Capítulo 53: AP renovado.

Eu: Como assim ele vai voltar?

Dudu: Ele disse que já tá resolvendo tudo e que vai voltar assim que der.

Dudu contou a novidade, sério. Não teve nenhuma reação de alegria ou alívio e também não parecia esperar isso de mim. Acho que finalmente temos o desgosto em comum pela mesmo pessoa, mesmo que essa pessoa seja nosso pai.

Eu: Se ele voltar…

Dudu: Eu to bem na casa de Nick. Muito bem, bem como nunca estive… ou talvez só quando a mãe ainda era viva. Não vou trocar isso pra morar com um cara torto tipo ele. Voltei a ter uma família, Madu.

Era exatamente essa resposta que eu esperava ouvir e fiquei muito feliz por isso. Tinha muito medo que meu pai conseguisse fazer a cabeça de Dudu e o fizesse voltar pro inferno que é viver em sua companhia. Não acho que meu irmão tenha que ficar preso pelo resto da vida simplesmente por ser nosso pai. Na verdade, ele não precisou fazer muito esforço pra ser pai.

Quero dizer, o único esforço foi convencer minha mãe a dar pra ele e mais nada.

Eu: Se ele entrar em contato contigo de novo, me avisa. Não deixa ele se aproximar muito de ti e mantém a cabeça no lugar. Nada de ficar ouvindo os discursos moralistas e mentirosos dele, OK?

Assentiu.

Fomos sentar nos escorar em qualquer lugar disponível porque o clima não era dos melhores. Não consegui tirar meu pai da cabeça depois daquilo. Ele podia mesmo obrigar Dudu a morar com ele, já que ele é menor de idade, mas se os pais de Nick brigassem na justiça pela guarda, de jeito nenhum que meu pai ganharia.

Ele é só um velho bêbado e, até onde eu sei, agora sem nada no bolso. Os pais de Nick são ricos, simpáticos e a gente consegue sentir a felicidade deles de longe. Nenhum juiz tiraria Dudu daquela casa. É o que eu espero.

Poderia me obrigar a ir morar junto também, mas isso nem vai passar pela cabeça dele. Deve é comemorar quando souber que não precisa mais me bancar.

Não percebi o tempo passar com tanta merda pra pensar.

Não falei com Luck depois da nossa “briga”, mas duvido muito que ele tenha ficado realmente puto. A gente não precisa mais pedir desculpas um pro outro. Acho que nossa amizade já passou de estágio. E isso não vai mudar nunca, ou até nossa amizade acabar. 

Parei e bebi um gole grande pensando nessa possibilidade desastrosa.

Me imaginar longe de Luck é tão ruim quanto imaginar Dudu fora da minha vida. Tentei realmente parar de pensar essas merdas porque isso não podia acabar bem. Foi impossível não voltar a pensar em Lipe.

Filho da puta.

Por que é que me fez gostar dele e depois foi embora? Foda-se que talvez eu tenha 50% de culpa nisso. Foda-se. Ele não podia ter ido. Era como se o dia do “será que sou uma vadia?” estivesse se repetindo de novo. Só que dessa vez mais intensamente, porque eu já tinha memórias suficientes pra me corroer pelo resto do dia. Afinal, aquele abraço aconchegante não é qualquer um que tem. O jeito com que ele penteava o cabelo e eu o bagunçava até deixar do jeito que gosto.

Minha respiração tava acelerando de um jeito estranho, peguei o copo da mão de Dudu e virei. Me arrependi na mesma hora. Minha garganta gritou que eu estava sendo estúpida e rejeitou a bebida. Cuspi de volta e devolvi a Dudu. Ele olhou pro copo com cara de nojo, mas eu não liguei. Precisava me acalmar de algum jeito e foi aí que eu vi um maço de cigarros na minha frente. As pessoas fumam quando estão nervosas, tem que funcionar comigo também.

Peguei um e acendi com o isqueiro que estava do lado. Não sei de quem era, mas foi idiota de deixar jogado e agora é meu. Coloquei o isqueiro no mesmo bolso do celular pra não perder e continuei a fumar. Um de cada vez, com calma e aproveitando cada tragada. Respirando fundo e deixando a fumaça tomar conta da minha visão.

Logo depois consegui uma cerveja e fiquei feliz, intercalando entre os dois. Percebi que fazia um tempo considerável que eu não ficava bêbada. No máximo brisada, do tipo “cadê Lipe? Preciso procurar. Cadê?” E acabar sendo encoxada por um hipster babaca, mas nada demais. Não sei se era um progresso. Não sei se isso merecia um brinde, só sei que continuei bebericando aqui e ali sem me preocupar em ter acabado de sair de um hospital.

.

Acordei com alguma coisa roçando em mim. Abri os olhos, sonolenta e fui ver o que me incomodava. Era Nick. Estávamos no quarto de Luck e ele dormia atravessado na cama como se tivesse tentado encontrar uma posição confortável, mas dormiu antes disso. Acabou deixando o boné em cima de mim. Peguei o boné e voltei a dormir.

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- Maduzinha?

Eu: Hm? – abri os olhos de novo, ainda agarrada com o boné.

Luck: Preciso da tua ajuda pra arrumar tudo antes que os caras dos móveis cheguem. Eles me ligaram e vão chegar em vinte minutos.

Eu: Por que tu não me avisou antes que eles iriam chegar tão cedo?

Luck: São quatro da tarde.

Eu: Ah. – levantei devagar, com a mão na cabeça. Não sabia o que fazer com o boné, já não via Nick por ali. Então o coloquei na cabeça. Luck ficou me olhando estranho, mas deu de ombros.

Fui até o banheiro e joguei uma água na cara. Percebi a quantidade de lixo que tinha pela casa. Nem tinha tanta gente assim, mas tem babaca que se abusa, puta merda. Respirei fundo e peguei um saco grande de lixo que achei no banheiro e coloquei meu tênis depois de ouvir o grito de Luck.

Luck: UM IDIOTA QUEBROU TRÊS GARRAFAS NA SALA. NÃO VEM DESCALÇA. FILHO DA PUTA.

Fui até lá ver o estrago e colocamos a mão na massa.

Duas almas cansadas, como a gente, não conseguiram fazer muita coisa. Mas a casa ficou apresentável. Quatro sacos grandes de lixo cheios foi o que sobrou da noite passada. Coloquei-os na frente do prédio e voltei. Me joguei ao lado de Luck no sofá.

Estávamos cansados e Luck provavelmente com dor de cabeça, pela cara que fazia. Então conseguimos um breve silêncio no AP. Até ouvir a buzina do caminhão na frente do prédio. Luck saiu correndo e falou antes de sair.

Luck: Pelo menos eles atrasaram.

Verdade. Não conseguiríamos limpar tudo em vinte minutos nem fodendo.

Trazer tudo pra dentro foi um trabalho de, pelo menos, duas horas. E mais uma hora pra arrumar, móveis pra cá e pra lá. Haja força nos braços. Os caras foram embora quando já era noite e Luck ainda não estava satisfeito.

Luck: PORRA! EU PAGO O DOBRO DO QUE ELES ESTÃO ACOSTUMADOS E NÃO FAZEM A PORRA DO TRABALHO DIREITO.

Eu: O trabalho deles é trazer até aqui…

Luck: VOU RECLAMAR MESMO E FODA-SE. GASTEI MEU DINHEIRO NESSA PORRA E TENHO O DIREITO…

Parei de ouvir quando liguei o chuveiro e fechei a porta. O banheiro estava tão mais bonito com tudo organizado. Toalhas novas e brilhantes.

OK. Posso ter exagerado na hora do “brilhando”, mas eu já ficava feliz na organização. É impressionante como o Luck consegue ser uma “bagunça organizada”. E não só organizada, como perfeccionista. Isso era bom. Nosso AP parecia uma casa de verdade agora. Talvez ainda com um cheiro suspeito do antigo inquilino, mas duvido que isso mude morando com quem moro.

Tinha algumas coisas esquisitas, é claro. Como as almofadas verde limão que Luck insistiu que eram legais colocar no sofá velho. Mas em geral, ficou tudo muito lindo. E ver tudo assim, foi como um tapa na cara “Tu tá sozinha agora. Tá na hora de te virar, manola. Se liga” O dinheiro de Luck não ia durar pra sempre e eu nem gostaria de usufruir disso por muito mais tempo. Sei que por Luck eu poderia ser escorada, e ele ainda pagaria tudo pra mim, mas não me sentia bem nem com a ideia dessa situação. Parecia errado.

Saí do chuveiro e voltei até a sala. Luck cochilava no sofá. Cheguei até ele e tentei acorda-lo gentilmente, mas não funcionou.

Eu: LUCK!

Luck: Quê? – ele levou um susto.

Eu: Vamos comer alguma coisa.

Luck: Eu também to com fome, mas não tem nada na geladeira. – ele bocejou e eu sentei junto dele – a gente podia ir na casa de alguém pra comer.

Eu: Quem? – perguntei descrente.

Luck: Sei lá. Teu namorado, vamos lá. – ele falou a última frase como se tivesse lembrado da existência dele.

Eu: Ele não é meu namorado e a gente brigou.

Luck: Ah, vai tomar no cu.

Eu: Quê? – tentei entender o que fiz de errado.

Luck: Não quero saber da tua briga, mas tu tá errada porque agora a gente não tem onde comer. Orra. Vamo na casa daquele amigo teu que tá aturando o Dudu por nós.

Eu: Fica muito longe e o nome dele é Nick.

Luck: O quão longe?

Eu: Ele mora na mesma rua que eu morava.

Luck: Na rua das mansões? Jura? O moleque se deu bem então. Deve estar morando numa puta casa. – ele riu e logo parou – não temos onde comer. Poderíamos ir em algum restaurante, mas deve tá tudo cheio nesse horário.

Ele fez cara de deprimido.

Eu: To perdendo a fome já.

Luck: Amanhã a gente faz compras. – ele falou pra si mesmo.

Eu: Lindo. E hoje a gente passa fome.

Luck: Culpa tua. Se não tivesse terminado o namoro, já estaríamos a caminho da casa do Lipe.

Eu: CALA A BOCA, LUCK. NÃO ME ENCHE. – fiquei puta só de ouvir o nome dele. Mas é claro que o Luck não ia deixar quieto.

Luck: EU TE ENCHO SIM. TO COM FOME, PORRA! E FOI TU QUE ME ACORDOU.

Eu: PEDE UMA PIZZA E PRONTO, CARALHO!

Luck: Por que eu não pensei nisso antes? – pegou o celular e pesquisou o número de pizzarias mais próximas.

Silêncio depois disso.

Me estressei com Luck por motivo nenhum, mas ele enche o saco.

Eu: Por acaso tem prato e talheres? – perguntei pra tirar a tensão do momento.

Luck: Que mané prato, Maduzinha. Come com a mão mesmo.

Pelo jeito só eu sentia a tensão. Dei de ombros e esperamos a pizza ansiosamente. Quando chegou, eu desci e sofri pra carregar a caixa e a garrafa de refrigerante pro AP, mas cheguei viva e varada de fome.

Luck: Que dia. Puta que pariu. – ele falou enquanto abríamos a caixa e nos sentávamos pra comer.

Eu: Tu ainda pensa em alugar o terceiro quarto?

Luck: Claro, por quê? – ele limpou a boca e me olhou.

Eu: A Lola pediu pra ficar com ele.

Luck: Lola? Ruiva gostosinha? – ele puxou da memória.

Eu: Sim… eu acho.

Luck: Tudo bem. Gostei dela – fez cara de segundas intenções e voltou a comer.

Eu: Não faz essa cara. Duvido que ela ficaria contigo, na boa.

Luck: Mas por quê? Qual o problema comigo? – ele perguntou com a boca cheia.

Eu: Pffs.

Luck: Fala, caralho.

Eu: Sei lá. Só tenho essa sensação. E se tu fosse um pouco inteligente, não tentaria dar em cima de alguém que tu vai ver todos os dias. Não só ver todos os dias, mas conviver na mesma casa. A não ser, é claro, que vocês se casem.

Silêncio.

Luck: Tu tá delirando, Madu. Já tomou teus remédios? 

Eu ri e deixei quieto. Não eu não havia tomado o remédio e foda-se. Quero dizer, to melhor. Bem melhor. Mesmo com o acúmulo de problemas.

Quando terminamos de comer, Luck insistiu em instalar a nova TV, mesmo tendo tentado várias vezes.

Luck: Tem que ter um jeito de instalar isso aqui, não é possível,

Eu tentei ajuda-lo, mas não tinha muito a ser feito. No fim, deixei ele sozinho e fui até meu quarto arrumar o que faltava.

Luck comprou uma estante muito perfeita, onde dava pra guardar CDs, LPs e livros. Pena eu não ter muito pra completar ela. Acabei deixando muita coisa pra trás e nem havia percebido. Se tivesse ganhado essa mesma estante ano passado, quando ainda morava na minha antiga cidade, eu a preencheria numa boa. 

Preencher aquela estante parecia a coisa certa a se fazer. E eu ia conseguir em pouco tempo, sentia isso. Sentei na minha nova cama de casal e fiquei olhando pra estante vazia até Luck me chamar.

Luck: CORRE AQUI, MADUZINHA! CONSEGUI LIGAR! HAHAHA!

Sorri e fui até lá comemorar com ele.

-

Sentamos no sofá velho e ficamos assistindo os filmes que passavam no momento. Conforme enjoávamos, Luck trocava de canal. Até achar um onde passava Laranja Mecânica. Ele comemorou fazendo uns gestos estranhos com as mãos e gritou de emoção.

Luck: Esse filme é muito foda, Maduzinha.

Depois disso ficou falando junto com os personagens como uma segunda voz. Eu acho, só acho, que talvez ele tenha visto o filme dezenas de vezes. Quando terminou, dormi ali mesmo, sem ligar pro desconforto ou pro cheiro suspeito do sofá velho.

.

Acordei assustada com o estrondo.

Abri os olhos rápido e percebi que continuava no sofá e que o barulho tinha vindo da cozinha, onde Luck xingava baixinho enquanto mexia nas panelas.

Eu: Vai cozinhar?

Luck: Eita, porra. Achei que tivesse dormindo. – ele colocou a mão no peito e respirou por um minuto. Eu ri com o susto que ele levou e me levantei.

Luck: Comprei panelas, mas ainda estamos com os armários vazios.

Eu: Muito inteligente. – zuei enquanto caminhava até o banheiro e enxaguava o rosto.

Minha cara não estava tão ruim. Coloquei uma roupa decente e voltei pra sala.

Eu: Tu ainda tem dinheiro?

Luck: Sim, é claro.

Eu: Vamos ao mercado, então.

Luck: Quê?

Eu: A gente não pode sobreviver de pizza. – ele me olhou e assentiu como se tivesse pensado nessa possibilidade.

Me seguiu até o elevador e nos direcionamos ao mercado mais próximo. Pegamos um carrinho e começamos a andar pelos corredores, olhando para os lados.

Luck: Hm… Devíamos ter feito uma lista de compras.

Eu: Até parece que tu saberia o que escrever nela.

Luck: Ah, é.

Silêncio.

Luck: FEIJÃO! Vamos precisar de feijão – ele colocou 5 kg de feijão dentro do carrinho e silêncio de novo.

Eu: Tu sabe fazer feijão?

Luck: Não… e tu?

Eu: Também não.

Luck: Puta que pariu. Tu devia saber dessas coisas.

Eu: Eu? Por quê?

Luck: Porque sim. Tu é mina.

Eu: Tu é “mino” e devia saber jogar futebol, porém…

Luck: Cala a boca, Madu. – eu ri.

Sabia que ele sempre quis saber jogar, mas era uma bosta em esportes tanto quanto eu.

Continuamos vagando pelos corredores e colocando uma coisa ali outra coisa aqui dentro do carrinho. A verdade é que nem eu, muito menos Luck, sabíamos o que estávamos fazendo.

Eu: Ali tem miojo. Acho que devíamos levar uns dez. – ele assentiu e pegou no mínimo uns vinte.

E foi daí em diante que tivemos a decência de comprar alimentos instantâneos.

Luck: Espero que Lola saiba mesmo cozinhar. Senão é só isso que iremos comer. – ele olhou pro carrinho com o olhar triste.

Voltamos a caçar comida.

Luck: Aquele não é o Cobain?

Eu: Quem? – perguntei enquanto arrastava tristemente o carrinho pelos corredores. Olhei para onde Luck apontava. Era Kurt, com uma menina na sessão de bebidas. – por que tu chama ele de Cobain?

Luck: Não é óbvio?

Eu: Hm. É.

Decidi apenas continuar meu caminho triste de comida rápida pelos corredores. Foi quando esbarrei em um garoto (aparentemente mais novo que eu) trabalhando ali que lembrei de uma coisa.

Eu: Luck.

Luck: Hm. – dessa vez ele carregava diversos pacotes de Doritos e bolachas.

Eu: Me lembrei de uma coisa agora.

Luck: Do quê? – ele saiu correndo e voltou com os braços cheios de Toddynho.

Eu: Kurt tá me devendo uma.

Luck: Daquela vez que tu trabalhou pro pai dele?

Eu: Sim. Ele disse que qualquer coisa que eu precisasse era só pedir.

Luck: Ele não parece um cara que diria uma coisa dessas, mas prossiga.

Eu: É. Acho que foi a única vez que o vi sendo gentil. Ele tava meio desesperado também. – fiquei pensativa.

Luck: E tu vai pedir o que pra ele?

Eu: Pra me ajudar a achar um emprego. – Luck deixou os cereais que carregava cair e me olhou sério.

Luck: Tá maluca? Tu não vai confiar nele pra uma coisa tão importante. Eu não vou deixar. O máximo que ele arranja pra ti é trabalho de stripper.

Eu: Para de fumar, Luck.

Luck: Falando nisso, foi tu que fumou meu beck que tava na minha gaveta?

Eu: Não. Foi o Lipe.

Luck: Filho da puta. Eu achei estranho, porque tu não costuma fumar. Não tenho muita coisa por aqui, sabia? Não conheço ninguém nessa porra de cidade pra me reabastecer.

Eu: E eu lá tenho culpa? – perguntei ainda com Kurt na cabeça.

Olhava para os lados e não o via em lugar nenhum. Decidi voltar ao corredor das bebidas. Luck me seguiu mesmo sem saber o que eu pretendia e continuava reclamando.

Luck: Quando vim pra cá, confiei em ti. Achei que tu tivesse feito uns amigos importantes e que poderiam me ajudar nisso, mas o máximo que percebi naquela festa foi aquele babaca que tu me comparou e…

Eu: KURT! – ele olhou pra trás e Luck parou de falar.

Kurt sorriu e caminhou devagar até nós, com a guria ao lado.

Kurt: Tudo bem, Madu? – ele me cumprimentou com dois beijos no rosto e uma mão na cintura. Chamou ele, agora aguenta Maria Eduarda.

Eu: Queria falar contigo… sozinha.

Kurt: Olha, se for sobre Lipe… – ele tirou o sorrisinho da cara e revirou os olhos, mas eu o interrompi.

Eu: NÃO. Não é sobre Lipe. – fui mais grossa do que esperava, mas Kurt não teve reação alguma. Só assentiu e caminhou até o corredor do lado. Eu o segui.

Eu: Lembra  do dia que substituí a Gretchen?

Kurt: Mas é claro. – óbvio que ele lembra. Pergunta idiota.

Eu: Disse que eu podia pedir qualquer coisa…

Kurt: Eu lembro do que disse, pode pedir o que quiser.

Eu: Preciso de um emprego e seria o favor ideal se tu me ajudasse com isso.

Ele respirou fundo como se esperasse um pedido melhor e assentiu.

Kurt: Vou ver o que consigo fazer por ti.

Eu: Ah… eu não quero exigir nada, mas…

Kurt: Não vou te colocar como faxineira de um bar de esquina, Madu. Relaxa – ele sorriu.

Eu: Obrigada. – agradeci enquanto voltávamos.

Kurt: Eu vou te ajudar porque to te devendo uma, se não tivesse, não faria isso nem fodendo. Não sei pra que tanta insistência em trabalhar quando tu tem uma mina de ouro morando contigo. – ele indicou Luck com a cabeça.

Ignorei.

Luck e a guria, que acompanhava Kurt, estavam rindo e conversando como melhores amigos. Revirei os olhos pensando na rapidez daquele moleque.

Sem se despedir, Kurt colocou a mão nos ombros da menina e saiu. Antes de desaparecer por completo gritou o que eu não tive coragem de perguntar:

Kurt: Te ligo amanhã mesmo. Pode relaxar.

Peguei o carrinho e continuei meu caminho, com Luck me perseguindo. Ele me observava pelo canto dos olhos, sem dizer nada, mas deixando claro tudo o que passava pela cabeça dele no momento. Luck é bem previsível. É capaz dele não falar nenhuma palavra até que eu pergunte. Por isso deixei quieto. Até a mulher da caixa estranhou o clima e eu fingi não notar.

Chegando no AP, eu não aguentei mais o silêncio e olhei direto pra ele.

Eu: Fala, Luck. Pode falar.

Luck: EU NÃO ACREDITO QUE TU TÁ CONFIANDO NAQUELE FILHO DA PUTA DO CARALHO! – ele ergueu os braços e berrou como se tivesse entalado.

Eu: Não sei mais onde procurar.

Luck: TU NEM PROCUROU, PORRA.

Eu: Luck, eu não conheço nada aqui. Te acalma. Eu lembrei desse favor que ele me devia, se der certo ótimo, se não eu procuro em outro lugar, entendeu?

Luck: Tá bom. – ele deu de ombros, acendeu um cigarro e saiu.

Não. Nada de “tá bom”. Suspirei. Não tinha certeza de que esse favor daria certo, mas eu não podia deixar passar. Quem sabe essa não era a solução. Foi fácil de conseguir, achei que teria de implorar a Kurt. Que ele não concorda com essa história de eu querer trabalhar não é novidade.

Sentei no sofá velho e cheio de pó para pensar no que fazer. Respeito Luck mais que qualquer um nesse mundo. E agora eu deixei ele puto. Acho que de verdade dessa vez. Ou não. Olhei reto e vi nossas compras no balcão.

Comida. Nunca soube cozinhar, mas também nunca tentei. Poderia aprender e fazer alguma coisa legal pro Luck ficar de boca cheia e deixar de ser puto comigo.

Pesquisei diversos vídeos na internet e acabei tentando fazer uma lasanha. Sei que Luck adora. Quero dizer, todo mundo gosta de lasanha. Nos vídeos parecia muito fácil, mas logo quando peguei os ingredientes percebi que a minha lasanha não ficaria tão bonita quanto a da tia do youtube.

Preparei tudo e coloquei no forno. Sentei nervosa, olhando para o fogão novo. Vinte minutos depois, Luck entrava pela porta e olhou estranho pra cozinha bagunçada.

Luck: O que aconteceu? Que cheiro é esse? – eu apontei e ele foi ver. – isso é lasanha? Tu fez lasanha?

Ele começou a rir descontroladamente. Estava prestes a mandar ele se foder quando veio me abraçar.

Luck: Tu é uma figura, Maduzinha.

Eu não disse nada e dei de ombros. Organizamos as coisas e coloquei pratos no balcão que serviria de mesa pra nós.

Eu: Se eu chamasse Dudu, tu ficaria puto de novo?

Luck: Tudo bem. – peguei meu celular – e eu não fiquei puto. Só decepcionado. Ainda to. Não gosto do Cobain. Por mais que o nome dele seja foda.

Dudu: Não posso ir agora, Madu. Ainda to na escola. Mas daqui a pouco eu passo por aí, pode ser?

Eu: Escola?

Dudu: É. Primeira semana de aula. Tu não sabia?

Eu: Claro, só tinha esquecido.

Dudu: OK. Daqui a pouco eu chego aí… Ah, o Nick vai junto. Tchau.

Desliguei.

Eu: Luck, tu sabia que essa é a primeira semana escolar?

Luck: Não sei nem que dia é hoje.

Pelo menos não era só eu.

-

Luck: MADU, O MOLEQUE TÁ CHAMANDO NO PORTÃO.

Eu: Vai lá abrir.

Ele bufou e desceu enquanto eu terminava de colocar mais dois pratos no balcão.

Minutos depois Dudu e Nick entraram atrás de um Luck rindo atoa. Não entendi o porque até ver o que os dois estavam usando.

Eu: Mas que porra é essa?

Nick: Nossa obrigação é usar isso, não zua.

Eu: OK. – assenti e tentei não olhar mais praquele uniforme bizarro. Era verde limão e azul. Realmente esquisito, mas dei de ombros.

Nick parecia meio pra baixo, seria mancada fazer piada. Luck não parou pra pensar nisso, é claro. Mas eu deixei quieto.

Sentamos a mesa e Dudu desandou a falar sobre como a escola era grande e bonita. Nick só concordava com a cabeça e eu fingia interesse.

Dudu: É muito foda. Tu devia estudar lá com a gente, Madu.

Hell no?

Eu: Não acho que conseguiria pagar uma escola dessas. – ele abriu a boca e eu continuei rápido – E nem me encaixaria lá.

Dudu: Claro que se encaixaria, por que não?

Luck: Porque é colégio de playboy. Cheio de moleque idiota que se acha superior por nascer num berço de ouro. Tem pessoas que não são assim? Provavelmente, mas são tão poucos que não dá nem pra considerar. Os professores exigem tanto de ti, como se tu fosse um robô e não pudesse mexer um dedo sem autorização. Até parece que isso é ensino. – Luck que havia ficado quieto até agora se manifestou agressivo – Madu é inteligente demais pra pertencer a um lugar tão limitado a gente pau no cu.

Silêncio.

Dudu parecia estar ficando bravo e Nick sorria.

Luck: Tá rindo de que, maluco?

Nick: Tu acabou de descrever exatamente como minha escola é sem ter estado lá. – ele parecia impressionado.

Luck: Nunca estive na tua, mas vivi saindo de uma escola e entrando em outra. Essas escolas de playboy são tudo igual. Quanto mais caro tu paga, menos liberdade tu tem pra ser tu mesmo. Eles querem é que tu seja um logotipo pra poder mostrar pros outros. “Olha como nossos alunos são comportados e humildes”, mas saindo dali é tudo um bando de mimado do caralho.

Silencio de novo.

Dudu tava com cara vermelha de raiva e Nick parecia mesmo admirar Luck mais que tudo nesse momento. Aquela cena tava estranha, então tentei trocar de assunto. Mas o clima tava pesado mesmo. Quando pairou o silêncio de novo olhei pro Nick e reparei que ele estava sem boné. Lembrei que tinha deixado no meu quarto e levantei para buscar.

Quando voltei, coloquei-o na cabeça dele e sentei de novo, olhando a reação que ele teria.

Nick: Não sabia onde tinha deixado. – ele sorriu e agradeceu ajeitando o boné pra não tapar os olhos.

Foi o primeiro sorriso que eu vi ele dando desde que chegou e fiquei satisfeita. Depois disso, o tempo passou rápido. Quando os dois resolveram ir embora, já anoitecia. E ao me despedir de Nick, cochichei séria.

Eu: Se precisar de alguém, sabe que sou tua amiga, certo? – ele pareceu surpreso, mas assentiu, sorrindo.

Luck: Teu irmão continua o mesmo coxinha de sempre. – ele disse fechando a porta e sentando no sofá.

Fingi que não ouvi e decidi organizar a cozinha. Não levou muito tempo pra eu me irritar e sair de casa levando os cigarros de Luck escondidos. E me sentei em frente ao prédio, escorada na parede amarela. Fumava com calma. Observar a fumaça saindo da minha boca e de dissipando com o frio da rua era viajante e até libertador. Como se fosse a coisa mais importante a se reparar no momento.

Quanto mais escurecia, mais a rua das Galáxias ia enchendo e tomando o formato que eu conheci primeiramente. Eu sorria ao olhar onde fui parar. Acho que nunca vou encontrar lugar melhor.

E enquanto eu olhava o movimento, reparei em um velho olhando para o chão. Ele deixou alguma coisa cair e não conseguia achar com a escuridão embaixo das árvores. Estava mesmo muito fácil dele ser assaltado e eu temia por ele. Resolvi vestir minha capa de super-heroína e ajudar o pobre velho. Ao chegar mais perto, ouvi os resmungos sobre “chaves”. Elas brilhavam no chão. Me abaixei e peguei, sem reação.

Eu: Senhor, está aqui suas chaves.

Velho: Pois me dê logo, já to atrasado.

Antes que eu lhe entregasse o molho, olhei diretamente nos olhos e consegui perceber, mesmo com a escuridão, que o velho era cego. Devolvi e ele foi embora, resmungando.

Eu: Ingrato. – cochichei pra mim mesma.

Quando ia voltando, vi Luck com a cabeça pra fora da janela do meu quarto olhando para os lados. Não sabia dizer se estava maravilhado pelo que via ou se me procurava.

Antes de voltar, passei em um bar pra pegar alguma coisa pra beber. Sabia que havia comprado no mercado mais cedo, mas não estava a fim de subir. Fiquei indecisa se eu poderia entrar com o cigarro, mas via gente saindo e entrando com cigarro na boca, então arrisquei.

E deu tudo certo. O carinha não encrencou com minha idade, pelo menos. Acho que ele não se importava. Peguei minhas duas garrafas e voltei pra frente do prédio. Me escorei na parede novamente e fiquei por lá. Quem me olhava de longe poderia achar que tava deprimida ou sei lá, mas não era nada disso. Me sentia aliviada por ter resolvido um dos meus problemas, mas também me sentia apreensiva por Dudu. Será que ele tava voltando a ser o que era antes? Ou nunca mudou de verdade? E isso era o que perturbava Nick?

Chacoalhei a cabeça e tentei não pensar nisso quando vi Luck descendo. Tava perfumado e com um grande sorriso no rosto.

Eu: Vai onde todo arrumado assim? – perguntei sem que ele me visse.

Luck: PUTA QUE PARIU! – ele deu um pulo. – Que caralhos tu tá fazendo aí, Madu?

Ele me olhou com cara de quem esperava uma resposta.

Eu: Não to fazendo nada, ué.

Luck: Tu tá fumando.

Eu: Pois é.

Luck: MEUS cigarros.

Eu: Pois é.

Ele bufou e sentou ao meu lado, em silêncio. Pegou um e acendeu também.

Luck: O que acha que tá fazendo?

Eu: Sentada, olhando o movimento. – ele me olhou, sério. Dei de ombros.

Luck: Tu anda muito fuck the police. Curti no começo, mas agora tá me preocupando.

Eu: Mas eu só…

Luck: Me deixa terminar. Quando te conheci, quase te obriguei a colocar um pingo de álcool na boca. Fumou pouquíssimas vezes e maconha quase nunca. Só mesmo quando estava perto de pessoas que tu conhecia. O que aconteceu com essa Maduzinha que tinha juízo?

Eu: Acho que essa Maduzinha tá um pouco fodida no momento. – eu ri sem saber o porque – tu não espera que eu continue a mesma pro resto da vida, certo?

Luck: Mas olha pra ti agora. Jogada na rua, parecendo sem forças pra levantar e enfrentar tudo. Não é essa a Madu que eu conheço e admiro pra caralho.

Eu: Mas é essa a Madu que eu sou hoje. Uma covarde. – olhei diretamente nos olhos dele.

Luck: Eu duvido. – ele fez que não com a cabeça – tu só tá fodida agora. E vai ficar fodida até resolver levantar a bunda do chão.

Eu: Eu tentei fazer alguma coisa, tu sabe. Isso me sobrecarregou tanto que parei no hospital.

Luck: O teu problema é pensar demais e fazer de menos. Fica aí achando que todas as merdas na tua volta tem a ver contigo e os problemas que estão na tua cara e que tu pode resolver, ficam de lado.

