha cabeça dizer que vai amar alguém pra sempre. Ninguém sabe do futuro, então não fica prometendo.
Principalmente sobre amor. Amor é muito relativo. Tu pode começar a amar uma pessoa sem perceber, e deixar de amá-la do mesmo jeito.
Parei de brisar, quando percebi que Nick falava comigo. Tentei prestar atenção no que ele dizia, mesmo sem ouvir muita coisa. 
-
Depois de algumas cervejas e músicas lentas, eu já tava pronta pra escorar a cabeça e apagar ali mesmo.
Dudu: Madu, vai ficar aí? – olhei pros lados e só o que consegui enxergar, foi a fumaça branca que vinha do chão, onde Kurt estava deitado.
Kurt: Se quiser ficar aí, Madu, tudo bem. E tu também, pequeno. Se quiser se jogar aí, não me importo.
Dudu não pareceu gostar muito do novo apelido, mas não falou nada e sentou-se ao meu lado. Sentia que ele continuava querendo ir embora, mas eu tava de boa ali. Então, me aconcheguei melhor em Dudu e fechei os olhos. Acho que ele relaxou mais depois disso, porque senti a respiração desacelerar.
-
Senti uma coisa me cutucando e fui obrigada a abrir os olhos. E quando o fiz, me assustei com a quantidade de claridade. Parecia que eu tinha acabado de fechar os olhos, mas a noite toda passou sem eu perceber. E continuava com sono.
Procurei o que me cutucava no sofá, até perceber que já não estava mais no sofá, e sim no quarto de Kurt. O quarto continuava exatamente a mesma coisa que eu tinha visto antes. Olhei pra todos os lados pra me certificar de que estava sozinha e fiquei aliviada em comprovar isso.
 Já acordei do lado de Kurt duas vezes, acho que não preciso de uma terceira. Mesmo que eu não tenha me arrependido da segunda, foi muito bom mesmo. Mas não pretendo repetir.
Sem pensar muito nisso, calcei meus tênis que estavam do lado da cama e fui pra cozinha. Lipe estava lá bebendo uma xícara de café.
Eu: Oi.
Lipe: E aí? – ele sorriu constrangido – tem café ali, se quiser.
Eu: OK. – servi uma xícara e me sentei do lado dele.
Começamos a conversar sobre qualquer inutilidade, mas terminamos com um papo sério de faculdade. Lipe fazia Psicologia, o que eu achei estranho. Não conseguia imaginá-lo como psicólogo ou coisa parecida. mas engoli o comentário e apenas sorri.
Kurt apareceu e sentou à mesa com a gente, se espreguiçou e bocejou.
Kurt: Bom dia.
Lipe: Boa tarde, tu quis dizer. – Kurt sorriu daquele jeito cafajeste de sempre.
Que eu gostava, mas que já não era a mesma coisa. Não sei explicar o porquê. Talvez seja porque já tenha ficado com ele, ou porque achava Lipe a pessoa mais interessante nesse momento. Fiquei nervosa só de pensar e principalmente porque os dois estavam olhando pra mim.
Engoli seco e bebi mais café pra não precisar falar nada.
 Kurt: Foi um bom ensaio ontem, não é?
Eu: Foi. – Lipe assentiu – Mas cadê Nick? E Dudu?
Kurt: Foram embora juntos, acho que até pro mesmo lugar. Não prestei atenção.
Eu: Ah. Acho que tá na minha hora também. – levantei e coloquei a xícara na pia.
Kurt: Fica aí. Queria conversar contigo.
Eu: Sobre o quê?
Kurt: Sobre o que aconteceu no show.
Eu: Deixa isso pra lá, Kurt.
Kurt: Eu não quero deixar pra lá. Continuo a fim. – Lipe começou a mexer no cabelo de um jeito nervoso e se levantou.
Lipe: To indo.
Eu: Me espera.
Kurt: Madu. – ficamos os três encarando uns aos outros. Lipe não disse nada e saiu, batendo a porta.
Eu: Fala – disse,  já puta da vida e com vontade de socar a cara dele.
Kurt: Não to te pedindo em namoro nem nada. – ele riu e acendeu um cigarro – quero ser teu amigo, mas te acho muito gostosa pra ser só isso, entende?