Silêncio.

Luck: No que tu tava pensando antes deu chegar? – dei de ombros. – fala, porra.

Eu: Lipe.

Luck: Lipe, claro. Então, o que te impede de ir até a casa dele e pedir desculpas?

Eu: Mas tu nem sabe o que aconteceu.

Luck: Foda-se. Se tu ficar se apegando aos detalhes, nunca vai ficar completamente satisfeita. Não interessa se a culpa é dele ou tua. Tu tá sentindo a falta do moleque e eu tenho certeza que ele sente tua falta também. Se tu pedir desculpas e der um beijos, vocês voltam a ficar de boa como antes e um problema a menos na lista.

Pausa pra tragar.

Luck: Em vez de ficar se remoendo pelos problemas que aparecem a todo instante, tenta resolver um por um. Começa pelo mais simples e que vai te deixar mais forte pra enfrentar os outros. Enfrenta tua vida como uma mulher e não como uma pirralha alienada.

Ele suspirou, pegou a garrafa da minha mão e se levantou. Beijou minha testa, carinhosamente e seguiu em direção a confusão mais para o fim da rua. Bebendo minha cerveja.

Filho da puta. No fundo sempre tem razão. 

Capítulo 54 ->

Tomei um banho rápido e realmente me senti melhor. Tentei não pensar em Lipe, porque ainda estava espantada com a atitude dele.
Vesti a camiseta que ele deixou ali, ficou meio grande, mas não me importei e vesti novamente meu shorts, só deixei de fora a meia calça dessa vez.
Saí do banheiro e não achei Lipe na sala. Sentei no sofá, imaginando que ele teria ido dormir. Só soube que tava errada quando ele apareceu e fez sinal pra que eu o seguisse.
Me levou até a cozinha.
Em cima da mesa tinha um copo e um prato.
Lipe: Senta aí.
Eu: Não to com fome, Lipe.
Lipe: Não é um convite. – ele apontava para a cadeira, esperando que eu sentasse.
Sentei. Ele abriu o microondas, tirando o miojo, macarrão instantâneo ou que nome for, de lá e colocou na minha frente.
Lipe sentou e ficou me olhando com o olhar de “to esperando”.
Eu: Se eu passar mal de novo, a culpa é toda tua. – ele sorriu e indicou um comprimido branco do lado.
Lipe: Se tu engolir isso, vai ficar bem. Eu garanto.
Coloquei o comprimido na boca e servi o suco no copo ao meu lado. Depois de beber o copo de suco inteiro, misturei o tempero com o miojo e comi a metade. Lipe comeu também, com a minha insistência.
Conversamos mais um pouco, sobre a festa e quando pairou o silêncio, senti a obrigação de me desculpar.
Eu: Lipe, foi mau. Cortei o clima completamente…
Lipe: Ninguém escolhe quando passar mal, Madu. Relaxa. Na verdade, estamos quites, não é? Fiz a mesma coisa contigo na festa do Nick.
Eu: Foi diferente. – com certeza. Primeiro que o coitado do Lipe só ficou banzo de tanto beber porque queria ficar comigo.
Mas deixei quieto e só sorri. Deixa ele pensar assim que é melhor pra mim.
Lipe: Bora dormir, então?!
Assenti.
Deixamos a mesa e fomos pra sala, ele insistiu que eu dormisse em seu quarto. Não tinha mais tanta disposição pra discutir e subi com ele. Deitei na camo, sentindo um alívio enorme. Lipe pegou um travesseiro do meu lado, colocou-o no chão e deitou em cima.
Fiquei olhando pro teto e relaxando. Ele fazia o mesmo.
Eu: Lipe?
Lipe: Oi.
Eu: Isso tá injusto.
Lipe: O quê?
Eu: Eu deitada aqui no conforto e tu aí.
Lipe: Eu iria pro sofá, mas quero ficar perto se tu precisar de mim de novo.
Olhei pro chão, ele estava com as mãos atrás da cabeça e com as pernas cruzadas. Bati na cama, como se o convidasse pra deitar. Ele me olhou sério e depois aceitou.
A cama era de solteiro e ficamos encolhidos ali, olhando para o teto. Escorei a cabeça no peito dele e fechei os olhos. Me sentia muito segura perto dele. Pareço uma garotinha romântica em pensar isso, mas depois de me sentir tão pra baixo por tanto tempo, que agora que finalmente consigo sentir segurança perto de alguém, dá vontade de agarrá-lo e nunca mais soltar.
E foi o que fiz com Lipe, que devia estar achando que eu sou uma carente necessitada de atenção.
-
Acordei com barulhos no andar de baixo. Flechas de sol entravam pela janela. Não sabia se acordava Lipe ao meu lado ou não e tive certeza que o certo seria acordá-lo, quando ouvi uma voz feminina falando em alguma encomenda.
Eu: Lipe, Lipe, Lipe.
Lipe: Hmmmm?! – ele respondeu se espreguiçando.
Eu: Tem uma mulher lá embaixo. – Lipe abriu os olhos de imediato.
Lipe: Que dia é hoje?
Eu: Segunda-feira?
Lipe: É minha mãe. – ele levantou e foi até a porta. – Madu, cade tua camiseta?
Eu: Não sei.
Lipe: Vou lá embaixo pegar rapidinho e depois te trago, OK?
Assenti e ele desceu, tentando não fazer barulho. Acho que não queria chamar atenção da mãe, e não sei se conseguiu, mas apareceu no quarto segundos depois. Ele me alcançou a jaqueta de couro, a camiseta e a meia calça. Ficamos nos olhando.
Eu: Posso me vestir?
Ele ficou nervoso e saiu rápido. Troquei de camiseta, rindo da cara que ele fez. Deixei a camiseta dele em cima da cama e coloquei a meia calça no bolso da jaqueta. Não vesti ela, porque estava quente e saí do quarto. Lipe estava do lado da porta, escorado na parede.
Descemos tentando não fazer barulho, mas dessa vez não deu certo. Uma mulher de avental saiu da cozinha, conversando ao telefone sobre a demora da encomenda de batatas. Desligou na mesma hora, quando nos viu descendo os últimos degraus da escada.
Ela me olhou com espanto por uns segundos e logo depois abriu um sorriso de orelha a orelha.
Mãe de Lipe: Lipe, que moça liiiiinda. – ela prolongou o “i” e veio até nós. Me cumprimentou com dois beijos no rosto. – não sabia que tu tava namorando.
Pegou meu braço e me puxou até a cozinha. Olhei pra trás e Lipe deu de ombros.
Lipe: Nós não estamos namorando mãe, ela é só uma amiga.
Mãe de Lipe: Amiga, sei.
Ela sorria muito e nos forçou a sentar pra comer as milhões de coisas que ela tinha feito. Gostei mesmo do bolo de cenoura e falei isso, mas me arrependi logo depois. Um pedaço pra mim bastava, mas a mulher me fez comer praticamente o bolo inteiro. Lipe no começo parecia revoltado com a atitude da mãe, mas depois começou a rir quando a mulher dava a as costas.
Descobri que o nome dela era Angelica, descobri bastante coisa na verdade. Ela gostava muito de falar. Fez várias perguntas também e quando eu disse que havia me mudado a pouco tempo, ela perguntou detalhadamente sobre como era o interior.
Dona Angelica perguntou o porque da minha família ter mudado pra cá, mas inventei qualquer coisa pra não dizer a verdade. Sinto que ela ficaria meia hora dizendo o quanto sentia muito. Fomos libertados depois de muita insistência de Lipe.
Lipe: Desculpa pela minha mãe – ele disse quando a gente saiu pela porta, embora ria. – ela é assim mesmo.
Eu: Tudo bem. Ela até lembra minha mãe no quesito cozinha. Eu adorava o bolo de cenoura da minha mãe.
Ele sorriu. Não tinha certeza se ele sabia da minha mãe também, mas isso não fazia muito diferença. Fiquei feliz dele não ter perguntado.
Ele me levou até o ponto de táxi e explicou ao motorista onde eu morava. Guardei o número do telefone dele e entrei no táxi.
-
Cheguei em casa e fui direto para meu quarto. Me deparei com Dudu deitado na minha cama. O rosto dele ainda estava horrível e continuava com a mesma roupa de ontem.
Eu: Dudu? – larguei minha jaqueta na cadeira e me agachei ao lado da cama.
Dudu acordou com o barulho e sentou na cama.
Dudu: Estava te esperando. – sentei ao lado dele.
Eu: O que aconteceu contigo ontem? Tu parecia bem com teus amigos.
Ele sacudiu a cabeça negativamente e olhou pra baixo.
Dudu: Posso te pedir uma coisa?
Eu: Claro.
Dudu: Me ajuda, Madu. Eu to precisando de um amigo, mas não de um amigo tipo aqueles. De um amigo de verdade.
Eu: Tu pode contar comigo, sabe disso.
Dudu: Mas tu é uma guria. É diferente.
Eu: Já pensou em conversar com o pai?
Ele me olhou como quem dizia “tá doida?”.
Eu: Talvez ele consiga te ajudar…
Dudu: Tu não entende – levantou e caminhou até a porta.
Eu: Dudu, espera aí.
Ele me olhou com desespero nos olhos. Não sabia o que fazer, apenas o abracei. Porque sabia o que ele tava sentindo e não conseguia achar outra forma de dividir isso. Dudu retribuiu o abraço e ficamos ali por algum tempo. Algumas lágrimas caíram, tanto minhas quanto dele. Mas nada foi dito.
Eu: Vai tomar um banho, menino. – disse fungando, ele sorriu e saiu.
Fiquei esperando na porta do quarto dele. Ele saiu meia hora depois, com óculos escuro e uma toca.
Eu: Vai assaltar um banco?
Ele levou um susto e eu me levantei. 
Fomos até a cozinha.
Dudu: Não to a fim de ficar ouvindo o discurso do pai se ele me vir desse jeito.
Eu: E por que tu tá assim? Tu não me explicou ainda.
Ele sentou a mesa e fez o sanduíche dele, deu uma mordida, engoliu e me olhou.
Dudu: Não quero falar sobre isso.
Eu: Reparei.
Dudu: O que tu vai fazer hoje?
Eu: Não sei.
Dudu: Combinei de sair com o Nick, tá a fim?
Eu: Tá. Vou pegar meu celular, me espera.
Coloquei o celular no bolso de trás da calça. Dudu estava na sala me esperando, saímos e começamos a descer a rua em direção a casa de Nick.
Eu: Tu não tá com calor com essa toca?
Dudu: To. Daqui a pouco eu tiro – ele olhou pros lados como se, se escondesse de alguém.
-
Batemos na porta de Nick, mas quem atendeu foi uma menininha que se não me engano o nome é…
Eu: Oi! Babi, né? Lembra de mim? – tentei ser agradável, mas me senti uma idiota. 
A menina como todo mundo da família de Nick que eu conheci até hoje foi muito educada. Ela até sabia meu nome, acho que Nick falou de mim pra todo mundo, na verdade. A casa tava uma loucura, gente caminhando pra todos os lados, tentando arrumar o mínimo possível da casa. 
Subimos até o quarto de Nick, ele atendeu parecendo perturbado. 
Nick: Entrem – disse depois de ver que era a gente.
Eu sorri e ele assentiu. É, estávamos bem. Falei algumas merdas ontem a noite, mas ele não ligou do mesmo jeito que eu não liguei pras merdas ditas por ele. Mesmo assim, vou pedir desculpas depois, quando for numa situação melhor.
Dudu: Por que tu tá usando terno? Pra onde a gente vai?
Nick: Vai ter almoço aqui em casa. Vai vir toda a minha família, tenho que me fantasiar desse jeito. – ele olhou pro próprio corpo pelo espelho.
Não estava conseguindo fazer o nó da gravata, e pediu pra que eu o fizesse.
Eu: E tu acha que eu sei fazer?
Nick: Já devia saber que não. – revirou os olhos, mas tava sorrindo.
Nick passou os próximos minutos nos convencendo a ficar e aturar o almoço inteiro com sua família. Implorou mesmo, fiquei até com pena.
Nick: Fiquem, por favor.
Eu: OK, mas eu não vou trocar de roupa. Vão me ver assim mesmo.
Nick: Troca de roupa? Por quê?
Eu: Tu tá usando terno, Nick. TERNO. E olha pra mim. - apontei pro meu corpo.
Estava vestindo uma roupa bem simples, sem muita frescura, ainda mais porque tava calor pra caramba. Não sei nem como Nick vai aguentar ficar usando terno o dia todo.
Ele disse que não tinha problema, que ninguém ligaria porque eu não fazia parte da família, mas que ele tem que fazer bonito “pra não parecer vagabundo”, como ele mesmo disse.
Nick fez Dudu usar o óculos e a toca pra família não ficar perguntando o que aconteceu. Dudu não gostou da ideia, mas aceitou. Foi estranho ver ele sendo legal com alguém, pra variar.
-
O dia passou muito devagar. Principalmente porque Nick passou a maioria do tempo reclamando, ou tentando convencer os tios de que éramos amigos e nada mais. E Dudu tentando os convencer de que não sentia calor com a toca, mesmo eu conseguindo enxergar o suor escorrendo pelo rosto dele.
Em geral foi um dia cansativo, consegui dar risada em alguns momentos. Todos os parentes de Nick foram muito legais comigo e com Dudu, eles são bastante divertidos e ao mesmo tempo conservadores em relação a algumas coisas. Ficamos sozinhos apenas na hora de comer.
Eu: Teu primo Luís parece ser legal.
Nick: É um babaca.
Dudu: Mas teu tio Florêncio é muito engraçado.
Nick: Bêbado e metido a milionário.
Essa era a opinião dele sobre praticamente a família inteira. Salvava algumas tias e primos, mas não tinha proximidade nenhuma com eles. Gostei de um primo especificamente, achei bem parecido com Nick. Não só esteticamente, mas o jeito de agir. Perguntei porque eles não se falavam, Nick pareceu confuso e não soube responder.
Quando o almoço acabou e já estava quase anoitecendo, fomos até minha casa e sentamos perto da minha casa.
Dudu atirou a toca longe e colocou o óculos na gola da camiseta. 
Conversamos por bastante tempo. Coloquei minhas pernas por cima das de Nick e fechei os olhos, quando os dois começaram e falar sobre video game. Eu curto jogar de vez em quando, mas não sei argumentar sobre nada disso. Não sei o mais premiado, não sei o melhor, não sei comparar. E não sinto falta de saber dessas coisas, na real. Só agora, mas tava tranquila de sentir a brisa no rosto. De noite, fica realmente agradável nessa cidade, principalmente aqui.
Minha brisa foi cortada pelo toque do meu celular. Número desconhecido. Pensei automaticamente em Luck e atendi rápido.
Eu: Alô! – disse animada.
Kurt: Madu, onde tu tá? – reconheci a voz dele.
Eu: To na frente de casa. Como tu conseguiu meu número?
Kurt: Tenho meus contatos. – ele riu e olhei para Nick, que deu de ombros. – to indo aí, me espera.
Concordei mesmo não tendo opção. Ele desligou sem dizer mais nada e apareceu poucos minutos depois. Quando o vi caminhando em direção a porta, mandei uma SMS pra que ele soubesse onde nos encontrar especificamente.
Cumprimentou Dudu e Nick, depois sentou ao meu lado. O silêncio fez com que ficássemos todos envergonhados e, principalmente, entediados.
Kurt: O que acharam do show, ontem? – puxou assunto.
Dudu: Foi meio tumultuado.
Kurt: Tu estava no meio da briga, não é? O que aconteceu? Ninguém soube explicar o começo de tudo.
Dudu se enrolou e não explicou muito bem, disse apenas que algumas pessoas implicaram com ele. Não fez muito sentido, mas ninguém insistiu.
 Kurt: Vim te convidar pra ver um ensaio da gente. – disse, olhando pra mim – mas vocês podem ir também.
Ele indicou os dois. Fiquei pilhada em ir, porque estava com muito tédio e queria ver Lipe de novo.
-
Fomos caminhando ate a casa de Kurt. Quando chegamos, Lipe e Lola já estavam nos esperando. Lipe sorriu ao me ver. Um sorriso tímido, mas claramente feliz.
Lola: Eaí?!
Nos sentamos no sofá ali mesmo. Kurt foi organizar os instrumentos e logo depois, os três estavam a nossa frente. Cada um com seu instrumento, cada um no seu lugar e com os olhos brilhando.
Lola bateu as baquetas três vezes e a música começou. Sentada na frente deles, foi bem mais fácil de vê-los do que no show, onde eu tinha que pular o mais alto que podia pra ver o palco inteiro. Ser baixinha é foda.
Mas agora, conseguia ver as expressões de todos. Lipe se empolgava mesmo, como Kurt tinha dito. Ele fazia uma coisa estranha com a boca cada vez que precisava tocar um acorde específico.
Lola sacudia os cabelos vermelhos sem parar e balançava os ombros de um jeito esquisito, mas como era no ritmo da música, dava pra entender.
Kurt mexia o pé cada vez que parava de tocar. Acho que ele não conseguia fazer os dois ao mesmo tempo. Pareço uma chata em ficar reparando nessas coisas, mas é impossível não reparar nisso. Apesar das esquisitices, eles tocavam bem mesmo.
Às vezes erravam, mas aí corrigiam e retomavam. É pra isso que serve os ensaios, afinal. Eles tocavam um rock pesado, acho que era System Of a Down, mas não tenho certeza.
A música terminou. Tocaram mais algumas, sempre com o tempo pra discutir sobre os ajustes, que eu não entedia droga nenhuma. Curto ouvir música, mas entender o que tem por trás dela não é da minha natureza.
Disse isso em um dos intervalos pra beber alguma coisa, que eles faziam. 
Lipe riu.
Kurt: A gente não sai da barriga da mãe sabendo dessas coisas, tem que estudar pra aprender.
Kurt sentou no chão, de frente para o sofá onde estávamos. Lipe sentou no braço do sofá, ao meu lado por falta de espaço e Lola se jogou na poltrona mais afastada do grupo.
Lipe: Nem me fala em aula, estudar, aprender… Amanhã recomeçam minhas aulas na faculdade.
Kurt: Segundo semestre?
Lipe: Terceiro. – ele disse e se escorou mais no sofá, entediado.
Nick: E tu Kurt? Não era pra ti estar na faculdade também? – ele perguntou, sendo metido.
Kurt tirou um cigarro do bolso, levantou e procurou fogo pela casa toda, até achar, acender e ser obrigado a responder. Mesmo assim, depois de sentar, tragou duas vezes antes de finalmente abrir a boca.
Kurt: Vou dizer o destino da humanidade pra vocês. A gente nasce, estuda, estuda, estuda, trabalha, trabalha, trabalha e depois… a gente morre.
Fiquei olhando pra ele, tentando achar uma razão por estar prestando tanta atenção nas merdas esse homem tá falando.
Kurt: Eu não quero isso pra mim, cara. Prefiro passar minha vida inteira tocando e cantando minha música do que viver pros dos outros.
Dudu: Como assim?  – Kurt parecia nervoso em falar nessas coisas e Dudu interessado. Não entendia porque tanto interesse, mas continuei observando eles.
Kurt: A gente se mata trabalhando pra quê? Pra ganhar uma miséria e beneficiar quem? Os filhos da puta do governo. Ou tu acha que eles colocam a mão na massa? Óbvio que não, só dão ordem pros babacas aqui fazerem o serviço sujo deles. Assim eles consegue ganhar milhões sem fazer absolutamente nada além de roubar. Não ajudo nessa forma de vida nem fodendo. Se a escola não me dá prazer, eu não vou. Fim.
Ele terminou nervosão. Tragou fundo no cigarro, levantou e buscou uma cerveja. Abriu a garrafa, colocando o cigarro na boca pra liberar as mãos. Kurt é uma pessoa esquisita mesmo, mas eu concordava com ele. Quem não concorda, não é? Política é um assunto que estressa qualquer um.
Quis tirar a tensão do momento contrariando Kurt.
Eu: Mas tu não acha que vai conseguir fazer apenas o que te dá prazer a vida inteira, não é? Às vezes a gente tem que fazer coisas desagradáveis pra chegar onde queremos. Pensa comigo, antes de chegar no clímax, tem que haver preliminares. Certo?
Todo mundo riu disfarçadamente. Inclusive Kurt, que percebeu minha tentativa bem sucedida de não deixar a sala cair no silêncio desconfortável.
Kurt: Gosto de chegar no clímax rápido. – ele disse rindo e acabando com o cigarro.
Eles voltaram a tocar e foi assim a noite toda. O assunto tinha sido encerrado, mas eu continuava pensando. Queria ter um grande sonho assim como o de todo mundo. Que desse um sentido mais certo pra vida. Porque até agora, pra mim, a vida é uma incógnita. Não sei o que vai ser de mim daqui vinte anos. Se vou estar  bem de vida e aproveitando ou se vou estar casada com cinco filhos pra criar.
OK, acho que isso não.
Não consigo me imaginar casando com alguém e dizendo “vou te amar pra sempre”, é ridículo. Não existe isso. Não estou dizendo que o amor não existe, mas é hipocrisia demais pra minha cabeça dizer que vai amar alguém pra sempre. Ninguém sabe do futuro, então não fica prometendo.
Principalmente sobre amor. Amor é muito relativo. Tu pode começar a amar uma pessoa sem perceber, e deixar de amá-la do mesmo jeito.
Parei de brisar, quando percebi que Nick falava comigo. Tentei prestar atenção no que ele dizia, mesmo sem ouvir muita coisa. 
-
Depois de algumas cervejas e músicas lentas, eu já tava pronta pra escorar a cabeça e apagar ali mesmo.
Dudu: Madu, vai ficar aí? – olhei pros lados e só o que consegui enxergar, foi a fumaça branca que vinha do chão, onde Kurt estava deitado.
Kurt: Se quiser ficar aí, Madu, tudo bem. E tu também, pequeno. Se quiser se jogar aí, não me importo.
Dudu não pareceu gostar muito do novo apelido, mas não falou nada e sentou-se ao meu lado. Sentia que ele continuava querendo ir embora, mas eu tava de boa ali. Então, me aconcheguei melhor em Dudu e fechei os olhos. Acho que ele relaxou mais depois disso, porque senti a respiração desacelerar.
-
Senti uma coisa me cutucando e fui obrigada a abrir os olhos. E quando o fiz, me assustei com a quantidade de claridade. Parecia que eu tinha acabado de fechar os olhos, mas a noite toda passou sem eu perceber. E continuava com sono.
Procurei o que me cutucava no sofá, até perceber que já não estava mais no sofá, e sim no quarto de Kurt. O quarto continuava exatamente a mesma coisa que eu tinha visto antes. Olhei pra todos os lados pra me certificar de que estava sozinha e fiquei aliviada em comprovar isso.
 Já acordei do lado de Kurt duas vezes, acho que não preciso de uma terceira. Mesmo que eu não tenha me arrependido da segunda, foi muito bom mesmo. Mas não pretendo repetir.
Sem pensar muito nisso, calcei meus tênis que estavam do lado da cama e fui pra cozinha. Lipe estava lá bebendo uma xícara de café.
Eu: Oi.
Lipe: E aí? – ele sorriu constrangido – tem café ali, se quiser.
Eu: OK. – servi uma xícara e me sentei do lado dele.
Começamos a conversar sobre qualquer inutilidade, mas terminamos com um papo sério de faculdade. Lipe fazia Psicologia, o que eu achei estranho. Não conseguia imaginá-lo como psicólogo ou coisa parecida. mas engoli o comentário e apenas sorri.
Kurt apareceu e sentou à mesa com a gente, se espreguiçou e bocejou.
Kurt: Bom dia.
Lipe: Boa tarde, tu quis dizer. – Kurt sorriu daquele jeito cafajeste de sempre.
Que eu gostava, mas que já não era a mesma coisa. Não sei explicar o porquê. Talvez seja porque já tenha ficado com ele, ou porque achava Lipe a pessoa mais interessante nesse momento. Fiquei nervosa só de pensar e principalmente porque os dois estavam olhando pra mim.
Engoli seco e bebi mais café pra não precisar falar nada.
 Kurt: Foi um bom ensaio ontem, não é?
Eu: Foi. – Lipe assentiu – Mas cadê Nick? E Dudu?
Kurt: Foram embora juntos, acho que até pro mesmo lugar. Não prestei atenção.
Eu: Ah. Acho que tá na minha hora também. – levantei e coloquei a xícara na pia.
Kurt: Fica aí. Queria conversar contigo.
Eu: Sobre o quê?
Kurt: Sobre o que aconteceu no show.
Eu: Deixa isso pra lá, Kurt.
Kurt: Eu não quero deixar pra lá. Continuo a fim. – Lipe começou a mexer no cabelo de um jeito nervoso e se levantou.
Lipe: To indo.
Eu: Me espera.
Kurt: Madu. – ficamos os três encarando uns aos outros. Lipe não disse nada e saiu, batendo a porta.
Eu: Fala – disse,  já puta da vida e com vontade de socar a cara dele.
Kurt: Não to te pedindo em namoro nem nada. – ele riu e acendeu um cigarro – quero ser teu amigo, mas te acho muito gostosa pra ser só isso, entende?
Eu: Na boa? Também te acho lindo pra caralho, mas não é por isso que vou ficar contigo. Aconteceu uma vez, mas não quer dizer que pode acontecer de novo. Se tu não quiser ser só meu amigo, tudo bem. Mas não seja se for pra ficar insistindo e enchendo o saco.
Disse isso em pé, tava com um timbre nervoso na voz e tentava esconder. E ele ficava me olhando com aqueles olhos pretos e com as covinhas a mostra.
Tragou e assentiu.
Kurt: Gosto de ti, Madu. Já disse isso. E ainda não esqueci que to te devendo uma. Aquela noite, tu me deu uma super ajuda e por isso tu tem vantagem na nossa amizade. – ele demorou um pouco pra dizer “amizade” – porém, continua sendo gostosa, então se tiver oportunidade eu te pego e não vou ter culpa.
Ele deu de ombros. Fiquei alguns segundos tentando entender aquelas palavras, mas só disse “OK” e saí. Acho que agora somos amigos, mas não tenho certeza.
Lipe estava sentado na calçada de frente pra casa de Kurt, com as mãos nos cabelos e com a cabeça abaixada. Achei estranho e sentei ao lado dele.
Eu: Que foi?
Ele levou um susto e sorriu amarelo.
Lipe: Nada não. – continuei a olhar pra ele sem acreditar – tu já ficou com o Kurt?
Ele me perguntou sério.
Eu: Sim.
Lipe: Ah. – ele assentiu.
Eu: Por quê?
Lipe: Nada não.
Eu: Qual é, Lipe? Fala o que tu tá pensando.
Lipe: Eu só queria saber.
Eu: Faz diferença?
Lipe: Muita.
Eu: Por quê?
Lipe: Conheço os tipos de mulheres que ficam com ele.
Eu: Como assim?
Lipe: Acho que tu não conhece muito bem ele ainda.
Eu: Não, acabei de conhecer vocês. Esqueceu?
Lipe: Não esqueci, mas parece que tu sim, não é? Já até ficou com Kurt. – ele disse displicente.
Eu: Não to entendendo o que tu tá querendo dizer.
Lipe: Eu achei que tu fosse uma guria legal, mas tu ficou com Kurt. E ele sempre fica com vadias e…
Eu: Tá me chamando de vadia?
Lipe: Não foi isso que quis dizer. – ele balançou a cabeça negando.
Eu: Foi exatamente o que tu disse. – tava ficando nervosa de novo e acabei levantando – Fiquei com Kurt uma vez, não quer dizer que vá acontecer de novo, também não quer dizer que eu saio abrindo as pernas pra qualquer um. Não sei porque eu to me explicando.
Lipe: Eu também não sei porquê.  – ele se levantou e ficou de frente pra mim.
Claro que ele se levantando tinha muito mais impacto que eu, o garoto era mil metros mais alto. Ele parecia tão triste e decepcionado que parte da minha raiva se foi.
Eu: Qual é o teu problema, Lipe?
Lipe: Eu me odeio por sempre gostar da pessoa errada, esse é o problema. Tua não é só linda, é inteligente e tem personalidade. Mas do que adianta se fica com imbecis tipo esses – ele apontou pra casa de Kurt.
Eu: Tu nunca ficou com uma menina? Só por ficar? Sem querer nada além disso? É a mesma coisa comigo e com Kurt. Mas só porque foi com ELE, eu sou uma vadia. Tu nem me conhece e já tira altas conclusões.
Ele não disse nada, só ficou me olhando. Dei de ombros e segui meu caminho, sem olhar pra trás. Nem mesmo quando ouvi Lipe gritando meu nome.
Estava com raiva, mas não só dele. Raiva de mim mesma. Continuei caminhando sem rumo, minha vontade era de caminhar até chegar onde minha mãe está e receber um abraço apertado dela. E ouví-la dizer que ele estava errado, que eu não tinha me tornado uma vadia sem perceber.
Próximo Capítulo >

Tomei um banho rápido e realmente me senti melhor. Tentei não pensar em Lipe, porque ainda estava espantada com a atitude dele.

Vesti a camiseta que ele deixou ali, ficou meio grande, mas não me importei e vesti novamente meu shorts, só deixei de fora a meia calça dessa vez.

Saí do banheiro e não achei Lipe na sala. Sentei no sofá, imaginando que ele teria ido dormir. Só soube que tava errada quando ele apareceu e fez sinal pra que eu o seguisse.

Me levou até a cozinha.

Em cima da mesa tinha um copo e um prato.

Lipe: Senta aí.

Eu: Não to com fome, Lipe.

Lipe: Não é um convite. – ele apontava para a cadeira, esperando que eu sentasse.

Sentei. Ele abriu o microondas, tirando o miojo, macarrão instantâneo ou que nome for, de lá e colocou na minha frente.

Lipe sentou e ficou me olhando com o olhar de “to esperando”.

Eu: Se eu passar mal de novo, a culpa é toda tua. – ele sorriu e indicou um comprimido branco do lado.

Lipe: Se tu engolir isso, vai ficar bem. Eu garanto.

Coloquei o comprimido na boca e servi o suco no copo ao meu lado. Depois de beber o copo de suco inteiro, misturei o tempero com o miojo e comi a metade. Lipe comeu também, com a minha insistência.

Conversamos mais um pouco, sobre a festa e quando pairou o silêncio, senti a obrigação de me desculpar.

Eu: Lipe, foi mau. Cortei o clima completamente…

Lipe: Ninguém escolhe quando passar mal, Madu. Relaxa. Na verdade, estamos quites, não é? Fiz a mesma coisa contigo na festa do Nick.

Eu: Foi diferente. – com certeza. Primeiro que o coitado do Lipe só ficou banzo de tanto beber porque queria ficar comigo.

Mas deixei quieto e só sorri. Deixa ele pensar assim que é melhor pra mim.

Lipe: Bora dormir, então?!

Assenti.

Deixamos a mesa e fomos pra sala, ele insistiu que eu dormisse em seu quarto. Não tinha mais tanta disposição pra discutir e subi com ele. Deitei na camo, sentindo um alívio enorme. Lipe pegou um travesseiro do meu lado, colocou-o no chão e deitou em cima.

Fiquei olhando pro teto e relaxando. Ele fazia o mesmo.

Eu: Lipe?

Lipe: Oi.

Eu: Isso tá injusto.

Lipe: O quê?

Eu: Eu deitada aqui no conforto e tu aí.

Lipe: Eu iria pro sofá, mas quero ficar perto se tu precisar de mim de novo.

Olhei pro chão, ele estava com as mãos atrás da cabeça e com as pernas cruzadas. Bati na cama, como se o convidasse pra deitar. Ele me olhou sério e depois aceitou.

A cama era de solteiro e ficamos encolhidos ali, olhando para o teto. Escorei a cabeça no peito dele e fechei os olhos. Me sentia muito segura perto dele. Pareço uma garotinha romântica em pensar isso, mas depois de me sentir tão pra baixo por tanto tempo, que agora que finalmente consigo sentir segurança perto de alguém, dá vontade de agarrá-lo e nunca mais soltar.

E foi o que fiz com Lipe, que devia estar achando que eu sou uma carente necessitada de atenção.

-

Acordei com barulhos no andar de baixo. Flechas de sol entravam pela janela. Não sabia se acordava Lipe ao meu lado ou não e tive certeza que o certo seria acordá-lo, quando ouvi uma voz feminina falando em alguma encomenda.

Eu: Lipe, Lipe, Lipe.

Lipe: Hmmmm?! – ele respondeu se espreguiçando.

Eu: Tem uma mulher lá embaixo. – Lipe abriu os olhos de imediato.

Lipe: Que dia é hoje?

Eu: Segunda-feira?

Lipe: É minha mãe. – ele levantou e foi até a porta. – Madu, cade tua camiseta?

Eu: Não sei.

Lipe: Vou lá embaixo pegar rapidinho e depois te trago, OK?

Assenti e ele desceu, tentando não fazer barulho. Acho que não queria chamar atenção da mãe, e não sei se conseguiu, mas apareceu no quarto segundos depois. Ele me alcançou a jaqueta de couro, a camiseta e a meia calça. Ficamos nos olhando.

Eu: Posso me vestir?

Ele ficou nervoso e saiu rápido. Troquei de camiseta, rindo da cara que ele fez. Deixei a camiseta dele em cima da cama e coloquei a meia calça no bolso da jaqueta. Não vesti ela, porque estava quente e saí do quarto. Lipe estava do lado da porta, escorado na parede.

Descemos tentando não fazer barulho, mas dessa vez não deu certo. Uma mulher de avental saiu da cozinha, conversando ao telefone sobre a demora da encomenda de batatas. Desligou na mesma hora, quando nos viu descendo os últimos degraus da escada.

Ela me olhou com espanto por uns segundos e logo depois abriu um sorriso de orelha a orelha.

Mãe de Lipe: Lipe, que moça liiiiinda. – ela prolongou o “i” e veio até nós. Me cumprimentou com dois beijos no rosto. – não sabia que tu tava namorando.

Pegou meu braço e me puxou até a cozinha. Olhei pra trás e Lipe deu de ombros.

Lipe: Nós não estamos namorando mãe, ela é só uma amiga.

Mãe de Lipe: Amiga, sei.

Ela sorria muito e nos forçou a sentar pra comer as milhões de coisas que ela tinha feito. Gostei mesmo do bolo de cenoura e falei isso, mas me arrependi logo depois. Um pedaço pra mim bastava, mas a mulher me fez comer praticamente o bolo inteiro. Lipe no começo parecia revoltado com a atitude da mãe, mas depois começou a rir quando a mulher dava a as costas.

Descobri que o nome dela era Angelica, descobri bastante coisa na verdade. Ela gostava muito de falar. Fez várias perguntas também e quando eu disse que havia me mudado a pouco tempo, ela perguntou detalhadamente sobre como era o interior.

Dona Angelica perguntou o porque da minha família ter mudado pra cá, mas inventei qualquer coisa pra não dizer a verdade. Sinto que ela ficaria meia hora dizendo o quanto sentia muito. Fomos libertados depois de muita insistência de Lipe.

Lipe: Desculpa pela minha mãe – ele disse quando a gente saiu pela porta, embora ria. – ela é assim mesmo.

Eu: Tudo bem. Ela até lembra minha mãe no quesito cozinha. Eu adorava o bolo de cenoura da minha mãe.

Ele sorriu. Não tinha certeza se ele sabia da minha mãe também, mas isso não fazia muito diferença. Fiquei feliz dele não ter perguntado.

Ele me levou até o ponto de táxi e explicou ao motorista onde eu morava. Guardei o número do telefone dele e entrei no táxi.

-

Cheguei em casa e fui direto para meu quarto. Me deparei com Dudu deitado na minha cama. O rosto dele ainda estava horrível e continuava com a mesma roupa de ontem.

Eu: Dudu? – larguei minha jaqueta na cadeira e me agachei ao lado da cama.

Dudu acordou com o barulho e sentou na cama.

Dudu: Estava te esperando. – sentei ao lado dele.

Eu: O que aconteceu contigo ontem? Tu parecia bem com teus amigos.

Ele sacudiu a cabeça negativamente e olhou pra baixo.

Dudu: Posso te pedir uma coisa?

Eu: Claro.

Dudu: Me ajuda, Madu. Eu to precisando de um amigo, mas não de um amigo tipo aqueles. De um amigo de verdade.

Eu: Tu pode contar comigo, sabe disso.

Dudu: Mas tu é uma guria. É diferente.

Eu: Já pensou em conversar com o pai?

Ele me olhou como quem dizia “tá doida?”.

Eu: Talvez ele consiga te ajudar…

Dudu: Tu não entende – levantou e caminhou até a porta.

Eu: Dudu, espera aí.

Ele me olhou com desespero nos olhos. Não sabia o que fazer, apenas o abracei. Porque sabia o que ele tava sentindo e não conseguia achar outra forma de dividir isso. Dudu retribuiu o abraço e ficamos ali por algum tempo. Algumas lágrimas caíram, tanto minhas quanto dele. Mas nada foi dito.

Eu: Vai tomar um banho, menino. – disse fungando, ele sorriu e saiu.

Fiquei esperando na porta do quarto dele. Ele saiu meia hora depois, com óculos escuro e uma toca.

Eu: Vai assaltar um banco?

Ele levou um susto e eu me levantei. 

Fomos até a cozinha.

Dudu: Não to a fim de ficar ouvindo o discurso do pai se ele me vir desse jeito.

Eu: E por que tu tá assim? Tu não me explicou ainda.

Ele sentou a mesa e fez o sanduíche dele, deu uma mordida, engoliu e me olhou.

Dudu: Não quero falar sobre isso.

Eu: Reparei.

Dudu: O que tu vai fazer hoje?

Eu: Não sei.

Dudu: Combinei de sair com o Nick, tá a fim?

Eu: Tá. Vou pegar meu celular, me espera.

Coloquei o celular no bolso de trás da calça. Dudu estava na sala me esperando, saímos e começamos a descer a rua em direção a casa de Nick.

Eu: Tu não tá com calor com essa toca?

Dudu: To. Daqui a pouco eu tiro – ele olhou pros lados como se, se escondesse de alguém.

-

Batemos na porta de Nick, mas quem atendeu foi uma menininha que se não me engano o nome é…

Eu: Oi! Babi, né? Lembra de mim? – tentei ser agradável, mas me senti uma idiota.

A menina como todo mundo da família de Nick que eu conheci até hoje foi muito educada. Ela até sabia meu nome, acho que Nick falou de mim pra todo mundo, na verdade. A casa tava uma loucura, gente caminhando pra todos os lados, tentando arrumar o mínimo possível da casa.

Subimos até o quarto de Nick, ele atendeu parecendo perturbado.

Nick: Entrem – disse depois de ver que era a gente.

Eu sorri e ele assentiu. É, estávamos bem. Falei algumas merdas ontem a noite, mas ele não ligou do mesmo jeito que eu não liguei pras merdas ditas por ele. Mesmo assim, vou pedir desculpas depois, quando for numa situação melhor.

Dudu: Por que tu tá usando terno? Pra onde a gente vai?

Nick: Vai ter almoço aqui em casa. Vai vir toda a minha família, tenho que me fantasiar desse jeito. – ele olhou pro próprio corpo pelo espelho.

Não estava conseguindo fazer o nó da gravata, e pediu pra que eu o fizesse.

Eu: E tu acha que eu sei fazer?

Nick: Já devia saber que não. – revirou os olhos, mas tava sorrindo.

Nick passou os próximos minutos nos convencendo a ficar e aturar o almoço inteiro com sua família. Implorou mesmo, fiquei até com pena.

Nick: Fiquem, por favor.

Eu: OK, mas eu não vou trocar de roupa. Vão me ver assim mesmo.

Nick: Troca de roupa? Por quê?

Eu: Tu tá usando terno, Nick. TERNO. E olha pra mim. - apontei pro meu corpo.

Estava vestindo uma roupa bem simples, sem muita frescura, ainda mais porque tava calor pra caramba. Não sei nem como Nick vai aguentar ficar usando terno o dia todo.

Ele disse que não tinha problema, que ninguém ligaria porque eu não fazia parte da família, mas que ele tem que fazer bonito “pra não parecer vagabundo”, como ele mesmo disse.

Nick fez Dudu usar o óculos e a toca pra família não ficar perguntando o que aconteceu. Dudu não gostou da ideia, mas aceitou. Foi estranho ver ele sendo legal com alguém, pra variar.

-

O dia passou muito devagar. Principalmente porque Nick passou a maioria do tempo reclamando, ou tentando convencer os tios de que éramos amigos e nada mais. E Dudu tentando os convencer de que não sentia calor com a toca, mesmo eu conseguindo enxergar o suor escorrendo pelo rosto dele.

Em geral foi um dia cansativo, consegui dar risada em alguns momentos. Todos os parentes de Nick foram muito legais comigo e com Dudu, eles são bastante divertidos e ao mesmo tempo conservadores em relação a algumas coisas. Ficamos sozinhos apenas na hora de comer.

Eu: Teu primo Luís parece ser legal.

Nick: É um babaca.

Dudu: Mas teu tio Florêncio é muito engraçado.

Nick: Bêbado e metido a milionário.

Essa era a opinião dele sobre praticamente a família inteira. Salvava algumas tias e primos, mas não tinha proximidade nenhuma com eles. Gostei de um primo especificamente, achei bem parecido com Nick. Não só esteticamente, mas o jeito de agir. Perguntei porque eles não se falavam, Nick pareceu confuso e não soube responder.

Quando o almoço acabou e já estava quase anoitecendo, fomos até minha casa e sentamos perto da minha casa.

Dudu atirou a toca longe e colocou o óculos na gola da camiseta.

Conversamos por bastante tempo. Coloquei minhas pernas por cima das de Nick e fechei os olhos, quando os dois começaram e falar sobre video game. Eu curto jogar de vez em quando, mas não sei argumentar sobre nada disso. Não sei o mais premiado, não sei o melhor, não sei comparar. E não sinto falta de saber dessas coisas, na real. Só agora, mas tava tranquila de sentir a brisa no rosto. De noite, fica realmente agradável nessa cidade, principalmente aqui.

Minha brisa foi cortada pelo toque do meu celular. Número desconhecido. Pensei automaticamente em Luck e atendi rápido.

Eu: Alô! – disse animada.

Kurt: Madu, onde tu tá? – reconheci a voz dele.

Eu: To na frente de casa. Como tu conseguiu meu número?

Kurt: Tenho meus contatos. – ele riu e olhei para Nick, que deu de ombros. – to indo aí, me espera.

Concordei mesmo não tendo opção. Ele desligou sem dizer mais nada e apareceu poucos minutos depois. Quando o vi caminhando em direção a porta, mandei uma SMS pra que ele soubesse onde nos encontrar especificamente.

Cumprimentou Dudu e Nick, depois sentou ao meu lado. O silêncio fez com que ficássemos todos envergonhados e, principalmente, entediados.

Kurt: O que acharam do show, ontem? – puxou assunto.

Dudu: Foi meio tumultuado.

Kurt: Tu estava no meio da briga, não é? O que aconteceu? Ninguém soube explicar o começo de tudo.

Dudu se enrolou e não explicou muito bem, disse apenas que algumas pessoas implicaram com ele. Não fez muito sentido, mas ninguém insistiu.

 Kurt: Vim te convidar pra ver um ensaio da gente. – disse, olhando pra mim – mas vocês podem ir também.

Ele indicou os dois. Fiquei pilhada em ir, porque estava com muito tédio e queria ver Lipe de novo.

-

Fomos caminhando ate a casa de Kurt. Quando chegamos, Lipe e Lola já estavam nos esperando. Lipe sorriu ao me ver. Um sorriso tímido, mas claramente feliz.

Lola: Eaí?!

Nos sentamos no sofá ali mesmo. Kurt foi organizar os instrumentos e logo depois, os três estavam a nossa frente. Cada um com seu instrumento, cada um no seu lugar e com os olhos brilhando.

Lola bateu as baquetas três vezes e a música começou. Sentada na frente deles, foi bem mais fácil de vê-los do que no show, onde eu tinha que pular o mais alto que podia pra ver o palco inteiro. Ser baixinha é foda.

Mas agora, conseguia ver as expressões de todos. Lipe se empolgava mesmo, como Kurt tinha dito. Ele fazia uma coisa estranha com a boca cada vez que precisava tocar um acorde específico.

Lola sacudia os cabelos vermelhos sem parar e balançava os ombros de um jeito esquisito, mas como era no ritmo da música, dava pra entender.

Kurt mexia o pé cada vez que parava de tocar. Acho que ele não conseguia fazer os dois ao mesmo tempo. Pareço uma chata em ficar reparando nessas coisas, mas é impossível não reparar nisso. Apesar das esquisitices, eles tocavam bem mesmo.

Às vezes erravam, mas aí corrigiam e retomavam. É pra isso que serve os ensaios, afinal. Eles tocavam um rock pesado, acho que era System Of a Down, mas não tenho certeza.

A música terminou. Tocaram mais algumas, sempre com o tempo pra discutir sobre os ajustes, que eu não entedia droga nenhuma. Curto ouvir música, mas entender o que tem por trás dela não é da minha natureza.

Disse isso em um dos intervalos pra beber alguma coisa, que eles faziam. 

Lipe riu.

Kurt: A gente não sai da barriga da mãe sabendo dessas coisas, tem que estudar pra aprender.

Kurt sentou no chão, de frente para o sofá onde estávamos. Lipe sentou no braço do sofá, ao meu lado por falta de espaço e Lola se jogou na poltrona mais afastada do grupo.

Lipe: Nem me fala em aula, estudar, aprender… Amanhã recomeçam minhas aulas na faculdade.

Kurt: Segundo semestre?

Lipe: Terceiro. – ele disse e se escorou mais no sofá, entediado.

Nick: E tu Kurt? Não era pra ti estar na faculdade também? – ele perguntou, sendo metido.

Kurt tirou um cigarro do bolso, levantou e procurou fogo pela casa toda, até achar, acender e ser obrigado a responder. Mesmo assim, depois de sentar, tragou duas vezes antes de finalmente abrir a boca.

Kurt: Vou dizer o destino da humanidade pra vocês. A gente nasce, estuda, estuda, estuda, trabalha, trabalha, trabalha e depois… a gente morre.

Fiquei olhando pra ele, tentando achar uma razão por estar prestando tanta atenção nas merdas esse homem tá falando.

Kurt: Eu não quero isso pra mim, cara. Prefiro passar minha vida inteira tocando e cantando minha música do que viver pros dos outros.

Dudu: Como assim?  – Kurt parecia nervoso em falar nessas coisas e Dudu interessado. Não entendia porque tanto interesse, mas continuei observando eles.

Kurt: A gente se mata trabalhando pra quê? Pra ganhar uma miséria e beneficiar quem? Os filhos da puta do governo. Ou tu acha que eles colocam a mão na massa? Óbvio que não, só dão ordem pros babacas aqui fazerem o serviço sujo deles. Assim eles consegue ganhar milhões sem fazer absolutamente nada além de roubar. Não ajudo nessa forma de vida nem fodendo. Se a escola não me dá prazer, eu não vou. Fim.

Ele terminou nervosão. Tragou fundo no cigarro, levantou e buscou uma cerveja. Abriu a garrafa, colocando o cigarro na boca pra liberar as mãos. Kurt é uma pessoa esquisita mesmo, mas eu concordava com ele. Quem não concorda, não é? Política é um assunto que estressa qualquer um.

Quis tirar a tensão do momento contrariando Kurt.

Eu: Mas tu não acha que vai conseguir fazer apenas o que te dá prazer a vida inteira, não é? Às vezes a gente tem que fazer coisas desagradáveis pra chegar onde queremos. Pensa comigo, antes de chegar no clímax, tem que haver preliminares. Certo?

Todo mundo riu disfarçadamente. Inclusive Kurt, que percebeu minha tentativa bem sucedida de não deixar a sala cair no silêncio desconfortável.

Kurt: Gosto de chegar no clímax rápido. – ele disse rindo e acabando com o cigarro.

Eles voltaram a tocar e foi assim a noite toda. O assunto tinha sido encerrado, mas eu continuava pensando. Queria ter um grande sonho assim como o de todo mundo. Que desse um sentido mais certo pra vida. Porque até agora, pra mim, a vida é uma incógnita. Não sei o que vai ser de mim daqui vinte anos. Se vou estar  bem de vida e aproveitando ou se vou estar casada com cinco filhos pra criar.

OK, acho que isso não.

Não consigo me imaginar casando com alguém e dizendo “vou te amar pra sempre”, é ridículo. Não existe isso. Não estou dizendo que o amor não existe, mas é hipocrisia demais pra minha cabeça dizer que vai amar alguém pra sempre. Ninguém sabe do futuro, então não fica prometendo.

Principalmente sobre amor. Amor é muito relativo. Tu pode começar a amar uma pessoa sem perceber, e deixar de amá-la do mesmo jeito.

Parei de brisar, quando percebi que Nick falava comigo. Tentei prestar atenção no que ele dizia, mesmo sem ouvir muita coisa. 

-

Depois de algumas cervejas e músicas lentas, eu já tava pronta pra escorar a cabeça e apagar ali mesmo.

Dudu: Madu, vai ficar aí? – olhei pros lados e só o que consegui enxergar, foi a fumaça branca que vinha do chão, onde Kurt estava deitado.

Kurt: Se quiser ficar aí, Madu, tudo bem. E tu também, pequeno. Se quiser se jogar aí, não me importo.

Dudu não pareceu gostar muito do novo apelido, mas não falou nada e sentou-se ao meu lado. Sentia que ele continuava querendo ir embora, mas eu tava de boa ali. Então, me aconcheguei melhor em Dudu e fechei os olhos. Acho que ele relaxou mais depois disso, porque senti a respiração desacelerar.

-

Senti uma coisa me cutucando e fui obrigada a abrir os olhos. E quando o fiz, me assustei com a quantidade de claridade. Parecia que eu tinha acabado de fechar os olhos, mas a noite toda passou sem eu perceber. E continuava com sono.

Procurei o que me cutucava no sofá, até perceber que já não estava mais no sofá, e sim no quarto de Kurt. O quarto continuava exatamente a mesma coisa que eu tinha visto antes. Olhei pra todos os lados pra me certificar de que estava sozinha e fiquei aliviada em comprovar isso.

 Já acordei do lado de Kurt duas vezes, acho que não preciso de uma terceira. Mesmo que eu não tenha me arrependido da segunda, foi muito bom mesmo. Mas não pretendo repetir.

Sem pensar muito nisso, calcei meus tênis que estavam do lado da cama e fui pra cozinha. Lipe estava lá bebendo uma xícara de café.

Eu: Oi.

Lipe: E aí? – ele sorriu constrangido – tem café ali, se quiser.

Eu: OK. – servi uma xícara e me sentei do lado dele.

Começamos a conversar sobre qualquer inutilidade, mas terminamos com um papo sério de faculdade. Lipe fazia Psicologia, o que eu achei estranho. Não conseguia imaginá-lo como psicólogo ou coisa parecida. mas engoli o comentário e apenas sorri.

Kurt apareceu e sentou à mesa com a gente, se espreguiçou e bocejou.

Kurt: Bom dia.

Lipe: Boa tarde, tu quis dizer. – Kurt sorriu daquele jeito cafajeste de sempre.

Que eu gostava, mas que já não era a mesma coisa. Não sei explicar o porquê. Talvez seja porque já tenha ficado com ele, ou porque achava Lipe a pessoa mais interessante nesse momento. Fiquei nervosa só de pensar e principalmente porque os dois estavam olhando pra mim.

Engoli seco e bebi mais café pra não precisar falar nada.

 Kurt: Foi um bom ensaio ontem, não é?

Eu: Foi. – Lipe assentiu – Mas cadê Nick? E Dudu?

Kurt: Foram embora juntos, acho que até pro mesmo lugar. Não prestei atenção.

Eu: Ah. Acho que tá na minha hora também. – levantei e coloquei a xícara na pia.

Kurt: Fica aí. Queria conversar contigo.

Eu: Sobre o quê?

Kurt: Sobre o que aconteceu no show.

Eu: Deixa isso pra lá, Kurt.

Kurt: Eu não quero deixar pra lá. Continuo a fim. – Lipe começou a mexer no cabelo de um jeito nervoso e se levantou.

Lipe: To indo.

Eu: Me espera.

Kurt: Madu. – ficamos os três encarando uns aos outros. Lipe não disse nada e saiu, batendo a porta.

Eu: Fala – disse,  já puta da vida e com vontade de socar a cara dele.

Kurt: Não to te pedindo em namoro nem nada. – ele riu e acendeu um cigarro – quero ser teu amigo, mas te acho muito gostosa pra ser só isso, entende?

Eu: Na boa? Também te acho lindo pra caralho, mas não é por isso que vou ficar contigo. Aconteceu uma vez, mas não quer dizer que pode acontecer de novo. Se tu não quiser ser só meu amigo, tudo bem. Mas não seja se for pra ficar insistindo e enchendo o saco.

Disse isso em pé, tava com um timbre nervoso na voz e tentava esconder. E ele ficava me olhando com aqueles olhos pretos e com as covinhas a mostra.

Tragou e assentiu.

Kurt: Gosto de ti, Madu. Já disse isso. E ainda não esqueci que to te devendo uma. Aquela noite, tu me deu uma super ajuda e por isso tu tem vantagem na nossa amizade. – ele demorou um pouco pra dizer “amizade” – porém, continua sendo gostosa, então se tiver oportunidade eu te pego e não vou ter culpa.

Ele deu de ombros. Fiquei alguns segundos tentando entender aquelas palavras, mas só disse “OK” e saí. Acho que agora somos amigos, mas não tenho certeza.

Lipe estava sentado na calçada de frente pra casa de Kurt, com as mãos nos cabelos e com a cabeça abaixada. Achei estranho e sentei ao lado dele.

Eu: Que foi?

Ele levou um susto e sorriu amarelo.

Lipe: Nada não. – continuei a olhar pra ele sem acreditar – tu já ficou com o Kurt?

Ele me perguntou sério.

Eu: Sim.

Lipe: Ah. – ele assentiu.

Eu: Por quê?

Lipe: Nada não.

Eu: Qual é, Lipe? Fala o que tu tá pensando.

Lipe: Eu só queria saber.

Eu: Faz diferença?

Lipe: Muita.

Eu: Por quê?

Lipe: Conheço os tipos de mulheres que ficam com ele.

Eu: Como assim?

Lipe: Acho que tu não conhece muito bem ele ainda.

Eu: Não, acabei de conhecer vocês. Esqueceu?

Lipe: Não esqueci, mas parece que tu sim, não é? Já até ficou com Kurt. – ele disse displicente.

Eu: Não to entendendo o que tu tá querendo dizer.

Lipe: Eu achei que tu fosse uma guria legal, mas tu ficou com Kurt. E ele sempre fica com vadias e…

Eu: Tá me chamando de vadia?

Lipe: Não foi isso que quis dizer. – ele balançou a cabeça negando.

Eu: Foi exatamente o que tu disse. – tava ficando nervosa de novo e acabei levantando – Fiquei com Kurt uma vez, não quer dizer que vá acontecer de novo, também não quer dizer que eu saio abrindo as pernas pra qualquer um. Não sei porque eu to me explicando.

Lipe: Eu também não sei porquê. – ele se levantou e ficou de frente pra mim.

Claro que ele se levantando tinha muito mais impacto que eu, o garoto era mil metros mais alto. Ele parecia tão triste e decepcionado que parte da minha raiva se foi.

Eu: Qual é o teu problema, Lipe?

Lipe: Eu me odeio por sempre gostar da pessoa errada, esse é o problema. Tua não é só linda, é inteligente e tem personalidade. Mas do que adianta se fica com imbecis tipo esses – ele apontou pra casa de Kurt.

Eu: Tu nunca ficou com uma menina? Só por ficar? Sem querer nada além disso? É a mesma coisa comigo e com Kurt. Mas só porque foi com ELE, eu sou uma vadia. Tu nem me conhece e já tira altas conclusões.

Ele não disse nada, só ficou me olhando. Dei de ombros e segui meu caminho, sem olhar pra trás. Nem mesmo quando ouvi Lipe gritando meu nome.

Estava com raiva, mas não só dele. Raiva de mim mesma. Continuei caminhando sem rumo, minha vontade era de caminhar até chegar onde minha mãe está e receber um abraço apertado dela. E ouví-la dizer que ele estava errado, que eu não tinha me tornado uma vadia sem perceber.