Eu: Na boa? Também te acho lindo pra caralho, mas não é por isso que vou ficar contigo. Aconteceu uma vez, mas não quer dizer que pode acontecer de novo. Se tu não quiser ser só meu amigo, tudo bem. Mas não seja se for pra ficar insistindo e enchendo o saco.
Disse isso em pé, tava com um timbre nervoso na voz e tentava esconder. E ele ficava me olhando com aqueles olhos pretos e com as covinhas a mostra.
Tragou e assentiu.
Kurt: Gosto de ti, Madu. Já disse isso. E ainda não esqueci que to te devendo uma. Aquela noite, tu me deu uma super ajuda e por isso tu tem vantagem na nossa amizade. – ele demorou um pouco pra dizer “amizade” – porém, continua sendo gostosa, então se tiver oportunidade eu te pego e não vou ter culpa.
Ele deu de ombros. Fiquei alguns segundos tentando entender aquelas palavras, mas só disse “OK” e saí. Acho que agora somos amigos, mas não tenho certeza.
Lipe estava sentado na calçada de frente pra casa de Kurt, com as mãos nos cabelos e com a cabeça abaixada. Achei estranho e sentei ao lado dele.
Eu: Que foi?
Ele levou um susto e sorriu amarelo.
Lipe: Nada não. – continuei a olhar pra ele sem acreditar – tu já ficou com o Kurt?
Ele me perguntou sério.
Eu: Sim.
Lipe: Ah. – ele assentiu.
Eu: Por quê?
Lipe: Nada não.
Eu: Qual é, Lipe? Fala o que tu tá pensando.
Lipe: Eu só queria saber.
Eu: Faz diferença?
Lipe: Muita.
Eu: Por quê?
Lipe: Conheço os tipos de mulheres que ficam com ele.
Eu: Como assim?
Lipe: Acho que tu não conhece muito bem ele ainda.
Eu: Não, acabei de conhecer vocês. Esqueceu?
Lipe: Não esqueci, mas parece que tu sim, não é? Já até ficou com Kurt. – ele disse displicente.
Eu: Não to entendendo o que tu tá querendo dizer.
Lipe: Eu achei que tu fosse uma guria legal, mas tu ficou com Kurt. E ele sempre fica com vadias e…
Eu: Tá me chamando de vadia?
Lipe: Não foi isso que quis dizer. – ele balançou a cabeça negando.
Eu: Foi exatamente o que tu disse. – tava ficando nervosa de novo e acabei levantando – Fiquei com Kurt uma vez, não quer dizer que vá acontecer de novo, também não quer dizer que eu saio abrindo as pernas pra qualquer um. Não sei porque eu to me explicando.
Lipe: Eu também não sei porquê.  – ele se levantou e ficou de frente pra mim.
Claro que ele se levantando tinha muito mais impacto que eu, o garoto era mil metros mais alto. Ele parecia tão triste e decepcionado que parte da minha raiva se foi.
Eu: Qual é o teu problema, Lipe?
Lipe: Eu me odeio por sempre gostar da pessoa errada, esse é o problema. Tua não é só linda, é inteligente e tem personalidade. Mas do que adianta se fica com imbecis tipo esses – ele apontou pra casa de Kurt.
Eu: Tu nunca ficou com uma menina? Só por ficar? Sem querer nada além disso? É a mesma coisa comigo e com Kurt. Mas só porque foi com ELE, eu sou uma vadia. Tu nem me conhece e já tira altas conclusões.
Ele não disse nada, só ficou me olhando. Dei de ombros e segui meu caminho, sem olhar pra trás. Nem mesmo quando ouvi Lipe gritando meu nome.
Estava com raiva, mas não só dele. Raiva de mim mesma. Continuei caminhando sem rumo, minha vontade era de caminhar até chegar onde minha mãe está e receber um abraço apertado dela. E ouví-la dizer que ele estava errado, que eu não tinha me tornado uma vadia sem perceber.
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Tomei um banho rápido e realmente me senti melhor. Tentei não pensar em Lipe, porque ainda estava espantada com a atitude dele.