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Eu: Tu tá precisando de vodca. – ele me olhou e sorriu.
Nick: Eu acho que tu tá certa.
Depois de pegarmos os ingressos, fomos até a fila para entrar. Dudu e os amigos estavam mais atrás fazendo barulho. Ainda não ia com a cara daqueles amigos dele, mas não havia nada que eu pudesse fazer.
Nick estava tentando ligar pro Kurt, mas dava fora de área o que fazia ele reclamar a cada cinco segundos.
Eu: Para de reclamar, porra. A gente já tá entrando.
Nick: Eu preciso beber, Madu. Urgentemente. Toda essa gente bêbada do meu lado, falando alto me irrita.
Eu: Espera cinco minutos de bico fechado e eu juro que estaremos com copos na mão. OK?
Nick: Tá. – ele olhou pra frente desapontado.
Ele tava mesmo de mau humor e ficou de cara emburrada até entrarmos, pelo menos tinha parado de falar e reclamar. 
O lugar tinha muito mais gente do que espaço, o que fazia eu me sentir uma sardinha enlatada. Nick começou a reclamar de novo, só que dessa vez berrando pra que todo mundo ouvisse. 
Nick: EU QUERO FICAR BÊBADO, EU QUERO FICAR BÊBADO.
Antes que eu o atacasse, vi um casal se pegando mais pro lado. Me esmaguei até lá, peguei a garrafa de cerveja que o cara estava segurando e coloquei na mão de Nick. 
Ele me olhou e bebeu tudo em segundos.
Nick: Ainda não to bêbado.
Eu: Puta que pariu, Garoto Loiro.
Pensei realmente em sair correndo e deixar ele ali sozinho, mas quando olhei pra cima, consegui enxergar o palco. Não tinha ninguém lá em cima ainda. A música que tocava, vinha dos auto-falantes por todo o lado. Tentei olhar pro teto mas não consegui, parecia que não tinha telhado, apenas luzes de várias cores e uma fumaça com cheiro estranho.
Cutuquei o cara mais tranquilo que eu vi com uma garrafa na mão, nem deu pra ver o que era, mas obviamente álcool e era o que eu precisava pra deixar Nick bêbado e menos chato.
Eu: Onde tu comprou? – apontei pra mão dele.
Cara: Tem um cara vendendo pra lá. – ele apontou pra perto de uma escada, onde se via a maior quantidade de gente. 
Arrastei Nick comigo. Com dificuldade conseguimos achar o lugar perfeito, onde o palco ficava completamente visível e bem do lado do cara das bebidas. Era meio apertado, mas eu duvidava que tivesse um espaço confortável no meio daquela confusão.
Vi Lipe caminhando com fios nos braços. Abanei e ele fez sinal pra que o seguíssemos. Nick veio atrás de mim, mesmo sem saber do que se tratava. Entramos em um lugar onde tinha muita gente nervosa e outras alucinadas demais pra conseguir se preocupar. Percebi que estávamos em uma espécie de “backstage” onde as bandas se preparavam pra entrar no palco e tocar. E com a quantidade de instrumentos espalhado por ali, eu suponho que umas 10 bandas vão tocar hoje.
Olhei pros lados procurando Kurt e Lola, mas não precisei. Lipe estava apontando pra onde eles estavam e depois sumiu. Sem olhar pra mim ou sequer dizer uma palavra. 
Kurt: Vocês chegaram, finalmente. Daqui a pouco a gente entra.
Lola me cumprimentou de longe, parecia meio nervosa também e mesmo assim bebia grandes goles do copo que segurava. Nick perguntou onde dava pra pegar bebida. As bebidas do “backstage” ficavam numa mini-geladeira que eu ainda não sei o nome e dava pra pegar à vontade. 
Minha vontade era de ficar ali pra sempre, sentada do lado da mini-geladeira, com uma nervosa Lola, um estranho Kurt que estava aquecendo a voz, ou pelo menos é isso que eu espero que ele esteja fazendo e um bem humorado Nick. Bebi o primeiro, segundo, terceiro, quarto copo do que mais tinha na mini-geladeira. Uma bebida verde bem claro. Ia perguntar o nome quando Lipe apareceu e já estava quase na hora deles subirem no palco.
Lola: Se quiserem ver mesmo o show, fica melhor lá no meio de todo o mundo.
Eu assenti.
Nick: Pega o máximo de garrafa que tu conseguir e a gente vai. – ele disse abrindo a mini-geladeira.
Peguei duas garrafas e já foi difícil sair de lá, Nick pegou várias. Descemos e conseguimos ficar bem de frente ao palco, completamente esmagados, mas conseguíamos ver os três tocando. Não reconheci a música e ninguém a minha volta estava cantando, então deve ser uma música deles mesmo.
O show deles não durou muito. Kurt falou algumas coisas entre uma música e outra, as pessoas riram, umas meninas do meu lado se derreteram e começaram a gritar enlouquecidamente. Curti muito o show deles, mas ficou melhor quando eu conseguia me mexer longe do palco.
Kurt: E aí, gostaram? – perguntou quando conseguíamos ouvir um ao outro.
Nick: Nada mal. – deu de ombros abrindo a décima quinta garrafa.
Eu: Foi muito bom.
Kurt: Valeu, Madu. – ele deu ênfase no meu nome e me abraçou.
Não entendi o porque, mas retribuí. Quando me soltou, sorriu daquele jeito e eu achei melhor cortar o entusiasmo dele antes que ficasse incontrolável. Saí de perto e tentei ficar do lado de Nick e o mais longe possível de Kurt. 
Ele deve ter entendido e me puxou pra longe de todo o mundo.
Kurt: O que houve?
Eu: Nada. – dei de ombros.
Kurt: Tu tá me evitando, eu quero saber o porquê.
Eu: Por que tu me abraçou pra começar?
Kurt: Sei lá – ele riu e continuou bebendo a cerveja dele.
Eu: “Sei lá” não é resposta.
Kurt: Talvez eu queira ficar contigo de novo, qual o problema?
Eu: Não acho que a gente deva fazer isso.
Kurt: Por quê?
Eu: Não quero que se torne um hábito. Aconteceu aquela vez, não quer dizer que pode acontecer de novo.
Kurt: Quer dizer que tu não gostaria disso? – ele cochichou no meu ouvido e mordeu de leve meu pescoço.
Fechei os olhos por alguns segundos, mas o empurrei logo depois.
Eu: Não vai rolar.
Voltei pro lugar de antes onde estavam todo mundo. Kurt não voltou comigo, ficou por aquele lado mesmo. 
Eu: Onde que tá o Nick?
Lola: Lá. – olhei pro lado que ela apontava e me arrependi na mesma hora.
Nick estava com uma garota escorada na parede, se pegando de um jeito nojento de se ver.
Eu: Eu não precisava ver isso.
Franzi a testa e decidi fazer o que todo mundo a minha volta estava fazendo: dançar, sem desgrudar do meu copo com bebida verde que eu ainda não sabia o nome.
-
Cantei as músicas mesmo não conhecendo, dancei com umas meninas que não conhecia, pulei demais e não consegui parar de dançar. Como se meu corpo dependesse disso pra continuar funcionando. Estava me sentindo muito quente, suando tanto que sentia as gotas escorrendo pelo meu rosto. Parecia que um dragão desceu do céu, parou ao meu lado e jogou fogo em mim.
Com o desespero, deixei cair o copo e comecei a passar  mal, me sentindo tonta e perdida. Olhei pros lados, mas não via ninguém familiar. Tentei sair de lá o mais rápido possível, mas aquele lugar parecia um labirinto, empurrava as pessoas da minha frente sem pedir desculpas, eu só queria sair de lá pra conseguir respirar.
Ouvi uma voz muito próxima a mim, achei que estivesse falando comigo, mas eu não conseguia entender o que com tanto barulho.
Eu: TO PASSANDO MAL! – gritei arriscando acreditar que alguém realmente estava querendo me ajudar. 
Tava muito mole pra entender o que estava acontecendo comigo. Quando me dei conta, estava no banheiro, com o rosto dentro do vaso e colocando tudo pra fora. Tinha alguém me segurando, sem olhar nem perguntar quem era, agradeci nos segundos que entendi tudo. Não demorou muito pra eu me sentir melhor. Ainda sentia o cheiro horrível de nicotina no ar e sentia o gosto forte da bebida verde na minha boca. Falando nisso…
Eu: Que porra era aquela? – disse, enquanto lavava o rosto e prendia meu cabelo novamente.
- Tu não sabe o que bebeu? – ouvi uma voz feminina do meu lado e me virei.
Era uma mulher que parecia bem mais velha que eu, tinha várias tatuagens e o cabelo bem curto. Com um sorriso caridoso, olhava pra mim.
Eu: Era uma coisa verde e forte pra caralho, mas não sei o que era exatamente.
Mulher: Quais foram os efeitos? – ela me ofereceu o copo dela. Bebi pra tirar o gosto. 
No copo tinha cerveja, que depois da porra verde, parecia água de tão fraco.
Eu: Sei lá. Bebi uma dose e o efeito foi rápido, me animei na mesma hora, bebi mais umas doses e dancei muito. Entrei numa brisa de dragão também.
Ela sorriu vendo minha cara de bêbada perdida.
Mulher: Acho que tu encontrou com a fada verde. 
Eu: Quê?
Mulher: Vou voltar pra festa. Tu tá bem, não é?
Eu: To sim. Muito obrigada, acho que eu teria desmaiado no meio de tanta gente.
Mulher: Tudo bem. Eu trabalho aqui, não seria muito bom alguém desmaiado.
Sorri e ela saiu.  Bebi o resto da cerveja que ela deixou comigo, toquei mais um pouco de água na cara e saí. Tava disposta a procurar qualquer um pra ir pra casa, até mesmo Kurt, mas ainda sentia meu corpo muito mole, por isso não consegui sair da área dos banheiros. Era horrível, as pessoas não conseguiam esperar até entrar, vomitavam ali na porta mesmo.
Me escorei na parede e lembrei que tinha um celular, pra variar. Liguei pro Nick, mas como previ, ele não atendeu. Não tinha certeza se ele também bebeu a porra verde, mas espero que não. Porque ele bebeu muito mais que eu pra ficar bêbado mais rápido e como estou passando mal com o pouco que bebi, imagino ele. 
Continuei escorada esperando algum herói de capa vermelha, me levar voando até uma cama bem macia, foi quando vi Lipe passar. Olhei uma primeira, segunda e na terceira tive certeza de que não era miragem. Caminhei até ele e quando me viu, saiu andando como se fugisse de alguma coisa.
Eu: LIPE! – ele continuou caminhando rápido no meio das pessoas e eu seguindo o rastro dele. Até conseguir pegar em seu braço. – qual é? Tá fugindo de mim por quê?
Lipe: Tu quer falar comigo pra quê? Pra rir de mim? Não, obrigado!
Eu: Rir de ti? Por que eu faria isso, garoto? Que nóia. – vi que ele segurava um copo e perguntei: - o que tem aí?
Lipe: Vodka e coca-cola. – peguei da mão dele e bebi o resto.
Lipe: Tu não vai me zuar, então? – ele parecia mais tranquilo.
Eu: Não. – respondi confusa.
O arrastei para um canto, onde conseguia brisar sem me desesperar de tanto calor. Tive certeza que a porra verde ainda fazia efeito quando vi um palhaço brilhante no meio da galera. 
Sacudi a cabeça.
Eu: Aquele é o Kurt? – ele virou a cabeça na mesma direção que eu.
Lipe: É.
Kurt estava sentado com duas garotas, cada uma sentada em uma das pernas dele. A loira o beijava e a morena esperava por sua vez, assistindo o beijo dos dois.
Lipe: Não to a fim de ficar olhando.
Eu: Nem eu. Vamo sair daqui? – Ele não respondeu, mas pegou minha mão e começou a empurrar as pessoas a nossa frente. 
Com um pouco de esforço, chegamos ao outro extremo da boate, ou o que fosse aquele lugar. Reconheci como a entrada e estava mais vazio lá. Conseguia até respirar.
Eu: Melhor aqui. – disse, mas continuava agitada querendo fazer alguma coisa.
Olhei pros lados esperando alguma coisa boa acontecer e acabei enxergando Nick falando com uma menina diferente.
Eu: Por que só eu não to me dando bem hoje?
Lipe olhou pra mim e sorriu. Não um sorriso com segundas intenções, apenas um sorriso normal. E foi como se esse sorriso tivesse me acertado como um soco. Não te deu bem, Maria Eduarda? Tem um garoto lindo pra caralho olhando pra ti nesse exato momento e que ainda segurava tua mão, mesmo sem ter o porquê.
Soltei a mão dele e coloquei as duas atrás do seu pescoço. 
Ele entendeu, colocando as mãos na minha cintura. O beijei como se não fizesse isso há muito tempo e era assim mesmo que me sentia. Como se tudo aquilo ali fosse novo e eu ainda tivesse que experimentar tudo.
Nesse momento, todos as bandas já haviam tocado e agora quem coordenava a festa era um DJ, de muito bom gosto, diga-se de passagem. Virei realmente fã do cara quando reconheci as batidas de Baptism do Crystal Castles. Puxei Lipe pra pista na mesma hora. Ele não parecia muito feliz de voltar pro meio da “multidão”, mas eu me sentia muito feliz de repente de poder pular e dar cotovelada em todos, porque nessa altura ninguém se importava mais. Balancei os braços de Lipe como um fantoche, até ele sorrir e ganhar ânimo pra dançar comigo. 
A gente dançava grudado, no mesmo ritmo até a música acabar e começar outra mais animada. Intercalávamos entre beijos e pulos. Lipe conseguiu mais algumas doses de vodka misturada com qualquer coisa. Sempre preferi pura, mas não estava em condições de exigir nada. Até porque, estávamos nos divertindo muito. Lipe parecia estar se divertindo também. Deixou a vergonha de lado por vários momentos, mas de vez em quando ainda me lançava olhares constrangidos e tentados ao mesmo tempo. Eu sorria e o beijava sempre que isso acontecia.
Ouvi um grito de raiva vindo mais a frente da galera dançando, mas não liguei até reconhecer a voz que respondeu: Dudu.
Eu: Ah, não.
Lipe: Que foi?
Corri até lá o mais rápido que pude, mas quando cheguei já era tarde. Dudu estava caído e com um brutamontes em cima dele e ainda o socava. Não parei pra pensar, apenas gritei e pulei nas costas do brutamontes pra que ele o soltasse.
Lipe: MADU, QUE PORRA… – interrompeu o grito no meio e me agarrou por trás pra me tirar da confusão. Ele continuou me segurando e eu continuei gritando até que uns caras maiores, que eu imaginava que fossem seguranças, tiraram o brutamontes de cima de Dudu. Ele levantou com a cara toda deformada e com o nariz sangrando. Lipe me soltou e cheguei mais perto dele, toquei no rosto machucado e o abracei.
Dudu: Madu tá chapada ou o quê? – perguntou com a voz estranha para Lipe.
Segurança: Vão embora, por favor.
Eu: Mas… – disse para o segurança enquanto me desvencilhava de Dudu.
Segurança 2: Vaza, vaza. – disse o segurança dois que ainda segurava o brutamontes. Ele chamou outros caras que nos expulsaram. Foi só quando eu estava na rua que vi Nick ai nosso lado.
Olhei pra cara de perdido dele, para a cara de revoltado de Lipe e a arrebentada de Dudu. Comecei a rir como não fazia há muito tempo. Os três me olharam como se eu tivesse ficado louca, mas logo Nick começou a rir e depois Lipe também entrou na vibe. Os dois se atiraram ao meu lado na calçada. Eu não sabia se Dudu estava rindo junto, porque a cada segundo, o rosto dele ficava mais inchado e menos visível suas expressões.
Depois que paramos de rir e bateu a deprê de não poder voltar, seguimos o caminho a pé. Não sei o que aconteceu com o brutamontes, mas deve ter ido embora enquanto ríamos no chão. 
Eu: Eu preciso ir ao banheiro – deixei claro pra todos não sei porquê.
Nick: Bom saber.
Lipe: Nessa hora não tem ônibus nem metrô pra ir embora.
Nick: Táxi.
Eu: To sem dinheiro.
Nick: Merda. Devia ter tirado dinheiro do banco ontem. – ele falou isso e continuou reclamando nos seguintes minutos, mas como não conseguia ignorá-lo, quando vi, já tinha falado:
Eu: Tu é um riquinho, reclamão e mimado do caralho, Nick. – não falei de um jeito amigável ou do meu jeito sincero-mal-humorado de sempre, falei com agressividade mesmo. E não entendi o porque segundos depois, mas não perdi a pose pelo orgulho.
Nick: Ninguém quer saber o que tua cabeça bêbada pensa, Madu. 
Eu: Eu não to bêbada. 
Nick: Claro que não. – e riu mais um pouco. – quer saber minha opinião, então?
Eu: Claro. – cruzei os braços e parei de andar, o encarando.
Nick: Tu é… – ele parou de andar também e ficou na minha frente, olhando diretamente nos meus olhos. – muito… chata… tipo… pra caralho…
Fiquei esperando alguns segundos por uma continuação e quando percebi que era só isso que ele conseguia dizer, caí na gargalhada. Me escorei nele pra não cair e rir de novo. Nick ficou sério o tempo todo, mas isso só fazia a cara dele ser mais engraçada.
Eu: Nossa, Nick. Não me xinga desse jeito que eu me deprimo. HAHAHAHA.
Nick: Tá aí. Tu é uma deprimida sem motivos. Que exagera com qualquer probleminha que aconteça contigo. 
Eu: Quer mesmo falar em exagero? Quero dizer, grandes problemas tu tem, não é? Tua mãe não dá a atenção que tu queria, porque é só mais um dos CINCO filhos dela, coitadinho do Garoto Loiro. 
Nick: CALA A BOCA.
A gente começou a berrar um com o outro. Coisas sem sentido nenhum. Quando ele já não sabia o que falar, gritou a palavra “enxofre” só pra não perder na discussão.
Eu: TU FALOU ENXOFRE? QUE MERDA ISSO TEM A VER?
Nick: EU NÃO FALEI ENXOFRE, TU QUE DISSE ISSO.
Lipe: Já chega. Vem, Madu. – ele me agarrou por trás, pela segunda vez na mesma noite, e só me largou quando já tínhamos descido a rua, e não conseguíamos ver Dudu nem Nick.
Eu: Eu devia ter ido com meu irmão.
Lipe: Irmão?
Eu: Sim, o garoto com a cara arrebentada é meu irmão.
Lipe: Ah. Então tu não é tão maluca quanto eu achei quando tu pulou nas costas do cara.
Eu: Se eu tivesse normal, não faria isso de jeito nenhum. – mentira.
A gente conversou mais um pouco sobre qualquer coisa até eu parar e perceber que não fazia a menor ideia de onde estávamos. 
Eu: Não sei como ir pra casa.
Lipe: Minha casa fica a três quadras daqui. Se quiser, a gente anda até lá pra passar a noite. Depois tu consegue um táxi. Mas eu juro que é uma proposta inocente, não acha que eu… 
Eu: Tá bom. – ele parecia nervoso em deixar claro que não tinha segundas intenções.
Eu acreditei nele. É difícil de achar um garoto inocente. Que não ajude esperando receber alguma coisa em troca, mas Lipe parecia um cara de boa mesmo. Além de ser amigo de Kurt. Não que seja exemplo pra alguém, mas já comprovei que ele não é nenhum serial killer. Então acho que posso ir pra casa de Lipe sem ter medo.
Caminhamos até lá falando muita merda. Principalmente eu, que ainda suspeitava estar sob o efeito da porra verde. A casa dele era tão parecida com a minha, exteriormente que achei até que estivéssemos na mesma rua. Mas logo que entrei tive a certeza que não estava em casa. Depois que Lipe acendeu a luz, eu consegui reparar nos móveis muito velhos. Não velhos de acabados e usados, mas velhos historicamente.  Parecia uma daquelas casas de época de novela. Fiquei até com medo de deixar alguma coisa cair.
Lipe: Quer comer alguma coisa? Ou… sei lá…. – ele disse fechando a porta e me observando, com uma das mãos na cabeça.
Eu: Acho melhor não. – coloquei a mão no estômago, não estava muito bem.
Lipe: Vamos subir, então? – disse e apontou para a escada.
Subi primeiro e o deixei passar para abrir a porta certa. Lá dentro não havia praticamente nada. Apenas uma mesa com um notebook em cima e uma cadeira do lado, um armário vazio e uma cama com cinco malas sob ela, eu contei.
Lipe: Vou me mudar semana que vem. – ele respondeu a pergunta que nem fiz.
Eu: Por quê? – disse, sentando na cadeira.
Lipe: Tá na hora de sair da casa da minha mãe. Consegui achar um apartamento legal perto da faculdade pra dividir com uns amigos.
Ele sorriu parecendo satisfeito e colocou as cinco malas no chão, perto da porta. Queria acrescentar alguma coisa sobre ele morar com os amigos, que era legal ou qualquer coisa, mas eu gostei de ficar girando na cadeira e achei melhor deixar os comentários pra depois.
Lipe: Tu pode ficar com a cama, eu durmo no sofá lá da sala.
Eu: Nem pensar. A cama é tua, fica de boa aí que eu me viro. 
Ele insistiu dizendo que não se importava, mas parece que essa noite meu orgulho inflou de um jeito impossível de ser vencido. Depois que a discussão acabou, desci até a sala e deitei no sofá. Tirando os tênis primeiro. Dormir de meia-calça era bem desconfortável  mas a preguiça era maior que o desconforto. O sofá era muito fofo e cheiroso.
Cheiroso de verdade. Tinha aquele tipo de cheiro bom que a gente sente, mas não sabe explicar. Tipo cheiro de livro novo, cada vez que trocamos de página, vem aquele aroma que nos deixa anestesiado. Pelo menos é assim comigo, não sei pra você, mas pra mim é perfeito. E se existisse um perfume desse cheiro, eu usaria. 
Perfume com aroma de livro novo, foda.
Lipe: O que tu tá fazendo?
Levei um susto e sentei na hora.
Eu: Teu sofá é cheiroso, sabia?
Lipe: Tem certeza? Várias bundas sentam aí.
Eu ri e sentei mais no canto pra dar espaço a ele. 
Lipe: Gostei muito de curtir contigo hoje, foi divertido. – ele sorria olhando pro chão.
Lipe sentava escorado e com as pernas abertas, como se tivesse confiante, mesmo que os olhos dele me dissessem o contrário. Consegui engolir esse comentário porque sabia que ele ficaria muito mais tímido do que já tá.
Eu: Eu também achei divertido. Quem diria que tu dançasse tão bem.
Lipe: Bem? Bem mal, isso sim. – ele riu, mais descontraído  – só dancei porque tu tava ali comigo, normalmente eu fico só bebendo no canto.
Eu: Se arrependeu?
Ele sacudiu a cabeça negativamente, olhando pra minha boca. Esperei que eu chegasse até mim, mas não mexeu nenhum músculo. Vou ter que tomar a iniciativa de novo? OK, vai. O menino parece ser mais tímido que o Dany.
Fui chegando perto, devagar. Ele engoliu seco e molhou os lábios. O beijei novamente. 
Não precisei tomar uma terceira iniciativa, ele colocou as mãos debaixo da minha camiseta e tirou-a com minha ajuda. Quando fiz menção em fazer a mesma coisa com a dele, travei. Meu estômago revirou.
Lipe: Que foi? – cochichou.
Eu: Onde fica o banheiro? – coloquei a mão na boca. Ele apontou pro corredor mais perto e escuro. 
Estava com tanta pressa que não pensei duas vezes antes de entrar no corredor. Quase bati de cara na porta com a falta de iluminação. Entrei no banheiro e era tão branquinho, bonitinho, cheirosinho. Fui direto pro vaso.
Lipe: Madu, tá tudo bem? – ele perguntou através da porta.
Mesmo sendo óbvio que eu já tive momentos muito melhores em que não estava extraindo minhas tripas pela boca. Nem respondi.
Ele entrou do mesmo jeito pra me ajudar. E o fez segurando meus cabelos. Foi tão fofo que tive vontade de abraçá-lo, mas acho que agora não é a melhor hora.
Depois de dois minutos de angústia e total quebra de clima, lavei meu rosto pela segunda vez com raiva da porra verde.
Lipe: Toma uma ducha aí, as toalhas estão aqui.
Eu: Mas…
Lipe: Madu, tu vai se sentir melhor, vai. 
Assenti e ele sorriu.
Ligou o chuveiro pra deixar na temperatura certa pra mim.
Lipe: Não sei onde tá tua camiseta, mas pega a minha, ó. – tirou a camiseta que estava usando e colocou do lado das toalhas - Qualquer coisa me chama.
Saiu fechando a porta, sem dizer mais nada.
Tá aí a pessoa mais gentil que conheci nessa cidade até agora.
«Capítulo 46                                                                   Capítulo 48»

Eu: Tu tá precisando de vodca. – ele me olhou e sorriu.

Nick: Eu acho que tu tá certa.

Depois de pegarmos os ingressos, fomos até a fila para entrar. Dudu e os amigos estavam mais atrás fazendo barulho. Ainda não ia com a cara daqueles amigos dele, mas não havia nada que eu pudesse fazer.

Nick estava tentando ligar pro Kurt, mas dava fora de área o que fazia ele reclamar a cada cinco segundos.

Eu: Para de reclamar, porra. A gente já tá entrando.

Nick: Eu preciso beber, Madu. Urgentemente. Toda essa gente bêbada do meu lado, falando alto me irrita.

Eu: Espera cinco minutos de bico fechado e eu juro que estaremos com copos na mão. OK?

Nick: Tá. – ele olhou pra frente desapontado.

Ele tava mesmo de mau humor e ficou de cara emburrada até entrarmos, pelo menos tinha parado de falar e reclamar.

O lugar tinha muito mais gente do que espaço, o que fazia eu me sentir uma sardinha enlatada. Nick começou a reclamar de novo, só que dessa vez berrando pra que todo mundo ouvisse.

Nick: EU QUERO FICAR BÊBADO, EU QUERO FICAR BÊBADO.

Antes que eu o atacasse, vi um casal se pegando mais pro lado. Me esmaguei até lá, peguei a garrafa de cerveja que o cara estava segurando e coloquei na mão de Nick.

Ele me olhou e bebeu tudo em segundos.

Nick: Ainda não to bêbado.

Eu: Puta que pariu, Garoto Loiro.

Pensei realmente em sair correndo e deixar ele ali sozinho, mas quando olhei pra cima, consegui enxergar o palco. Não tinha ninguém lá em cima ainda. A música que tocava, vinha dos auto-falantes por todo o lado. Tentei olhar pro teto mas não consegui, parecia que não tinha telhado, apenas luzes de várias cores e uma fumaça com cheiro estranho.

Cutuquei o cara mais tranquilo que eu vi com uma garrafa na mão, nem deu pra ver o que era, mas obviamente álcool e era o que eu precisava pra deixar Nick bêbado e menos chato.

Eu: Onde tu comprou? – apontei pra mão dele.

Cara: Tem um cara vendendo pra lá. – ele apontou pra perto de uma escada, onde se via a maior quantidade de gente.

Arrastei Nick comigo. Com dificuldade conseguimos achar o lugar perfeito, onde o palco ficava completamente visível e bem do lado do cara das bebidas. Era meio apertado, mas eu duvidava que tivesse um espaço confortável no meio daquela confusão.

Vi Lipe caminhando com fios nos braços. Abanei e ele fez sinal pra que o seguíssemos. Nick veio atrás de mim, mesmo sem saber do que se tratava. Entramos em um lugar onde tinha muita gente nervosa e outras alucinadas demais pra conseguir se preocupar. Percebi que estávamos em uma espécie de “backstage” onde as bandas se preparavam pra entrar no palco e tocar. E com a quantidade de instrumentos espalhado por ali, eu suponho que umas 10 bandas vão tocar hoje.

Olhei pros lados procurando Kurt e Lola, mas não precisei. Lipe estava apontando pra onde eles estavam e depois sumiu. Sem olhar pra mim ou sequer dizer uma palavra.

Kurt: Vocês chegaram, finalmente. Daqui a pouco a gente entra.

Lola me cumprimentou de longe, parecia meio nervosa também e mesmo assim bebia grandes goles do copo que segurava. Nick perguntou onde dava pra pegar bebida. As bebidas do “backstage” ficavam numa mini-geladeira que eu ainda não sei o nome e dava pra pegar à vontade.

Minha vontade era de ficar ali pra sempre, sentada do lado da mini-geladeira, com uma nervosa Lola, um estranho Kurt que estava aquecendo a voz, ou pelo menos é isso que eu espero que ele esteja fazendo e um bem humorado Nick. Bebi o primeiro, segundo, terceiro, quarto copo do que mais tinha na mini-geladeira. Uma bebida verde bem claro. Ia perguntar o nome quando Lipe apareceu e já estava quase na hora deles subirem no palco.

Lola: Se quiserem ver mesmo o show, fica melhor lá no meio de todo o mundo.

Eu assenti.

Nick: Pega o máximo de garrafa que tu conseguir e a gente vai. – ele disse abrindo a mini-geladeira.

Peguei duas garrafas e já foi difícil sair de lá, Nick pegou várias. Descemos e conseguimos ficar bem de frente ao palco, completamente esmagados, mas conseguíamos ver os três tocando. Não reconheci a música e ninguém a minha volta estava cantando, então deve ser uma música deles mesmo.

O show deles não durou muito. Kurt falou algumas coisas entre uma música e outra, as pessoas riram, umas meninas do meu lado se derreteram e começaram a gritar enlouquecidamente. Curti muito o show deles, mas ficou melhor quando eu conseguia me mexer longe do palco.

Kurt: E aí, gostaram? – perguntou quando conseguíamos ouvir um ao outro.

Nick: Nada mal. – deu de ombros abrindo a décima quinta garrafa.

Eu: Foi muito bom.

Kurt: Valeu, Madu. – ele deu ênfase no meu nome e me abraçou.

Não entendi o porque, mas retribuí. Quando me soltou, sorriu daquele jeito e eu achei melhor cortar o entusiasmo dele antes que ficasse incontrolável. Saí de perto e tentei ficar do lado de Nick e o mais longe possível de Kurt.

Ele deve ter entendido e me puxou pra longe de todo o mundo.

Kurt: O que houve?

Eu: Nada. – dei de ombros.

Kurt: Tu tá me evitando, eu quero saber o porquê.

Eu: Por que tu me abraçou pra começar?

Kurt: Sei lá – ele riu e continuou bebendo a cerveja dele.

Eu: “Sei lá” não é resposta.

Kurt: Talvez eu queira ficar contigo de novo, qual o problema?

Eu: Não acho que a gente deva fazer isso.

Kurt: Por quê?

Eu: Não quero que se torne um hábito. Aconteceu aquela vez, não quer dizer que pode acontecer de novo.

Kurt: Quer dizer que tu não gostaria disso? – ele cochichou no meu ouvido e mordeu de leve meu pescoço.

Fechei os olhos por alguns segundos, mas o empurrei logo depois.

Eu: Não vai rolar.

Voltei pro lugar de antes onde estavam todo mundo. Kurt não voltou comigo, ficou por aquele lado mesmo.

Eu: Onde que tá o Nick?

Lola: Lá. – olhei pro lado que ela apontava e me arrependi na mesma hora.

Nick estava com uma garota escorada na parede, se pegando de um jeito nojento de se ver.

Eu: Eu não precisava ver isso.

Franzi a testa e decidi fazer o que todo mundo a minha volta estava fazendo: dançar, sem desgrudar do meu copo com bebida verde que eu ainda não sabia o nome.

-

Cantei as músicas mesmo não conhecendo, dancei com umas meninas que não conhecia, pulei demais e não consegui parar de dançar. Como se meu corpo dependesse disso pra continuar funcionando. Estava me sentindo muito quente, suando tanto que sentia as gotas escorrendo pelo meu rosto. Parecia que um dragão desceu do céu, parou ao meu lado e jogou fogo em mim.

Com o desespero, deixei cair o copo e comecei a passar  mal, me sentindo tonta e perdida. Olhei pros lados, mas não via ninguém familiar. Tentei sair de lá o mais rápido possível, mas aquele lugar parecia um labirinto, empurrava as pessoas da minha frente sem pedir desculpas, eu só queria sair de lá pra conseguir respirar.

Ouvi uma voz muito próxima a mim, achei que estivesse falando comigo, mas eu não conseguia entender o que com tanto barulho.

Eu: TO PASSANDO MAL! – gritei arriscando acreditar que alguém realmente estava querendo me ajudar.

Tava muito mole pra entender o que estava acontecendo comigo. Quando me dei conta, estava no banheiro, com o rosto dentro do vaso e colocando tudo pra fora. Tinha alguém me segurando, sem olhar nem perguntar quem era, agradeci nos segundos que entendi tudo. Não demorou muito pra eu me sentir melhor. Ainda sentia o cheiro horrível de nicotina no ar e sentia o gosto forte da bebida verde na minha boca. Falando nisso…

Eu: Que porra era aquela? – disse, enquanto lavava o rosto e prendia meu cabelo novamente.

- Tu não sabe o que bebeu? – ouvi uma voz feminina do meu lado e me virei.

Era uma mulher que parecia bem mais velha que eu, tinha várias tatuagens e o cabelo bem curto. Com um sorriso caridoso, olhava pra mim.

Eu: Era uma coisa verde e forte pra caralho, mas não sei o que era exatamente.

Mulher: Quais foram os efeitos? – ela me ofereceu o copo dela. Bebi pra tirar o gosto.

No copo tinha cerveja, que depois da porra verde, parecia água de tão fraco.

Eu: Sei lá. Bebi uma dose e o efeito foi rápido, me animei na mesma hora, bebi mais umas doses e dancei muito. Entrei numa brisa de dragão também.

Ela sorriu vendo minha cara de bêbada perdida.

Mulher: Acho que tu encontrou com a fada verde.

Eu: Quê?

Mulher: Vou voltar pra festa. Tu tá bem, não é?

Eu: To sim. Muito obrigada, acho que eu teria desmaiado no meio de tanta gente.

Mulher: Tudo bem. Eu trabalho aqui, não seria muito bom alguém desmaiado.

Sorri e ela saiu.  Bebi o resto da cerveja que ela deixou comigo, toquei mais um pouco de água na cara e saí. Tava disposta a procurar qualquer um pra ir pra casa, até mesmo Kurt, mas ainda sentia meu corpo muito mole, por isso não consegui sair da área dos banheiros. Era horrível, as pessoas não conseguiam esperar até entrar, vomitavam ali na porta mesmo.

Me escorei na parede e lembrei que tinha um celular, pra variar. Liguei pro Nick, mas como previ, ele não atendeu. Não tinha certeza se ele também bebeu a porra verde, mas espero que não. Porque ele bebeu muito mais que eu pra ficar bêbado mais rápido e como estou passando mal com o pouco que bebi, imagino ele.

Continuei escorada esperando algum herói de capa vermelha, me levar voando até uma cama bem macia, foi quando vi Lipe passar. Olhei uma primeira, segunda e na terceira tive certeza de que não era miragem. Caminhei até ele e quando me viu, saiu andando como se fugisse de alguma coisa.

Eu: LIPE! – ele continuou caminhando rápido no meio das pessoas e eu seguindo o rastro dele. Até conseguir pegar em seu braço. – qual é? Tá fugindo de mim por quê?

Lipe: Tu quer falar comigo pra quê? Pra rir de mim? Não, obrigado!

Eu: Rir de ti? Por que eu faria isso, garoto? Que nóia. – vi que ele segurava um copo e perguntei: - o que tem aí?

Lipe: Vodka e coca-cola. – peguei da mão dele e bebi o resto.

Lipe: Tu não vai me zuar, então? – ele parecia mais tranquilo.

Eu: Não. – respondi confusa.

O arrastei para um canto, onde conseguia brisar sem me desesperar de tanto calor. Tive certeza que a porra verde ainda fazia efeito quando vi um palhaço brilhante no meio da galera.

Sacudi a cabeça.

Eu: Aquele é o Kurt? – ele virou a cabeça na mesma direção que eu.

Lipe: É.

Kurt estava sentado com duas garotas, cada uma sentada em uma das pernas dele. A loira o beijava e a morena esperava por sua vez, assistindo o beijo dos dois.

Lipe: Não to a fim de ficar olhando.

Eu: Nem eu. Vamo sair daqui? – Ele não respondeu, mas pegou minha mão e começou a empurrar as pessoas a nossa frente.

Com um pouco de esforço, chegamos ao outro extremo da boate, ou o que fosse aquele lugar. Reconheci como a entrada e estava mais vazio lá. Conseguia até respirar.

Eu: Melhor aqui. – disse, mas continuava agitada querendo fazer alguma coisa.

Olhei pros lados esperando alguma coisa boa acontecer e acabei enxergando Nick falando com uma menina diferente.

Eu: Por que só eu não to me dando bem hoje?

Lipe olhou pra mim e sorriu. Não um sorriso com segundas intenções, apenas um sorriso normal. E foi como se esse sorriso tivesse me acertado como um soco. Não te deu bem, Maria Eduarda? Tem um garoto lindo pra caralho olhando pra ti nesse exato momento e que ainda segurava tua mão, mesmo sem ter o porquê.

Soltei a mão dele e coloquei as duas atrás do seu pescoço.

Ele entendeu, colocando as mãos na minha cintura. O beijei como se não fizesse isso há muito tempo e era assim mesmo que me sentia. Como se tudo aquilo ali fosse novo e eu ainda tivesse que experimentar tudo.

Nesse momento, todos as bandas já haviam tocado e agora quem coordenava a festa era um DJ, de muito bom gosto, diga-se de passagem. Virei realmente fã do cara quando reconheci as batidas de Baptism do Crystal Castles. Puxei Lipe pra pista na mesma hora. Ele não parecia muito feliz de voltar pro meio da “multidão”, mas eu me sentia muito feliz de repente de poder pular e dar cotovelada em todos, porque nessa altura ninguém se importava mais. Balancei os braços de Lipe como um fantoche, até ele sorrir e ganhar ânimo pra dançar comigo.