Vesti a camiseta que ele deixou ali, ficou meio grande, mas não me importei e vesti novamente meu shorts, só deixei de fora a meia calça dessa vez.

Saí do banheiro e não achei Lipe na sala. Sentei no sofá, imaginando que ele teria ido dormir. Só soube que tava errada quando ele apareceu e fez sinal pra que eu o seguisse.

Me levou até a cozinha.

Em cima da mesa tinha um copo e um prato.

Lipe: Senta aí.

Eu: Não to com fome, Lipe.

Lipe: Não é um convite. – ele apontava para a cadeira, esperando que eu sentasse.

Sentei. Ele abriu o microondas, tirando o miojo, macarrão instantâneo ou que nome for, de lá e colocou na minha frente.

Lipe sentou e ficou me olhando com o olhar de “to esperando”.

Eu: Se eu passar mal de novo, a culpa é toda tua. – ele sorriu e indicou um comprimido branco do lado.

Lipe: Se tu engolir isso, vai ficar bem. Eu garanto.

Coloquei o comprimido na boca e servi o suco no copo ao meu lado. Depois de beber o copo de suco inteiro, misturei o tempero com o miojo e comi a metade. Lipe comeu também, com a minha insistência.

Conversamos mais um pouco, sobre a festa e quando pairou o silêncio, senti a obrigação de me desculpar.

Eu: Lipe, foi mau. Cortei o clima completamente…

Lipe: Ninguém escolhe quando passar mal, Madu. Relaxa. Na verdade, estamos quites, não é? Fiz a mesma coisa contigo na festa do Nick.

Eu: Foi diferente. – com certeza. Primeiro que o coitado do Lipe só ficou banzo de tanto beber porque queria ficar comigo.

Mas deixei quieto e só sorri. Deixa ele pensar assim que é melhor pra mim.

Lipe: Bora dormir, então?!

Assenti.

Deixamos a mesa e fomos pra sala, ele insistiu que eu dormisse em seu quarto. Não tinha mais tanta disposição pra discutir e subi com ele. Deitei na camo, sentindo um alívio enorme. Lipe pegou um travesseiro do meu lado, colocou-o no chão e deitou em cima.

Fiquei olhando pro teto e relaxando. Ele fazia o mesmo.

Eu: Lipe?

Lipe: Oi.

Eu: Isso tá injusto.

Lipe: O quê?

Eu: Eu deitada aqui no conforto e tu aí.

Lipe: Eu iria pro sofá, mas quero ficar perto se tu precisar de mim de novo.

Olhei pro chão, ele estava com as mãos atrás da cabeça e com as pernas cruzadas. Bati na cama, como se o convidasse pra deitar. Ele me olhou sério e depois aceitou.

A cama era de solteiro e ficamos encolhidos ali, olhando para o teto. Escorei a cabeça no peito dele e fechei os olhos. Me sentia muito segura perto dele. Pareço uma garotinha romântica em pensar isso, mas depois de me sentir tão pra baixo por tanto tempo, que agora que finalmente consigo sentir segurança perto de alguém, dá vontade de agarrá-lo e nunca mais soltar.

E foi o que fiz com Lipe, que devia estar achando que eu sou uma carente necessitada de atenção.

-

Acordei com barulhos no andar de baixo. Flechas de sol entravam pela janela. Não sabia se acordava Lipe ao meu lado ou não e tive certeza que o certo seria acordá-lo, quando ouvi uma voz feminina falando em alguma encomenda.

Eu: Lipe, Lipe, Lipe.

Lipe: Hmmmm?! – ele respondeu se espreguiçando.

Eu: Tem uma mulher lá embaixo. – Lipe abriu os olhos de imediato.

Lipe: Que dia é hoje?

Eu: Segunda-feira?

Lipe: É minha mãe. – ele levantou e foi até a porta. – Madu, cade tua camiseta?

Eu: Não sei.

Lipe: Vou lá embaixo pegar rapidinho e depois te trago, OK?

Assenti e ele desceu, tentando não fazer barulho. Acho que não queria chamar atenção da mãe, e não sei se conseguiu, mas apareceu no quarto segundos depois. Ele me alcançou a jaqueta de couro, a camiseta e a meia calça. Ficamos nos olhando.

Eu: Posso me vestir?

Ele ficou nervoso e saiu rápido. Troquei de camiseta, rindo da cara que ele fez. Deixei a camiseta dele em cima da cama e coloquei a meia calça no bolso da jaqueta. Não vesti ela, porque estava quente e saí do quarto. Lipe estava do lado da porta, escorado na parede.

Descemos tentando não fazer barulho, mas dessa vez não deu certo. Uma mulher de avental saiu da cozinha, conversando ao telefone sobre a demora da encomenda de batatas. Desligou na mesma hora, quando nos viu descendo os últimos degraus da escada.

Ela me olhou com espanto por uns segundos e logo depois abriu um sorriso de orelha a orelha.

Mãe de Lipe: Lipe, que moça liiiiinda. – ela prolongou o “i” e veio até nós. Me cumprimentou com dois beijos no rosto. – não sabia que tu tava namorando.

Pegou meu braço e me puxou até a cozinha. Olhei pra trás e Lipe deu de ombros.

Lipe: Nós não estamos namorando mãe, ela é só uma amiga.

Mãe de Lipe: Amiga, sei.

Ela sorria muito e nos forçou a sentar pra comer as milhões de coisas que ela tinha feito. Gostei mesmo do bolo de cenoura e falei isso, mas me arrependi logo depois. Um pedaço pra mim bastava, mas a mulher me fez comer praticamente o bolo inteiro. Lipe no começo parecia revoltado com a atitude da mãe, mas depois começou a rir quando a mulher dava a as costas.

Descobri que o nome dela era Angelica, descobri bastante coisa na verdade. Ela gostava muito de falar. Fez várias perguntas também e quando eu disse que havia me mudado a pouco tempo, ela perguntou detalhadamente sobre como era o interior.

Dona Angelica perguntou o porque da minha família ter mudado pra cá, mas inventei qualquer coisa pra não dizer a verdade. Sinto que ela ficaria meia hora dizendo o quanto sentia muito. Fomos libertados depois de muita insistência de Lipe.

Lipe: Desculpa pela minha mãe – ele disse quando a gente saiu pela porta, embora ria. – ela é assim mesmo.

Eu: Tudo bem. Ela até lembra minha mãe no quesito cozinha. Eu adorava o bolo de cenoura da minha mãe.

Ele sorriu. Não tinha certeza se ele sabia da minha mãe também, mas isso não fazia muito diferença. Fiquei feliz dele não ter perguntado.

Ele me levou até o ponto de táxi e explicou ao motorista onde eu morava. Guardei o número do telefone dele e entrei no táxi.

-

Cheguei em casa e fui direto para meu quarto. Me deparei com Dudu deitado na minha cama. O rosto dele ainda estava horrível e continuava com a mesma roupa de ontem.

Eu: Dudu? – larguei minha jaqueta na cadeira e me agachei ao lado da cama.

Dudu acordou com o barulho e sentou na cama.

Dudu: Estava te esperando. – sentei ao lado dele.

Eu: O que aconteceu contigo ontem? Tu parecia bem com teus amigos.

Ele sacudiu a cabeça negativamente e olhou pra baixo.

Dudu: Posso te pedir uma coisa?

Eu: Claro.

Dudu: Me ajuda, Madu. Eu to precisando de um amigo, mas não de um amigo tipo aqueles. De um amigo de verdade.

Eu: Tu pode contar comigo, sabe disso.

Dudu: Mas tu é uma guria. É diferente.

Eu: Já pensou em conversar com o pai?

Ele me olhou como quem dizia “tá doida?”.

Eu: Talvez ele consiga te ajudar…

Dudu: Tu não entende – levantou e caminhou até a porta.

Eu: Dudu, espera aí.

Ele me olhou com desespero nos olhos. Não sabia o que fazer, apenas o abracei. Porque sabia o que ele tava sentindo e não conseguia achar outra forma de dividir isso. Dudu retribuiu o abraço e ficamos ali por algum tempo. Algumas lágrimas caíram, tanto minhas quanto dele. Mas nada foi dito.

Eu: Vai tomar um banho, menino. – disse fungando, ele sorriu e saiu.

Fiquei esperando na porta do quarto dele. Ele saiu meia hora depois, com óculos escuro e uma toca.

Eu: Vai assaltar um banco?

Ele levou um susto e eu me levantei. 

Fomos até a cozinha.

Dudu: Não to a fim de ficar ouvindo o discurso do pai se ele me vir desse jeito.

Eu: E por que tu tá assim? Tu não me explicou ainda.

Ele sentou a mesa e fez o sanduíche dele, deu uma mordida, engoliu e me olhou.

Dudu: Não quero falar sobre isso.

Eu: Reparei.

Dudu: O que tu vai fazer hoje?

Eu: Não sei.

Dudu: Combinei de sair com o Nick, tá a fim?

Eu: Tá. Vou pegar meu celular, me espera.

Coloquei o celular no bolso de trás da calça. Dudu estava na sala me esperando, saímos e começamos a descer a rua em direção a casa de Nick.

Eu: Tu não tá com calor com essa toca?

Dudu: To. Daqui a pouco eu tiro – ele olhou pros lados como se, se escondesse de alguém.

-

Batemos na porta de Nick, mas quem atendeu foi uma menininha que se não me engano o nome é…

Eu: Oi! Babi, né? Lembra de mim? – tentei ser agradável, mas me senti uma idiota.

A menina como todo mundo da família de Nick que eu conheci até hoje foi muito educada. Ela até sabia meu nome, acho que Nick falou de mim pra todo mundo, na verdade. A casa tava uma loucura, gente caminhando pra todos os lados, tentando arrumar o mínimo possível da casa.

Subimos até o quarto de Nick, ele atendeu parecendo perturbado.

Nick: Entrem – disse depois de ver que era a gente.