A gente dançava grudado, no mesmo ritmo até a música acabar e começar outra mais animada. Intercalávamos entre beijos e pulos. Lipe conseguiu mais algumas doses de vodka misturada com qualquer coisa. Sempre preferi pura, mas não estava em condições de exigir nada. Até porque, estávamos nos divertindo muito. Lipe parecia estar se divertindo também. Deixou a vergonha de lado por vários momentos, mas de vez em quando ainda me lançava olhares constrangidos e tentados ao mesmo tempo. Eu sorria e o beijava sempre que isso acontecia.

Ouvi um grito de raiva vindo mais a frente da galera dançando, mas não liguei até reconhecer a voz que respondeu: Dudu.

Eu: Ah, não.

Lipe: Que foi?

Corri até lá o mais rápido que pude, mas quando cheguei já era tarde. Dudu estava caído e com um brutamontes em cima dele e ainda o socava. Não parei pra pensar, apenas gritei e pulei nas costas do brutamontes pra que ele o soltasse.

Lipe: MADU, QUE PORRA… – interrompeu o grito no meio e me agarrou por trás pra me tirar da confusão. Ele continuou me segurando e eu continuei gritando até que uns caras maiores, que eu imaginava que fossem seguranças, tiraram o brutamontes de cima de Dudu. Ele levantou com a cara toda deformada e com o nariz sangrando. Lipe me soltou e cheguei mais perto dele, toquei no rosto machucado e o abracei.

Dudu: Madu tá chapada ou o quê? – perguntou com a voz estranha para Lipe.

Segurança: Vão embora, por favor.

Eu: Mas… – disse para o segurança enquanto me desvencilhava de Dudu.

Segurança 2: Vaza, vaza. – disse o segurança dois que ainda segurava o brutamontes. Ele chamou outros caras que nos expulsaram. Foi só quando eu estava na rua que vi Nick ai nosso lado.

Olhei pra cara de perdido dele, para a cara de revoltado de Lipe e a arrebentada de Dudu. Comecei a rir como não fazia há muito tempo. Os três me olharam como se eu tivesse ficado louca, mas logo Nick começou a rir e depois Lipe também entrou na vibe. Os dois se atiraram ao meu lado na calçada. Eu não sabia se Dudu estava rindo junto, porque a cada segundo, o rosto dele ficava mais inchado e menos visível suas expressões.

Depois que paramos de rir e bateu a deprê de não poder voltar, seguimos o caminho a pé. Não sei o que aconteceu com o brutamontes, mas deve ter ido embora enquanto ríamos no chão.

Eu: Eu preciso ir ao banheiro – deixei claro pra todos não sei porquê.

Nick: Bom saber.

Lipe: Nessa hora não tem ônibus nem metrô pra ir embora.

Nick: Táxi.

Eu: To sem dinheiro.

Nick: Merda. Devia ter tirado dinheiro do banco ontem. – ele falou isso e continuou reclamando nos seguintes minutos, mas como não conseguia ignorá-lo, quando vi, já tinha falado:

Eu: Tu é um riquinho, reclamão e mimado do caralho, Nick. – não falei de um jeito amigável ou do meu jeito sincero-mal-humorado de sempre, falei com agressividade mesmo. E não entendi o porque segundos depois, mas não perdi a pose pelo orgulho.

Nick: Ninguém quer saber o que tua cabeça bêbada pensa, Madu.

Eu: Eu não to bêbada.

Nick: Claro que não. – e riu mais um pouco. – quer saber minha opinião, então?

Eu: Claro. – cruzei os braços e parei de andar, o encarando.

Nick: Tu é… – ele parou de andar também e ficou na minha frente, olhando diretamente nos meus olhos. – muito… chata… tipo… pra caralho…

Fiquei esperando alguns segundos por uma continuação e quando percebi que era só isso que ele conseguia dizer, caí na gargalhada. Me escorei nele pra não cair e rir de novo. Nick ficou sério o tempo todo, mas isso só fazia a cara dele ser mais engraçada.

Eu: Nossa, Nick. Não me xinga desse jeito que eu me deprimo. HAHAHAHA.

Nick: Tá aí. Tu é uma deprimida sem motivos. Que exagera com qualquer probleminha que aconteça contigo.

Eu: Quer mesmo falar em exagero? Quero dizer, grandes problemas tu tem, não é? Tua mãe não dá a atenção que tu queria, porque é só mais um dos CINCO filhos dela, coitadinho do Garoto Loiro.

Nick: CALA A BOCA.

A gente começou a berrar um com o outro. Coisas sem sentido nenhum. Quando ele já não sabia o que falar, gritou a palavra “enxofre” só pra não perder na discussão.

Eu: TU FALOU ENXOFRE? QUE MERDA ISSO TEM A VER?

Nick: EU NÃO FALEI ENXOFRE, TU QUE DISSE ISSO.

Lipe: Já chega. Vem, Madu. – ele me agarrou por trás, pela segunda vez na mesma noite, e só me largou quando já tínhamos descido a rua, e não conseguíamos ver Dudu nem Nick.

Eu: Eu devia ter ido com meu irmão.

Lipe: Irmão?

Eu: Sim, o garoto com a cara arrebentada é meu irmão.

Lipe: Ah. Então tu não é tão maluca quanto eu achei quando tu pulou nas costas do cara.

Eu: Se eu tivesse normal, não faria isso de jeito nenhum. – mentira.

A gente conversou mais um pouco sobre qualquer coisa até eu parar e perceber que não fazia a menor ideia de onde estávamos.

Eu: Não sei como ir pra casa.

Lipe: Minha casa fica a três quadras daqui. Se quiser, a gente anda até lá pra passar a noite. Depois tu consegue um táxi. Mas eu juro que é uma proposta inocente, não acha que eu…

Eu: Tá bom. – ele parecia nervoso em deixar claro que não tinha segundas intenções.

Eu acreditei nele. É difícil de achar um garoto inocente. Que não ajude esperando receber alguma coisa em troca, mas Lipe parecia um cara de boa mesmo. Além de ser amigo de Kurt. Não que seja exemplo pra alguém, mas já comprovei que ele não é nenhum serial killer. Então acho que posso ir pra casa de Lipe sem ter medo.

Caminhamos até lá falando muita merda. Principalmente eu, que ainda suspeitava estar sob o efeito da porra verde. A casa dele era tão parecida com a minha, exteriormente que achei até que estivéssemos na mesma rua. Mas logo que entrei tive a certeza que não estava em casa. Depois que Lipe acendeu a luz, eu consegui reparar nos móveis muito velhos. Não velhos de acabados e usados, mas velhos historicamente.  Parecia uma daquelas casas de época de novela. Fiquei até com medo de deixar alguma coisa cair.

Lipe: Quer comer alguma coisa? Ou… sei lá…. – ele disse fechando a porta e me observando, com uma das mãos na cabeça.

Eu: Acho melhor não. – coloquei a mão no estômago, não estava muito bem.

Lipe: Vamos subir, então? – disse e apontou para a escada.

Subi primeiro e o deixei passar para abrir a porta certa. Lá dentro não havia praticamente nada. Apenas uma mesa com um notebook em cima e uma cadeira do lado, um armário vazio e uma cama com cinco malas sob ela, eu contei.

Lipe: Vou me mudar semana que vem. – ele respondeu a pergunta que nem fiz.

Eu: Por quê? – disse, sentando na cadeira.

Lipe: Tá na hora de sair da casa da minha mãe. Consegui achar um apartamento legal perto da faculdade pra dividir com uns amigos.

Ele sorriu parecendo satisfeito e colocou as cinco malas no chão, perto da porta. Queria acrescentar alguma coisa sobre ele morar com os amigos, que era legal ou qualquer coisa, mas eu gostei de ficar girando na cadeira e achei melhor deixar os comentários pra depois.

Lipe: Tu pode ficar com a cama, eu durmo no sofá lá da sala.

Eu: Nem pensar. A cama é tua, fica de boa aí que eu me viro.

Ele insistiu dizendo que não se importava, mas parece que essa noite meu orgulho inflou de um jeito impossível de ser vencido. Depois que a discussão acabou, desci até a sala e deitei no sofá. Tirando os tênis primeiro. Dormir de meia-calça era bem desconfortável  mas a preguiça era maior que o desconforto. O sofá era muito fofo e cheiroso.

Cheiroso de verdade. Tinha aquele tipo de cheiro bom que a gente sente, mas não sabe explicar. Tipo cheiro de livro novo, cada vez que trocamos de página, vem aquele aroma que nos deixa anestesiado. Pelo menos é assim comigo, não sei pra você, mas pra mim é perfeito. E se existisse um perfume desse cheiro, eu usaria.

Perfume com aroma de livro novo, foda.

Lipe: O que tu tá fazendo?

Levei um susto e sentei na hora.

Eu: Teu sofá é cheiroso, sabia?

Lipe: Tem certeza? Várias bundas sentam aí.

Eu ri e sentei mais no canto pra dar espaço a ele.

Lipe: Gostei muito de curtir contigo hoje, foi divertido. – ele sorria olhando pro chão.

Lipe sentava escorado e com as pernas abertas, como se tivesse confiante, mesmo que os olhos dele me dissessem o contrário. Consegui engolir esse comentário porque sabia que ele ficaria muito mais tímido do que já tá.

Eu: Eu também achei divertido. Quem diria que tu dançasse tão bem.

Lipe: Bem? Bem mal, isso sim. – ele riu, mais descontraído  – só dancei porque tu tava ali comigo, normalmente eu fico só bebendo no canto.

Eu: Se arrependeu?

Ele sacudiu a cabeça negativamente, olhando pra minha boca. Esperei que eu chegasse até mim, mas não mexeu nenhum músculo. Vou ter que tomar a iniciativa de novo? OK, vai. O menino parece ser mais tímido que o Dany.

Fui chegando perto, devagar. Ele engoliu seco e molhou os lábios. O beijei novamente.

Não precisei tomar uma terceira iniciativa, ele colocou as mãos debaixo da minha camiseta e tirou-a com minha ajuda. Quando fiz menção em fazer a mesma coisa com a dele, travei. Meu estômago revirou.

Lipe: Que foi? – cochichou.

Eu: Onde fica o banheiro? – coloquei a mão na boca. Ele apontou pro corredor mais perto e escuro.

Estava com tanta pressa que não pensei duas vezes antes de entrar no corredor. Quase bati de cara na porta com a falta de iluminação. Entrei no banheiro e era tão branquinho, bonitinho, cheirosinho. Fui direto pro vaso.

Lipe: Madu, tá tudo bem? – ele perguntou através da porta.

Mesmo sendo óbvio que eu já tive momentos muito melhores em que não estava extraindo minhas tripas pela boca. Nem respondi.

Ele entrou do mesmo jeito pra me ajudar. E o fez segurando meus cabelos. Foi tão fofo que tive vontade de abraçá-lo, mas acho que agora não é a melhor hora.

Depois de dois minutos de angústia e total quebra de clima, lavei meu rosto pela segunda vez com raiva da porra verde.

Lipe: Toma uma ducha aí, as toalhas estão aqui.

Eu: Mas…

Lipe: Madu, tu vai se sentir melhor, vai.

Assenti e ele sorriu.

Ligou o chuveiro pra deixar na temperatura certa pra mim.

Lipe: Não sei onde tá tua camiseta, mas pega a minha, ó. – tirou a camiseta que estava usando e colocou do lado das toalhas - Qualquer coisa me chama.

Saiu fechando a porta, sem dizer mais nada.

Tá aí a pessoa mais gentil que conheci nessa cidade até agora.

«Capítulo 46                                                                   Capítulo 48»

Minha última esperança era pedir ajuda a Dudu, se ele não soubesse ou não quisesse me ajudar, teria que entrar no primeiro táxi que eu visse.
Fui direto para o quarto dele, mas não o encontrei em lugar nenhum. Achei apenas meu pai na cozinha.
Eu: Sabe onde Dudu foi?
Pai: E alguém me diz alguma coisa nessa casa?
Dei de ombros, já tinha minha resposta e voltei até a porta disposta a procurar o shopping sozinha.
Pai: Poderia me ajudar? – ele falou baixo, mas consegui ouvir. Olhei pra trás e ele me encarou de um jeito estranho, quase suplicante.
Eu: Eu vou tentar ajudar o teu sobrinho, relaxa.
Pai: Não é isso.
Eu: …
Pai: Queria ajuda com o Dudu. Nossa relação tá péssima, ele anda me dando gelo desde que chegamos aqui. E disse que tu não tem nada a ver com isso, então, peço tua ajuda. – parei pra raciocinar por dois segundos, até me dar conta da cara de pau.
Eu: Tu quer que eu fale bem de ti pra ele? Sério?
Pai: Nunca fui um ótimo pai pra ti, eu sei. Não consegui te ensinar nada e na verdade nem tentei, eu confesso porque tu já sabe disso, tua mãe que cuidou de ti. Nunca soube lidar com criança, muito menos com uma menina, mas com Dudu foi diferente. Ele é meu meninão. E tudo mudou quando ela… faleceu. Não quero que as coisas continuem assim, quero meu filho de volta. Pode imaginar como ele deve estar se sentindo sozinho? Sem amigos, sem mãe e afastando o pai? Pode imaginar?
Ia falando e observando as próprias mãos como se estivesse dizendo essas coisas pra ele mesmo.
Eu: Não preciso imaginar, sei exatamente como ele tá se sentindo. – ele me olhou como se percebesse minha presença ali pela primeira vez.
Abriu a boca pra responder, mas não saiu nada.
Eu: Se tu quer minha ajuda, vai ter que fazer umas coisas antes. Primeiro: Se tu quer que ele te veja como um pai de verdade, para de beber todos os dias e infestar essa casa de cachaça barata. Seja mais sincero também, isso pode ajudar as pessoas a gostar de ti e principalmente: para de ficar criticando tudo a tua volta. É chato pra caralho e às vezes magoa. Acredite – eu disse rindo a última palavra, porque pra ele é como se fosse uma novidade.
Estava tão pasmo e quieto que decidi continuar.
Eu: Vou te ajudar, mas não vou fazer isso por ti. E sim, por ele. Acho que um pai pode ajudar agora com a falta da mãe. – minha voz ficou rouca de repente, como se eu fosse começar a chorar. Mas eu mordi meus lábios o mais forte que consegui, não ia chorar na frente dele, simplesmente não podia. – a gente brigou esses dias, mas eu sei que vou conseguir falar com ele de boa. E eu juro, se tu fizer alguma coisa ruim pra ele de novo, vou fazer de tudo pra ele ficar contra ti.
Ele assentiu como se agradecesse. Fui direto pro meu quarto, tomar um banho.
Nem acreditava que pela primeira vez meu pai parou pra me ouvir. Se ele seguir meus conselhos vai ser um bom pai pra Dudu, sei que ele não é o pior pai do mundo, mas já fez muito mal a minha cabeça. Lembro numa das vezes que fui num psicologo e perguntei: “por que meu pai não gosta de mim?” Tinha uns nove anos. A pressão colocada na minha cabeça por ele, era uma coisa inexplicável. Com Dudu foi diferente. Os dois brincavam bastante, mas perdi a conta de quantas vezes ele veio pra minha cama pedindo para dormir comigo, enquanto chorava pelas coisas sem noção que meu pai adorava dizer.
Odeio ficar lembrando disso. Não posso dizer que minha infância foi péssima, porque minha mãe foi sempre a melhor das melhores em animar as pessoas.
Mas eu já superei isso, ou pelo menos já me conformei. E agora tenho a chance de melhorar as coisas pro Dudu. Pela primeira, vez vejo vestígios de arrependimento no rosto do meu pai, então vou fazer tudo o que posso pra juntar os dois, nem que isso resulte em afastar Dudu de mim.
Saí do banheiro, coloquei a primeira roupa que vi e saí de casa, percebi no mesmo instante que não queria ficar sozinha. Comecei a descer a rua até a casa de Nick.
Mas quem abriu a porta foi uma mulher mascando chiclete, usando um shorts menor que meu dedo indicador e um decote que quase mostrava o umbigo.
Eu: Nick está em casa?
Mulher: ALEMÃO, TEM UMA GURIA QUERENDO FALAR CONTIGO! – ela gritou da porta, sem tirar os olhos de mim.
Ele veio correndo, descalço e todo descabelado.
Nick: E aí, Madu? – disse sorrindo.
Eu: Eu ia pedir pra ti ir comigo em um lugar, mas se estiver ocupado tudo bem.
Nick: To de bobeira. – ele deu um tapa de leve nas costas da mulher e ela foi pra cozinha. – onde tu quer ir?
Eu: Shopping.
Nick: Tá, vou pegar um boné. – correu de volta ao quarto e voltou com ele na cabeça. Saiu de casa colocando o tênis e tentando caminhar ao mesmo tempo. Fiquei olhando a cena bizarra até ele conseguir calçar os dois pés. – acho que a gente vai ter que ir de metrô.
Assenti e tentei não rir da cara dele.
-
Eu: Tu anda falando com Dudu? – perguntei, já dentro do metrô.
Nick: Liguei pra ele uma ou duas vezes, pra jogar video game, mas ele negou e deu uma desculpa idiota. –  deu de ombros – por quê?
Eu: Ninguém anda se dando bem com esse moleque ultimamente.
Nick: Vocês brigaram?
Eu: Mais ou menos – sim, duas vezes.
Nick: Vocês são irmãos, as coisas se ajeitam. Quero dizer, se eu aguento 2 irmãos mais velhos e 2 mais novos, tu aguenta um só e que ainda te adora.
Eu: Hahahaha, me adora?
Nick: Claro que sim. Quando conheci Dudu eu já percebi isso, ele tava preocupado contigo por estar tão quieta e parada dentro de casa. Disse que queria te animar e não sabia como.
Eu: Sério? É estranho. Porque a gente brigava bastante antes da minha mãe morrer, acho que depois disso nós não tivemos tanta disposição pra brigar um com o outro. – pensei alto e percebi que Nick ficou desconfortável com o assunto.
Nick: Sinto muito pela tua…
Eu: Tudo bem, Nick. Não precisa ficar com essa cara não, tá bom? – eu sorri pra dizer que tava bem.
Nick: Queria dizer que sei como tu tá se sentindo e te fazer sorrir de verdade, mas ia ser mentira. Nunca perdi alguém tão próximo, no máximo meu cachorro. O que não é pouca coisa, porque eu gostava muito do Max e…
Ele falava rápido e sério, como se quisesse mesmo dizer alguma coisa que prestasse, mas não conseguia. Eu sorri apenas com a tentativa dele e o abracei. Demorou um tempo até ele retribuir o abraço, mas quando o fez demorou pra soltar.
Passamos o caminho inteiro conversando sobre coisas sem sentido e rindo bastante, até ele fazer uma pergunta que me assustou bastante.
Nick: Preparada pra voltar às aulas semana que vem?
Eu: SEMANA QUE VEM? – eu gritei e as pessoas olharam pra nós. – cara, achei que fosse demorar mais umas cinco semanas.
Dessa vez cochichei enquanto ele ria muito da vergonha que eu tava passando.
Nick: Hahahahahaha! Te prepara, Madu,Temos uma semana e um dia de férias e pronto. Terceiro ano e pressão do vestibular.
Ele sorria como se tivesse prazer em me ver despreparada.  Uma semana apenas de férias, puta merda. Eu não me via entrando numa escola de novo, com a mochila nas costas e prestando atenção no que os professores falam. Realmente não me via assim. Mas que escolha eu tinha? Menor de idade, sem emprego e totalmente dependente do pai. Que bela porcaria, Maria Eduarda.
Nick: Chegamos.
Quando entramos no shopping, me assustei de novo, mas de um jeito bom dessa vez. Meu queixo caiu com tantas luzes, lojas e gente.
Eu: Nossa.
Nick: O quê? Nunca entrou em um shopping?
Eu: Não em um tão grande e cheio. – disse enquanto meus olhos brilhavam.
Nick: Nem tá tão cheio. Estamos em pleno carnaval. Tá todo mundo na praia.
Eu: Mas…
Nick: Ah, tinha me esquecido que tu é do interior – ele riu da minha cara abobalhada e eu senti uma ponta de crítica naquela frase.
Eu: Algum problema nisso? – perguntei num tom ofendido, mesmo não estando tanto assim.
Nick: Não – ele falou segurando o riso.
Não precisei andar muito pra achar dezenas de lojas eletrônicas e antes que eu pudesse entrar em uma delas, Nick pegou minha mão e me arrastou pra outro lado.
Eu: Qual é, Garoto loiro?
Nick: Vem comigo e fica quieta.
Bufei e continuei caminhando ao lado dele. Paramos em frente a uma loja que fez meus olhos brilharem de novo. Tinha tantos discos, colares, anéis, brincos, pulseiras, camisetas, CDs, mochilas, bolsas e era tudo meio bizarro, o que me fazia gostar mais ainda da loja.
Eu: Ca-ra-lho.
Nick: Hahahaha. Entra aí. – ele me empurrou devagar.
Meu pescoço estralou de tanto mexer minha cabeça pra todos os lados.
Eu: Nick, seu imbecil. Me trouxe aqui pra me torturar? Não posso comprar! – cochichei só pra ele ouvir.
Nick: Se quiser, eu pago pra ti.
Eu: Não precisa. – parei pra pensar, mas seria muito escroto se eu me esbaldasse nas comprar e no final quem gastasse fosse ele. Meu orgulho não aceita isso de jeito nenhum.
Nick: Deixa de ser orgulhosa, Madu.
- Posso ajudar?
A mulher apareceu com um sorriso de orelha a orelha. Tentei resistir, mas quando a vendedora insistiu em mostrar o resto da loja, fui atrás dela e acabei comprando bastante coisa.
Eu: Parabéns. Conseguiu me fazer gastar. – disse enquanto a gente saía.
Nick: Eu me ofereci pra pagar, tu que não quis.
Eu: Gasta o dinheiro contigo. E não fica oferecendo pra qualquer um. – bufei meio impaciente com a insistência nisso.
Ele deu de ombros sem querer discutir e fomos a loja de eletrônicos mais perto dali. Comprei um dos celulares mais simples e um dos menos modernos ao mesmo tempo. Nick fez protestos pra que eu comprasse outro modelo, mas não achei necessário um melhor.
No caminho de casa, continuamos discutindo e brincando. Ele insistiu pra que voltássemos pra casa dele antes do show. E quando chegamos, a mulher do mini-shorts continuava lá, só que dessa vez, limpando uma das janelas da sala, enquanto dançava a música escrota que tocava no rádio.
Nick caminhou até a cozinha e fui atrás dele.
Eu: Por que ela tá limpando?
Nick: Parte da minha família chega amanhã, esqueceu?
Eu: Não, mas por que ela tá fazendo isso? – dei ênfase no “ela”.
Nick: Porque eu paguei.
Eu: …
Nick: Por que tu achou que ela estivesse aqui?
Eu: … – não disse nada, continuei bebendo o copo de refri que Nick serviu pra mim. Ele entendeu o que meu silêncio quis dizer e começou a rir.
Nick: Marlene e eu? Hahahahaha. Não. Nada a ver. Hahahaha.
Marlene: Me chamou?
Nick: A Madu aqui – apontou pra mim – achou que a gente tivesse se pegando, acredita?
Marlene: Hahahaha. – os dois riam da minha cara.
Eu: Quando eu cheguei tu tava todo descabelado e veio correndo lá do teu quarto, o que vocês queriam que eu pensasse? – tentei me defender, mas os dois só riram mais.
Bufei e os ignorei, até Marlene sentar e começar a falar sério.
Marlene: Minha mãe trabalhava aqui com a limpeza e me trazia sempre, fiz amizade com Nick que tinha a mesma idade que eu. Os pais deles me adoravam e eu adorava essa casa. Esse moleque é um irmão pra mim. – Marlene balançou o cabelo e sorriu olhando para Nick.
Alguma coisa me dizia que eles não pareciam irmãos da parte dela, mas fiquei bem quieta.
Marlene: Agora tenho que limpar as festas que ele faz, olha só que injustiça. – ela deu uma risada aguda que ecoou no meu cérebro.
Nick: Tu devia ter vindo na festa.
Marlene: Eu? Não. Prefiro meus bailes funk.
Nick revirou os olhos, enquanto ela voltava a sala.
Marlene: Já terminei, Alemão. Só falta colocar os móveis nos lugares, mas isso tu faz. – gritou da sala e bateu a porta.
Eu: Uma amiga de infância funkeira, por essa não esperava.
Nick: Tem muita coisa pra descobrir sobre mim ainda. Agora me passa teu número aí. – ele pegou o próprio celular e foi anotando os números que eu ditava. 
Eu: Tenho que ligar pro…
Nick: Dudu? Eu tenho o número dele aqui se quiser.
Eu: Não, eu queria ligar pro Luck.
Nick: Quem?
Eu: Um amigo da minha cidade.
Disquei os números e ninguém atendeu.
Nick: Deve estar sem bateria. Não sabe o número de mais ninguém?
Eu: Sei. Do Dany e do Rafa, mas acho que não tenho coragem de falar com nenhum dos dois.
Nick: Não quer falar com o Rafa só porque ele é teu ex?
Eu: Eu quero falar com ele. Mas não sei se tenho o direito de ligar depois de tudo.
Nick ficou olhando pros lados tentando achar alguma coisa para dizer, mas me decidi antes que ele o fizesse.
Rafa: Alô? – que saudade da voz dele. – Alô?
Eu: Rafa? – perguntei com a voz falha, mesmo tendo certeza de que era ele.
Rafa: Madu? Oi! Nossa! Tudo bem? – Nick chegou bem perto do celular pra ouvir o que Rafa estava dizendo.
Eu: Sim, eu tava querendo falar com alguém daí e só sei teu número e do Luck, mas ele não atendeu.
Rafa: Luck deve estar trabalhando, mas vou me encontrar com a galera a noite, se quiser ligar…
Eu: Hoje a noite? – Nick cochichou “o show” pra que eu não me esquecesse – vou tentar ligar, mas se tu puder passar meu número, já agradeço.
Rafa: De boa. – ele riu. E que coisa perfeita a risada dele. Mordi os lábios pra tentar controlar meus pensamentos e minha cara de saudade. Ouvi uma voz feminina falando com ele, mas não deu pra entender o quê.
Rafa: Tenho que desligar agora, Madu. Fico feliz que já tenha arranjado amigos e aproveita a capital por todos nós, viu?
Desligou. Fiquei olhando pro celular por alguns segundos ainda e Nick ficou me observando.
Nick: Ele parecia meio nervoso, não?
Eu:  Parecia bem, muito bem.
Nick: Pelo menos pareceu sincero quando disse que tava feliz por ti, relaxa. – ele passou a mão nas minhas costas e eu assenti. – acho que tu nem percebeu, mas tá bem melhor que ontem.
Eu: Quê?
Nick: A cada dia, tu parece mais animada e feliz. Talvez tu nem tenha percebido que as coisas estão melhorando, aproveita porque a sorte não bate na porta muitas vezes.
Eu: Tu acha que eu tenho sorte?
Nick: De certa forma, sim.
Fiquei olhando diretamente pra aquele par de olhos azuis tentando entender o que ele tava querendo dizer com “sorte”. Uma das coisas que eu posso dizer com toda certeza, é que eu não tenho sorte. Eu nem acredito nisso, nunca encontrei essa tal de “sorte”, por que deveria acreditar que ela realmente exista? Não acredito nem em sorte nem em destino. São só mais uma das idiotices que as pessoas insistem em colocar nome. Achou dinheiro no chão? “Nossa, que sorte.” Não! Alguém deixou cair, com certeza sem querer, e tu só foi o primeiro a achar. Nada de sorte, puramente coincidência.
Eu: Nick…
Nick: Oi.
Eu: Fica quieto, por favor. – ele riu e se levantou quando alguém bateu na porta.
Kurt: Vocês já tão sabendo?
Nick: Do quê? – os dois disseram, entrando na cozinha e sentando do meu lado.
Kurt: Somos verdadeiros heróis. – ele tirou o notebook dele da mochila e colocou em cima da mesa onde Nick e eu pudéssemos ver a tela.
Era uma reportagem sobre o roubo do mini-mercado  do bairro. Repórter  “Os bandidos admitiram à polícia que a intenção era roubar todo o dinheiro do caixa e do cofre do mercado e arranjar mais com todos os clientes. Blablablá  Mas eles foram pegos sem que roubassem qualquer nota, graças a uma ligação anônima. Os policiais acharam que fosse mais um trote, mas ao chegar ao local prenderam os ladrões, que serão mandados para a prisão por porte ilegal de armas, tentativa de roubo e blablablá…
Nick: Caralho. – ele estava com os olhos arregalados e ao mesmo tempo sorria.
Eu: Deu certo, afinal.
Nick: Podemos ficar famosos com isso.
Kurt: Não brisa, Nick.
Os dois começaram a discutir e eu fui pra sala, sentar no enorme e confortável sofá. Que estava no lugar errado, mas continuava bem melhor do que a barulhenta cozinha. Os dois me seguiram cinco minutos depois e sentaram-se um de cada lado.
Kurt: To atrasado pro ensaio do show.
Nick: Então tchau.
Kurt: Vocês dois vão, certo?
Eu: Sim.
Nick assentiu.
Nick: A entrada é livre pra nós, não é?
Kurt: A gente é só uma bandinha de nada, Nick. Acha que eu posso isentar alguém?
Nick: Merda. – ele pensou um pouco e voltou a falar. – eles aceitam cartão?
Kurt: Claro, e cheque também – ele respondeu irônico. – tu tem uma casa dessa e não tem dinheiro?
Nick: Em nota eu dei tudo pra Marlene, só tenho no cartão.
Eu: Eu pago pra gente. – eu disse pra acabar logo a discussão, mas pelo olhar dele foi como se eu tivesse pedido pra que ele se atirasse de uma ponte. – Que foi?
Nick: Nada, é só… não sei…
Eu: Se quiser ir mesmo no show, vai ter que aceitar dinheiro de uma garota.
Nick: Mas… isso não tá certo.
Kurt: Vou deixar o casal discutir sozinho. Fui. – colocou a mochila nas costas e piscou pra mim, antes de sair.
Eu: Quer ajuda pra colocar tudo no lugar? – ele assentiu.
Fizemos um pouco de força, mas no final ficou tudo bonitinho como era antes, faltavam apenas algumas coisas aqui e ali.
Nick: Queria que eles demorassem mais um mês pra chegar. – ele disse e se atirou no sofá.
Eu: Não tá com saudade de ninguém?
Nick: Claro que não. – eu ri e sentei do lado dele.
Ficamos conversando por umas duas horas. Ele falou bastante sobre a família e eu sobre a minha. Deu pra perceber que a família tinha bastante valor pra ele, mesmo que tenha deixado claro que os pais não dão tanta atenção assim.
Nick: A gente foi criado sempre por babas. A mãe da Marlene por exemplo, me levou pra ver o papai noel pela primeira vez. Essas coisas. – ele disse displicente.
Eu não entrei muito no assunto do meu pai, preferi falar da minha mãe que vinham sempre coisas boas na cabeça e dava até uma felicidade a mais. Uma felicidade misturada com tristeza.
Quando o céu já estava totalmente escuro, achei melhor ir embora.
Eu: Vou pra casa me arrumar pro show.
Nick: OK. Te encontro na frente da tua casa daqui a pouco.
Eu: Tá.
Cheguei em casa rapidinho. E abri meu guarda-roupa. Olhei pra dentro dele por uns minutos e decidi usar o casaco de couro que um dia foi do Rafa. Já não tinha mais o cheiro do perfume dele. Vesti uma regata branca, com detalhes pretos e uma meia-calça por baixo do shorts. Passei um pouco de pó e lápis bem marcado. Guardei meu celular no bolso de dentro do casaco e jurei não jogá-lo, chutá-lo ou pisar em cima dele dessa vez. Prendi meu cabelo pra não precisar pentear e saí do quarto.
Achei melhor ficar no banco do lado de casa esperando o Nick e não ter a chance de encontrar com meu pai. Estava de bom humor e não queria que isso mudasse. Estava com meus dois pés pra cima, olhando pros meu sapatos quando finalmente vi a cabeça de Nick caminhando em direção a minha casa. Levantei e saí correndo, logo percebi que ele não tava sozinho.
Dudu: E aí, Madu? – ele perguntou com simpatia. Olhei pro Nick que parecia desconfortável, mas conformado.
Tentei não parecer desconfiada e a única coisa que veio a cabeça foi:
Eu: Oi.
Dudu: Vamos?
Eu: Onde?
Nick: Convidei ele pra ir no show com a gente.
Eu: Ah…
Dudu: Algum problema?
Eu: Não, claro que não.
Dudu: Ótimo, porque eu já chamei todo mundo.
Nick: Todo mundo?
Dudu: É. Meus amigos. Eles vão nos levar.
E foi nessa hora que apareceu um único carro na rua, com música alta e gargalhadas que eu tinha certeza que a rua inteira ouvia. Estacionaram na frente de casa e um cara gritou de dentro do carro:
- BORA, DUDU.
Dudu chegou perto e falou algumas coisas, as pessoas do carro fizeram cara feia e observaram Nick e eu de um jeito estranho.
Eu: Por que tu convidou ele? – cochichei perto de Nick.
Nick: Porque ele é tão irmão e… ele implorou.
Eu: Implorou?
Dudu: VEM.
Comecei a caminhar e arrastei Nick comigo, ele não parecia estar gostando muito, mas a culpa era dele.
Eu: Não tem lugar pra gente aí dentro.
Dudu: Vocês podem sentar no colo de alguém.
Nick: Nem fodendo. – ele soltou minha mão e saltou pra longe do carro.
Depois de um pouco de discussão, Nick aceitou se fosse pra eu ficar no colo dele. O caminho inteiro eu me senti observada, mesmo a pessoa que estava sendo,  fosse Nick. A garota do nosso lado olhava pra ele com os olhos arregalados e mordendo a boca de um jeito faminto e bizarro.
Nick: To com medo. – perdi a conta de quantas vezes ele cochichou no meu ouvido.
Quando saímos do carro, foi um alívio. Nick e eu corremos até a entrada, paguei pra nós dois, mesmo com a cara feia dele.
Nick: Meu dia não tá sendo muito bom hoje. E por favor, vamos ficar bem longe daquela doida que parecia que ia me devorar? Obrigada.
Eu: Tu tá precisando de vodca. – ele me olhou e sorriu.
«Capítulo 45                                                                   Capítulo 47»

Minha última esperança era pedir ajuda a Dudu, se ele não soubesse ou não quisesse me ajudar, teria que entrar no primeiro táxi que eu visse.