Eu sorri e ele assentiu. É, estávamos bem. Falei algumas merdas ontem a noite, mas ele não ligou do mesmo jeito que eu não liguei pras merdas ditas por ele. Mesmo assim, vou pedir desculpas depois, quando for numa situação melhor.

Dudu: Por que tu tá usando terno? Pra onde a gente vai?

Nick: Vai ter almoço aqui em casa. Vai vir toda a minha família, tenho que me fantasiar desse jeito. – ele olhou pro próprio corpo pelo espelho.

Não estava conseguindo fazer o nó da gravata, e pediu pra que eu o fizesse.

Eu: E tu acha que eu sei fazer?

Nick: Já devia saber que não. – revirou os olhos, mas tava sorrindo.

Nick passou os próximos minutos nos convencendo a ficar e aturar o almoço inteiro com sua família. Implorou mesmo, fiquei até com pena.

Nick: Fiquem, por favor.

Eu: OK, mas eu não vou trocar de roupa. Vão me ver assim mesmo.

Nick: Troca de roupa? Por quê?

Eu: Tu tá usando terno, Nick. TERNO. E olha pra mim. - apontei pro meu corpo.

Estava vestindo uma roupa bem simples, sem muita frescura, ainda mais porque tava calor pra caramba. Não sei nem como Nick vai aguentar ficar usando terno o dia todo.

Ele disse que não tinha problema, que ninguém ligaria porque eu não fazia parte da família, mas que ele tem que fazer bonito “pra não parecer vagabundo”, como ele mesmo disse.

Nick fez Dudu usar o óculos e a toca pra família não ficar perguntando o que aconteceu. Dudu não gostou da ideia, mas aceitou. Foi estranho ver ele sendo legal com alguém, pra variar.

-

O dia passou muito devagar. Principalmente porque Nick passou a maioria do tempo reclamando, ou tentando convencer os tios de que éramos amigos e nada mais. E Dudu tentando os convencer de que não sentia calor com a toca, mesmo eu conseguindo enxergar o suor escorrendo pelo rosto dele.

Em geral foi um dia cansativo, consegui dar risada em alguns momentos. Todos os parentes de Nick foram muito legais comigo e com Dudu, eles são bastante divertidos e ao mesmo tempo conservadores em relação a algumas coisas. Ficamos sozinhos apenas na hora de comer.

Eu: Teu primo Luís parece ser legal.

Nick: É um babaca.

Dudu: Mas teu tio Florêncio é muito engraçado.

Nick: Bêbado e metido a milionário.

Essa era a opinião dele sobre praticamente a família inteira. Salvava algumas tias e primos, mas não tinha proximidade nenhuma com eles. Gostei de um primo especificamente, achei bem parecido com Nick. Não só esteticamente, mas o jeito de agir. Perguntei porque eles não se falavam, Nick pareceu confuso e não soube responder.

Quando o almoço acabou e já estava quase anoitecendo, fomos até minha casa e sentamos perto da minha casa.

Dudu atirou a toca longe e colocou o óculos na gola da camiseta.

Conversamos por bastante tempo. Coloquei minhas pernas por cima das de Nick e fechei os olhos, quando os dois começaram e falar sobre video game. Eu curto jogar de vez em quando, mas não sei argumentar sobre nada disso. Não sei o mais premiado, não sei o melhor, não sei comparar. E não sinto falta de saber dessas coisas, na real. Só agora, mas tava tranquila de sentir a brisa no rosto. De noite, fica realmente agradável nessa cidade, principalmente aqui.

Minha brisa foi cortada pelo toque do meu celular. Número desconhecido. Pensei automaticamente em Luck e atendi rápido.

Eu: Alô! – disse animada.

Kurt: Madu, onde tu tá? – reconheci a voz dele.

Eu: To na frente de casa. Como tu conseguiu meu número?

Kurt: Tenho meus contatos. – ele riu e olhei para Nick, que deu de ombros. – to indo aí, me espera.

Concordei mesmo não tendo opção. Ele desligou sem dizer mais nada e apareceu poucos minutos depois. Quando o vi caminhando em direção a porta, mandei uma SMS pra que ele soubesse onde nos encontrar especificamente.

Cumprimentou Dudu e Nick, depois sentou ao meu lado. O silêncio fez com que ficássemos todos envergonhados e, principalmente, entediados.

Kurt: O que acharam do show, ontem? – puxou assunto.

Dudu: Foi meio tumultuado.

Kurt: Tu estava no meio da briga, não é? O que aconteceu? Ninguém soube explicar o começo de tudo.

Dudu se enrolou e não explicou muito bem, disse apenas que algumas pessoas implicaram com ele. Não fez muito sentido, mas ninguém insistiu.