Fui direto para o quarto dele, mas não o encontrei em lugar nenhum. Achei apenas meu pai na cozinha.

Eu: Sabe onde Dudu foi?

Pai: E alguém me diz alguma coisa nessa casa?

Dei de ombros, já tinha minha resposta e voltei até a porta disposta a procurar o shopping sozinha.

Pai: Poderia me ajudar? – ele falou baixo, mas consegui ouvir. Olhei pra trás e ele me encarou de um jeito estranho, quase suplicante.

Eu: Eu vou tentar ajudar o teu sobrinho, relaxa.

Pai: Não é isso.

Eu: …

Pai: Queria ajuda com o Dudu. Nossa relação tá péssima, ele anda me dando gelo desde que chegamos aqui. E disse que tu não tem nada a ver com isso, então, peço tua ajuda. – parei pra raciocinar por dois segundos, até me dar conta da cara de pau.

Eu: Tu quer que eu fale bem de ti pra ele? Sério?

Pai: Nunca fui um ótimo pai pra ti, eu sei. Não consegui te ensinar nada e na verdade nem tentei, eu confesso porque tu já sabe disso, tua mãe que cuidou de ti. Nunca soube lidar com criança, muito menos com uma menina, mas com Dudu foi diferente. Ele é meu meninão. E tudo mudou quando ela… faleceu. Não quero que as coisas continuem assim, quero meu filho de volta. Pode imaginar como ele deve estar se sentindo sozinho? Sem amigos, sem mãe e afastando o pai? Pode imaginar?

Ia falando e observando as próprias mãos como se estivesse dizendo essas coisas pra ele mesmo.

Eu: Não preciso imaginar, sei exatamente como ele tá se sentindo. – ele me olhou como se percebesse minha presença ali pela primeira vez.

Abriu a boca pra responder, mas não saiu nada.

Eu: Se tu quer minha ajuda, vai ter que fazer umas coisas antes. Primeiro: Se tu quer que ele te veja como um pai de verdade, para de beber todos os dias e infestar essa casa de cachaça barata. Seja mais sincero também, isso pode ajudar as pessoas a gostar de ti e principalmente: para de ficar criticando tudo a tua volta. É chato pra caralho e às vezes magoa. Acredite – eu disse rindo a última palavra, porque pra ele é como se fosse uma novidade.

Estava tão pasmo e quieto que decidi continuar.

Eu: Vou te ajudar, mas não vou fazer isso por ti. E sim, por ele. Acho que um pai pode ajudar agora com a falta da mãe. – minha voz ficou rouca de repente, como se eu fosse começar a chorar. Mas eu mordi meus lábios o mais forte que consegui, não ia chorar na frente dele, simplesmente não podia. – a gente brigou esses dias, mas eu sei que vou conseguir falar com ele de boa. E eu juro, se tu fizer alguma coisa ruim pra ele de novo, vou fazer de tudo pra ele ficar contra ti.

Ele assentiu como se agradecesse. Fui direto pro meu quarto, tomar um banho.

Nem acreditava que pela primeira vez meu pai parou pra me ouvir. Se ele seguir meus conselhos vai ser um bom pai pra Dudu, sei que ele não é o pior pai do mundo, mas já fez muito mal a minha cabeça. Lembro numa das vezes que fui num psicologo e perguntei: “por que meu pai não gosta de mim?” Tinha uns nove anos. A pressão colocada na minha cabeça por ele, era uma coisa inexplicável. Com Dudu foi diferente. Os dois brincavam bastante, mas perdi a conta de quantas vezes ele veio pra minha cama pedindo para dormir comigo, enquanto chorava pelas coisas sem noção que meu pai adorava dizer.

Odeio ficar lembrando disso. Não posso dizer que minha infância foi péssima, porque minha mãe foi sempre a melhor das melhores em animar as pessoas.

Mas eu já superei isso, ou pelo menos já me conformei. E agora tenho a chance de melhorar as coisas pro Dudu. Pela primeira, vez vejo vestígios de arrependimento no rosto do meu pai, então vou fazer tudo o que posso pra juntar os dois, nem que isso resulte em afastar Dudu de mim.

Saí do banheiro, coloquei a primeira roupa que vi e saí de casa, percebi no mesmo instante que não queria ficar sozinha. Comecei a descer a rua até a casa de Nick.

Mas quem abriu a porta foi uma mulher mascando chiclete, usando um shorts menor que meu dedo indicador e um decote que quase mostrava o umbigo.

Eu: Nick está em casa?

Mulher: ALEMÃO, TEM UMA GURIA QUERENDO FALAR CONTIGO! – ela gritou da porta, sem tirar os olhos de mim.

Ele veio correndo, descalço e todo descabelado.

Nick: E aí, Madu? – disse sorrindo.

Eu: Eu ia pedir pra ti ir comigo em um lugar, mas se estiver ocupado tudo bem.

Nick: To de bobeira. – ele deu um tapa de leve nas costas da mulher e ela foi pra cozinha. – onde tu quer ir?

Eu: Shopping.

Nick: Tá, vou pegar um boné. – correu de volta ao quarto e voltou com ele na cabeça. Saiu de casa colocando o tênis e tentando caminhar ao mesmo tempo. Fiquei olhando a cena bizarra até ele conseguir calçar os dois pés. – acho que a gente vai ter que ir de metrô.

Assenti e tentei não rir da cara dele.

-

Eu: Tu anda falando com Dudu? – perguntei, já dentro do metrô.

Nick: Liguei pra ele uma ou duas vezes, pra jogar video game, mas ele negou e deu uma desculpa idiota. – deu de ombros – por quê?

Eu: Ninguém anda se dando bem com esse moleque ultimamente.

Nick: Vocês brigaram?

Eu: Mais ou menos – sim, duas vezes.

Nick: Vocês são irmãos, as coisas se ajeitam. Quero dizer, se eu aguento 2 irmãos mais velhos e 2 mais novos, tu aguenta um só e que ainda te adora.

Eu: Hahahaha, me adora?

Nick: Claro que sim. Quando conheci Dudu eu já percebi isso, ele tava preocupado contigo por estar tão quieta e parada dentro de casa. Disse que queria te animar e não sabia como.

Eu: Sério? É estranho. Porque a gente brigava bastante antes da minha mãe morrer, acho que depois disso nós não tivemos tanta disposição pra brigar um com o outro. – pensei alto e percebi que Nick ficou desconfortável com o assunto.

Nick: Sinto muito pela tua…

Eu: Tudo bem, Nick. Não precisa ficar com essa cara não, tá bom? – eu sorri pra dizer que tava bem.

Nick: Queria dizer que sei como tu tá se sentindo e te fazer sorrir de verdade, mas ia ser mentira. Nunca perdi alguém tão próximo, no máximo meu cachorro. O que não é pouca coisa, porque eu gostava muito do Max e…

Ele falava rápido e sério, como se quisesse mesmo dizer alguma coisa que prestasse, mas não conseguia. Eu sorri apenas com a tentativa dele e o abracei. Demorou um tempo até ele retribuir o abraço, mas quando o fez demorou pra soltar.

Passamos o caminho inteiro conversando sobre coisas sem sentido e rindo bastante, até ele fazer uma pergunta que me assustou bastante.

Nick: Preparada pra voltar às aulas semana que vem?

Eu: SEMANA QUE VEM? – eu gritei e as pessoas olharam pra nós. – cara, achei que fosse demorar mais umas cinco semanas.

Dessa vez cochichei enquanto ele ria muito da vergonha que eu tava passando.

Nick: Hahahahahaha! Te prepara, Madu,Temos uma semana e um dia de férias e pronto. Terceiro ano e pressão do vestibular.

Ele sorria como se tivesse prazer em me ver despreparada.  Uma semana apenas de férias, puta merda. Eu não me via entrando numa escola de novo, com a mochila nas costas e prestando atenção no que os professores falam. Realmente não me via assim. Mas que escolha eu tinha? Menor de idade, sem emprego e totalmente dependente do pai. Que bela porcaria, Maria Eduarda.

Nick: Chegamos.

Quando entramos no shopping, me assustei de novo, mas de um jeito bom dessa vez. Meu queixo caiu com tantas luzes, lojas e gente.

Eu: Nossa.

Nick: O quê? Nunca entrou em um shopping?

Eu: Não em um tão grande e cheio. – disse enquanto meus olhos brilhavam.

Nick: Nem tá tão cheio. Estamos em pleno carnaval. Tá todo mundo na praia.

Eu: Mas…

Nick: Ah, tinha me esquecido que tu é do interior – ele riu da minha cara abobalhada e eu senti uma ponta de crítica naquela frase.

Eu: Algum problema nisso? – perguntei num tom ofendido, mesmo não estando tanto assim.

Nick: Não – ele falou segurando o riso.

Não precisei andar muito pra achar dezenas de lojas eletrônicas e antes que eu pudesse entrar em uma delas, Nick pegou minha mão e me arrastou pra outro lado.

Eu: Qual é, Garoto loiro?

Nick: Vem comigo e fica quieta.

Bufei e continuei caminhando ao lado dele. Paramos em frente a uma loja que fez meus olhos brilharem de novo. Tinha tantos discos, colares, anéis, brincos, pulseiras, camisetas, CDs, mochilas, bolsas e era tudo meio bizarro, o que me fazia gostar mais ainda da loja.

Eu: Ca-ra-lho.

Nick: Hahahaha. Entra aí. – ele me empurrou devagar.

Meu pescoço estralou de tanto mexer minha cabeça pra todos os lados.

Eu: Nick, seu imbecil. Me trouxe aqui pra me torturar? Não posso comprar! – cochichei só pra ele ouvir.

Nick: Se quiser, eu pago pra ti.

Eu: Não precisa. – parei pra pensar, mas seria muito escroto se eu me esbaldasse nas comprar e no final quem gastasse fosse ele. Meu orgulho não aceita isso de jeito nenhum.

Nick: Deixa de ser orgulhosa, Madu.

- Posso ajudar?

A mulher apareceu com um sorriso de orelha a orelha. Tentei resistir, mas quando a vendedora insistiu em mostrar o resto da loja, fui atrás dela e acabei comprando bastante coisa.

Eu: Parabéns. Conseguiu me fazer gastar. – disse enquanto a gente saía.

Nick: Eu me ofereci pra pagar, tu que não quis.

Eu: Gasta o dinheiro contigo. E não fica oferecendo pra qualquer um. – bufei meio impaciente com a insistência nisso.

Ele deu de ombros sem querer discutir e fomos a loja de eletrônicos mais perto dali. Comprei um dos celulares mais simples e um dos menos modernos ao mesmo tempo. Nick fez protestos pra que eu comprasse outro modelo, mas não achei necessário um melhor.

No caminho de casa, continuamos discutindo e brincando. Ele insistiu pra que voltássemos pra casa dele antes do show. E quando chegamos, a mulher do mini-shorts continuava lá, só que dessa vez, limpando uma das janelas da sala, enquanto dançava a música escrota que tocava no rádio.

Nick caminhou até a cozinha e fui atrás dele.

Eu: Por que ela tá limpando?

Nick: Parte da minha família chega amanhã, esqueceu?

Eu: Não, mas por que ela tá fazendo isso? – dei ênfase no “ela”.

Nick: Porque eu paguei.

Eu: …

Nick: Por que tu achou que ela estivesse aqui?

Eu: … – não disse nada, continuei bebendo o copo de refri que Nick serviu pra mim. Ele entendeu o que meu silêncio quis dizer e começou a rir.

Nick: Marlene e eu? Hahahahaha. Não. Nada a ver. Hahahaha.

Marlene: Me chamou?

Nick: A Madu aqui – apontou pra mim – achou que a gente tivesse se pegando, acredita?

Marlene: Hahahaha. – os dois riam da minha cara.

Eu: Quando eu cheguei tu tava todo descabelado e veio correndo lá do teu quarto, o que vocês queriam que eu pensasse? – tentei me defender, mas os dois só riram mais.

Bufei e os ignorei, até Marlene sentar e começar a falar sério.

Marlene: Minha mãe trabalhava aqui com a limpeza e me trazia sempre, fiz amizade com Nick que tinha a mesma idade que eu. Os pais deles me adoravam e eu adorava essa casa. Esse moleque é um irmão pra mim. – Marlene balançou o cabelo e sorriu olhando para Nick.

Alguma coisa me dizia que eles não pareciam irmãos da parte dela, mas fiquei bem quieta.

Marlene: Agora tenho que limpar as festas que ele faz, olha só que injustiça. – ela deu uma risada aguda que ecoou no meu cérebro.

Nick: Tu devia ter vindo na festa.

Marlene: Eu? Não. Prefiro meus bailes funk.

Nick revirou os olhos, enquanto ela voltava a sala.

Marlene: Já terminei, Alemão. Só falta colocar os móveis nos lugares, mas isso tu faz. – gritou da sala e bateu a porta.

Eu: Uma amiga de infância funkeira, por essa não esperava.

Nick: Tem muita coisa pra descobrir sobre mim ainda. Agora me passa teu número aí. – ele pegou o próprio celular e foi anotando os números que eu ditava. 

Eu: Tenho que ligar pro…

Nick: Dudu? Eu tenho o número dele aqui se quiser.

Eu: Não, eu queria ligar pro Luck.

Nick: Quem?

Eu: Um amigo da minha cidade.

Disquei os números e ninguém atendeu.

Nick: Deve estar sem bateria. Não sabe o número de mais ninguém?

Eu: Sei. Do Dany e do Rafa, mas acho que não tenho coragem de falar com nenhum dos dois.

Nick: Não quer falar com o Rafa só porque ele é teu ex?

Eu: Eu quero falar com ele. Mas não sei se tenho o direito de ligar depois de tudo.

Nick ficou olhando pros lados tentando achar alguma coisa para dizer, mas me decidi antes que ele o fizesse.

Rafa: Alô? – que saudade da voz dele. – Alô?

Eu: Rafa? – perguntei com a voz falha, mesmo tendo certeza de que era ele.

Rafa: Madu? Oi! Nossa! Tudo bem? – Nick chegou bem perto do celular pra ouvir o que Rafa estava dizendo.

Eu: Sim, eu tava querendo falar com alguém daí e só sei teu número e do Luck, mas ele não atendeu.

Rafa: Luck deve estar trabalhando, mas vou me encontrar com a galera a noite, se quiser ligar…

Eu: Hoje a noite? – Nick cochichou “o show” pra que eu não me esquecesse – vou tentar ligar, mas se tu puder passar meu número, já agradeço.

Rafa: De boa. – ele riu. E que coisa perfeita a risada dele. Mordi os lábios pra tentar controlar meus pensamentos e minha cara de saudade. Ouvi uma voz feminina falando com ele, mas não deu pra entender o quê.

Rafa: Tenho que desligar agora, Madu. Fico feliz que já tenha arranjado amigos e aproveita a capital por todos nós, viu?

Desligou. Fiquei olhando pro celular por alguns segundos ainda e Nick ficou me observando.

Nick: Ele parecia meio nervoso, não?

Eu:  Parecia bem, muito bem.

Nick: Pelo menos pareceu sincero quando disse que tava feliz por ti, relaxa. – ele passou a mão nas minhas costas e eu assenti. – acho que tu nem percebeu, mas tá bem melhor que ontem.

Eu: Quê?

Nick: A cada dia, tu parece mais animada e feliz. Talvez tu nem tenha percebido que as coisas estão melhorando, aproveita porque a sorte não bate na porta muitas vezes.

Eu: Tu acha que eu tenho sorte?

Nick: De certa forma, sim.

Fiquei olhando diretamente pra aquele par de olhos azuis tentando entender o que ele tava querendo dizer com “sorte”. Uma das coisas que eu posso dizer com toda certeza, é que eu não tenho sorte. Eu nem acredito nisso, nunca encontrei essa tal de “sorte”, por que deveria acreditar que ela realmente exista? Não acredito nem em sorte nem em destino. São só mais uma das idiotices que as pessoas insistem em colocar nome. Achou dinheiro no chão? “Nossa, que sorte.” Não! Alguém deixou cair, com certeza sem querer, e tu só foi o primeiro a achar. Nada de sorte, puramente coincidência.

Eu: Nick…

Nick: Oi.

Eu: Fica quieto, por favor. – ele riu e se levantou quando alguém bateu na porta.

Kurt: Vocês já tão sabendo?

Nick: Do quê? – os dois disseram, entrando na cozinha e sentando do meu lado.

Kurt: Somos verdadeiros heróis. – ele tirou o notebook dele da mochila e colocou em cima da mesa onde Nick e eu pudéssemos ver a tela.

Era uma reportagem sobre o roubo do mini-mercado  do bairro. Repórter  “Os bandidos admitiram à polícia que a intenção era roubar todo o dinheiro do caixa e do cofre do mercado e arranjar mais com todos os clientes. Blablablá  Mas eles foram pegos sem que roubassem qualquer nota, graças a uma ligação anônima. Os policiais acharam que fosse mais um trote, mas ao chegar ao local prenderam os ladrões, que serão mandados para a prisão por porte ilegal de armas, tentativa de roubo e blablablá…

Nick: Caralho. – ele estava com os olhos arregalados e ao mesmo tempo sorria.

Eu: Deu certo, afinal.

Nick: Podemos ficar famosos com isso.

Kurt: Não brisa, Nick.

Os dois começaram a discutir e eu fui pra sala, sentar no enorme e confortável sofá. Que estava no lugar errado, mas continuava bem melhor do que a barulhenta cozinha. Os dois me seguiram cinco minutos depois e sentaram-se um de cada lado.

Kurt: To atrasado pro ensaio do show.

Nick: Então tchau.

Kurt: Vocês dois vão, certo?

Eu: Sim.

Nick assentiu.

Nick: A entrada é livre pra nós, não é?

Kurt: A gente é só uma bandinha de nada, Nick. Acha que eu posso isentar alguém?

Nick: Merda. – ele pensou um pouco e voltou a falar. – eles aceitam cartão?

Kurt: Claro, e cheque também – ele respondeu irônico. – tu tem uma casa dessa e não tem dinheiro?

Nick: Em nota eu dei tudo pra Marlene, só tenho no cartão.

Eu: Eu pago pra gente. – eu disse pra acabar logo a discussão, mas pelo olhar dele foi como se eu tivesse pedido pra que ele se atirasse de uma ponte. – Que foi?

Nick: Nada, é só… não sei…

Eu: Se quiser ir mesmo no show, vai ter que aceitar dinheiro de uma garota.

Nick: Mas… isso não tá certo.

Kurt: Vou deixar o casal discutir sozinho. Fui. – colocou a mochila nas costas e piscou pra mim, antes de sair.

Eu: Quer ajuda pra colocar tudo no lugar? – ele assentiu.

Fizemos um pouco de força, mas no final ficou tudo bonitinho como era antes, faltavam apenas algumas coisas aqui e ali.

Nick: Queria que eles demorassem mais um mês pra chegar. – ele disse e se atirou no sofá.

Eu: Não tá com saudade de ninguém?

Nick: Claro que não. – eu ri e sentei do lado dele.

Ficamos conversando por umas duas horas. Ele falou bastante sobre a família e eu sobre a minha. Deu pra perceber que a família tinha bastante valor pra ele, mesmo que tenha deixado claro que os pais não dão tanta atenção assim.

Nick: A gente foi criado sempre por babas. A mãe da Marlene por exemplo, me levou pra ver o papai noel pela primeira vez. Essas coisas. – ele disse displicente.

Eu não entrei muito no assunto do meu pai, preferi falar da minha mãe que vinham sempre coisas boas na cabeça e dava até uma felicidade a mais. Uma felicidade misturada com tristeza.

Quando o céu já estava totalmente escuro, achei melhor ir embora.

Eu: Vou pra casa me arrumar pro show.

Nick: OK. Te encontro na frente da tua casa daqui a pouco.

Eu: Tá.

Cheguei em casa rapidinho. E abri meu guarda-roupa. Olhei pra dentro dele por uns minutos e decidi usar o casaco de couro que um dia foi do Rafa. Já não tinha mais o cheiro do perfume dele. Vesti uma regata branca, com detalhes pretos e uma meia-calça por baixo do shorts. Passei um pouco de pó e lápis bem marcado. Guardei meu celular no bolso de dentro do casaco e jurei não jogá-lo, chutá-lo ou pisar em cima dele dessa vez. Prendi meu cabelo pra não precisar pentear e saí do quarto.

Achei melhor ficar no banco do lado de casa esperando o Nick e não ter a chance de encontrar com meu pai. Estava de bom humor e não queria que isso mudasse. Estava com meus dois pés pra cima, olhando pros meu sapatos quando finalmente vi a cabeça de Nick caminhando em direção a minha casa. Levantei e saí correndo, logo percebi que ele não tava sozinho.

Dudu: E aí, Madu? – ele perguntou com simpatia. Olhei pro Nick que parecia desconfortável, mas conformado.

Tentei não parecer desconfiada e a única coisa que veio a cabeça foi:

Eu: Oi.

Dudu: Vamos?

Eu: Onde?

Nick: Convidei ele pra ir no show com a gente.

Eu: Ah…

Dudu: Algum problema?

Eu: Não, claro que não.

Dudu: Ótimo, porque eu já chamei todo mundo.

Nick: Todo mundo?

Dudu: É. Meus amigos. Eles vão nos levar.

E foi nessa hora que apareceu um único carro na rua, com música alta e gargalhadas que eu tinha certeza que a rua inteira ouvia. Estacionaram na frente de casa e um cara gritou de dentro do carro:

- BORA, DUDU.

Dudu chegou perto e falou algumas coisas, as pessoas do carro fizeram cara feia e observaram Nick e eu de um jeito estranho.

Eu: Por que tu convidou ele? – cochichei perto de Nick.

Nick: Porque ele é tão irmão e… ele implorou.

Eu: Implorou?

Dudu: VEM.

Comecei a caminhar e arrastei Nick comigo, ele não parecia estar gostando muito, mas a culpa era dele.

Eu: Não tem lugar pra gente aí dentro.

Dudu: Vocês podem sentar no colo de alguém.

Nick: Nem fodendo. – ele soltou minha mão e saltou pra longe do carro.

Depois de um pouco de discussão, Nick aceitou se fosse pra eu ficar no colo dele. O caminho inteiro eu me senti observada, mesmo a pessoa que estava sendo,  fosse Nick. A garota do nosso lado olhava pra ele com os olhos arregalados e mordendo a boca de um jeito faminto e bizarro.

Nick: To com medo. – perdi a conta de quantas vezes ele cochichou no meu ouvido.

Quando saímos do carro, foi um alívio. Nick e eu corremos até a entrada, paguei pra nós dois, mesmo com a cara feia dele.

Nick: Meu dia não tá sendo muito bom hoje. E por favor, vamos ficar bem longe daquela doida que parecia que ia me devorar? Obrigada.

Eu: Tu tá precisando de vodca. – ele me olhou e sorriu.

«Capítulo 45                                                                   Capítulo 47»

Ele foi chegando perto.
Caralho.
Mais perto.
Puta merda.
Bem perto agora.
E quando ele percebeu que eu já tava me entregando, ele cochichou:
Kurt: E tu continua usando essa camiseta? To começando a desconfiar que tu realmente gosta de…
Eu: Ah, cala a boca. - empurrei ele e caminhei em direção ao meu quarto.
Ele caiu no sofá rindo, provavelmente da minha cara. Que guri babaca. Se eu não quisesse mesmo esse dinheiro, não sairia pra ajudá-lo nem fodendo. Tirei a camiseta com raiva e taquei no puff. Qual é a desse moleque? 
Bufei.
Troquei de roupa rápido, colocando uma camiseta dos Beatles e um casaco xadrez por cima. Respirei fundo pra encontrar com o Kurt de novo e saí do quarto.
Kurt: Pronta? – ele perguntou ainda no sofá.
Eu: Sim.
O caminho inteiro foi no silêncio. Eu fazia questão de ficar olhando pro chão, pra não precisar olhar pra cara de deboche dele. Ainda não tinha entendido o que foi aquilo na sala. Talvez se ele tivesse me beijado de verdade eu não estaria tão confusa, furiosa e envergonhada.
Kurt: Odeio pedir favor.
Eu: …
Kurt: Sinto que fico em dívida com a pessoa. Só pedi pra ir comigo porque eu realmente não tinha escolha.
Eu: De nada.
Kurt: Qualquer coisa que precisar me chama.
Eu: Tá. – ele ficou em silêncio me observando por um tempo e voltou a falar.
Kurt: De verdade, senão eu não me sinto bem.
Eu: Já entendi, se eu precisar de um príncipe com um cavalo branco, te chamo. Pode deixar.
Ele sorriu de lado e colocou um cigarro na boca.
Kurt: Não achei que tu fosse ficar tão mal humorada.
Eu: Eu sou mal humorada. – dei ênfase no “sou” e o encarei. Ele acendeu o cigarro e continuou olhando pra mim.
Kurt: Quer?
Eu: Não.
Kurt: Traga, vai.
Eu: Não.
Kurt: Nunca te vi fumando.
Eu: Não tenho esse costume.
Kurt: Tu tem nojo?
Eu: Quê?
Kurt: Tem gente que tem nojo de cigarro e de beijar fumante. – ele tragou e largou a fumaça pro alto.
Pensei em dizer que tinha nojo só pra dar o troco, mas pra quê? Ele já tinha certeza que eu o beijaria.
Eu: Não tenho nojo. Quase todos os meus amigos fumam, acostumei com o cheiro e tudo o mais.
Kurt: Mas tu já beijou um fumante? É diferente. Como se tu tivesse colocando a língua em um cinzeiro. 
Franzi a testa e comecei a rir.
Eu: Isso me deu nojo. Hahahaha.
Kurt: Então tu nunca beijou um fumante?
Eu: Já, mas não foi tão ruim quanto enfiar a língua em um cinzeiro.
Ele assentiu, sorrindo e ficou olhando pra frente o resto do caminho.Chegando ao bar, fui recebida de braços abertos pelo senhor Ted (pai do Kurt), desconfio que parte da simpatia era por causa da minha camiseta. Que deixava claro que eu curtia muito o lugar dele. Ted me levou até a cozinha enquanto Kurt permaneceu no balcão.
Ted: É mesmo fã deles? – ele disse apontando pra minha camiseta.
Eu: Sim senhor.
Ted: Então não tem problema em me dizer em que ano formou os Beatles? – ele perguntou tudo muito rápido com cara de teste. Eu respondi na mesma velocidade, meio confusa do porquê.
Eu: 1960.
Ted: Teu beatle favorito é…
Eu: George.
Ted: E o teu disco favorito? 
Eu: Essa é difícil. – falei depois de pensar um pouco. Ele sorriu, acho que passei no teste sem noção dele.
Ted: Seja bem vinda. Malu, não é?
Eu: Madu, na verdade.
Ted: Ah, Madu então. Desculpa pelo mini-teste, é que eu não aguento esses moleques de hoje em dia manchando o nome do rock mundial. – ele continuou falando várias coisas sobre o mesmo assunto. Eu até concordava, mas tinha medo de falar alguma coisa e sobrasse pra mim, então me dediquei a assentir com a cabeça e sorrir. 
Depois do discurso, Ted me entregou uma espécie de crachá. Para que as pessoas soubessem que eu trabalho ali, não por muito tempo, mas isso não é importante. Ele fez um tour comigo pelo bar, “apresentando” as coisas como se eu nunca tivesse visto. E na verdade, era como se fosse. Na primeira vez que entrei no bar, não consegui observar as coisas atentamente com tanta gente que tinha, agora eu consegui ver até o mini-palco no interior do bar, longe de onde ficam as mesas. Ted disse que fez o palco porque antigamente tinha uma banda e adorava tocar todas as noites no seu próprio bar. Mas que agora abria o palco uma vez por mês, cada mês com uma banda diferente. 
Ele me contou a história do quadro dos Beatles que parecia ser autografado. Era uma réplica que Ted comprou há uns dez anos, em Londres mesmo. 
O cara tinha muita história pra contar e eu ficaria de boa ouvindo elas por muito tempo, mas os outros funcionários foram chegando e um pouco depois alguns clientes e, antes que eu me desse conta, o lugar já tava cheio.
O bar era completo mesmo. Tinha todo tipo de bebida e muita comida também, mas dava pra perceber que o pessoal em geral vai lá pra beber e curtir as músicas que tocava. Frequentava todo tipo de gente. Desde os empresários de terno e gravata que pediam martini até os punks com altas tatuagens que pediam a mais forte das bebidas.
Não tive muita dificuldade em servir as pessoas, sempre seguindo o conselho do senhor Ted de não ligar muito pros abusados, sem noção. Na metade da noite eu já nem sentia meus pés de tanto ir pra lá e pra cá. Era só um cara e eu atendendo as mesas e o Kurt no balcão. Tava foda de dar conta.
Kurt: É sempre assim. Mas tu tá se saindo bem, melhor que a Gretchen até.
Olhei descrente pra ele enquanto pegava os copos no balcão.
Kurt: Sério. Ela era meio preguiçosa, na verdade só te supera no serviço porque os clientes amavam ela.
Eu: Era tão simpática assim?
Kurt: Simpática nada, era gostosa mesmo. Ela tinha uma bunda desse tamanho. – ele fez um gesto exagerado com as mãos – tinha que ver, Madu.
Eu: Não, valeu. Confio em ti. – voltei da cozinha rindo.
Kurt: Ah, esqueci. Tu prefere “boobs”. Hahaha.
Eu: Vê se cala a boca. 
No final, Ted me pagou um boa quantia, bem mais do que eu imaginava e muito mais do que eu merecia, com certeza.
Antes de ir embora, sentei-me na beira da calçada e fechei os olhos pra aproveitar o vento frio que vinha no meu rosto.
Kurt: Tudo bem aí? – disse sentando do meu lado.
Eu: Sim, só to tentando espantar o sono.
Kurt: Com os olhos fechados não é um bom jeito.
Eu: Haha.
Kurt: Também to cansado, mas vou ter que limpar todo o bar.
Eu: Achei que tu só atendesse.
Kurt: Sim, mas limpar era trabalho da Gretchen e até arranjar alguém pra substituí-la, eu é que vou ter que fazer isso. – ele suspirou e levantou.
Entrou  de novo e eu até pensei em ir pra casa, mas seria mancada deixar o garoto limpar tudo sozinho. Levantei e fui atrás dele me achando muito legal por isso.
Kurt: Sabia que tu não ia me deixar na mão. – ele sorriu.
Eu: Tu é muito cara de pau.
Kurt: Só um pouquinho. – ele saiu correndo pra parte quase escondida do bar e começou a tocar Killing in the name.
Ele escolheu a música perfeita pra animar quando, o que a gente mais quer, é deitar numa cama macia e dormir. Ele cantava cada verso da música e eu fazia o mesmo, com muito menos talento, é claro. 
Parei de limpar as mesas quando percebi que ele me observava.
Eu: Que é? Canto tão mal assim?
Kurt: Tu faz umas caretas engraçadas.
Eu: Ah… legal, eu acho.
Ele continuou rindo daquele jeito e largou a vassoura. Veio caminhando devagar até meu lado do bar. Mexia no cabelo como se estivesse nervoso, mesmo o sorriso de lado dele dizendo outra coisa. Olhei pros lados, mas não tinha jeito, ele tava olhando fixamente pra mim e isso me deixava meio arrepiada. Senti minhas mãos suando e meu coração acelerado.
O quê? Coração acelerado? Que porra é essa, Maria Eduarda? Por que isso agora? Só porque tá sorrindo daquele jeito irritante? Ou porque ele tá muito, muito perto agora? Talvez seja porque ele já esteja com uma das mãos na minha cintura e a outra entre meus cabelos. Foi aí que eu senti a respiração ofegante dele também, o que me deu certeza que não era outro blefe. 
Foi um beijo daqueles demorados como em câmera lenta, mas que a gente espera que não acabe. Acabamos sentando em um daqueles bancos vermelhos grudados a parede, deixando a limpeza pra mais tarde. A música terminou, começou outra e outra.
Eu: Odeio admitir, mas tu tem bom gosto musical.
Kurt: E tu conhece e gosta de tudo, vai gostar do show de amanhã. Tenho certeza.
Eu: Espero que sim, mas acho melhor a gente continuar limpando antes que amanheça. – ele fez cara de quem não gostou da ideia, mas eu levantei mesmo assim.
Kurt: Tá, mas só se tu for pra minha casa depois disso. – ele disse segurando meu braço e sorrindo quase que implorando.
Pensei mesmo em negar, mas vou bancar a santa agora por quê? Talvez seja a melhor maneira de esquecer o Rafa e tentar uma coisa nova. Concordei em ir, ele me beijou de novo e pegou a vassoura, limpando mais rápido dessa vez.
Sorri internamente com o, quase, desespero dele. 
Terminamos a limpeza bem rápido, podia ter ficado melhor, mas o cansaço e a preguiça não deixaram.
Kurt: Acho que finalmente terminamos, não é? – ele perguntou com as mãos na cintura, olhando para os lados.
Eu assenti e saí do bar, ele fez o mesmo e trancou. 
Kurt: Bora. – colocou um cigarro na boca e fez sinal pra que eu caminhasse do lado dele. Dei de ombros e apertei o passo.
Eu: Teu pai…
Kurt: Essa era a última noite dele aqui. Só volta mês que vem, a casa tá vazia. Relaxa.
Não era isso que eu ia perguntar, mas deixei quieto porque ele parecia meio triste. 
Kurt: Isso é pra ti. – depois que ele jogou o cigarro fora, tirou um cd do bolso e colocou na minha mão. – aqui tá a última playlist que eu fiz. Tenho certeza que tu vai gostar.
Eu: Valeu. – sorri. Nunca soube como agradecer um presente. Sempre acho que sorrir e falar “obrigada” não é o suficiente, mas era o máximo que eu podia fazer. Ou não.
Kurt: Entra. – ele apontou a casa em que paramos na frente. 
Logo que eu entrei tive certeza de que era mesmo a dele e do senhor Ted. A casa era parcialmente grande e muito desorganizada, mas enchia os olhos. Todos os móveis pareciam personalizados, não poderia esperar outra coisa deles.
Kurt: Já admirou bastante a casa, não é? Só falta meu quarto.
Eu: Tá com pressa, garoto? 
Kurt: Sinceramente? – ele tirou o casaco e me beijou.
Sem desgrudar, foi me empurrando devagar até um mini-corredor e depois direto pro quarto. Me largou alguns segundos pra ligar o abajur e tirar a própria camiseta. Ele voltou a beijar meu pescoço, enquanto eu caminhava até a cama. Tirou minha camiseta e eu ajudei com o shorts, ele continuou a beijar minha barriga até não aguentar mais. 
Rolou rápido e eu até gostaria de dizer alguma coisa, mas tava tão cansada de caminhar pra lá e pra cá a noite toda que não tive condições de dizer uma palavra. Tinha certeza de que ele estava mais cansada do que eu, então mantive meus olhos fechados até adormecer por completo.
-
Quando acordei, nem reconheci o lugar onde estava. Olhei pros lados com os olhos apertados, o quarto era pequeno e com a cama de casal ficava menor ainda. As paredes eram completamente preenchidas por quadros, discos, pôsters, murais e estantes. Lembrei de onde eu estava só depois de reconhecer a calça de Kurt ao meu lado na cama. Levantei rápido e fui catando as minhas roupas pela cama e algumas pelo chão, vesti rápido. Peguei meu tênis e sem calçá-los, saí do quarto olhando para os lados, caminhei o mais rápido e silenciosamente possível até a porta e antes de colocar a mão na maçaneta ouvi a voz dele atrás de mim.
Kurt: Quer dizer que tu me seduz, me usa e depois sai sem se despedir? – virei. 
Ele estava na porta da cozinha, comendo um sanduíche e com um sorriso no rosto.
Eu: Muito engraçado.
Kurt: Fica aí pra tomar café comigo. 
O segui até a cozinha e me surpreendi com a mesa farta que ele tinha feito. Olhei com cara de espanto pra ele, que só sorriu como se já esperasse essa reação.
Eu: Tu não tem cara de “dona de casa”.
Kurt: Tive que aprender a cozinhar. Nunca tive quem fizesse isso pra mim. – ele apontou a mesa e deu de ombros.
Sentei ao lado dele e ataquei umas torradas, enquanto ele contava histórias bizarras das primeiras vezes que tentou fazer alguma coisa no fogão. Eu ri bastante, mas por um lado era meio triste. Um garoto de sete anos tendo que fazer o próprio almoço pra escola. Queria perguntar pela mãe dele, mas não queria quebrar o clima.
Acabei o café e antes de sair, tive que pedir:
Eu: Kurt, não conta nada disso pro Nick, OK?
Kurt: Não vou contar nada, relaxa.
Eu: Valeu.
Kurt: Não vou fazer isso só por ti, se ele ficar sabendo, é capaz de fazer uma loucura comigo.
Eu: Não exagera.
Kurt: Tem alguma coisa de errada com ele, Madu. To dizendo.
Dei de ombros pra não discutir.
Kurt: Vai fazer o que hoje a tarde?
Eu: Com o dinheiro que ganhei ontem, dá e sobra pra comprar meu celular novo. – disse sorrindo. Finalmente vou conseguir.
Kurt: E tu sabe onde comprar?
Eu: Tava esperando que alguém me dissesse onde fica o shopping mais próximo – dei ênfase no “alguém”.
Kurt: Posso até dizer, mas não vai dar pra te levar.
Eu assenti e ele disse os nomes das ruas onde eu devia entrar, dobrar, ou seguir reto. Não entendia merda nenhuma, mas fazia que sim com a cabeça pra não parecer uma babaca perdida, o que eu realmente era.
Kurt: Entendeu?
Eu: Aham. – mentira.
Kurt: Tá sendo irônica?
Eu: Claro que não. – mentira.
Ele percebeu, é claro, mas não ligou. Fui até a porta e ele veio atrás pra abrir. Por cinco segundos eu fiquei sem saber o que fazer, como me despedia. Se acenar era o suficiente ou não, mas foi ele que tomou a atitude. Me abraçou e cochichou:
Kurt: Adorei a noite.
Saí antes que eu não tivesse mais coragem pra isso.
Kurt: Sei que tu também gostou. – ele gritou enquanto eu abria o portão – e se quiser repetir, sabe onde me encontrar. 
Levantei o dedo do meio enquanto caminhava, olhei rápido pra trás e deu tempo de vê-lo sorrindo ao fechar a porta.
«Capítulo 44                                                                              Capítulo 46»

Ele foi chegando perto.

Caralho.

Mais perto.

Puta merda.

Bem perto agora.

E quando ele percebeu que eu já tava me entregando, ele cochichou:

Kurt: E tu continua usando essa camiseta? To começando a desconfiar que tu realmente gosta de…

Eu: Ah, cala a boca. - empurrei ele e caminhei em direção ao meu quarto.

Ele caiu no sofá rindo, provavelmente da minha cara. Que guri babaca. Se eu não quisesse mesmo esse dinheiro, não sairia pra ajudá-lo nem fodendo. Tirei a camiseta com raiva e taquei no puff. Qual é a desse moleque?

Bufei.

Troquei de roupa rápido, colocando uma camiseta dos Beatles e um casaco xadrez por cima. Respirei fundo pra encontrar com o Kurt de novo e saí do quarto.

Kurt: Pronta? – ele perguntou ainda no sofá.

Eu: Sim.

O caminho inteiro foi no silêncio. Eu fazia questão de ficar olhando pro chão, pra não precisar olhar pra cara de deboche dele. Ainda não tinha entendido o que foi aquilo na sala. Talvez se ele tivesse me beijado de verdade eu não estaria tão confusa, furiosa e envergonhada.

Kurt: Odeio pedir favor.

Eu: …

Kurt: Sinto que fico em dívida com a pessoa. Só pedi pra ir comigo porque eu realmente não tinha escolha.

Eu: De nada.

Kurt: Qualquer coisa que precisar me chama.

Eu: Tá. – ele ficou em silêncio me observando por um tempo e voltou a falar.

Kurt: De verdade, senão eu não me sinto bem.

Eu: Já entendi, se eu precisar de um príncipe com um cavalo branco, te chamo. Pode deixar.

Ele sorriu de lado e colocou um cigarro na boca.

Kurt: Não achei que tu fosse ficar tão mal humorada.

Eu: Eu sou mal humorada. – dei ênfase no “sou” e o encarei. Ele acendeu o cigarro e continuou olhando pra mim.

Kurt: Quer?

Eu: Não.

Kurt: Traga, vai.

Eu: Não.

Kurt: Nunca te vi fumando.

Eu: Não tenho esse costume.

Kurt: Tu tem nojo?

Eu: Quê?

Kurt: Tem gente que tem nojo de cigarro e de beijar fumante. – ele tragou e largou a fumaça pro alto.

Pensei em dizer que tinha nojo só pra dar o troco, mas pra quê? Ele já tinha certeza que eu o beijaria.

Eu: Não tenho nojo. Quase todos os meus amigos fumam, acostumei com o cheiro e tudo o mais.

Kurt: Mas tu já beijou um fumante? É diferente. Como se tu tivesse colocando a língua em um cinzeiro.

Franzi a testa e comecei a rir.

Eu: Isso me deu nojo. Hahahaha.

Kurt: Então tu nunca beijou um fumante?

Eu: Já, mas não foi tão ruim quanto enfiar a língua em um cinzeiro.

Ele assentiu, sorrindo e ficou olhando pra frente o resto do caminho.Chegando ao bar, fui recebida de braços abertos pelo senhor Ted (pai do Kurt), desconfio que parte da simpatia era por causa da minha camiseta. Que deixava claro que eu curtia muito o lugar dele. Ted me levou até a cozinha enquanto Kurt permaneceu no balcão.

Ted: É mesmo fã deles? – ele disse apontando pra minha camiseta.

Eu: Sim senhor.

Ted: Então não tem problema em me dizer em que ano formou os Beatles? – ele perguntou tudo muito rápido com cara de teste. Eu respondi na mesma velocidade, meio confusa do porquê.

Eu: 1960.

Ted: Teu beatle favorito é…

Eu: George.

Ted: E o teu disco favorito?

Eu: Essa é difícil. – falei depois de pensar um pouco. Ele sorriu, acho que passei no teste sem noção dele.

Ted: Seja bem vinda. Malu, não é?

Eu: Madu, na verdade.

Ted: Ah, Madu então. Desculpa pelo mini-teste, é que eu não aguento esses moleques de hoje em dia manchando o nome do rock mundial. – ele continuou falando várias coisas sobre o mesmo assunto. Eu até concordava, mas tinha medo de falar alguma coisa e sobrasse pra mim, então me dediquei a assentir com a cabeça e sorrir.

Depois do discurso, Ted me entregou uma espécie de crachá. Para que as pessoas soubessem que eu trabalho ali, não por muito tempo, mas isso não é importante. Ele fez um tour comigo pelo bar, “apresentando” as coisas como se eu nunca tivesse visto. E na verdade, era como se fosse. Na primeira vez que entrei no bar, não consegui observar as coisas atentamente com tanta gente que tinha, agora eu consegui ver até o mini-palco no interior do bar, longe de onde ficam as mesas. Ted disse que fez o palco porque antigamente tinha uma banda e adorava tocar todas as noites no seu próprio bar. Mas que agora abria o palco uma vez por mês, cada mês com uma banda diferente.

Ele me contou a história do quadro dos Beatles que parecia ser autografado. Era uma réplica que Ted comprou há uns dez anos, em Londres mesmo.

O cara tinha muita história pra contar e eu ficaria de boa ouvindo elas por muito tempo, mas os outros funcionários foram chegando e um pouco depois alguns clientes e, antes que eu me desse conta, o lugar já tava cheio.

O bar era completo mesmo. Tinha todo tipo de bebida e muita comida também, mas dava pra perceber que o pessoal em geral vai lá pra beber e curtir as músicas que tocava. Frequentava todo tipo de gente. Desde os empresários de terno e gravata que pediam martini até os punks com altas tatuagens que pediam a mais forte das bebidas.

Não tive muita dificuldade em servir as pessoas, sempre seguindo o conselho do senhor Ted de não ligar muito pros abusados, sem noção. Na metade da noite eu já nem sentia meus pés de tanto ir pra lá e pra cá. Era só um cara e eu atendendo as mesas e o Kurt no balcão. Tava foda de dar conta.

Kurt: É sempre assim. Mas tu tá se saindo bem, melhor que a Gretchen até.

Olhei descrente pra ele enquanto pegava os copos no balcão.

Kurt: Sério. Ela era meio preguiçosa, na verdade só te supera no serviço porque os clientes amavam ela.

Eu: Era tão simpática assim?

Kurt: Simpática nada, era gostosa mesmo. Ela tinha uma bunda desse tamanho. – ele fez um gesto exagerado com as mãos – tinha que ver, Madu.

Eu: Não, valeu. Confio em ti. – voltei da cozinha rindo.

Kurt: Ah, esqueci. Tu prefere “boobs”. Hahaha.

Eu: Vê se cala a boca.

No final, Ted me pagou um boa quantia, bem mais do que eu imaginava e muito mais do que eu merecia, com certeza.

Antes de ir embora, sentei-me na beira da calçada e fechei os olhos pra aproveitar o vento frio que vinha no meu rosto.

Kurt: Tudo bem aí? – disse sentando do meu lado.

Eu: Sim, só to tentando espantar o sono.

Kurt: Com os olhos fechados não é um bom jeito.

Eu: Haha.

Kurt: Também to cansado, mas vou ter que limpar todo o bar.

Eu: Achei que tu só atendesse.

Kurt: Sim, mas limpar era trabalho da Gretchen e até arranjar alguém pra substituí-la, eu é que vou ter que fazer isso. – ele suspirou e levantou.

Entrou  de novo e eu até pensei em ir pra casa, mas seria mancada deixar o garoto limpar tudo sozinho. Levantei e fui atrás dele me achando muito legal por isso.

Kurt: Sabia que tu não ia me deixar na mão. – ele sorriu.

Eu: Tu é muito cara de pau.

Kurt: Só um pouquinho. – ele saiu correndo pra parte quase escondida do bar e começou a tocar Killing in the name.

Ele escolheu a música perfeita pra animar quando, o que a gente mais quer, é deitar numa cama macia e dormir. Ele cantava cada verso da música e eu fazia o mesmo, com muito menos talento, é claro.

Parei de limpar as mesas quando percebi que ele me observava.

Eu: Que é? Canto tão mal assim?

Kurt: Tu faz umas caretas engraçadas.

Eu: Ah… legal, eu acho.

Ele continuou rindo daquele jeito e largou a vassoura. Veio caminhando devagar até meu lado do bar. Mexia no cabelo como se estivesse nervoso, mesmo o sorriso de lado dele dizendo outra coisa. Olhei pros lados, mas não tinha jeito, ele tava olhando fixamente pra mim e isso me deixava meio arrepiada. Senti minhas mãos suando e meu coração acelerado.

O quê? Coração acelerado? Que porra é essa, Maria Eduarda? Por que isso agora? Só porque tá sorrindo daquele jeito irritante? Ou porque ele tá muito, muito perto agora? Talvez seja porque ele já esteja com uma das mãos na minha cintura e a outra entre meus cabelos. Foi aí que eu senti a respiração ofegante dele também, o que me deu certeza que não era outro blefe.

Foi um beijo daqueles demorados como em câmera lenta, mas que a gente espera que não acabe. Acabamos sentando em um daqueles bancos vermelhos grudados a parede, deixando a limpeza pra mais tarde. A música terminou, começou outra e outra.

Eu: Odeio admitir, mas tu tem bom gosto musical.

Kurt: E tu conhece e gosta de tudo, vai gostar do show de amanhã. Tenho certeza.

Eu: Espero que sim, mas acho melhor a gente continuar limpando antes que amanheça. – ele fez cara de quem não gostou da ideia, mas eu levantei mesmo assim.

Kurt: Tá, mas só se tu for pra minha casa depois disso. – ele disse segurando meu braço e sorrindo quase que implorando.

Pensei mesmo em negar, mas vou bancar a santa agora por quê? Talvez seja a melhor maneira de esquecer o Rafa e tentar uma coisa nova. Concordei em ir, ele me beijou de novo e pegou a vassoura, limpando mais rápido dessa vez.

Sorri internamente com o, quase, desespero dele.

Terminamos a limpeza bem rápido, podia ter ficado melhor, mas o cansaço e a preguiça não deixaram.

Kurt: Acho que finalmente terminamos, não é? – ele perguntou com as mãos na cintura, olhando para os lados.

Eu assenti e saí do bar, ele fez o mesmo e trancou.

Kurt: Bora. – colocou um cigarro na boca e fez sinal pra que eu caminhasse do lado dele. Dei de ombros e apertei o passo.

Eu: Teu pai…

Kurt: Essa era a última noite dele aqui. Só volta mês que vem, a casa tá vazia. Relaxa.

Não era isso que eu ia perguntar, mas deixei quieto porque ele parecia meio triste.

Kurt: Isso é pra ti. – depois que ele jogou o cigarro fora, tirou um cd do bolso e colocou na minha mão. – aqui tá a última playlist que eu fiz. Tenho certeza que tu vai gostar.

Eu: Valeu. – sorri. Nunca soube como agradecer um presente. Sempre acho que sorrir e falar “obrigada” não é o suficiente, mas era o máximo que eu podia fazer. Ou não.

Kurt: Entra. – ele apontou a casa em que paramos na frente.

Logo que eu entrei tive certeza de que era mesmo a dele e do senhor Ted. A casa era parcialmente grande e muito desorganizada, mas enchia os olhos. Todos os móveis pareciam personalizados, não poderia esperar outra coisa deles.

Kurt: Já admirou bastante a casa, não é? Só falta meu quarto.

Eu: Tá com pressa, garoto?

Kurt: Sinceramente? – ele tirou o casaco e me beijou.

Sem desgrudar, foi me empurrando devagar até um mini-corredor e depois direto pro quarto. Me largou alguns segundos pra ligar o abajur e tirar a própria camiseta. Ele voltou a beijar meu pescoço, enquanto eu caminhava até a cama. Tirou minha camiseta e eu ajudei com o shorts, ele continuou a beijar minha barriga até não aguentar mais.

Rolou rápido e eu até gostaria de dizer alguma coisa, mas tava tão cansada de caminhar pra lá e pra cá a noite toda que não tive condições de dizer uma palavra. Tinha certeza de que ele estava mais cansada do que eu, então mantive meus olhos fechados até adormecer por completo.

-

Quando acordei, nem reconheci o lugar onde estava. Olhei pros lados com os olhos apertados, o quarto era pequeno e com a cama de casal ficava menor ainda. As paredes eram completamente preenchidas por quadros, discos, pôsters, murais e estantes. Lembrei de onde eu estava só depois de reconhecer a calça de Kurt ao meu lado na cama. Levantei rápido e fui catando as minhas roupas pela cama e algumas pelo chão, vesti rápido. Peguei meu tênis e sem calçá-los, saí do quarto olhando para os lados, caminhei o mais rápido e silenciosamente possível até a porta e antes de colocar a mão na maçaneta ouvi a voz dele atrás de mim.

Kurt: Quer dizer que tu me seduz, me usa e depois sai sem se despedir? – virei.

Ele estava na porta da cozinha, comendo um sanduíche e com um sorriso no rosto.

Eu: Muito engraçado.

Kurt: Fica aí pra tomar café comigo.

O segui até a cozinha e me surpreendi com a mesa farta que ele tinha feito. Olhei com cara de espanto pra ele, que só sorriu como se já esperasse essa reação.

Eu: Tu não tem cara de “dona de casa”.

Kurt: Tive que aprender a cozinhar. Nunca tive quem fizesse isso pra mim. – ele apontou a mesa e deu de ombros.

Sentei ao lado dele e ataquei umas torradas, enquanto ele contava histórias bizarras das primeiras vezes que tentou fazer alguma coisa no fogão. Eu ri bastante, mas por um lado era meio triste. Um garoto de sete anos tendo que fazer o próprio almoço pra escola. Queria perguntar pela mãe dele, mas não queria quebrar o clima.

Acabei o café e antes de sair, tive que pedir:

Eu: Kurt, não conta nada disso pro Nick, OK?

Kurt: Não vou contar nada, relaxa.

Eu: Valeu.

Kurt: Não vou fazer isso só por ti, se ele ficar sabendo, é capaz de fazer uma loucura comigo.

Eu: Não exagera.

Kurt: Tem alguma coisa de errada com ele, Madu. To dizendo.

Dei de ombros pra não discutir.

Kurt: Vai fazer o que hoje a tarde?

Eu: Com o dinheiro que ganhei ontem, dá e sobra pra comprar meu celular novo. – disse sorrindo. Finalmente vou conseguir.

Kurt: E tu sabe onde comprar?

Eu: Tava esperando que alguém me dissesse onde fica o shopping mais próximo – dei ênfase no “alguém”.

Kurt: Posso até dizer, mas não vai dar pra te levar.

Eu assenti e ele disse os nomes das ruas onde eu devia entrar, dobrar, ou seguir reto. Não entendia merda nenhuma, mas fazia que sim com a cabeça pra não parecer uma babaca perdida, o que eu realmente era.

Kurt: Entendeu?

Eu: Aham. – mentira.

Kurt: Tá sendo irônica?

Eu: Claro que não. – mentira.

Ele percebeu, é claro, mas não ligou. Fui até a porta e ele veio atrás pra abrir. Por cinco segundos eu fiquei sem saber o que fazer, como me despedia. Se acenar era o suficiente ou não, mas foi ele que tomou a atitude. Me abraçou e cochichou:

Kurt: Adorei a noite.

Saí antes que eu não tivesse mais coragem pra isso.

Kurt: Sei que tu também gostou. – ele gritou enquanto eu abria o portão – e se quiser repetir, sabe onde me encontrar.

Levantei o dedo do meio enquanto caminhava, olhei rápido pra trás e deu tempo de vê-lo sorrindo ao fechar a porta.

«Capítulo 44                                                                              Capítulo 46»