 Kurt: Vim te convidar pra ver um ensaio da gente. – disse, olhando pra mim – mas vocês podem ir também.

Ele indicou os dois. Fiquei pilhada em ir, porque estava com muito tédio e queria ver Lipe de novo.

-

Fomos caminhando ate a casa de Kurt. Quando chegamos, Lipe e Lola já estavam nos esperando. Lipe sorriu ao me ver. Um sorriso tímido, mas claramente feliz.

Lola: Eaí?!

Nos sentamos no sofá ali mesmo. Kurt foi organizar os instrumentos e logo depois, os três estavam a nossa frente. Cada um com seu instrumento, cada um no seu lugar e com os olhos brilhando.

Lola bateu as baquetas três vezes e a música começou. Sentada na frente deles, foi bem mais fácil de vê-los do que no show, onde eu tinha que pular o mais alto que podia pra ver o palco inteiro. Ser baixinha é foda.

Mas agora, conseguia ver as expressões de todos. Lipe se empolgava mesmo, como Kurt tinha dito. Ele fazia uma coisa estranha com a boca cada vez que precisava tocar um acorde específico.

Lola sacudia os cabelos vermelhos sem parar e balançava os ombros de um jeito esquisito, mas como era no ritmo da música, dava pra entender.

Kurt mexia o pé cada vez que parava de tocar. Acho que ele não conseguia fazer os dois ao mesmo tempo. Pareço uma chata em ficar reparando nessas coisas, mas é impossível não reparar nisso. Apesar das esquisitices, eles tocavam bem mesmo.

Às vezes erravam, mas aí corrigiam e retomavam. É pra isso que serve os ensaios, afinal. Eles tocavam um rock pesado, acho que era System Of a Down, mas não tenho certeza.

A música terminou. Tocaram mais algumas, sempre com o tempo pra discutir sobre os ajustes, que eu não entedia droga nenhuma. Curto ouvir música, mas entender o que tem por trás dela não é da minha natureza.

Disse isso em um dos intervalos pra beber alguma coisa, que eles faziam. 

Lipe riu.

Kurt: A gente não sai da barriga da mãe sabendo dessas coisas, tem que estudar pra aprender.

Kurt sentou no chão, de frente para o sofá onde estávamos. Lipe sentou no braço do sofá, ao meu lado por falta de espaço e Lola se jogou na poltrona mais afastada do grupo.

Lipe: Nem me fala em aula, estudar, aprender… Amanhã recomeçam minhas aulas na faculdade.

Kurt: Segundo semestre?

Lipe: Terceiro. – ele disse e se escorou mais no sofá, entediado.

Nick: E tu Kurt? Não era pra ti estar na faculdade também? – ele perguntou, sendo metido.

Kurt tirou um cigarro do bolso, levantou e procurou fogo pela casa toda, até achar, acender e ser obrigado a responder. Mesmo assim, depois de sentar, tragou duas vezes antes de finalmente abrir a boca.

Kurt: Vou dizer o destino da humanidade pra vocês. A gente nasce, estuda, estuda, estuda, trabalha, trabalha, trabalha e depois… a gente morre.

Fiquei olhando pra ele, tentando achar uma razão por estar prestando tanta atenção nas merdas esse homem tá falando.

Kurt: Eu não quero isso pra mim, cara. Prefiro passar minha vida inteira tocando e cantando minha música do que viver pros dos outros.

Dudu: Como assim?  – Kurt parecia nervoso em falar nessas coisas e Dudu interessado. Não entendia porque tanto interesse, mas continuei observando eles.

Kurt: A gente se mata trabalhando pra quê? Pra ganhar uma miséria e beneficiar quem? Os filhos da puta do governo. Ou tu acha que eles colocam a mão na massa? Óbvio que não, só dão ordem pros babacas aqui fazerem o serviço sujo deles. Assim eles consegue ganhar milhões sem fazer absolutamente nada além de roubar. Não ajudo nessa forma de vida nem fodendo. Se a escola não me dá prazer, eu não vou. Fim.

Ele terminou nervosão. Tragou fundo no cigarro, levantou e buscou uma cerveja. Abriu a garrafa, colocando o cigarro na boca pra liberar as mãos. Kurt é uma pessoa esquisita mesmo, mas eu concordava com ele. Quem não concorda, não é? Política é um assunto que estressa qualquer um.

Quis tirar a tensão do momento contrariando Kurt.

Eu: Mas tu não acha que vai conseguir fazer apenas o que te dá prazer a vida inteira, não é? Às vezes a gente tem que fazer coisas desagradáveis pra chegar onde queremos. Pensa comigo, antes de chegar no clímax, tem que haver preliminares. Certo?