Logo quando acordei, senti que tinha alguém me abraçando. Fiquei mais alguns minutos naquela posição e depois levantei tentando não acordar Nick. Dei de cara no chão antes de chegar até a porta.
Eu: Merda. – olhei pra trás pra ver no que tropecei. Era um casal dormindo logo do lado da cama.
Cara: Cuida por onde anda, garota.
Nick: Vocês que não deviam estar aqui.
Cara: A gente não achou outro quarto, então foi esse mesmo. 
Ele continuou deitado abraçando a menina. Os dois ficaram se encarando até Nick perder a paciência
Nick: Cara, tá esperando o que pra sair daqui?
Cara: Por que EU tenho que sair? Vocês que deviam sair.
Nick: Esse é MEU quarto, MINHA casa e tu nem foi convidado. Vaza daqui.
Nick levantou e apontou pra fora. O cara ficou pensativo e acabou acreditando, pegou a mina no colo e antes de sair por completo disse:
Cara: Boa sorte pra limpar tudo isso já que a casa é tua. Hahahaha.
Eu: Que babaca.
Nick: Deixa pra lá.
E o pior é que o cara tinha razão, a casa estava arrasada. Quebraram-se algumas coisas que esquecemos de guardar. Além de ter algumas marcas nas paredes e móveis, o que não seria fácil de limpar. Nick surtou.
Lição do dia: nunca pense que uma festa de piscina rola só na área da piscina.
Nick: Puta merda, Madu. Como sou burro.
Eu: Não exagera, Garoto Loiro. Não é tão ruim assim – ele sentou no sofá sujo perto da TV e colocou as mãos no rosto, inconsolável.
Olhei para os lados e achei Kurt deitado no chão perto de uma poltrona. Fui até lá, ele continuava com chantilly na cara, só que agora estava seca o que o fazia bem nojento. Mais nojento do que estar com cheiro de cachaça barata.
Eu: Acorda. – balancei ele, mas não tive resposta. Chutei-o mais algumas vezes e nada, comecei a ficar até preocupada e dei um chute bem forte nas costelas.
Kurt: Porra. – ele sentou rápido olhando para os lados.
Eu: Bom dia pra ti também.
Kurt: O que houve?
Eu: Destruíram a casa.
Kurt: E eu com isso? 
Eu: “E EU COM ISSO”?
Os dois fizeram cara de dor.
Nick: Madu, não grita por favor.
Eu: Foi mau.
Kurt deitou de novo e se virou para voltar a dormir, mas foi interrompido por mais um dos meus queridos chutes.
Kurt: Qual é, Madu?
Eu: Tu não vai ajudar, não?
Kurt: Quando tua família volta, Nick?
Nick: Acho que dia 20.
Kurt: E que dia é hoje?
Nick: Sei lá. 18?
Kurt: Viu? Temos tempo. – ele disse olhando pra mim e voltou a dormir.
Nick: Acho que ele tá certo. Temos tempo, eu arranjo um jeito de limpar tudo rápido. Além do mais, to numa ressaca do caramba.
Eu: Tu que sabe. – dei de ombros, se o próprio Nick não se preocupava, eu que não perderia meu tempo. Foi quando sentei que percebi na minha roupa, alguma coisa tinha acontecido com ela. 
Fiquei me olhando e tentando descobrir o que era aquilo grudado no meu tênis e Nick perguntou: 
Nick: Quer tomar uma banho aqui antes de ir pra casa? Se quiser pode usar o chuveiro da minha tia. Ela deve ter alguma roupa que te sirva.
Assenti e ele me levou até o quarto dela. Era maior que o de Nick e o dobro do meu, havia uns quadros coloridos nas paredes que me deixava tonta só de olhar. Entrei no chuveiro tentando não pensar em nada que me fizesse demorar muito. Me admirei com quantidade de xampu e cremes que tinha naquele banheiro, escolhi o menos chamativo. 
Terminei o banho e me enrolei na toalha, arrependida de não ter escolhido a roupa antes de entrar. No armário da tia de Nick tinha muita coisa, muitas saias, vestidos, blusas, sapatos, chapéus, shorts, mas nada decente. Tudo era muito florido e colorido, exatamente como as paredes e todo o resto naquele quarto. Não conseguia me imaginar usando qualquer coisa ali dentro, preferia usar a mesma roupa suja de ontem.
Resolvi mexer mais um pouco no guarda-roupa da tia tentando não bagunçar nada, estava prestes a desistir quando Nick bateu na porta.
Nick: Ta aí ainda, Madu?
Eu: Sim – chequei se a toalha cobria tudo – pode entrar.
Nick: Não conseguiu achar nada? – ele perguntou me olhando de cima a baixo.
Eu: Tua tia gosta de flores, não é? – tentei perguntar sem ser ingrata, mas ele concordou sem parecer ofendido.
Veio até mim e me ajudou a procurar alguma coisa.
Nick: Que tal essa aqui? – ele indicou uma camiseta amarela fluorescente com uma estampa estranha escrita “I love Boobs”.
Eu: I Love Boobs? Sério?
Nick: Qual o problema? – ele disse rindo – minha tia usava ela direito. É claro que ela não sabe nada de inglês, mas isso não vem ao caso.
Eu: E tu nunca disse o que significa?
Nick: Por que eu faria isso? Nunca gostei dela e ela me destesta. – ele deu de ombros e voltou a sorrir – de qualquer forma, ela não a usa mais, alguém deve ter traduzido e dito. Hahaha. Olha, esse shorts deve servir em ti também.
Eu fiquei olhando para o shorts.
Nick: Ela não usa mais, nem vai sentir falta. Vai, põe aí.
Eu: OK, agora pode sair.
Nick: De nada. – ele ironizou.
Eu: Muito obrigada, agora vai. – o empurrei até a porta.
A camiseta ficou grande e o shorts maior ainda, mas eu não vou pôr nenhum daqueles vestidos que parecem do hawaii. Tentei arrumar meu cabelo como dava e coloquei o mesmo All Star sujo e velho de sempre. Voltei para sala e Nick ficou me olhando.
Eu: O quê é? – a sensação de estar vestindo uma camiseta dizendo que eu amo “boobs” e um shorts que precisava ser puxado a cada cinco segundos não me deixava de bom humor.
Nick: Parece que serviu bem afinal. Hahahahaha.
Eu: Cala a boca. – ele deitou no sofá ainda dando risada da minha cara mal humorada.
Nick: To com fome.
Eu: …
Nick: Poderia trazer biscoitos pra mim?
Eu: Não.
Ele me olhou com cara de cachorro abandonado e decidi ser legal só dessa vez. Fiz café e servi para nós três. Acordei Kurt do mesmo jeito gentil de antes, mas ele aceitou dessa vez quando viu o que eu trazia nas mãos.
Nick: Tu é demais, Madu.
Eu: Eu sei. – disse entregando os biscoitos que ele tanto queria.
Enquanto bebíamos o café, ainda tinha gente saindo da casa. Alguns saíam de mancinho e outros até pediam desculpas a Nick pelo estrago, mas pra ele não fazia diferença nenhuma já que era óbvio que ninguém ficaria pra ajudar.
Quando parecia não haver mais ninguém além de nós três na casa, Nick começou a anotar as coisas que sumiram ou as que quebraram, acho que seria fácil pra ele recuperar tudo de volta, tinha bastante dinheiro.
Kurt: To indo pra casa, tenho que descançar bastante pro show de amanhã. – ele se espreguiçou enquanto levantava – aliás, vocês podiam ir, não é?
Eu: Eu quero ir. – ele ergueu as sobrancelhas, surpreso com minha rapidez a aceitar. – eu gosto de ouvir música e quero ver se tu sabe cantar direitinho mesmo ou é só caô. 
Kurt: Tu vai se surpreender. 
Nick: Acho melhor tu não criar muitas expectativas, Madu.
Kurt: Vai te foder.
Eu ria enquanto um baita no outro. 
Nick: AI! Na cabeça não – os dois pararam com as mãos na cabeça, tontos com a ressaca.
Eu: Vocês não sabem beber não?  Tem que encher até exlpodir?
Kurt: Até parece que tu nunca ficou de ressaca.
Eu: Claro que já, mas não sou mulherzinha que nem vocês dois que ficam reclamando de segundo a segundo.
Kurt: Tá bom, mas me explica essa camiseta aí? – Nick começou a rir.
Eu: Ah, cala a boca. – atirei uma almofada dele, ele quer zuar então vamos zuar – tem certeza que quer ir pra casa assim? Acho melhor tu lavar o rosto antes pelo menos. Teu pai vai ficar curioso pra saber pra que tanto chantilly.
Nick: HAHAHAHAHAHAHAHA.
Kurt: Quê?
Kurt foi correndo se olhar no espelho e voltou com a pior cara do mundo.
Kurt: Que merda é essa?
Eu: Tu não lembra? Hahahaha.
Kurt: Lembro de chantilly pra todo lado – disse com os olhos apertados, tentando lembrar – lembro de Lipe sujo também. Lembro de vozes repetindo meu nome e de eu pegando algumas meninas. Só. O que aconteceu?
Expliquei toda a confusão a ele, que só se manifestava com palavrões e expressões de raiva. Eu sabia que ele não estava 100% consciente, estava muito alegre, bem humorado e sorridente. Agora tá todo revoltado sem acreditar no que eu disse. Contei exatamente tudo de que o tinha visto fazer e falar.
Kurt: Não acredito que eu fui capaz de fazer tamanha idiotice. E AINDA POR CIMA NA FRENTE DE TODA A GALERA QUE EU CHAMEI! PUTA QUE PARIU! – ele sentou novamente com as mãos na cabeça, desesperado.
Eu: Talvez eles tenham esquecido tanto quanto tu.
Kurt: É claro que não, uma idiotice dessas ninguém esquece. Vou ser muito zuado. Porra. E TU PARA DE RIR QUE NEM METADE DA FESTA CURTIU, DESMAIOU DE CARA NA PRIVADA ANTES QUE QUALQUER COISA ACONTECESSE.  – ele berrou apontando para Nick, que o fez na mesma hora. Não sei se foi pela cara demoniaca que Kurt fez ou pela vergonha mesmo.
Nick pediu para que eu dissesse tudo sobre ele também, narrei praticamente toda a festa pros dois babacas. Não sei porque tanta curiosidade. Quando isso acontece comigo, eu prefiro não ficar sabendo de nada do que disse ou fiz. Acho que é pro bem da minha própria auto-estima.
Nick: Esse Lipe deve ser muito gente boa pra fazer isso por nada em troca. – ele disse desconfiado.
Kurt: Ele não fez isso por ti, idiota. Fez porque queria pegar a Madu. Lipe é quietão na dele, não se mete muito na vida dos outros. Só fez isso porque uma guria pediu.
Nick: Verdade, Madu?
Eu: Como vou saber? O Kurt é quem o conhece melhor.
Kurt: E vocês ficaram?
Eu: Não.
Kurt: Por quê?
Eu: O guri tava tão bêbado que nem conseguia ficar em pé, ficava balançando como uma gelatina.
Kurt: Hahaha.
Nick: Mas se ele não tivesse, tu ficaria?
Eu: Acho que sim.
Kurt: Sério? Se ele te ouvisse agora, ficaria tão envergonhado que não teria coragem de te olhar de novo.
Eu: Acho que ele já sabe, quero dizer, se ele não tiver esquecido tudo como vocês.
Kurt: Quero só ver a cara dele no show. – ele sorriu.
Nick ficou indiferente com o rumo da nossa conversa, permaneceu olhando pra TV. Decidi ir embora e deixá-los ali reclamando da ressaca compartilhada.
Não precisei andar muito até chegar em casa, o que foi um alívio porque eu ainda me sentia mal com aquele shorts e quando entrei, levei um susto do meu pai que estava sentado na minha poltrona, me encarando enquanto eu trancava a porta.
Pai: Boa tarde. – ele disse bem humorado.
Eu: Boa tarde. – repondi do mesmo jeito, com uma pontinha de sarcasmo.
Pai: Tentei te ligar, mas tava fora de área.
Eu: Meu celular estragou.
Pai: Era novo, Maria Eduarda.
Eu: Ganhei quando fiz doze anos.
Pai: Tanto faz… Tá tudo bem contigo?
Olhei para os lados, mas aparentemente ele estava mesmo falando comigo. Deixei a ironia pra lá e perguntei logo.
Eu: O que tu quer?
Pai: Sem papo então, melhor assim. Vou precisar da tua ajuda. – ele se aconchegou na poltrona, mais confortável agora que não precisava fingir simpatia. – Vamos receber um sobrinho meu aqui em casa. Ele vai morar conosco por alguns meses e eu disse que você o ajudaria.
Eu: Ajudaria no quê?
Pai: No serviço, ele tá vindo trabalhar.
Eu: Mas o que ele faz? – perguntei com mais interesse dessa vez.
Pai: Isso não é importante, o rapaz vai vir morar aqui e tu será a assistente dele no que quer que seja. E eu não quero ouvir reclamações da tua atitude, entendeu Maria Eduarda? – ele fez aquela cara de pai exigente que ele sabia fazer muito bem quando era do próprio interesse.  Pena que já não funcionava comigo há muito tempo.
Eu: Eu preciso saber no que eu vou ajudar.
Pai: Ele vem terça-feira e é melhor ser gentil. – ele se levantou ignorando totalmente a minha pergunta.
Eu: Espera aí. O que ele faz? O que eu vou fazer? Onde? Por quanto tempo? – tentei arrancar alguma resposta enquanto ele saía de casa.
Vou ter que ajudar um primo que eu vi uma vez na vida a fazer alguma coisa, beleza. Mas é possível que depois do “primo” me conhecer  mude de ideia, não sou boa em quase nada e também não vou ter paciência se ele vier mandando muito em mim, não faço nada e foda-se. É claro que se isso acontecer , meu pai enche meu saco de um jeito épico, mas já to acostumada. Mas de uma coisa ele tem razão: preciso arranjar um emprego e se não for com esse primo, vai ser em qualquer lugar em que eu seja útil, posso até pegar o lugar da Gretchen permanentemente, até que eu descubra um super talento que não se manisfestou até hoje.
No mesmo segundo em que me deitei, Dudu batia na minha porta.
Dudu: Madu, posso falar contigo?
Eu: Não.
Dudu: Qual é…
Eu: Não to a fim de te ouvir.
Dudu: MADU! DEIXA EU ENTRAR!
Eu: VAZA.
Eu berrei de um jeito que nem sabia que conseguia, mas não adiantou nada. Ele continuou a bater e bater.
Dudu: Vim pedir desculpas. – levantei, abri a porta e fiz questão de fazer a pior cara possível.
Dudu: Posso entrar?
Eu: Não.
Dudu: Argh, tá bom. – ele respirou fundo – foi mau por tudo aquilo na festa ontem. Não devia ter te ignorado, não devia ter te chamado de doida e muito menos ter deixado que tu saísse correndo sem antes saber se tu tava bem. Sou um idiota.
Eu: Ainda bem que tu sabe.
Dudu: Não vai mais acontecer e…
Eu: Foda-se Dudu – falei quando percebi que estava cansada de ouvir as desculpas ensaiadas dele – se eu tinha esperança que tu mudasse? Sim, eu tinha. Mas se tu quer continuar sendo o idiota de sempre, azar é o teu. Por mim foda-se, de verdade.
Dudu: Mas… – ele me olhou espantado e cortei o papo dele novamente.
Eu: Para de prometer e começa a cumprir. Às vezes acho que tu não tá querendo me enganar ou enganar os teus “amigos”, tu tá enganando a si mesmo. Seja quem tu é, idiota ou não. Mas não fica prometendo o que tu não pode e nem quer cumprir, uma hora ninguém mais vai acreditar em uma palavra que sai da tua boca.
Falei com toda serenidade e cansaço do mundo. A raiva que eu sentia antes passou completamente ao ver que ele tá tão cansado de pedir desculpas quanto eu de ouví-las, ele não estava sendo sincero. A verdade é que ele é assim e talvez seja pra sempre, mas não importa quantas brigas a gente tiver, eu vou continuar amando ele e acho que sou tão babaca quanto ele por isso.
Enquanto eu esperava uma resposta, ele não manifestava um mísero som então bufei e bati a porta na cara dele. Voltei para minha cama que estava mais interessante que a expressão tosca do Dudu.
Dudu: SABE DO QUE MAIS, MADU? TU TÁ CERTA! VOU SER E FAZER O QUE EU QUISER E FODA-SE O RESTO! FODA-SE TODO MUNDO! FODA-SE TU TAMBÉM! 
Quando ele pareceu ter parado, ouvi mais uns gritos:
Dudu: AH, BONITA BLUSA! HAHAHAHAHA!
Eu: Droga! - cochichei.
Tenho que tirar essa merda, mas não agora. To muito bem assim, sem me mexer. O dia mal começou e já estou cansada mentalmente, encontrei meu pai que me deu uma notícia e eu ainda nem sei se é boa ou não e briguei com o meu irmão. Não foi exatamente uma briga, mas esclareceu algumas coisas na minha cabeça e isso definitivamente não foi bom.
Eu precisava tanto falar com minha mãe, mas não quero ficar pensando nisso. É capaz deu ficar maluca se continuar pensando tanto assim na opinião da minha mãe, tanta saudade assim faz mal.
Acordei com a campainha sendo desesperadamente tocada. Saí correndo, descalça mesmo e reparei que já havia anoitecido quando abri a porta.
Eu: Caralho, quanto tempo passei naquela cama?
Kurt: Não mais que eu, com certeza. Tanto é que esqueci de escolher uma substituta pra Gretchen.
Eu: HEIN?
Ele nem esperou eu convidá-lo, já entrou e sentou no sofá. Tava mais nervoso do que depois deu ter contado toda as merdas que ele tinha feito na festa, mas já havia tomado um banho e agora tava até cheiroso.
Kurt: Liguei pra Lola, mas ela tá ocupada e não sei se ela aceitaria de qualquer jeito. Todas as minas que eu conheço estão em festas, barzinhos ou qualquer porra dessas. Quem não estaria não é? Em uma sábado a noite? Mas tu vai ter que me salvar, Madu! Só me sobrou tu.
Eu: Ah, valeu pela preferência. Explica direito.
Kurt: A Gretchen, garçonete do meu pai, morreu.
Eu: Coitada.
Kurt: Pois é, ela se meteu com um traficante importante lá e se fodeu. Mas esse não é o meu drama o caso é que meu pai me encarregou de achar uma substituta e eu esqueci. COMPLETAMENTE! 
Ele ficou me olhando e eu esperando uma continuação.
Kurt: Aceita?
Eu: Ser garçonete?
Kurt: É, só por esse noite. POR FAVOR! Amanhã eu arranjo outra mina e ela fica definitivamente.
Eu já ia aceitar, mas ele continuou falando e falando. Revirei os olhos e disse mais alto:
Eu: KURT! Eu aceito.
Kurt: Sério? Fácil assim?
Eu: To precisando de grana mesmo.
Dei de ombros e ele sorriu, por que o sorriso dele vem sempre com covinhas? Assim até perco o foco dos meus pensamentos.
Kurt: Madu?
Eu: Eu. - forcei-me a olhar pros olhos dele, o que não acalmou em nada porque percebi que ele olhava pra minha boca.
Caralho.
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Logo quando acordei, senti que tinha alguém me abraçando. Fiquei mais alguns minutos naquela posição e depois levantei tentando não acordar Nick. Dei de cara no chão antes de chegar até a porta.

Eu: Merda. – olhei pra trás pra ver no que tropecei. Era um casal dormindo logo do lado da cama.

Cara: Cuida por onde anda, garota.

Nick: Vocês que não deviam estar aqui.

Cara: A gente não achou outro quarto, então foi esse mesmo.

Ele continuou deitado abraçando a menina. Os dois ficaram se encarando até Nick perder a paciência

Nick: Cara, tá esperando o que pra sair daqui?

Cara: Por que EU tenho que sair? Vocês que deviam sair.

Nick: Esse é MEU quarto, MINHA casa e tu nem foi convidado. Vaza daqui.

Nick levantou e apontou pra fora. O cara ficou pensativo e acabou acreditando, pegou a mina no colo e antes de sair por completo disse:

Cara: Boa sorte pra limpar tudo isso já que a casa é tua. Hahahaha.

Eu: Que babaca.

Nick: Deixa pra lá.

E o pior é que o cara tinha razão, a casa estava arrasada. Quebraram-se algumas coisas que esquecemos de guardar. Além de ter algumas marcas nas paredes e móveis, o que não seria fácil de limpar. Nick surtou.

Lição do dia: nunca pense que uma festa de piscina rola só na área da piscina.

Nick: Puta merda, Madu. Como sou burro.

Eu: Não exagera, Garoto Loiro. Não é tão ruim assim – ele sentou no sofá sujo perto da TV e colocou as mãos no rosto, inconsolável.

Olhei para os lados e achei Kurt deitado no chão perto de uma poltrona. Fui até lá, ele continuava com chantilly na cara, só que agora estava seca o que o fazia bem nojento. Mais nojento do que estar com cheiro de cachaça barata.

Eu: Acorda. – balancei ele, mas não tive resposta. Chutei-o mais algumas vezes e nada, comecei a ficar até preocupada e dei um chute bem forte nas costelas.

Kurt: Porra. – ele sentou rápido olhando para os lados.

Eu: Bom dia pra ti também.

Kurt: O que houve?

Eu: Destruíram a casa.

Kurt: E eu com isso?

Eu: “E EU COM ISSO”?

Os dois fizeram cara de dor.

Nick: Madu, não grita por favor.

Eu: Foi mau.

Kurt deitou de novo e se virou para voltar a dormir, mas foi interrompido por mais um dos meus queridos chutes.

Kurt: Qual é, Madu?

Eu: Tu não vai ajudar, não?

Kurt: Quando tua família volta, Nick?

Nick: Acho que dia 20.

Kurt: E que dia é hoje?

Nick: Sei lá. 18?

Kurt: Viu? Temos tempo. – ele disse olhando pra mim e voltou a dormir.

Nick: Acho que ele tá certo. Temos tempo, eu arranjo um jeito de limpar tudo rápido. Além do mais, to numa ressaca do caramba.

Eu: Tu que sabe. – dei de ombros, se o próprio Nick não se preocupava, eu que não perderia meu tempo. Foi quando sentei que percebi na minha roupa, alguma coisa tinha acontecido com ela.

Fiquei me olhando e tentando descobrir o que era aquilo grudado no meu tênis e Nick perguntou:

Nick: Quer tomar uma banho aqui antes de ir pra casa? Se quiser pode usar o chuveiro da minha tia. Ela deve ter alguma roupa que te sirva.

Assenti e ele me levou até o quarto dela. Era maior que o de Nick e o dobro do meu, havia uns quadros coloridos nas paredes que me deixava tonta só de olhar. Entrei no chuveiro tentando não pensar em nada que me fizesse demorar muito. Me admirei com quantidade de xampu e cremes que tinha naquele banheiro, escolhi o menos chamativo.

Terminei o banho e me enrolei na toalha, arrependida de não ter escolhido a roupa antes de entrar. No armário da tia de Nick tinha muita coisa, muitas saias, vestidos, blusas, sapatos, chapéus, shorts, mas nada decente. Tudo era muito florido e colorido, exatamente como as paredes e todo o resto naquele quarto. Não conseguia me imaginar usando qualquer coisa ali dentro, preferia usar a mesma roupa suja de ontem.

Resolvi mexer mais um pouco no guarda-roupa da tia tentando não bagunçar nada, estava prestes a desistir quando Nick bateu na porta.

Nick: Ta aí ainda, Madu?

Eu: Sim – chequei se a toalha cobria tudo – pode entrar.

Nick: Não conseguiu achar nada? – ele perguntou me olhando de cima a baixo.

Eu: Tua tia gosta de flores, não é? – tentei perguntar sem ser ingrata, mas ele concordou sem parecer ofendido.

Veio até mim e me ajudou a procurar alguma coisa.

Nick: Que tal essa aqui? – ele indicou uma camiseta amarela fluorescente com uma estampa estranha escrita “I love Boobs”.

Eu: I Love Boobs? Sério?

Nick: Qual o problema? – ele disse rindo – minha tia usava ela direito. É claro que ela não sabe nada de inglês, mas isso não vem ao caso.

Eu: E tu nunca disse o que significa?

Nick: Por que eu faria isso? Nunca gostei dela e ela me destesta. – ele deu de ombros e voltou a sorrir – de qualquer forma, ela não a usa mais, alguém deve ter traduzido e dito. Hahaha. Olha, esse shorts deve servir em ti também.

Eu fiquei olhando para o shorts.

Nick: Ela não usa mais, nem vai sentir falta. Vai, põe aí.

Eu: OK, agora pode sair.

Nick: De nada. – ele ironizou.

Eu: Muito obrigada, agora vai. – o empurrei até a porta.

A camiseta ficou grande e o shorts maior ainda, mas eu não vou pôr nenhum daqueles vestidos que parecem do hawaii. Tentei arrumar meu cabelo como dava e coloquei o mesmo All Star sujo e velho de sempre. Voltei para sala e Nick ficou me olhando.

Eu: O quê é? – a sensação de estar vestindo uma camiseta dizendo que eu amo “boobs” e um shorts que precisava ser puxado a cada cinco segundos não me deixava de bom humor.

Nick: Parece que serviu bem afinal. Hahahahaha.

Eu: Cala a boca. – ele deitou no sofá ainda dando risada da minha cara mal humorada.

Nick: To com fome.

Eu: …

Nick: Poderia trazer biscoitos pra mim?

Eu: Não.

Ele me olhou com cara de cachorro abandonado e decidi ser legal só dessa vez. Fiz café e servi para nós três. Acordei Kurt do mesmo jeito gentil de antes, mas ele aceitou dessa vez quando viu o que eu trazia nas mãos.

Nick: Tu é demais, Madu.

Eu: Eu sei. – disse entregando os biscoitos que ele tanto queria.

Enquanto bebíamos o café, ainda tinha gente saindo da casa. Alguns saíam de mancinho e outros até pediam desculpas a Nick pelo estrago, mas pra ele não fazia diferença nenhuma já que era óbvio que ninguém ficaria pra ajudar.

Quando parecia não haver mais ninguém além de nós três na casa, Nick começou a anotar as coisas que sumiram ou as que quebraram, acho que seria fácil pra ele recuperar tudo de volta, tinha bastante dinheiro.

Kurt: To indo pra casa, tenho que descançar bastante pro show de amanhã. – ele se espreguiçou enquanto levantava – aliás, vocês podiam ir, não é?

Eu: Eu quero ir. – ele ergueu as sobrancelhas, surpreso com minha rapidez a aceitar. – eu gosto de ouvir música e quero ver se tu sabe cantar direitinho mesmo ou é só caô.

Kurt: Tu vai se surpreender.

Nick: Acho melhor tu não criar muitas expectativas, Madu.

Kurt: Vai te foder.

Eu ria enquanto um baita no outro.

Nick: AI! Na cabeça não – os dois pararam com as mãos na cabeça, tontos com a ressaca.

Eu: Vocês não sabem beber não?  Tem que encher até exlpodir?

Kurt: Até parece que tu nunca ficou de ressaca.

Eu: Claro que já, mas não sou mulherzinha que nem vocês dois que ficam reclamando de segundo a segundo.

Kurt: Tá bom, mas me explica essa camiseta aí? – Nick começou a rir.

Eu: Ah, cala a boca. – atirei uma almofada dele, ele quer zuar então vamos zuar – tem certeza que quer ir pra casa assim? Acho melhor tu lavar o rosto antes pelo menos. Teu pai vai ficar curioso pra saber pra que tanto chantilly.

Nick: HAHAHAHAHAHAHAHA.

Kurt: Quê?

Kurt foi correndo se olhar no espelho e voltou com a pior cara do mundo.

Kurt: Que merda é essa?

Eu: Tu não lembra? Hahahaha.

Kurt: Lembro de chantilly pra todo lado – disse com os olhos apertados, tentando lembrar – lembro de Lipe sujo também. Lembro de vozes repetindo meu nome e de eu pegando algumas meninas. Só. O que aconteceu?

Expliquei toda a confusão a ele, que só se manifestava com palavrões e expressões de raiva. Eu sabia que ele não estava 100% consciente, estava muito alegre, bem humorado e sorridente. Agora tá todo revoltado sem acreditar no que eu disse. Contei exatamente tudo de que o tinha visto fazer e falar.

Kurt: Não acredito que eu fui capaz de fazer tamanha idiotice. E AINDA POR CIMA NA FRENTE DE TODA A GALERA QUE EU CHAMEI! PUTA QUE PARIU! – ele sentou novamente com as mãos na cabeça, desesperado.

Eu: Talvez eles tenham esquecido tanto quanto tu.

Kurt: É claro que não, uma idiotice dessas ninguém esquece. Vou ser muito zuado. Porra. E TU PARA DE RIR QUE NEM METADE DA FESTA CURTIU, DESMAIOU DE CARA NA PRIVADA ANTES QUE QUALQUER COISA ACONTECESSE.  – ele berrou apontando para Nick, que o fez na mesma hora. Não sei se foi pela cara demoniaca que Kurt fez ou pela vergonha mesmo.

Nick pediu para que eu dissesse tudo sobre ele também, narrei praticamente toda a festa pros dois babacas. Não sei porque tanta curiosidade. Quando isso acontece comigo, eu prefiro não ficar sabendo de nada do que disse ou fiz. Acho que é pro bem da minha própria auto-estima.

Nick: Esse Lipe deve ser muito gente boa pra fazer isso por nada em troca. – ele disse desconfiado.

Kurt: Ele não fez isso por ti, idiota. Fez porque queria pegar a Madu. Lipe é quietão na dele, não se mete muito na vida dos outros. Só fez isso porque uma guria pediu.

Nick: Verdade, Madu?

Eu: Como vou saber? O Kurt é quem o conhece melhor.

Kurt: E vocês ficaram?

Eu: Não.

Kurt: Por quê?

Eu: O guri tava tão bêbado que nem conseguia ficar em pé, ficava balançando como uma gelatina.

Kurt: Hahaha.

Nick: Mas se ele não tivesse, tu ficaria?

Eu: Acho que sim.

Kurt: Sério? Se ele te ouvisse agora, ficaria tão envergonhado que não teria coragem de te olhar de novo.

Eu: Acho que ele já sabe, quero dizer, se ele não tiver esquecido tudo como vocês.

Kurt: Quero só ver a cara dele no show. – ele sorriu.

Nick ficou indiferente com o rumo da nossa conversa, permaneceu olhando pra TV. Decidi ir embora e deixá-los ali reclamando da ressaca compartilhada.

Não precisei andar muito até chegar em casa, o que foi um alívio porque eu ainda me sentia mal com aquele shorts e quando entrei, levei um susto do meu pai que estava sentado na minha poltrona, me encarando enquanto eu trancava a porta.

Pai: Boa tarde. – ele disse bem humorado.

Eu: Boa tarde. – repondi do mesmo jeito, com uma pontinha de sarcasmo.

Pai: Tentei te ligar, mas tava fora de área.

Eu: Meu celular estragou.

Pai: Era novo, Maria Eduarda.

Eu: Ganhei quando fiz doze anos.

Pai: Tanto faz… Tá tudo bem contigo?

Olhei para os lados, mas aparentemente ele estava mesmo falando comigo. Deixei a ironia pra lá e perguntei logo.

Eu: O que tu quer?

Pai: Sem papo então, melhor assim. Vou precisar da tua ajuda. – ele se aconchegou na poltrona, mais confortável agora que não precisava fingir simpatia. – Vamos receber um sobrinho meu aqui em casa. Ele vai morar conosco por alguns meses e eu disse que você o ajudaria.

Eu: Ajudaria no quê?

Pai: No serviço, ele tá vindo trabalhar.

Eu: Mas o que ele faz? – perguntei com mais interesse dessa vez.

Pai: Isso não é importante, o rapaz vai vir morar aqui e tu será a assistente dele no que quer que seja. E eu não quero ouvir reclamações da tua atitude, entendeu Maria Eduarda? – ele fez aquela cara de pai exigente que ele sabia fazer muito bem quando era do próprio interesse.  Pena que já não funcionava comigo há muito tempo.

Eu: Eu preciso saber no que eu vou ajudar.

Pai: Ele vem terça-feira e é melhor ser gentil. – ele se levantou ignorando totalmente a minha pergunta.

Eu: Espera aí. O que ele faz? O que eu vou fazer? Onde? Por quanto tempo? – tentei arrancar alguma resposta enquanto ele saía de casa.

Vou ter que ajudar um primo que eu vi uma vez na vida a fazer alguma coisa, beleza. Mas é possível que depois do “primo” me conhecer  mude de ideia, não sou boa em quase nada e também não vou ter paciência se ele vier mandando muito em mim, não faço nada e foda-se. É claro que se isso acontecer , meu pai enche meu saco de um jeito épico, mas já to acostumada. Mas de uma coisa ele tem razão: preciso arranjar um emprego e se não for com esse primo, vai ser em qualquer lugar em que eu seja útil, posso até pegar o lugar da Gretchen permanentemente, até que eu descubra um super talento que não se manisfestou até hoje.

No mesmo segundo em que me deitei, Dudu batia na minha porta.

Dudu: Madu, posso falar contigo?

Eu: Não.

Dudu: Qual é…

Eu: Não to a fim de te ouvir.

Dudu: MADU! DEIXA EU ENTRAR!

Eu: VAZA.

Eu berrei de um jeito que nem sabia que conseguia, mas não adiantou nada. Ele continuou a bater e bater.

Dudu: Vim pedir desculpas. – levantei, abri a porta e fiz questão de fazer a pior cara possível.

Dudu: Posso entrar?

Eu: Não.

Dudu: Argh, tá bom. – ele respirou fundo – foi mau por tudo aquilo na festa ontem. Não devia ter te ignorado, não devia ter te chamado de doida e muito menos ter deixado que tu saísse correndo sem antes saber se tu tava bem. Sou um idiota.

Eu: Ainda bem que tu sabe.

Dudu: Não vai mais acontecer e…

Eu: Foda-se Dudu – falei quando percebi que estava cansada de ouvir as desculpas ensaiadas dele – se eu tinha esperança que tu mudasse? Sim, eu tinha. Mas se tu quer continuar sendo o idiota de sempre, azar é o teu. Por mim foda-se, de verdade.

Dudu: Mas… – ele me olhou espantado e cortei o papo dele novamente.

Eu: Para de prometer e começa a cumprir. Às vezes acho que tu não tá querendo me enganar ou enganar os teus “amigos”, tu tá enganando a si mesmo. Seja quem tu é, idiota ou não. Mas não fica prometendo o que tu não pode e nem quer cumprir, uma hora ninguém mais vai acreditar em uma palavra que sai da tua boca.

Falei com toda serenidade e cansaço do mundo. A raiva que eu sentia antes passou completamente ao ver que ele tá tão cansado de pedir desculpas quanto eu de ouví-las, ele não estava sendo sincero. A verdade é que ele é assim e talvez seja pra sempre, mas não importa quantas brigas a gente tiver, eu vou continuar amando ele e acho que sou tão babaca quanto ele por isso.

Enquanto eu esperava uma resposta, ele não manifestava um mísero som então bufei e bati a porta na cara dele. Voltei para minha cama que estava mais interessante que a expressão tosca do Dudu.

Dudu: SABE DO QUE MAIS, MADU? TU TÁ CERTA! VOU SER E FAZER O QUE EU QUISER E FODA-SE O RESTO! FODA-SE TODO MUNDO! FODA-SE TU TAMBÉM! 

Quando ele pareceu ter parado, ouvi mais uns gritos:

Dudu: AH, BONITA BLUSA! HAHAHAHAHA!

Eu: Droga! - cochichei.

Tenho que tirar essa merda, mas não agora. To muito bem assim, sem me mexer. O dia mal começou e já estou cansada mentalmente, encontrei meu pai que me deu uma notícia e eu ainda nem sei se é boa ou não e briguei com o meu irmão. Não foi exatamente uma briga, mas esclareceu algumas coisas na minha cabeça e isso definitivamente não foi bom.

Eu precisava tanto falar com minha mãe, mas não quero ficar pensando nisso. É capaz deu ficar maluca se continuar pensando tanto assim na opinião da minha mãe, tanta saudade assim faz mal.

Acordei com a campainha sendo desesperadamente tocada. Saí correndo, descalça mesmo e reparei que já havia anoitecido quando abri a porta.

Eu: Caralho, quanto tempo passei naquela cama?

Kurt: Não mais que eu, com certeza. Tanto é que esqueci de escolher uma substituta pra Gretchen.

Eu: HEIN?

Ele nem esperou eu convidá-lo, já entrou e sentou no sofá. Tava mais nervoso do que depois deu ter contado toda as merdas que ele tinha feito na festa, mas já havia tomado um banho e agora tava até cheiroso.

Kurt: Liguei pra Lola, mas ela tá ocupada e não sei se ela aceitaria de qualquer jeito. Todas as minas que eu conheço estão em festas, barzinhos ou qualquer porra dessas. Quem não estaria não é? Em uma sábado a noite? Mas tu vai ter que me salvar, Madu! Só me sobrou tu.

Eu: Ah, valeu pela preferência. Explica direito.

Kurt: A Gretchen, garçonete do meu pai, morreu.

Eu: Coitada.

Kurt: Pois é, ela se meteu com um traficante importante lá e se fodeu. Mas esse não é o meu drama o caso é que meu pai me encarregou de achar uma substituta e eu esqueci. COMPLETAMENTE! 

Ele ficou me olhando e eu esperando uma continuação.

Kurt: Aceita?

Eu: Ser garçonete?

Kurt: É, só por esse noite. POR FAVOR! Amanhã eu arranjo outra mina e ela fica definitivamente.

Eu já ia aceitar, mas ele continuou falando e falando. Revirei os olhos e disse mais alto:

Eu: KURT! Eu aceito.

Kurt: Sério? Fácil assim?

Eu: To precisando de grana mesmo.

Dei de ombros e ele sorriu, por que o sorriso dele vem sempre com covinhas? Assim até perco o foco dos meus pensamentos.

Kurt: Madu?

Eu: Eu. - forcei-me a olhar pros olhos dele, o que não acalmou em nada porque percebi que ele olhava pra minha boca.

Caralho.

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