Todo mundo riu disfarçadamente. Inclusive Kurt, que percebeu minha tentativa bem sucedida de não deixar a sala cair no silêncio desconfortável.

Kurt: Gosto de chegar no clímax rápido. – ele disse rindo e acabando com o cigarro.

Eles voltaram a tocar e foi assim a noite toda. O assunto tinha sido encerrado, mas eu continuava pensando. Queria ter um grande sonho assim como o de todo mundo. Que desse um sentido mais certo pra vida. Porque até agora, pra mim, a vida é uma incógnita. Não sei o que vai ser de mim daqui vinte anos. Se vou estar  bem de vida e aproveitando ou se vou estar casada com cinco filhos pra criar.

OK, acho que isso não.

Não consigo me imaginar casando com alguém e dizendo “vou te amar pra sempre”, é ridículo. Não existe isso. Não estou dizendo que o amor não existe, mas é hipocrisia demais pra minha cabeça dizer que vai amar alguém pra sempre. Ninguém sabe do futuro, então não fica prometendo.

Principalmente sobre amor. Amor é muito relativo. Tu pode começar a amar uma pessoa sem perceber, e deixar de amá-la do mesmo jeito.

Parei de brisar, quando percebi que Nick falava comigo. Tentei prestar atenção no que ele dizia, mesmo sem ouvir muita coisa. 

-

Depois de algumas cervejas e músicas lentas, eu já tava pronta pra escorar a cabeça e apagar ali mesmo.

Dudu: Madu, vai ficar aí? – olhei pros lados e só o que consegui enxergar, foi a fumaça branca que vinha do chão, onde Kurt estava deitado.

Kurt: Se quiser ficar aí, Madu, tudo bem. E tu também, pequeno. Se quiser se jogar aí, não me importo.

Dudu não pareceu gostar muito do novo apelido, mas não falou nada e sentou-se ao meu lado. Sentia que ele continuava querendo ir embora, mas eu tava de boa ali. Então, me aconcheguei melhor em Dudu e fechei os olhos. Acho que ele relaxou mais depois disso, porque senti a respiração desacelerar.

-

Senti uma coisa me cutucando e fui obrigada a abrir os olhos. E quando o fiz, me assustei com a quantidade de claridade. Parecia que eu tinha acabado de fechar os olhos, mas a noite toda passou sem eu perceber. E continuava com sono.

Procurei o que me cutucava no sofá, até perceber que já não estava mais no sofá, e sim no quarto de Kurt. O quarto continuava exatamente a mesma coisa que eu tinha visto antes. Olhei pra todos os lados pra me certificar de que estava sozinha e fiquei aliviada em comprovar isso.

 Já acordei do lado de Kurt duas vezes, acho que não preciso de uma terceira. Mesmo que eu não tenha me arrependido da segunda, foi muito bom mesmo. Mas não pretendo repetir.

Sem pensar muito nisso, calcei meus tênis que estavam do lado da cama e fui pra cozinha. Lipe estava lá bebendo uma xícara de café.

Eu: Oi.

Lipe: E aí? – ele sorriu constrangido – tem café ali, se quiser.

Eu: OK. – servi uma xícara e me sentei do lado dele.

Começamos a conversar sobre qualquer inutilidade, mas terminamos com um papo sério de faculdade. Lipe fazia Psicologia, o que eu achei estranho. Não conseguia imaginá-lo como psicólogo ou coisa parecida. mas engoli o comentário e apenas sorri.

Kurt apareceu e sentou à mesa com a gente, se espreguiçou e bocejou.

Kurt: Bom dia.

Lipe: Boa tarde, tu quis dizer. – Kurt sorriu daquele jeito cafajeste de sempre.

Que eu gostava, mas que já não era a mesma coisa. Não sei explicar o porquê. Talvez seja porque já tenha ficado com ele, ou porque achava Lipe a pessoa mais interessante nesse momento. Fiquei nervosa só de pensar e principalmente porque os dois estavam olhando pra mim.

Engoli seco e bebi mais café pra não precisar falar nada.

 Kurt: Foi um bom ensaio ontem, não é?

Eu: Foi. – Lipe assentiu – Mas cadê Nick? E Dudu?

Kurt: Foram embora juntos, acho que até pro mesmo lugar. Não prestei atenção.

Eu: Ah. Acho que tá na minha hora também. – levantei e coloquei a xícara na pia.

Kurt: Fica aí. Queria conversar contigo.

Eu: Sobre o quê?

Kurt: Sobre o que aconteceu no show.

Eu: Deixa isso pra lá, Kurt.

Kurt: Eu não quero deixar pra lá. Continuo a fim. – Lipe começou a mexer no cabelo de um jeito nervoso e se levantou.

Lipe: To indo.

Eu: Me espera.

Kurt: Madu. – ficamos os três encarando uns aos outros. Lipe não disse nada e saiu, batendo a porta.

Eu: Fala – disse,  já puta da vida e com vontade de socar a cara dele.

Kurt: Não to te pedindo em namoro nem nada. – ele riu e acendeu um cigarro – quero ser teu amigo, mas te acho muito gostosa pra ser só isso, entende?

Eu: Na boa? Também te acho lindo pra caralho, mas não é por isso que vou ficar contigo. Aconteceu uma vez, mas não quer dizer que pode acontecer de novo. Se tu não quiser ser só meu amigo, tudo bem. Mas não seja se for pra ficar insistindo e enchendo o saco.

Disse isso em pé, tava com um timbre nervoso na voz e tentava esconder. E ele ficava me olhando com aqueles olhos pretos e com as covinhas a mostra.

Tragou e assentiu.

Kurt: Gosto de ti, Madu. Já disse isso. E ainda não esqueci que to te devendo uma. Aquela noite, tu me deu uma super ajuda e por isso tu tem vantagem na nossa amizade. – ele demorou um pouco pra dizer “amizade” – porém, continua sendo gostosa, então se tiver oportunidade eu te pego e não vou ter culpa.

Ele deu de ombros. Fiquei alguns segundos tentando entender aquelas palavras, mas só disse “OK” e saí. Acho que agora somos amigos, mas não tenho certeza.

Lipe estava sentado na calçada de frente pra casa de Kurt, com as mãos nos cabelos e com a cabeça abaixada. Achei estranho e sentei ao lado dele.

Eu: Que foi?

Ele levou um susto e sorriu amarelo.

Lipe: Nada não. – continuei a olhar pra ele sem acreditar – tu já ficou com o Kurt?

Ele me perguntou sério.

Eu: Sim.

Lipe: Ah. – ele assentiu.

Eu: Por quê?

Lipe: Nada não.

Eu: Qual é, Lipe? Fala o que tu tá pensando.

Lipe: Eu só queria saber.

Eu: Faz diferença?

Lipe: Muita.

Eu: Por quê?

Lipe: Conheço os tipos de mulheres que ficam com ele.

Eu: Como assim?

Lipe: Acho que tu não conhece muito bem ele ainda.

Eu: Não, acabei de conhecer vocês. Esqueceu?

Lipe: Não esqueci, mas parece que tu sim, não é? Já até ficou com Kurt. – ele disse displicente.

Eu: Não to entendendo o que tu tá querendo dizer.

Lipe: Eu achei que tu fosse uma guria legal, mas tu ficou com Kurt. E ele sempre fica com vadias e…

Eu: Tá me chamando de vadia?

Lipe: Não foi isso que quis dizer. – ele balançou a cabeça negando.

Eu: Foi exatamente o que tu disse. – tava ficando nervosa de novo e acabei levantando – Fiquei com Kurt uma vez, não quer dizer que vá acontecer de novo, também não quer dizer que eu saio abrindo as pernas pra qualquer um. Não sei porque eu to me explicando.

Lipe: Eu também não sei porquê. – ele se levantou e ficou de frente pra mim.

Claro que ele se levantando tinha muito mais impacto que eu, o garoto era mil metros mais alto. Ele parecia tão triste e decepcionado que parte da minha raiva se foi.

Eu: Qual é o teu problema, Lipe?

Lipe: Eu me odeio por sempre gostar da pessoa errada, esse é o problema. Tua não é só linda, é inteligente e tem personalidade. Mas do que adianta se fica com imbecis tipo esses – ele apontou pra casa de Kurt.

Eu: Tu nunca ficou com uma menina? Só por ficar? Sem querer nada além disso? É a mesma coisa comigo e com Kurt. Mas só porque foi com ELE, eu sou uma vadia. Tu nem me conhece e já tira altas conclusões.

Ele não disse nada, só ficou me olhando. Dei de ombros e segui meu caminho, sem olhar pra trás. Nem mesmo quando ouvi Lipe gritando meu nome.

Estava com raiva, mas não só dele. Raiva de mim mesma. Continuei caminhando sem rumo, minha vontade era de caminhar até chegar onde minha mãe está e receber um abraço apertado dela. E ouví-la dizer que ele estava errado, que eu não tinha me tornado uma vadia sem perceber.

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